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Mostrando postagens de Julho, 2016

Verbal e Casual

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Como queria o teu colo Como o hoje de antigamente Como queria teu carinho Suave de cabelos e dedos constantemente

Desejos foram calados Vontades e sonhos guardados Para nenhuma ocasião Me sirva o teu amor Com café e bolo pela tarde Com cheiro casual e antigo Como gosto na boca que arde Como achando o que fora perdido

Mordi-me internamente A saudade de mim tem me desgastado Os verbos que precocemente Não encontram mais seus predicados Me sirva em goles o teu corpo Como esperança que abriga em um porto A sua segurança e seus significados.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Adminimistério

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Quando o mistério chegar,
já vai me encontrar dormindo,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Não haja som nem silêncio,
quando o mistério aumentar.
Silêncio é coisa sem senso,
não cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o mistério voltar,
meu sono esteja tão solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.

Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folha,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como um resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?



Paulo Leminski

Poema sem palavras

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Ofereço-te 
Um Poema
Sem Palavras
Lavradas 

Ofereço-te
Um Poema Semente 
Versos 
Arados 
Rimas brancas
Rubras 
Ritmo de sístoles 
E diástoles
Pulsos líricos 
Cifrados em minhas veias

Ofereço-te
Um Poema Silêncio
Verbos 
Silenciosos 
Que respiram
Que Transpiram
Sentidos
Todos

Ofereço-Me 


Wanda Monteiro

O Monstrengo

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O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!» «De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!» Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!» Fernando Pessoa, Mensagem, 1934

Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)

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A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?"

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?"

As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo
Faça um filho comigo
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo (domingo!)

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitido


Falcão / Lauro Farias / Marcelo Lobato / Marcelo Yuka / Xandão

Meus Cantos

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Aos pés de Deus, humilde, por momentos
Fiz um canto de mística oração.
Juntando a voz das águas e dos ventos
Fiz desse coro um hino, uma canção.

Divulgando com ardor meus pensamentos
Cantei das aves doce entonação;
Do mar ouvindo lúgubres lamentos
Cantei das ondas a acre solidão.

E cantei mais: o hálito das flores...
Da noite escura tétricos negrores
E a transparente alvura do luar.

Mas quando quis cantar meus desencantos
Ao em vez de cantar eu chorei tanto
Que mais nada jamais pude cantar.

Bernadina Vilar
De "Meus Versos" 1986

Estrada Nova

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Eu conheço o medo de ir embora
Não saber o que fazer com a mão
Gritar pro mundo e saber
Que o mundo não presta atenção
Eu conheço o medo de ir embora
Embora não pareça, a dor vai passar
Lembra se puder
Se não der, esqueça
De algum jeito vai passar
O sol já nasceu na estrada nova
E mesmo que eu impeça, ele vai brilhar
Lembra se puder
Se não der esqueça
De algum jeito vai passar
Eu conheço o medo de ir embora
O futuro agarra a sua mão
Será que é o trem que passou
Ou passou quem fica na estação?
Eu conheço o medo de ir embora
E nada que interessa se pode guardar
Lembra se puder
Se não der esqueça
De algum jeito vai passar


Oswaldo Montenegro

Mar Morto

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Quando tudo era simples
Nasci um veio d’água
Aprendi, cresci com limites
Mas na busca de espaços
Tornei-me pequeno riacho


As manhãs chegaram simples
Com o cheiro do algo novo
Que procura até encontrar
Rompendo pelas terras e florestas
Carregando até que não queria ir
Para ver o mar, para ser o mar


Perdido fiquei na metrópole mar
Já não havia terra e nada para buscar
Afoguei-me, sendo mar
Liberei o meu mal sujando o mar


Perdi o doce no oceano
Mar salgado levou minhas águas
Doces, e sujo fiquei salgado
Um mar morto na noite suja


Antes fosse ainda um rio
Um pequeno riacho
Com o doce da vida que pensei encontrar
Quando chegasse ao mar

Sintonia para pressa e presságio

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Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Paulo Leminski

Lisbon Revisited (1923)

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NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já d…

A Longa Marcha

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Há um desprezo pelo velho instituído Certo abandono do que foi constituído Um ressuscitar nas sombras do destituído Luta corporal, revigorante, do que deve ser restituído

O que somar? Se só tem subtraído Como confiar? Em quem tem nos traído Nossos infantes com caminhos obstruídos Nossa mocidade de sonhos prostituídos.

Nos escombros natimortos da memória Nasceu um fluido de esperança Nos assombros perturbadores da história Com seus mitos, lendas e perseveranças

Somos fantasmas vivos das escórias Marchando firme por longas andanças Kamikazes sem rumo e sem glorias Um povo sem festas e sem crianças

Marcharemos sim, com nossos pés descalços Sobrepondo os fins e seus percalços Secaremos lágrimas ao receber o hálito do vento Escreveremos páginas com as tintas do tempo

Surraremos o brim sem embaraços Uma só batida de pernas e braços Sem palavras num só movimento Envolvidos pelo mesmo sofrimento.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Intuição

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Canta uma canção bonita
Falando da vida, em 'Ré maior'
Canta uma canção daquela
De filosofia
Do mundo bem melhor

Canta uma canção que aguente
Essa paulada, e a gente
Bate o pé no chão
Canta uma canção daquela
Pula da janela, bate o pé no chão

Sem o compromisso estreito
De falar perfeito
Coerente ou não
Sem o verso estilizado
O verso emocionado
Bate o pé no chão

Canto uma canção bonita
Falando da vida, em 'Ré maior'.
Canto uma canção daquelas
De filosofia
E mundo bem melhor

Canta uma canção que aguente
Essa paulada, e a gente
Bate o pé no chão
Canto uma canção daquela
Pula da janela, bate o pé no chão

Sem o compromisso estreito
De falar perfeito
Coerente ou não
Sem o verso estilizado
O verso emocionado
Bate o pé no chão

Canta o que não silencia
É onde principia a intuição
E nasce uma canção rimada
Da voz arrancada
Ao nosso coração

Como, sem licença, o sol
Rompe a barra da noite
Sem pedir perdão!
Hoje quem não cantaria
Grita a poesia
E bate o pé no chão!

E hoje quem não cantaria
Grita a poesia
E bate o pé no chão!

S…

Pastor

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Todo o rebanho espalhado
pela paisagem cinzenta
de inverno fresco e calado,
não sei de que se apascenta
neste chão frio e surrado;
apenas o meu cuidado
de bom pastor o sustenta.


Meu gado de criação
vou-o descendo às canadas
onde o frio das geadas
não despiu de todo o chão;
— minhas ovelhas pejadas
precisam de ser tratadas
pela sua condição...


Que o céu tão baixo e cerrado
carrega de nuvens escuras
a serra e o meu cuidado
pelas ovelhas e as puras
crias de olhar resignado.
Eu sofro pelo meu gado,
pelas suas amarguras.


E quando à tarde voltamos
para o redil que nos espera
no meio do campo absorto,
ao frio que dilacera,
resta-me só um conforto:


pensar que este mundo morto
terá uma primavera.



Cristovam Pavia

Amar você é coisa de minutos...

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Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui


Paulo Leminski

Eros e Psique

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Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada. Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem. A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém. Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora. E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia -

Fernando Pessoa

Aviso aos náufragos

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Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?


Paulo Leminski

As Pombas

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Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.


Raimundo Correia

Eu Quero Ser Feliz Agora

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Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr'uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho.
Não acredite, grite, sem demora...

Eu quero ser feliz Agora

Se alguém vier com papo perigoso de dizer que é preciso paciência pra viver.
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só coitado, você não vai se perder
Que manso imitando uma boiada, você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra, e quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover.
Se joga na primeira ousadia, que tá pra nascer o dia do futuro que te adora.
E bota o microfone na lapela, olha pra vida e diz pra ela...

Eu quero ser feliz agora

Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr'uma outra hora
Que a segurança exige medo
E que quem tem medo deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
E que nessa festa você tá de fora
Que v…

extrema-unção

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Que fosse limpo e não foi Que fosse justo e jamais Que fosse certo e nem me ouviu Que fosse belo e tudo matou
Que fosse plano e se apresentasse Pacífico por vidraças em gotas A chuva leve e oceânica Com o cheiro do sal do mar
Que fosse morte calma e velha Mas não Foi confusão E guerra.

Adriane Garcia

Lanterna dos Afogados

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Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar

Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar

E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar

Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar

Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar


Herbert Vianna - Paralamas do Sucesso

Primeiro Fausto - Primeiro Tema - MISTÉRIO DO MUNDO

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I
Quero fugir ao mistério
Para onde fugirei?
Ele é a vida e a morte
Ó Dor, aonde me irei?


II
O mistério de tudo
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão [de] perto,
Que me dissolvo em trevas e universo...
Em trevas me apavoro escuramente.
III
O perene mistério, que atravessa
Como um suspiro céus e corações...
IV
O mistério ruiu sobre a minha alma
E soterrou-a... Morro consciente!
V
Acorda, eis o mistério ao pé de ti!
E assim pensando riu amargamente,
Dentro em mim riu como se chorasse!
VI
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria,
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.

Tudo o que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.

Tudo o que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento,
São sombras de mãos, cujos gestos são
A ilusão madre desta ilusão.
VII
Mundo, confranges-me por existir.
Tenho-te horr…