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Mostrando postagens de Novembro, 2016

Legenda dos dias

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O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas... e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada...

As horas morrem sobre as horas... Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida
Volta, pensando: "Se o Ideal da Vida
Não vejo hoje, virá na outra jornada...

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa... efêmera e vazia:
Um adiantamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia...

Raul de Leoni

Apesar de Você

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Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se…

Despedida

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Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.


Cecília Meireles

Paisagem

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Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


Sophia de Mello Breyner Andresen - in Poesia, 1944

Não Passou

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Passou?  Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.


Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?


Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.


Carlos Drummond de Andrade

Roda Viva

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Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá

Este é o Prólogo

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Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam !

Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta !

Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,

ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.

Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
- entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chamas.

Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros de versos,
entre rosas…

Soneto VI

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Assim, não deixemos a mão rota do inverno desfigurar
De ti o teu verão antes que sejas destilada;
Adoça teus sumos; orna um lugar
Que tenha o valor da beleza antes de sucumbires.

Este uso não é a proibida usura
Que alegra os que pagam os devidos juros –
Para que cries, para ti mesma, um novo ser,
Ou sejas dez vezes mais feliz do que és
.
Serias dez vezes mais alegre,
Se em dez de ti dez vezes te transmudasses;
Então, o que poderia fazer a Morte se partisses,
Passando a viver na posteridade?

Não sejas turrona, pois és por demais bela
Para que a Morte vença e os vermes te consumam.



Sonnets VI

Then let not winter's ragged hand deface,
In thee thy summer ere thou be distilled:
Make sweet some vial; treasure thou some place,
With beauty's treasure ere it be self-killed:

That use is not forbidden usury,
Which happies those that pay the willing loan;
That's for thy self to breed another thee,
Or ten times happier be it ten for one,

Ten times thy self were happier than thou art,
If ten of thine ten times …

Inevitabilidade

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Escrevo... Por motivo de sobrevivência Recebo... Os depreciativos por minha aparência.

Resisto... Ativo contra a demência Despisto... Os curativos da inocência.

Devolvo... Os incentivos das carências Revolvo... Nos especulativos das indolências.

Percebo... O imperativo da impotência Concebo... O sedativo da convivência.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

O Fim do Aqui

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Amanheci ontem. E preparo-me
para abocanhar o futuro com
a minha boca de tigre.
Desafio-te a morrer, se for
preciso, para que o possas alcançar.
Traz contigo apenas a esperança
e a lucidez das tuas mãos. Traz
a lição da história, esse belo pavão
que serve também 
para comer.

Procurar a liberdade
é castigo para um ser livre. Não
jures perante nada. Não te comprometas
a não ser com o Livro da Vida. 
Os teus bens são o poderes passar
sem eles. Na verdade, ninguém detém
a riqueza, apenas a pode utilizar para
transformar o rosto, o corpo, o perfil das
cidades; transformar a boca dos livros, 
os olhos agudos dos poetas, os elementos nus
que depositam a chuva no coração do 
pássaro que transforma o canto 
em azul puro
de modo a transformar o brilho das moedas
num eterno discurso de paixão.

Transformar. E transformar. E transformar.
Transformar sempre. E transformar 
depois, o sempre. Fazer o fim 
do aqui. 

E transformar o agora.




Joaquim Pessoa

Vida Humana

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Quantas partidas eu assisti algumas sem importância algumas sem despedidas apenas lágrimas e memórias.

Quantas saudades que senti algumas de uma infantil infância algumas ainda são duras feridas que escreveram e marcaram história.

Quantas dádivas eu recebi pais, filhos e irmãos sem sangue ou sobrenomes apenas por escolhas amigos.

Quantas chegadas eu consenti no coração tocou-me velhas canções avisos, profecias e sonhos com nomes e certezas que me servem de abrigo.

Quantas coisas eu parti com minhas dúvidas e perguntas com meu silêncio e inércia com meu egoísmo e fraternidade.

Quantos sentirão eu parti com uma dolorosa permuta com uma incomoda moléstia que abandonou sua humanidade.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Novembro 2016.

Bálsamo

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O amor é triste — proclamariam minhas viúvas.
mas disse o filósofo: a alegria corteja
a mais profunda eternidade.
Todas as vertentes consideradas,


abandono o vale
onde as sombras compõem a enormidade.
Os grilos agora tilintam, e a luz da lua
impregna as árvores de um bálsamo —
Meu amor, se possível, me aguarda,
retorno a ti, clara a trilha
que agora a meus olhos se abre.


Fernando Campanella

Poema da Despedida

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Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal, 
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora 
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,

Acredito na Rapaziada

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Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

Aquele que sabe que é negro
o coro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim, pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira suada da luta e faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos por aí...


Gonzaguinha

Amanhecer

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Levanta a cortina
dos teus olhos,
contempla a maravilha
do teu lindo amanhecer,
a vida é uma criança,
esperta, bonita, inteligente,
passa correndo, é preciso ver...
Acredita, enquanto há tempo:
não existe dor sem alento
nem tristeza tão longe da alegria,
quando a luz de cada dia,
acende a vida,
iluminando o amanhecer
não vacile, toma posse


da imensa alegria de viver.

Ivone Boechat

Flamengo

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Nasceste em disputas populares de regatas. Das senhorinhas aos rapazolas de gravatas. Do imbróglio tricolor ficaste com o antigo vencedor Que no primeiro Fla-Flu foi perdedor

Uma dolorida derrota para um destino lutador. Tens a cara do povo que te aceitou Que tua história de vitórias abraçou Sendo eles teu patrimônio e esplendor.

Entre outras épocas representavas contra Portugal o nacional Hoje todos brasileiros que não são teus te entendem como rival. Com teu vôo alcançaste tuas fronteiras de paixão No território nacional, dentro do Brasil, uma nação

Com suas bandeiras e suas fileiras, Com sua multidão e seu canto, Com sua raça e seu manto, Com toda diversidade brasileira.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Homenagem aos amigos rubro-negros – 15/11/2016.

O Poema

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Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ela se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão ao invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.

Ivan Junqueira