Um adeus


















Irei m'embora

e os pássaros ficarão cantando...

O tempo lhe dirá que eu era seu dia branco.
Seu manancial de água pura,
o espírito que se movia.
No jardim nostálgico de nossa vida.

Irei m'embora.
e tu ficarás sem lar, sem flores, sem música,
Sem perfume, sem amanhã.

Irei m'embora

e os pássaros ficarão cantando.


Fátima Reis

Fronteira




















De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente; doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo c´ú os olha e os consente.

O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcateia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.

Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.


Miguel Torga

Difícil fotografar o silêncio



















Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski – seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta.Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


Manoel de Barros

Ornitóloga

















Vai saber
O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(Eu que
Nunca saí do chão
Quando saí
Era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.


Adriane Garcia

A Vida


















Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos;
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e — supremo revés —

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...


Amadeu Amaral - Publicado no livro Espumas: versos (1917).

Mulher Madura















Esse ar puro oxigenado de maturidade
me dá o aspecto de que já vi tudo na vida,
disposta a rever a própria vida.

Este sentimento de mulher humana
me dá o direito de viver feliz,
inspirando segurança,
como se já tivesse tudo o que quis.

Esse jeito felino ou de criança
me dá a certeza de ser forte como nunca,
agarrada nos braços da esperança.

Essa determinação de chegar faceira,
sem ter que explicar nada
nem dizer porque,
me dá a sensação
de estar no auge da vida,
a vida inteira.


Ivone Boechat

Tempo






















Tempo - definição de angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo…
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!


Miguel Torga

Pátria



















pátria nossa 
assombro e orfandade 
chão anoitecido de 
soçobros 
o tempo acautelado de 
correr a senda de estradas 
sem luz 
na sombra 
há sempre um interlúdio 
de paralisia 

entre 
haveres 
de 
escombros 
decreta-se o desatino 
nós desvãos da inércia 
ante à remissão 
dos idos tombados 
sob à turba dos muros 
de ocasos adoecidos 
de limo 
de limbo 
de lama 
na letargia de dias 
não amanhecidos 

espera-se pelo tempo 
só ele diz dos prenúncios 
só ele derruba barragens 
para como o rio 
correr 

espera-se 

até que na andança da 
espera 
o chão possa recolher o 
adubo das sombras 
render-se à cópula das 
manhãs 

haverá de aurorescer 
ouvidos se abrirão 
largamente 
para a escuta de sementes 
se abrindo 
em busca de uma 
possibilidade 
feita de sol 


Wanda Monteiro

Amor Verdadeiro

















Tua frieza aumenta o meu desejo:
fecho os meus olhos para te esquecer,
mas quanto mais procuro não te ver,
quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo,
humildemente, sem te convencer,
enquanto sinto para mim crescer
dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
que outro feliz, ditoso como um rei
enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
amam metade os que amam com espr'ança,
amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.

Eugénio de Castro, in 'Antologia Poética'

Haras


















Crio
Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.


Adriane Garcia

A Estrela
























Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira

Baú aberto

















Eu gosto das coisas inúteis
Eu guardo tantas coisas fúteis
E esqueço o que é importante
De minhas mãos caiu o instante


Que valia, e agora em pedaços
Ocupam valioso espaço
Das coisas que seriam úteis
Em nos deixar ocupados


Nada pode ser constante
O coração pesado e preocupado
Com os ocultos pecados
Que rebelados vieram emergir


Ao jogar fora o antigo e guardado
Doeram meus ossos e artérias
Conversa fiada é coisa séria
Não há perfume no passado.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Aspiração



















Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu Desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

*

Sou um mistério.
Vivo as mil mortes
que todos os dias

morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.

Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.

Dia
dum eu-realidade.


Agostinho Neto

A tua casa é o meu coração

















A tua casa é o meu coração 
e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites. 
Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da gazela 
e a brevidade suicida das flores do hibisco. 
O meu coração dá abrigo a um grande amor, 
como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto 
ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis. 
Não há armadilhas montadas no percurso que te leva 
à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo 
de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia. 
És em mim. Estás em mim. Há-de o meu coração 
ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá 
o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que 
tem a envergonhada cor da flor do lótus. 
Há-de o meu coração calar-se, mas 
esse silêncio não impedirá a promessa 
de uma eterna noite de amor. 


Joaquim Pessoa, in “O Poeta Enamorado”












colher na poeira dos ossos
a estrela

escutar a matéria
de sua centelha

dissolvê-la em escrita
e princípio


Carlos Orfeu

O que é a Poesia?
















A poesia é choro
Não é mera distração
A poesia é coro
De luta,
Não é lamentação.

A poesia é soro
Não é amamentação
A poesia é estouro
Da alma, explosão.

A poesia é touro
Sem dominação
A poesia é couro
Veste, reveste, é proteção.

A poesia é nascedouro
De rios de imaginação
A poesia é matadouro
De lágrimas e situações.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro.

Noite


















Deito,
no límpido lenço
passado pelo sol
que esconde
a maçã podre
do colchão de sua cinza.
Estou nas palmas enormes da noite
que se ergueram
e esqueceram a oração.
E elas seguram,
cabide de meus melhores panos,
o abacate verde de meu corpo
que jamais se envelhecera
com minha teimosia venenosa
com a cobertura do cromo de meu verniz
de chegar sempre mais jovem
no salão
do azul da noite
porque era lá
que me ouvia
com o palmo da terra
em minha orelha.
E me flertava,
apaixonado, por ela e dela.

Eu nunca quis me decepcionar.


Lucas Alvim - Poemas de "Contorcionismo" (Editora Penalux, 2016).

Mãe


















Mãe - que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem - dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!


Antero de Quental

Reverso

















O silêncio
me fala
com sua voz reversa
o imponderável
o imponderável
o imponderável
Declina
gentilissimo
seus versos brancos


De ouvidos atentos
retenho-me
aguço-me
nele que é
a alma
da palavra
A antessala
do verbo.

Maria Helena Latini - do livro "Múltiplo Um", Editora Literacidade.

Porque Eu Sei que é Amor
















Porque eu sei que é amor
Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova

Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir embora

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor
Sei que só há uma resposta

Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim mais vivo

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Porque eu sei que é amor
Porque eu sei que é amor


Paulo Miklos/ Sergio Brito

Oração da manhã


















Bom dia, Pai.
Vamos tomar juntos o café da manhã?
Temos pendentes tantos assuntos!
(O pão está fresquinho,
o café bem quente).
Ainda que só um minutinho,
nós precisamos conversar:
o mundo desandou de tal jeito,
que nada mais parece ter efeito.
Nem ciência, nem teoria,
nem fórmula, nem maestria
conseguem colaborar.
Cada qual briga pelo seu bocado
sem nenhuma decência, sem qualquer restrição.
Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão.
Por isso, a minha idéia
(por favor, passe a geléia)
de recorrer a uma ajuda;
sem você, a situação não muda.
A ambição vem engolindo a Terra;
a sociedade, cada vez mais dissoluta.
E fique atento,
pois andam procurando uma fé substituta.
Os governantes estão cegos;
que tal devolver-lhes a visão?
Carregam pregos nas mãos,
crucificam o povo.
Não quero que Você morra de novo!
Meus Jesus, multiplique o pão.
Perdoe esse bate-papo,
(à sua frente tem um guardanapo)
é que estou aflita!
Que bom receber Sua visita logo de manhã
Devo Lhe contar um segredo:
quero sair de casa, mas tenho medo,
preciso segurar a Sua mão.
Ainda falta agradecer tanta graça!
O girassol que nasce na calçada,
o rosa-amarelo da alvorada,
o pedaço de céu que pinga na vidraça,
na gota de orvalho que cai.
Daqui pra frente, eu sigo meu caminho
e Lhe entrego todo meu afeto.
Você é mesmo meu amigo predileto!
Bom dia, Pai.


Flora Figueiredo

O laço de fita






















Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.


Castro Alves

De Mim




















Devo convencer-me a viver entre os demais –
mesmo sofrendo da aguda sensação
de sentir-me como um peixe atônito
flutuando sobre uma multidão
que se forma e deforma.
Mas não pretendo renunciar aos atributos do humano. E, tampouco,
deixar de comover-me com o mundo,
enxergando nos invisíveis cotidianos
o íntimo absurdo da impermanência
do tudo que há em mim
e do tudo que há nos demais.


Wanda Monteiro

O Esquizofrênico
















No seu delírio vai compondo os gestos
diante da platéia inexistente;
ele próprio é a platéia, mas não sente
do espetáculo mais que os pobres restos

que a memória lhe acende nos esgares
da fisionomia descomposta.
No seu delírio a fala, sem resposta,
se resolve em grunhidos singulares,

num discurso arbitrário de fonemas
reduzidos à simples expressão
de sons primevos que de sempre estão
revelando carências, e as extremas

ruínas de seu cérebro em pedaços.
Os gestos multiplicam-se em algemas
e a platéia se cala, membros lassos.



Fernando Py - 30-01-1994 - (de Sol nenhum)

Fruto podre
















Olhei por dentro de mim
Há tempos morrendo coisas
Entre silêncios e os amargos
O doce abandono do passado


O futuro não sei se nasce?
O fruto não sei se cresce?
Maduro de antes que apodrece
Como o que tinhas e nunca amaste


Entre perguntas e permutas
Perdeu-se desnudar virgem
Como o enigma da esfinge
Que evitou a vida, evitou a luta


Triste, e melancólico sabor
Nas bocas velhas e poucas
Sílabas, tônicas e roucas
Que não valem o seu penhor.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Como Nossos Pais



















Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo


Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa


Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens


Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu lábio
O meu braço e a minha voz


Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantado
Como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
E eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração


Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais


Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais


Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências, as aparências
Não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém


Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou enganando


Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem


E hoje eu sei, eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando o seus metais


Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais


Belchior

Metamorfose

























quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância

sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS


Luís Carlos Patraquim

Para Fazer Poesia













O que é preciso para fazer poesia?
Antes de tudo, como dizia o Gullar, sentir o assombro correndo em nossas veias. Somos mortais e cada dia é único. Pode ser o último. Com esse sentimento amarrado em nosso corpo, certamente não deixaremos escapar nada. Nosso espanto é nosso alimento.
Em seguida, já que não posso desperdiçar nada, tenho que afiar o olhar como se afia uma navalha. Meus olhos tampouco podem deixar escapar nada.
E meus outros sentidos. Sendo poeta tenho que usar meu corpo como um bicho. Farejar e sentir. Nada pode ser desperdiçado. Não posso desperdiçar sensações.
Eu vejo as imagens à medida que vou escrevendo o poema. Eu as vejo e tenho que correr para que elas não escapem.
A minha respiração é a música do poema.
Sem música dentro do poema, alguma coisa deixará de funcionar.
E mesmo que o poema seja muito triste, alguma alegria terá que habitá-lo, será, digamos, a sua luz.
Eu busco alegria em tudo. Foi um longo aprendizado. Mesmo na dor. O poeta tem que gostar das palavras, das suas possibilidades. Quanto mais aberto o poema, melhor. Se você entende desse jeito e o outro de outro jeito, que bom. Uma palavra que vai se abrindo em leque, vai levando o leitor para várias direções...
E também dar de comer aos medos. Os medos podem ser grandes aliados, pois temos que domá-los, são nossos lobos. O poema também tem que ser domado. Quantas vezes for preciso, há que recomeçar, refazer, limpar, cortar.
Enfim, fazer poesia é viver em estado de poesia.


Roseana Murray


Escrever























Dou água para meus
Unicórnios
E à tarde vou à costureira

Deus é engraçadinho
Deu-nos por dentro
Um irmão Lumière

Não pesquei nuvens
Hoje
Vou beber na taverna

E com um pouco de sorte
Talvez me perder
Na floresta

Quero contar
Mil mentiras
Para cada verdade
Insuficiente.


Adriane Garcia
















a vida é susto
desprevenido

uma hora exibe
todos os dentes solares


outra hora com os mesmos
dentes expostos

carcome até o mínimo
pedaço de murmúrio

da fotografia
entre objetos inutilizáveis

Carlos Orfeu

Apenas um Rapaz Latino americano














Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior


Mas trago de cabeça
Uma canção do rádio
Em que um antigo
Compositor baiano
Me dizia
Tudo é divino
Tudo é maravilhoso


Tenho ouvido muitos discos
Conversado com pessoas
Caminhado meu caminho
Papo, som, dentro da noite
E não tenho um amigo sequer
Que ainda acredite nisso não
Tudo muda!
E com toda razão


Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior


Mas sei
Que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido
Até beijar você
No escuro do cinema
Quando ninguém nos vê


Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém


Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
Ao vivo é muito pior


E eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Por favor
Não saque a arma no "saloon"
Eu sou apenas o cantor


Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo!
À tarde, às três
Que à noite
Tenho um compromisso
E não posso faltar
Por causa de vocês


Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto
Nada, nada é misterioso, não


Belchior

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...