Pesadelo
















Pobre, homem do campo
com seus sonhos de campo
Sonhos verdes que pastam suavemente no seu interior
Esperançosos em preservar a terra
no seu estado puro virginal
sem lhe tirar uma gota
gota de sangue clorofilado


E o homem urbano
assassino que destrói
sangrando a terra que não é sua
para construir seus sonhos urbanos de grandeza e poder
Sonhos doces
que com o tempo tornaram-se amargos pesadelos.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

A teoria dos problemas dos problemas




















A vida sem problemas é tediosa
Problemas demais matam
Não adianta querer
Este mar não secará


Você está caindo num abismo profundo
não adianta formulas mirabolantes
você não conseguirá ser um super homem
Você é um tetraplégico
braços e pernas inutilizados por você mesmo.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Viciado em injetáveis
















Ah! nessas veias este sangue quente
Tu com este líquido frio ardente
A teu cérebro parece florescente
Mas depois, são só sobras, deprimentes


Mentiroso, diz que isto é semente
da dor, que teu corpo, tua alma domina
Por isso busca esta dor que te fascina
Pobre... louco... híbrido... doente


Prazer rápido que ilude
no brilho seco de suas agulhas
Procura liberdade em pequenas fugas
da própria prisão que criaste


Leproso, escravo da seringa
Tua heroína te destrói
Num conforto que perturba
Num veneno que te amotina.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Rotina

















Há dias que acordo sem vontade de nascer
Há dias que vitórias nos fazem perder
Me sinto abortado depois de envelhecer
Sinto meus olhos escurecendo, sinto o fenecer


Sinto o desânimo meu corpo alugar
Num contrato longo sem idéia de mudar
Vida de rotinas, cigarro na boca
a suspirar pela nicotina que guarda a forca.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Gigante de Mármore
















A solidão fria
adormece como o mármore
as luzinhas das casinhas, lá longe
tinam nos meus olhos
sinto necessidade de ficar sozinho
sinto necessidade de alguém que fique comigo
mas, me deixe sozinho


Olho para o outro lado
e vejo uma escuridão infinita
queria apalpá-la mas não posso
queria nadar, voar e me compenetrar nela
mas não posso.
Então olho para mim
um pequeno ponto perdido
sem ninguém calado
sinto o coração se libertar
como quem quer paz
fugindo do meu corpo
saindo pela pele, pela boca.


Olho de volta para as luzinhas
elas continuam acesas, paradas
o meu corpo está tremulo
sinto me sozinho
sem horizontes e sem verdades
sozinho!
Eu e a noite fria
de mármore.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

O Amor através dos Tempos




















Rostos perdidos no passado
cartas misteriosas
que de tão lidas
não escondem mais segredo algum.


Cadê aquele cachorrinho?
aquele cachorrinho que destruía calçados
pulava, corria de língua de fora
agora, ele quase não existe
está velho e cansado
sem aquele brilho mimado
hoje, ele se arrasta pelo chão.


Não caça mais a vida como ela é
pura e selvagem
cheia de espinhos e folhagens
pois tem medo de se machucar.


O cachorrinho está tão triste
ele não corre, não pula mais
não abana o rabo
cadê o seu olhar feliz?
não existe mais
seus pêlos estão caindo
e da sua auto estima apenas sobrou
um resto de ossos
e um pedido de compaixão.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Vigília













A noite vem chegando
com sua escuridão
as ruas vão morrendo
as casas adormecendo
cães passeiam pelo silêncio
estrelas assistem
caladas
o desfile
do silêncio
que fascina
que assombra


Ali, bem perto
ruídos de vida
ruídos de morte
se encontram
trafegam no silêncio
e na escuridão
bocas famintas
se calam
em trégua
até o amanhecer
romaria de zumbis
embebidos pela noite
viciados pela noite
andam sem parar.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Trechos...parte 3


















(...)
Falta-me agora o amor, esse perfeito artista decorador dos momentos em ninho. Ou esse grande explosivo que de um beijo faz nascer um oceano. Não importa. Guia-me-á na morte a poesia, como ao florentino guiou nos caminhos do Inferno e nas escarpas do Céu. (...)
Onde estou? Que lugar é este onde cheguei? que tarde quieta e única é esta, dourada no céu e verde no mar? Estamos chegando. Passo a passo, com extrema fadiga, aproximo-me da beira do abismo. Estou só. O mundo ficou para trás. O vento trouxe ainda pedaços do mundo, notícias soltas e rasgadas que dançam no ar... (...) Dizem que há uma guerra; que há incêndios; que moços caem como folhas; que ministérios se reúnem; que exércitos recuam. Há produtos farmacêuticos que anunciam a felicidade. Há sorrisos de aluguel impressos nos cartazes do mundo.


Trechos do livro Lições de Abismo do escritor Gustavo Corção

Flores
















Estou quase só
me resta a solidão engarrafada
angustiosa companheira
de doses solitárias
Tropeço nas minhas dores... tropeço nas flores
Flores fêmeas, flores plantadas por mim mesmo
enraízam e dominam o interior do meu quintal


Meu quintal está sujo
Meu quintal está tenso
As flores morreram sufocadas
e agora lamento
seus restos mortais.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Saudações as Torcidas


























Camisa Doze corinthiana
Camisa Doze colorada
FICO, Guerrilha Jovem e Raça Gremista
Vibração infinita, alvinegros, rubro negros e tricolores
festival de cores e cantos


Gaviões da Fiel, Independente,
TUP, Mancha Verde,
Fúria do Paraná, Inferno Verde,
Fúria bugrina, Império Alviverde,
TJB ou Jovem Fla
Alianças, rivalidades
lutas e paixão


Gaviões Alvinegros, os Fanáticos,
Galoucura, Força Jovem vascaína,
Raça Fla, Mancha Azul, Força Flu,
Jovem da Ponte, Máfia Azul, YOUNG FLU
Ninguém pode parar...
Ninguém pode calar...


Sangue Jovem, Jovem santista,
Leões da Fabulosa, Jovem Gremista,
Leões da TUF, Cearamor, Remoçada,
Terror Bicolor, Inferno Coral e Bamor
Nos estádios... nas estradas
sem cansaço... guerreiros a cantar


Jovem do Sport, Fanaúticos,
e outros mais...
Não tem chuva ... não tem sol
não tem distâncias... nem limites


Suas bandeiras tremulam
por seus times
Seus corações pulam
pelo crime de amar loucamente.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Lucidez


















Tentei não enxergar as paredes
com seu cal pálido de desprezo
mas as beijei, e senti o amargo gosto


distante verei teu rosto
o fim do que não teve começo
falo palavras que não sinto
o que sinto não tem preço


meu coração está deserto
decerto, preciso da multidão
fantasmas (resíduos de imagens diárias)
mutilam dia a dia o corpo


pouse para meus olhos
quanto tempo não te vejo
sou confuso, sem trilhos,
obscuro, sem filhos
para dar e receber.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Meditações Urbanas


















no vaivém oprimido
no morrer do remanso
vidros de comprimidos
compensando o descanso


como é pequeno apartamento
os sonhos inúteis
um corpo de enchimento
para horas fúteis


caras amarrotadas
olhos armados
roupas engomadas
trânsito cansado


beleza se compra
felicidade se encena
o amor está em cartaz
em qualquer cinema


II
os calos se apertam
as paredes não protegem
os medos cercam
os tiros sucedem


comida de conserva
literatura fantástica
televisão para conversa
plantas antipáticas


um amante impotente
uma comida fria
uma conta corrente
de fonte vazia


liberdade contida
linguagem obscura
nicotina e bebida
citadina ternura.


Henrique Rodrigues Soares - O que é a Verdade? - 30/05/1998

Meninos Carvoeiros


















Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
-Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A arriagem é toda remendada.
Os carvões caem.
(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
-Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com esses burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
-Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados!


Manuel Bandeira

Clérigo























Me tiraste o celibato do silêncio
cheiro do teu corpo... incenso
em que dorme todos os tempos
novos caminhos do meu coração


Teu sorriso ilumina meu espírito
que tantas noites solitário e aflito
conversou com paredes de ventos
escondendo minha emoção


Mal chegaste, foste embora
Minha alegria por poucas horas
Tinhas que ir para bem longe?
para me colocar enfermidades?


Estou aqui tão verme
melâncolico... inerme...
não sei por onde
mandarei minha saudade.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Um País













Antes, quem me dera
todo dia virasse fera
nessa esfera terrestre


Não há nada que preste
Só o caos se repete
E este sorriso de confete
gravado no rosto


O antigo foi deposto
Pra que o novo no encosto
com seus passos cheio de mosto
venha nos libertar


As marchas vão marchar
sem leito para descansar
sem provisões e previsões para sonhar
Cadê as bandeiras?


De fortes encheu tuas fileiras
De morte tua veste guerreira
Transformou em esteiras
para transportar...


Tuas palavras de "Ordem e Progresso"


II
Teus líderes vampiros
enfeitados entre suspiros
defendido por seus tiros infantis
Teu orgulho de anis
Teu espírito de matiz
Com uma vitória de verniz
para comemorar


É tanta terra, é tanto mar
Mas teus filhos não tem lar
Cadê a farinha pra amassar
o pão que o diabo velou


Há tanto pranto que a fome calou
tanta esperança, tanto amor
tanto sangue, tanta dor
nesses micróbios que te louvam...


O grande pátria inexistente!


Henrique Rodrigues Soares - O que é a Verdade?

Coisa de Pele



















No toque de tuas mãos
No toque de teus lábios
Me transformo em confusão
Não sou tão otário ou sábio
Apenas me perco em teus carinhos


Sons em profusão
olhos sem caminho
sentir o gosto do desalinho
sentir a força da canção


Mordo tua pele
como a carne de uma maçã
Carrego no peito a sombra
do melhor de todas manhãs
Teu cheiro é suave
como a música de Djavan


Me dominas como se fosse teu
e foge quando quer
sem ao menos um adeus
me deixando um ateu
sem crer em nada


Acostumei com os ventos
que corre nas tuas veias
Acostumei com o pouco tempo
que tenho direito
Acostumei com teu temperamento
que amarga meu peito


Não faz sentido o que sinto
Mas deixei de me preocupar com isto
Esta coisa de pele
é o que me permito
são nuvens de ocasião
são pés que não tocam o chão.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Lentilhas
























O Caçador, herdeiro de muitas terras
Após um dia exaustivo de sua lida
Tendo lutado nos montes as suas guerras
Procura sôfrego algum prato de comida


Mas quem diria! Apesar de tão louvado
Forjado em ser um mestre de armadilhas
Que o caçador se deixaria ser caçado
Pelo aroma de um guisado de lentilhas


E assim, faminto se entrega à vil barganha
Enlouquecido da fome que o acompanha
Trocando por lentilhas toda a sua herdade


O Caçador, que em tantas caças foi astuto
Troca o prazer do que tem por um minuto
Pelo que duraria toda a eternidade!


Sergio Lopes

Este livro...



















Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.


Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!


Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo... ( Trouxe-o no meu seio...)


Irmãos na Dor, os olhos rasos de água
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...


Florbela Espanca

Oração e Credo


















Morro sem temores nem esperanças
Não busco nada dividido
Um deus ruim ou um deus bom
Serei, eu um deus?
Por ser bom ou ruim?
Não sou hippie, não sou do oriente
Não sou judeu, nem crente


Sou incrédulo, mas não sou católico
Fazem-se homens deuses
Fazem-se deuses em homens
De deus veio o homem
E do homem veio deus


Não sei!? Não sei!?
Nem me preocupo em saber
Deus é este momento lúcido
em que contemplo a natureza
com seus sons e cores
Vejo as pessoas com sonhos
amor, liberdade e sabores
Este é o Deus que acredito
É para ele que faço minha oração.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Mestres da Literatura


















De Bandeira
esta febre passageira
que dura noites inteiras
De Sabino o complexo menino
envelhecendo e diminuindo
diante da vida e o tempo
Dos Drummond de Andrade
jeito interiorano na cidade
Do grande Pessoa
inquietação que ressoa
de várias vozes num só corpo
Álvares de Azevedo
e seu jeito azedo
Machado de Assis
a vida dura e infeliz


Tanta dor, tanto sangue foram poesia
Tanta verdade, tanta mentira foram romance
Meus preferidos diante de tantos queridos
minha homenagem.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Tarde Fria























Um cavalo sem rumo
cheio de dúvidas sem prumo
busca uma direção
cavalga tão forte
sem medo da sorte
o meu coração


Uma espada o divide
Uma dor o consome
saudade maltrata mais do que fome
É um caminho tão longe
cansa minhas pernas
cansa meu pensamento


O frio duro muitas vezes cruel
para aquele que caminha sozinho
quem quer um pequeno carinho
também quer o céu


II
O sentir tão fraco como vento
O possuir rápido como o pensamento
A juventude floresce e murcha
sem o brilho de outrora
seus dias foram embora
inconsoláveis e fúteis


A virilidade é tão efémera
A consciência tão déspota
Machucas o que está ferido
Chuta o cadáver que deixou o tempo
sem escolhas e sem esperanças


Tanto de tudo
E ao mesmo tempo nada
O nada como tudo
são enganos de palavras.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Trem
















Lá, no fundo no horizonte
vejo aquele trenzinho cansado
na sua rotina de levar
milhares de pernas cansadas,
olhinhos assustados e adormecidos
Corações esperançosos
mas no fundo desesperados
Pois a viagem é curta
e seus horizontes não foram alcançados


E daqui de longe
vejo com outros olhos
olhos de politico doutorado
Vejo como um brinquedo.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Trechos...parte 2


(...)
Quando viva, minha vida era suspensa e gratuita. E eu não sabia! Estava nela o meu segredo, o sinal, a explicação, o nexo, e a mistura - sim, a composição metafísica de ser e de não-ser de onde eu nascia continuamente.(...)
Doravante eu era adulto, irremediavelmente adulto, sem nenhum nexo, a não ser os livros, as estampas, as estátuas, sem nenhum nexo com o mundo em que eu não era. Aferrei-me à convicção de que havia no universo uma absoluta necessidade de que eu fosse. Assim, calava-se a minha angústia, e eu me instalava, deus solitário e melancólico, no centro de um inverso feito para mim.
Volta-me hoje, porém, à medida que se aproxima o outro nada tenebroso, o mesmo sentimento infantil de dependência total. Mais do que nunca, sinto-me suspenso. Entre um acaso criador e um acaso destruidor. Entre um nascimento incompreensível e uma morte incompreensível. Solto. Desamparado. Ontem caio por acaso num regaço que se abre; amanhã numa pedra que se fecha.
E o pensamento que me tortura é o da minha esterilidade.


Trechos do livro Lições de Abismo - Gustavo Corção

Fortaleza de Humaitá
















Nunca mais pousarei minha mão em teu seio
Nunca mais sentirei o ardor de tua carne
Minha vida se alenta no passado
Meu corpo moribundo sente necessidade de cura
Ah! este néctar dos teus lábios
como me saciavam nas noites de pedras
Não me culpe por te querer
Venha banhar meu corpo com tua mão
Venha me embebedar com tua saliva


Amor!
dor mais cruel do que a morte
Me ignoras, me destrói
numa melodia
numa hemorragia
alucinante
Oh, dor!
que finca minha carne
que brota no meu sangue
e escorre n'alma


Minhas noites tornaram-se deserto e desespero
A solidão me arrasta pelo chão das estrelas
E tu brilhas com tua face linda sobre meus olhos
Nem te odiar consigo
Não posso te condenar por não me querer


A distância do teu corpo
me estrangula, me sufoca
tira toda força do meu peito
Meu riso é um escape
para chuva que nasce de mim
Vivo vagando como uma estrela bêbada
cadente?
ou decadente
sem órbita
sem destino
Meu brilho é falso
meu fogo é ódio
em raiva me decomponho.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Pecado















Te sinto por perto
cercando o puro da alma
quebrando momentos de calma
com um mover inquieto.


Parece que tudo está quieto
mas teus passos são ardilosos
aos nossos olhos e carne saborosos
no inicio oculto, encoberto.


Quando contaminas, descoberto
sua pústula que apodrece
câncer, lepra que enlouquece.


Espalhas, sem ser contido
e do profundo mar escondido,
para vergonha aparece submerso.


Henrique Rodrigues Soares - O que é a Verdade? - 16/05/2009

Trechos de poesia















(...)
Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça, embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.
(...)


Cecília Meireles

Camões, Grande Camões, quão Semelhante

















Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;


Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.


Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.


Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.


Bocage

Elegia ao Fluminense


















Meu coração tricolor
que tanto de alegria e cor
hoje rima com dor


Tentei te esquecer...
Mas como um crime
que nossa consciência recorda
não consigo esconder
Sofro por nossas derrotas
Pois teu nome cravei
tuas cores amei
em meu consciente
Até morrer sou Fluminense!


Quando lembro de teu passado
e vejo teu presente
De campeão idolatrado
a torcida ausente
Me dói, como dói...


Ao lembrar do meu Maracanã
lotado, verde, vermelho e branco, lotado
Minha nobre humilde Laranjeiras
na Pinheiro Machado
Rostos de orgulho suas bandeiras
tremulando aos gritos de "Campeão!"
Vemos hoje o estádio vazio
os olhos tristes dos poucos torcedores
que pela paixão ainda vem te ver


Cadê o teu orgulho guerreiro?!
Cadê tua disciplina vitoriosa?!
Oh, Fluminense!
Cadê teu pavilhão de glórias?!
Que fez tantos fãs pelo Brasil


Mas, meu coração ainda sonha
e no teu verde esperança...
ponho a certeza de um novo amanhecer
Meus olhos, te acompanham
Pavilhão de tradição
não pode ser julgado em divisões
Os teus méritos são tuas cores
teus títulos e teus torcedores


Fênix de sangue encarnado
de raça, de paz e de força
Renascerá sobre nossos arqui-rivais
vascainos, botafoguenses e urubus


Ave guerreira de três cores
Voltará brilhando no céu
que é o lugar onde nasce estrelas
e permanecem por toda eternidade


Fluminense!
Astro Rei
do futebol carioca.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores - 1997

Super City

















Volta Redonda dorme...
com seus sonhos de aço
Volta Redonda respira...
com seus pulmões de aço
este ar químico de progresso
Gigante de pernas de ferro
de braços de ferro
e coração de sangue
Teus operários alimentam tua força
sangue jorra por suas veias e artérias


Volta Redonda, acordou?
Volta Redonda não dorme
Apenas cochila pela noite
O gigante não pode fechar seus olhos
Eles iluminam o sonho de um país


Volta Redonda, super Volta Redonda
A cidade do aço
Um coração pulsa sem parar
e com isso
o seu ritmo
pesado e suave...
seu ritmo de aço
percorre por todo país.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Trechos...parte 1


"...Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?...
...A conclusão que tiro é que a vida e a morte são heterogêneas, e que a vida não se pode tomar como um objeto de arte, música ou poema, como insinua o filósofo que diz que o homem é uma existência para a morte. Se a nossa vida fôsse um poema , a morte seria o têrmo. Se fôsse dança, o último passo do exausto dançarino mereceria o aplauso das galerias angélicas. Se alguma coisa tende impetuosamente para um têrmo, é a arte.(...) Na poesia, sim, a idéia de têrmo e de morte se casam. Cada poesia é uma boa morte. Um testamento novo. Uma vitoriosa agonia...
...Tentemos outras direções. A vida não é um poema; não tem a inteireza de um bailado; não se completa como a música. Mas será, quem sabe? uma coleção descontínua de momentos, com intervalos mais ou menos prolongados e mais ou menos insípidos. O conjunto será confuso, como as obras completas de um autor que tenha andado por caminhos diversos; mas os pedaços, os volumes, serão compreensíveis e razoáveis. Vem a morte e deixa um resto, como em gaveta de laborioso escritor que não teve tempo de rasgar seus abortos. Mas o que ficou, ficou....
...Mas, se é descontínua a vida, por que serei eu sempre o mesmo, por que a continuidade da consciência e a consciência da continuidade? Não vejo o nexo necessário entre essa acabrunhante mesmice e a estonteante diversidade dos momentos da vida....
(...)Quanto a não pensar, talvez exista um certo modo de não pensar na morte, digo na própria morte. Mas esses, que não pensam na morte, já a trazem consigo, recalcada, engolida, a comandar, como eminência parda, todos os atos desconexos da vida. Um medo difuso estará no seu sangue, morte dissolvida, morte contínua. E essa pessoa terá um medo profundo, pânico, irracional, de uma porção de coisas miúdas: terá medo de ficar sem dinheiro, medo de perder o prestígio,...


Trechos do livro Lições de Abismo - Gustavo Corção

Momento de Febre n°2



















Não me esqueço
das noites que a tive nos meus braços
Teu perfume fluindo num abraço
Nas noites rápidas, curtas,
de horas profundas,
de caricias profundas,
de loucuras profundas
Teus lábios lírios que fecundam
na minha alma,
esta terra que brota
desespero e saudade
destas noites escuras
Em que apenas a luz dos teus olhos
me guiavam ao teu corpo


Oh, mar! que me afoga
Mar que leva meus sentimentos submersos
Mar voluptuoso
Deixa-me nadar na tua pele
buscando o teu seio
abrigo manso e suave
do medo e do mundo


Deixa-me por minha cabeça no teu regaço
És meu horizonte, meu espaço
E me afogarei na imensidão do teu corpo
e morrerei de matar minha sede.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Pequena Crônica Policial
















Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza...
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida...
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E quando abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no Céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldita sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada...
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!


Mário Quintana

Pedras























Sou triste porque não tenho certezas
vivo noturnamente de dia
meus olhos embaçados de decepção
semblante de agonia


Um sorriso fatídico
uma lágrima enganosa
é tudo que tenho
Tenho também a morte
como única esperança
como meu horizonte
mas nem disso sou dono
Sou escravo do seu desejo
vivo esperando seu encontro


Flores amarelas
vidas amarelas
espero a morte biológica
pois sou como as pedras
sem vontade
com o destino incerto
paralisado
as vezes sendo chutado
sendo desgastado
pelas dores temporais
Me decomponho em pequenas partículas
até me tornar poeira.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

O Pinguço


















Naquele bar todos bebiam todos os dias
cachaça quente, cachaça fria
para esquecer as tristezas
para dar coragem a covardia
para abrir o apetite.
Um arder, um sorriso,
cachaça vitamina, cachaça feliz,
cachaça companheira, cachaça remédio,
cachaça destruidora, cachaça consoladora;
uns bebem como um costume
uns bebem como cerimônia
uns bebem como existência.
Ah! dose de cachaça
como tu dominas tuas garrafas.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Imagem da Internet

Cérebro























comando das minhas funções
minhas loucuras insanas
massa cinzenta ufana
domínio das minhas debéis ações


mentor deste corpo inútil
individualista e produto
passivo, sem escrúpulos
filho de um mundo fútil


senhor, dono indomável
tão terrível e tão amável
não sabe ele, cativo
da máquina que criara.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Pop Star


















Criaram um pop star
daqueles que ficam na sala de estar
estampado em capas de revistas
comercial de marcas de cigarros e bebidas.


Encontraram um faminto bad boy
que tudo que está em sua frente destrói
encontraram drogas no seu apartamento
um verdadeiro prostíbulo para o divertimento.


Então mudaram a forma de vendê-lo
e a forma de usá-lo.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Voto Obrigatório




















E se alguém pudesse, escolher?
entre tantos, algum!?
Pobre o povo que tanto lutou
pelo direito de votar.
Agora vota por obrigação.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Motorista de Ônibus



















seus olhos acesos
seus ouvidos como cães
que guardam a noite
ele dirige o ônibus


o ronco do motor
os outros carros
os sinais de trânsito
os passageiros
com as delicadezas ou ignorâncias diárias


seu coração? seus nervos? seu corpo?
ninguém sabe como está
nem se preocupa em saber
pra quê? por quê?
aquela máquina
aquela bomba relógio
ele é carne? ele é ossos?
será que ele é humano?


-Não!
ele é apenas um motorista de ônibus.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Ao meu irmão Adelson.

Imagem da Internet

Psicologia de um Vencido

















Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ansia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra.


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


Augusto dos Anjos

Imagem da Inte

O Abismo
















Estou suando?
Estou fervendo?
Cadê a água que transpira na pele?
O rio de dúvidas continua
rompendo por terras desconhecidas


Cadê minha bravura?
Cadê minha força? minha loucura?
Ela desmancha na tarde fria


Nossos corpos não se amam
Eu te amei!
Você me coagulou, sou um doente
Meu antígeno depende do teu anticorpo
Mas você não quer me dar do teu sangue


Oh! minha dor
Eu te cheiro, eu te possuo
com toda sua tristeza
com toda sua pureza


Teu frio me corta, me morde,
me sangra, me sufoca
e me faz suar
toda esta maldade que há dentro de mim.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Homem 100 limites de limitações






















A
Cansado
Insatisfeito
Neurótico
Condenado ao
Ostracismo


Sexo pelo
Estado
Glória nos
Uniformes do
Narcotráfico, nossos
Dominadores
Ordenam o
Suícidio em massa


pra morrer.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Trechos...


"Eles nem mesmo conhecem a definição de perigo. Acham que o perigo é alguma coisa física, como um arranhão e um pouco de sangue em torno do que os jornais fazem um grande escândalo. Bem, isso nada tem a ver com a questão. O verdadeiro perigo está apenas em viver. É claro, viver é simplesmente o caos da existência, mas mais do que isso, é uma louca confusão em que temos de desmontar a existência instante a instante, até restabelecer o caos original, e tirar força da incerteza e do medo que o caos provoca, para recriar a existência instante a instante. Não há nenhum medo na existência em si , ou qualquer incerteza, mas as criaturas vivas as criam. A sociedade é basicamente destituída de significado, um banho misto ou romano. E a escola é apenas a sociedade em miniatura: é por isso que estão sempre nos dando ordens. Um grupo de homens cegos nos dizem o que fazer, despedaçando em fragmentos a nossa capacidade ilimitada."


Trechos do livro O Marinheiro que perdeu as Graças do Mar - Yukio Mishima

Escrita

















Com seus labirintos vazios
o que dói é a vida
o destino desarrumando as esquinas


um mistério atravessa
nossos olhos distraídos
como um barco que invisível
cruzasse as montanhas


o que dói é a vida
e sua indecifrável escrita.


Roseana Murray

janelas abertas n°2

















sim eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
percorrer correndo corredores em silêncio
perder as paredes aparentes do edifício
penetrar no labirinto
o labirinto de labirintos
dentro do apartamento


sim eu poderia procurar por dentro a casa
cruzar uma por uma as sete portas das sete moradas
na sala receber o beijo frio em minha boca
beijo de uma deusa morta
deus morto fêmea língua gelada
língua gelada como nada


sim eu poderia em cada quarto beber a mobília
em cada um matar um membro da família
até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
o que aconteceria de qualquer jeito
mas eu prefiro abrir as janelas
pra que entrem todos os insetos


Caetano Veloso
















Sopra a vida na face.
No peito, na alma...
Sopra dentro de mim
tão forte que sufoca!


Sopra a vida nos dedos,
nas unhas, na mão...
Sopra no meu todo;
Tão apurado, tão forte,
Tão coração...



Sopra a vida na alegria,
na vida, no senso...
mais sensível
mais gostoso e inseguro de todos...


Sopra a vida no todo
porque ela não é o todo,
é o tudo.
É o amor!


Sílvio

Última Dose


















O frio letárgico desta noite
penetra em meu corpo
As cores opacas desta noite
penetram em meu corpo
A indecisão oscila nos meus olhos
e clama por um chão em que possa se deitar
O silêncio mudo da escuridão
Meus braços, minhas pernas
presos estão no frio do medo
Congelou-se os meus ossos
Não consigo movimentar, não consigo decidir
Sou minha cela, minha própria algema
A vida não me fascina
É apenas uma construção podre
sem entrada e sem saída


Senhor!
Senhor!
Não tenho mais fé em nada
Então peço perdão
por odiar a vida
e a sua validade
E que meus olhos encham de lágrimas
e num perdão fantástico
Tu venha enxugar meus olhos.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Imagem da Internet

Sermão do Monte


















"e ele passou a ensiná-los,dizendo:
Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós.
Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.


Jesus Cristo - Mateus 5, versículos 2 até o 12

Heraclitismo



















Toda a felicidade da terra
Está na luta, amigos!
Sim, para nos tornarmos amigos
É necessário o fumo da poeira!
Os amigos só são uns em três casos:
Serem irmãos diante da miséria,
Serem iguais diante do inimigo,
Serem livres... diante da morte!


Frederico Nietszche

Dor e Alumbramento

























Viver é apenas isso:
um passo atrás do outro
e lógica nenhuma


o tempo suspenso
entre dois abismos
dor e alumbramento


as estradas sonoras
são as que levam para dentro.


Roseana Murray

Cavaleiro Maldito


















Ao cérebro, este cativo da loucura
num mar de tormentas navega
preso as ilusões que se apega
esperando o convívio da terra pura


Oh! morte, mar de obscuridão
me agasalha como teu filho nobre
nesta voraz noite de cobre
em que me resta a tribulação


Atribulado, e sem esperanças
como um cavaleiro andante das trevas
em que me prendo ao feitiço das ervas
e, ao pecado que é pecado por usança


Acorrentado pela dor que me abate
a solidão é febre que fere e que mata
sou exemplo do lixo, da sucata
pra quem já foi carro de combate


O calor do verão. O frio do inverno
tão intensos, tão iguais, tão inversos
não me acostumei a este mundo perverso
que pra mim é uma etapa do inferno


Da vida, não espero flores
espero apenas esta maldição que sustenta
a humanidade que em marcha lenta
vai de encontro a morte e as suas dores


Triste, vil, é meu fado de álcoolotra
que bebo pra me libertar do sistema
mas acabo, me escravizando no emblema
de louco, híbrido e idiota


E este meu espírito de anhangá
num arpejo de morte
no ágape dos fortes
sem receios se entregará


Mas tu não verás meu sangue
ser derramado neste planeta mundano
homenageando algum deus profano
sou nulo e meu corpo exangue


Também, não verá lágrima
de minhas pálpebras derramar
por esta vida que vou deixar
pois ela é tédio e traumas


Não quero vestido suntuoso
quero apenas amargura casta
das trevas que me arrasta
para o fim tenebroso


Na cova me atirei, virei passado
o ativo dos meus dentes cessaram
as águas do meu corpo secaram
a terra me pranteou calado.


Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores

Horizontes

Pai não adianta as botas Se tiraste minhas pernas Num mundo de cotas Transformo-me em percentual Meus sonhos...