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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

TRAPÉZIO

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Ai
De novo
O sonho recorrente:
Sou trapezista
Lanço-me ao vazio
Em triplo salto mortal
Sem rede Em meio à vertigem
Ante o abismo
Cismo
Choro
Me arrepio
E...
Acordo
(Infelizmente:
Parece que aquilo
Não é mais difícil do que isto)
Zélia Guardiano

Nós dos dedos

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Não vou preocupar-me com grafias e caligrafias
Se o que desejo é que me entendas
Não adianta a gramática e o vocabulário erudito
Se tu não compreendeu o que foi dito


Falo mais do que deveria
E as palavras correm, fogem, escapam...
Cuspidas á revelia
São tiros lentos, fatais...
Que me culpam todos os dias


Há palavras que me serviram de sombra
Outras abriram esconderijos
Algumas nos vestem com uma penumbra
Outras nos constrangem como despidos


Que tu perdoes o salgado e sombrio
Não enjoes com o doce e azedo
Pode se machucar no quente como no frio
Tem coisas que não se cabe remendos.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Prece da criança

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Senhor,
estou muito assustado,
estão nos fazendo medo,
fico até cansado de pensar
um jeito de proibir os adultos
de matar os passarinhos,
de acabar com os rios,
de poluir os mares.
Tudo que o Senhor fez é tão bonito,
até me irrito,
quando vejo guerras dominando alguns lugares.
Quero sonhar
com uma escola feliz,
com professores sorrindo,
e uma nota que dê para passar...
É isto que sempre quis...
Ah! Quero minha família unida,
segurança para brincar na praça,
a imensa graça, de dormir,
sabendo que se há alguém na rua
vai poder voltar.
Assim seja


Ivone Boechat

Humanidade

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Temos satélites, e estamos sem órbita
Temos celulares, e estamos incomunicáveis
Temos conectividade, e não temos afetividade
Dê-me um abraço pelo seu Bluetooth


Temos solidão, mas queremos o silêncio
Temos confusão, mas queremos a realidade
Temos os pecados e sua urbanidade
Temos o consumo da legitimidade


Estamos deprimidos e temos comprimidos
Pelos quartos escuros sem janelas
Com sonhos reduzidos somos oprimidos
Pelos teus ônibus e suas sequelas


Algemados, adoecidos, dominados e entorpecidos
Por contas, intensidades e novelas
Julgados, enfurecidos, amargos e entristecidos
Por contratos, atos e suas celas.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

ALMA VELHA

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O tempo
Pega a alma
Da gente
Entretece
Ao redor
Uma crosta
Faz dela ostra
Vez por outra
(Excepcionalmente)
Coloca dentro
Uma pérola (Não me iludo:
Excepcionalmente...)
Zélia Guardiano

Se eu conto o tempo?

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esse tempo que mensura a vida
que mensura a morte
e demarca a existência dos entes e das coisas...
há muito tempo eu deixei de contar esse tempo mas eu sinto que já amanheci faz tempo
que essa tarde tarda a me deixar
e a noite...
essa me espera
impaciente.
Wanda Monteiro

Os deslimites da palavra

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Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Manoel de Barros

Templário

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Amanhã!  Quero andar sobre as águas. Quero descansar no tempo sem idades Quero com minha funda vencer o gigante Quero ser depois do que foi antes Sem dispor com minha mocidade

Aonde vão meus pensamentos Por longínquas ilhas de céu azul Com pássaros incansáveis Quero o suave amor superno De tanto, tanto e eterno

Que não quero ser alcançado Por mortais problemas humanos Quero a Luz Divina que oriente Os meus passos e planos Por todo sempre e sempre

Quero mais respostas que perguntas Com a ternura dos que me amam Quero o espelho dos que me gostam E seus tatos, e insolúveis apreços Valiosos, inestimáveis e sem preço

Amanhã! Serei eu E serei por toda vida Por mais que o tempo como uma bebida Mude o seu sabor.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

PLANO DE VIAGEM

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As malas
Estão prontas
Desde sempre
Encostadas
Num canto
Do meu pensamento O mapa-múndi
Aberto
Sobre a mesa Muitos lugares
Me chamam
(Incessantemente)
Em vão:
A viagem
Tem de ser
Para dentro
Zélia Guardiano
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que agonia de sina
essa de dormir pela metade de sono intercalado de espanto
rasgado de tempo 
cansado de descanso de sono entrecortado de assombros espelhos do ontem de mim de sono invadido por películas de
r
e
a
l
i
d
a
d
e
________ que escorrem
encharcando meu leito
e afogando meu sonho.
Wanda Monteiro

O verbo no infinito

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Ser criado, gerar-se, transformar 
O amor em carne e a carne em amor; nascer 
Respirar, e chorar, e adormecer 
E se nutrir para poder chorar 

Para poder nutrir-se; e despertar 
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir 
E começar a amar e então sorrir 
E então sorrir para poder chorar. 

E crescer, e saber, e ser, e haver 
E perder, e sofrer, e ter horror 
De ser e amar, e se sentir maldito 

E esquecer tudo ao vir um novo amor 
E viver esse amor até morrer 
E ir conjugar o verbo no infinito...


Vinicius de Moraes

Prefácio

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Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.


Manoel de Barros

Prioridades

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Perfume da manhã, colorido das flores,
milagre da vida,
principalmente, vida;
água cristalina,
multiplicidade de cores,
possibilidade de amores,
chuva chorando neblina,
amor,
principalmente, amor;
céu,
mar,
abrigo,
abraço,
amigo,
principalmente,
amigo.

Ivone Boechat

Poesia exploratória a você

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Quem alisa meus cabelos?
Quem me tira o paletó?
Quem, à noite, antes do sono,
acarinha meu corpo cansado?
Quem cuida da minha roupa?
Quem me vê sempre nos sonhos?
Quem pensa que sou o rei desta pobre criação?
Quem nunca se aborrece de ouvir minha voz?
Quem paga meu cinema, seja de dia ou de noite?
Quem calça meus sapatos e acha meus pés tão lindos?
Eu mesmo.


Millôr Fernandes

Mulher Cristã

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Há as que nasceram nesta casa, Há as que oram como brasa. Elas nos oram em seu ventre. Oram pelos que são, e os que descrentes Caminham longe do Senhor.

Suas lágrimas são conhecidas. Mulher de Louvor! Mulher de Oração! Desde pequeninas reconhecidas Pelo os detalhes e pelo coração.

Suas mãos trabalham e ao Senhor se rendem Chegam como primícias de suas famílias Levam seus dons e seus filhos São aconchego, ternura e mobília São o perdão, a canção e o auxilio.

Perfumam-nos como rosas Ensinam-nos como música ou em prosa Em sermos servos de verdade Em distribuirmos humanidade

Em cada assunto da Igreja Lá está ela! Com sua beleza Mulher valorosa e constante No Senhor o nosso Mestre São únicas, são diamantes.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Homenagem ao dia da Mulher Presbiteriana – Fevereiro de 2016.

LudLinda

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Brilha minha estrela! Brilha minha Linda!
Dançando com meu coração.
Se reclamando ou chorando,
Não importa.
Suas caras e bocas
Com um não tão forte e charmoso.
Ah!  Meus  sonhos seus cachinhos.
Ah! Que doces carinhos.
A Bonita do papai
Fazendo arte em qualquer parte.
Como não te amar minha princesa
Que faz meus dias ter riqueza
E não serem mais iguais


Henrique Rodrigues Soares  -  Canibais Urbanos
Aniversário da minha Ludmila Moura Soares – 14/02/2016 – 2 aninhos.

Poesia Matemática

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Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a …

CARTA-TESTAMENTO

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Na madrugada
Há palavras
Caídas
Por todo lado
Uma dor nas costas
Quando me abaixo
Para apanhá-las
(E são
Absolutamente
Necessárias:
Quero escrever
Carta-testamento
Repartir os medos
Os maus pensamentos)
Zélia Guardiano

Poética II

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Com as lágrimas do tempo
e a cal do meu dia
eu fiz o cimento
da minha poesia

e na perspectiva
da vida futura
ergui em carne viva
sua arquitetura

não sei bem se é casa
se é torre ou se é templo
(um templo sem Deus)

mas é grande e clara
pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!


Vinicius de Moraes

O Instante Antes do Beijo

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Não quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo. 


Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo. 

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois. 

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca. 


Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas'