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Mostrando postagens de Fevereiro, 2011

Lado Bom

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Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar,


quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...


Quero ser o lado bom
em que pensas,
(isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz)
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...


Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...


J. G. de Araujo Jorge

Reverso - ( Parabéns Querida Reggina! )

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Muito pouco me interessa,
Só sei do que ainda resta,
Neste mundo muito louco,
Vou vivendo neste espaço,
Imprevisto em meu futuro!


Nas fronteiras deste verso,
Eu me prendo e me liberto,
Da rotina dos meus dias...
Onde a alma em cores vibra...
E dos campos brotam flores!


Sem falar de alguns amores,
Que pra mim deixaram pouco,
Numa troca quase em branco,
Mas se o tal de amor existe?
Sabe lá...talvez me encontre!


Reggina Moon

Bem-me-quer

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Neste verso eu te respondo,
Nos limites que persistem...
Eu te quero além do tempo!
Neste simples poder ser,
Reconheço eu nada ter...


Sem querer-te como dona,
Apenas livres almas somos...
Eu te quero em meu poema!
Onde posso ter-te ao lado,
Não importa que não ouças...


Na distância de teus braços,
Meu caminho eu continuo...
Eu te quero nos meus sonhos!
Nossas vidas vão passando,
Desfolhando bem-me-quer!


Reggina Moon

Verso Imortal

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Hoje me sinto meia Bilac,
Ouvindo as Estrelas
e me perco, me encontro,
elas só falam de nós!
É como Florbela diria...
Há uma Primavera em cada vida,
mas em nossas vidas,
talvez só a distância exista!
na Lucidez Perigosa,
que Clarice anunciou!
Chega Pessoa e comenta,
que O amor, quando se revela,
não se sabe revelar...
Mas Drummond advinhou,
esse Inconfesso Desejo,
que por ti se formou!
Fecho os olhos de saudades,
como Cecília orientou...
Mas Que não seja imortal,
posto que é chama...
Vinícius bem me avisou!
Sendo como Lya,
Apesar do medo,
escolho a ousadia...
Prefiro seguir ao lado teu!
Então chega Quintana,
para me aconselhar...
Pois na vida,
Quem ama inventa!
E assim eu o farei...
Fazendo do meu amor,
Um breve verso Imortal!


Reggina Moon

Palco da Vida

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Seja a vida como um grande palco,
onde os atores entram em cena em silêncio,
e o abrirem-se as cortinas, soem aplausos,
mais um espetáculo se inicia......Vida!


Seremos então, nosso próprio espelho, ao destino,
e nessa imagem refletida, nos veremos,
faremos o papel de nós mesmos, no real, no trágico
no cômico e absurdo dos dias...Sonhos!


Entre vaias e aplausos, contracenando com o tempo,
dias, meses, anos se passando em compasso lento,
deixando suas marcas gravadas como ilusões....Vento!


E ao fecharem-se as cortinas, saudades, lembranças,
o eterno de nós permanece, tatuado na memória da platéia,
que se despede, o ato termina, no etéreo Palco da Vida!


Reggina Moon

Partida

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Já me desfiz de todos os guardados
e das lembranças que abrigava em mim.
Joguei ao vento, sonhos tão sonhados...
Tristeza, anseios... Tudo teve fim.


Álbuns com fotos dos meu bem amados...
E as conchas brancas, qual flor de jasmim.
Agora vou juntando meus trocados...
Já nada resta, nada mais... Enfim!


E desnudada de qualquer lembrança,
tendo nos versos a melhor herança,
outros caminhos eu irei trilhar.


A solidão? Ah, essa vai comigo,
pois nela sempre tive meu abrigo...
Pois ela sempre me soube embalar.


Patricia Neme

A um Poeta

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Quem é esse que, em versos, minh´alma desperta
e que a faz se perder em mil tramas de amor?
Como pode entender a carência encoberta
e meu sonho mais caro em soneto compor?


Quem me vê tão desnuda e nas rimas me oferta
os anseios perdidos nas brumas da dor?
Quem me sabe encontrar de maneira tão certa...
quando eu não mais ousava venturas supor?


Quem me faz suspirar, quem meu peito acelera,
onde está esse alguém, que me exila na espera...
No desejo, saudade... onde achá-lo, afinal?


Ah!, Poeta... Eu quisera de ti ser a musa,
em teus braços viver para sempre reclusa,
embalada ao cantar de gentil madrigal!


Patrícia Neme

Houve um Poema

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Houve um poema, entre a alma e o universo.
Não há mais. Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.
Houve um poema: Parecia perfeito.


Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce e intransmitida jamais.
Houve um poema: e era em mim que surgia, vagaroso.


Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza. O coral do horizonte é um rastro de sua cor.


Derradeiro passo. Houve um poema.
Há esta saudade. Esta lágrima e este orvalho – simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.


Cecília Meireles

Chegas

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Chegas, e de repente eu me pergunto
como pude ser poeta antes de ti,
antes de nossas horas encandeadas...
Como pude escrever coisas que agora
me parecem belezas mutiladas...


Chegas, e de repente me surpreendo
de que ainda haja surpresas para o amor,
marcado como estou de cicatrizes...
Eu que escrevera um dia amargurado:
"agora, em meu caminho, só reprises"...


Chegas, e eu adolesço de alma e de corpo
e de repente, num verão que abrasa
como nunca pensara nem supus,
sou todo novos ramos, verdes ramos,
sou todo sol numa eclosão de luz...


J. G. de Araújo Jorge

Soneto ao Tempo

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Na areia, aonde o mar encerra em ondas seu curso,
Fico olhando o horizonte, a brisa é leve, suave,
Meus pensamentos voam, as nuvens brincam no céu,
Sinto a liberdade daquele momento breve, que me leva...


Em poucos instantes, a minha alma leve flutua, nua,
longe das angústias desta vida, de seres camuflados,
mascarados de sorrisos, de palavras sem sentido,
pois sou eu que faço minha sombra, meu castelo na areia.


Ainda de frente ao mar, as lembranças fazem sua dança,
bailam ao meu redor, feito bailarinas em um palco, giram,
entre sorrisos e lágrimas, surgem e como num encanto se vão...


Assim, as marcas do tempo, em minha memória, presentes,
dispersas seguem seu rumo, e fico com um sorriso leve,
Tempo que se foi, na brisa, nas nuvens, nas ondas...em mim.


Reggina Moon

Sei agora como nasceu a alegria

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Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.


É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.


É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.


Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade

Onde estiver...

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Onde repousa a rosa do teu coração,
é lá que eu quero construir o meu altar;
e ante o sacrário, no extravaso da emoção,
aos céus direi o quanto é bom poder te amar.


Aos céus direi, em riso, em prece, em oração,
que, enfim, minh'alma vislumbrou o seu lugar;
que as horas tristes... A amargura.. Lá se vão...
Em ti floresço, em ti, sou rio entregue ao mar.


E qual a lua, que acalenta a madrugada,
qual a viola, que apascenta a nostalgia,
qual a manhã, que encobre a noite de agonia...


Hei de ofertar-te a paz que fez, de mim, morada...
E em meus poemas, com textura de jasmim...
Terás teu leito, meu amor... Será assim!


Patricia Neme

Texto de Clarice Lispector

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Para me refazer e te refazer volto ao meu estado de jardim e sombra fresca realidade,
mal existo e se existo é com delicado cuidado.
Em redor da sombra faz calor de um suor abundante. Estou viva.
Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o que?
Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa.
Mas arrisco, vivo arriscando.


Estou cheia de acácias balançando amarelas,
e eu que mal e mal comecei minha jornada,
começo-a com um censo de tragédia adivinhando
para que oceano perdido vão meus passos de vida.
E doidamente apodero dos desvãos de mim,
meus desvarios me sufocam de tanta beleza.
Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.


Clarice Lispector

O Grande Momento

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A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...


Augusto Frederico Shmidt

Conflito

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Tenho medo das águas do destino,
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.


Eu sou assim:
quero fugir, mas chamo,
quero ficar mas me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo.


Nunca receio a alegria,
para qual todos os milagres
são normais.


Mas quando tarda quem amo,
meu coração fica exposto
e aberto.


E mesmo assim eu persisto,
e ainda assim espero
ainda, como criança sozinha
atrás do muro.


Lya Luft

Canção Excêntrica

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Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.


Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projecto-me num abraço
e gero uma despedida.


Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.


Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
saudosa do que não faço,
do que faço, arrependida.


Cecília Meireles

Sua Mão

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A mão do meu suave amor é leve
como uma asa de pássaro a voar..
Tem todas essas curvas que descreve,
pelas areias úmidas, o mar...


De longe, às vezes, num adejo breve,
a alma me afaga, me afagando o olhar...
Mão que se cobre de um alvor de neve
se acaso tento os dedos seus beijar!


Ninguém diria que essa mão serena,
que tanta força tem, sendo pequena,
pode, num gesto de emoções febris,


mudar o curso das eternidades,
desmoronar impérios e cidades,
erguer montanhas.. me fazer feliz!


Onestaldo de Pennafort

Crepúsculo

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Começa a entardecer. Amor, é tarde...
Descansa no meu peito a tua fonte,
e vê o Sol baixando no horizonte,
em chamas de ouro, como brilha e arde.


Agora, resignados, sem alarde,
vamos descendo a escosta deste monte.
Já não tenho mais versos que te conte,
e nem um verso eterno em que te guarde!...


Calam-se os passarinhos no arvoredo.
- É a noite que vem. Não tenhas medo.
Acabaram-se os cantos festivais.



Silencio. Solidão. Ninguém se afoite...
Anoitecer que importa, se é de noite
que os beijos de quem ama sabem mais.


Espínola de Mendonça

Nas Asas da Fantasia

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Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.


Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...


Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...


Miguel Torga

É tão fundo o silêncio

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É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago

Um Rosto

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Apenas
uma coisa inteiramente transparente:


O céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas,


pestanas húmidas da geada matinal,
uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações.


Há quanto tempo?


Tudo isto?


Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,


cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim,
fotografias cuja cor desaparece,


substituindo os corpos por manchas vagas como aparições;
e sinto, eu próprio,
que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.


Nuno Júdice

Olhar desnudo

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Os olhos que me seguem, suplicantes,
Invadem no meu íntimo o mais oculto,
Desejo, e escancara todo o intuito,
Meu peito desenfreia saltitante.


Parece expor minha carne desnuda,
E do meu ego, recôndito segredo,
Anseios, revelando quais quer medos,
E tremo aqui por dentro, perplexa, muda.


No encontro de nossos olhos desconfio,
Que lês através dos meus, meticuloso,
E desse transparecer tira proveito...


E lendo em meus gestos aquilo que envio,
De mim faz jogatina, orgulhoso,
Sabendo o que guardo aqui no peito.


Andréia Pariz
Publicado no Recanto das Letras em 11/01/2011
Código do texto: T2722269

Exaltação

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Venha
Venha uma pura alegria
Que não tenha
Nem a senha
Nem o dia
Abra-se a porta da vida
Sem se perguntar quem é
E cada qual que decida
Se quer a alma aquecida
No lume da nova fé.


Venha
Venha um sol que ninguém tenha
No seu coração gelado


Venha
Uma fogueira de lenha
De todo o tempo passado


Miguel Torga

Soneto do Amor

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Doce fogo do amor, como me queimas
e me fazes arder por entre neves
como se eu fora a pálida fogueira
acesa pelo sol na noite breve.


Doce rival do fogo verdadeiro,
quanto mais rompo contra as tuas chamas,
elas se alastram mais na minha cama
e, guerreiro ,por ti sou guerreado.


Mais me queima teu frio,mais intacto
respiro e te combato; e fatigado
da luta em que me abrasas, mais descanso.


Oculto nos lençóis,fogo estio,
escorrer, ledo e manso como as águas
- a água serena do amoroso rio.


Lêdo Ivo

É preciso não esquecer nada

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É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.


É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.


O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.


O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.


O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles

Trajeto

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Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos


de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher


Mia Couto

Mundo imaginário

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Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.


A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?


Emílio Moura

Exílio

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Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.


Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?


Alma, és só tempo e solidão.


Emílio Moura

A Valsa

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Ele veio silente, o luar a trazê-lo,
um sorriso fagueiro reinando no olhar.
“Uma valsa? “, propôs. Aceitei seu apelo...
- Todo baile eu ousara tal gesto esperar.


Abraçou-me a cintura, com terno desvelo,
tal se eu fora cristal do mais fino vibrar.
Em meu peito a ventura de, enfim, conhecê-lo,
me fez leve qual brisa soprada do mar.


Ante o chão carpetado com gotas de orvalho,
o céu pleno de estrelas, num rútilo pálio...
conivente, o destino, o relógio parou.


Entre beijos, promessas... Ditosa loucura!,
todo o amor que eu vivi, desde sempre, à procura,
na magia dos sonhos comigo bailou!


PatriciaNeme

Tua Dádiva

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Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.


Abriga-me no teu corpo
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.


Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.


Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, a verdadeira,
chão de tua sombra que passa,
e da tua luz que se planta.


Lya Luft

Respiração

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Não minto nem digo a verdade
Sou como o vento que sopra
e a chuva que cai.
Sou a luz que ao anoitecer
devolve claridade.


Sou como as escadarias
que aparecem nos sonhos:
um clarão entre degraus,
uma sombra entre dois passos,
uma nuvem esbraseada.


Sou como a erva que cresce
e o frio que une os corpos.
Não falo nem silencio.
Desperto para sonhar.
Não respondo nem interrogo.


Apenas respiro
junto ao dia que nasce.


Lêdo Ivo

Oceano Secreto

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Quando te amo
obedeço às estrelas.
Um número preside
nosso encontro na treva.


Vamos e voltamos
como os dias e as noites
as estações e as marés
a água e a terra.


Amor, respiração
do nosso oceano secreto.


Lêdo Ivo

Enigma

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O Amor nos caracteriza fluindo,
É sonho harmônico do existir e ser.
Ao alto a onde foi construido,
cada um vai bordando seu saber.


Ele nos caracteriza todos os dias.
E quando há alguém com inveja e tem
maledicência, outras tantas existem
engrandecendo-o na formosura dos dias!


O Amor que nos caracteriza é nobre.
ilustra ao fim de cada dia grandeza:
atributo nobremente célebre!...


Atenta cuidadoso em que estado és
enfeitiçado pelo enigma desse arcano:
são sete vidas com Amor cigano...


Efigênia Coutinho

A Passagem

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Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.


Lêdo Ivo

Abdicação

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Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.


Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços


Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.


Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


Fernando Pessoa

Outonal

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Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…


Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…


Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!


Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…


Florbela Espanca