TRAPÉZIO















Ai
De novo
O sonho recorrente:
Sou trapezista
Lanço-me ao vazio
Em triplo salto mortal
Sem rede

Em meio à vertigem
Ante o abismo
Cismo
Choro
Me arrepio
E...
Acordo
(Infelizmente:
Parece que aquilo
Não é mais difícil do que isto)


Zélia Guardiano

Nós dos dedos



















Não vou preocupar-me com grafias e caligrafias
Se o que desejo é que me entendas
Não adianta a gramática e o vocabulário erudito
Se tu não compreendeu o que foi dito

Falo mais do que deveria
E as palavras correm, fogem, escapam...
Cuspidas á revelia
São tiros lentos, fatais...
Que me culpam todos os dias

Há palavras que me serviram de sombra
Outras abriram esconderijos
Algumas nos vestem com uma penumbra
Outras nos constrangem como despidos

Que tu perdoes o salgado e sombrio
Não enjoes com o doce e azedo
Pode se machucar no quente como no frio
Tem coisas que não se cabe remendos.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Prece da criança





















Senhor,
estou muito assustado,
estão nos fazendo medo,
fico até cansado de pensar
um jeito de proibir os adultos
de matar os passarinhos,
de acabar com os rios,
de poluir os mares.
Tudo que o Senhor fez é tão bonito,
até me irrito,
quando vejo guerras dominando alguns lugares.
Quero sonhar
com uma escola feliz,
com professores sorrindo,
e uma nota que dê para passar...
É isto que sempre quis...
Ah! Quero minha família unida,
segurança para brincar na praça,
a imensa graça, de dormir,
sabendo que se há alguém na rua
vai poder voltar.
Assim seja


Ivone Boechat

Humanidade























Temos satélites, e estamos sem órbita
Temos celulares, e estamos incomunicáveis
Temos conectividade, e não temos afetividade
Dê-me um abraço pelo seu Bluetooth

Temos solidão, mas queremos o silêncio
Temos confusão, mas queremos a realidade
Temos os pecados e sua urbanidade
Temos o consumo da legitimidade

Estamos deprimidos e temos comprimidos
Pelos quartos escuros sem janelas
Com sonhos reduzidos somos oprimidos
Pelos teus ônibus e suas sequelas

Algemados, adoecidos, dominados e entorpecidos
Por contas, intensidades e novelas
Julgados, enfurecidos, amargos e entristecidos
Por contratos, atos e suas celas.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

ALMA VELHA


O tempo
Pega a alma
Da gente
Entretece
Ao redor
Uma crosta
Faz dela ostra

Vez por outra
(Excepcionalmente)
Coloca dentro
Uma pérola

(Não me iludo:
Excepcionalmente...)


Zélia Guardiano

Se eu conto o tempo?


esse tempo que mensura a vida
que mensura a morte
e demarca a existência dos entes e das coisas...

há muito tempo eu deixei de contar esse tempo

mas eu sinto que já amanheci faz tempo
que essa tarde tarda a me deixar
e a noite...
essa me espera
impaciente.


Wanda Monteiro

Os deslimites da palavra


















Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Manoel de Barros

Templário

















Amanhã!  Quero andar sobre as águas.
Quero descansar no tempo sem idades
Quero com minha funda vencer o gigante
Quero ser depois do que foi antes
Sem dispor com minha mocidade


Aonde vão meus pensamentos
Por longínquas ilhas de céu azul
Com pássaros incansáveis
Quero o suave amor superno
De tanto, tanto e eterno


Que não quero ser alcançado
Por mortais problemas humanos
Quero a Luz Divina que oriente
Os meus passos e planos
Por todo sempre e sempre


Quero mais respostas que perguntas
Com a ternura dos que me amam
Quero o espelho dos que me gostam
E seus tatos, e insolúveis apreços
Valiosos, inestimáveis e sem preço


Amanhã! Serei eu
E serei por toda vida
Por mais que o tempo como uma bebida
Mude o seu sabor.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

PLANO DE VIAGEM
















As malas
Estão prontas
Desde sempre
Encostadas
Num canto
Do meu pensamento

O mapa-múndi
Aberto
Sobre a mesa

Muitos lugares
Me chamam
(Incessantemente)
Em vão:
A viagem
Tem de ser
Para dentro


Zélia Guardiano

que agonia de sina
essa de dormir pela metade

de sono intercalado de espanto
rasgado de tempo
cansado de descanso

de sono entrecortado de assombros
espelhos do ontem de mim

de sono invadido por películas de
r
e
a
l
i
d
a
d
e
________ que escorrem
encharcando meu leito
e afogando meu sonho.


Wanda Monteiro

O verbo no infinito


















Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...


Vinicius de Moraes

Prefácio



















Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.


Manoel de Barros

Prioridades























Perfume da manhã,
colorido das flores,
milagre da vida,
principalmente, vida;
água cristalina,
multiplicidade de cores,
possibilidade de amores,
chuva chorando neblina,
amor,
principalmente, amor;
céu,
mar,
abrigo,
abraço,
amigo,
principalmente,
amigo.

Ivone Boechat

Poesia exploratória a você
















Quem alisa meus cabelos?
Quem me tira o paletó?
Quem, à noite, antes do sono,
acarinha meu corpo cansado?
Quem cuida da minha roupa?
Quem me vê sempre nos sonhos?
Quem pensa que sou o rei desta pobre criação?
Quem nunca se aborrece de ouvir minha voz?
Quem paga meu cinema, seja de dia ou de noite?
Quem calça meus sapatos e acha meus pés tão lindos?
Eu mesmo.



Millôr Fernandes

Mulher Cristã

















Há as que nasceram nesta casa,
Há as que oram como brasa.
Elas nos oram em seu ventre.
Oram pelos que são, e os que descrentes
Caminham longe do Senhor.


Suas lágrimas são conhecidas.
Mulher de Louvor! Mulher de Oração!
Desde pequeninas reconhecidas
Pelo os detalhes e pelo coração.


Suas mãos trabalham e ao Senhor se rendem
Chegam como primícias de suas famílias
Levam seus dons e seus filhos
São aconchego, ternura e mobília
São o perdão, a canção e o auxilio.


Perfumam-nos como rosas
Ensinam-nos como música ou em prosa
Em sermos servos de verdade
Em distribuirmos humanidade


Em cada assunto da Igreja
Lá está ela! Com sua beleza
Mulher valorosa e constante
No Senhor o nosso Mestre
São únicas, são diamantes.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Homenagem ao dia da Mulher Presbiteriana – Fevereiro de 2016.

LudLinda




















Brilha minha estrela! Brilha minha Linda!
Dançando com meu coração.
Se reclamando ou chorando,
Não importa.
Suas caras e bocas
Com um não tão forte e charmoso.
Ah!  Meus  sonhos seus cachinhos.
Ah! Que doces carinhos.
A Bonita do papai
Fazendo arte em qualquer parte.
Como não te amar minha princesa
Que faz meus dias ter riqueza
E não serem mais iguais


Henrique Rodrigues Soares  -  Canibais Urbanos
Aniversário da minha Ludmila Moura Soares – 14/02/2016 – 2 aninhos.

Poesia Matemática




















Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.



Millôr Fernandes

CARTA-TESTAMENTO


Na madrugada
Há palavras
Caídas
Por todo lado

Uma dor nas costas
Quando me abaixo
Para apanhá-las

(E são
Absolutamente
Necessárias:
Quero escrever
Carta-testamento

Repartir os medos
Os maus pensamentos)


Zélia Guardiano

Poética II


















Com as lágrimas do tempo
e a cal do meu dia
eu fiz o cimento
da minha poesia

e na perspectiva
da vida futura
ergui em carne viva
sua arquitetura

não sei bem se é casa
se é torre ou se é templo
(um templo sem Deus)

mas é grande e clara
pertence a seu tempo
- entrai, irmãos meus!


Vinicius de Moraes

O Instante Antes do Beijo


















Não quero o primeiro beijo:
basta-me
O instante antes do beijo. 



Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo. 


O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois. 


Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca. 



Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas'

Rios




















Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;

vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;

fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.


Amadeu Amaral
Publicado no livro Névoa (1910).

O nome do gato assegura minha vigília
















e morde meu pulso distraído
finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos
e patas emergentes. Mas onde repousa

o nome, ataque e fingimento,
estou ameaçada e repetida
e antecipada pela espreita meio adormecida
do gato que riscaste por te preceder e

perder em traços a visão contígua
de coisa que surge aos saltos
no tempo, ameaçando de morte
a própria forma ameaçada do desenho
e o gato transcrito que antes era

marca do meu rosto,  garra no meu seio.


Ana Cristina Cesar

Tratado geral das grandezas do ínfimo

















A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.


Manoel de Barros

teus olhos minguados
padecem do estio dessa tarde
o
sol
bebe
gota
a
gota
o
teu
rio
deita-te no chão da noite
colhe a chuva de teu sereno
quem sabe tu possas
chorar sobre tua madrugada
a carne orvalhada dói menos
dói menos
dói menos


Wanda Monteiro

Câmara Viajante


















Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: "Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.


Carlos Drummond de Andrade

E penso


























a face fraca do poema/ a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema/ a luz prévia
Dividida
Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.


Ana Cristina Cesar

GOTAS DE HIEL


















No me cantes: siempre queda
a tu lengua apegado
un canto: el que debió ser entregado.


No beses: siempre queda,
por maldición extraña,
el beso al que no alcanzan las entrañas.


Reza, reza que es dulce: pero sabe
que no acierta a decir tu lengua avara
el sólo Padre Nuestro que salvara.


Y no llames la muerte por clemente,
pues en las carnes de blancura inmensa,
un jirón vivo quedará que siente
la piedra que te ahoga
y el gusano voraz que te destrenza.






GOTAS DE FEL


Não cantes: sempre fica
à tua língua apegado
um canto: o que faltou ser enviado.


Não beijes: sempre fica,
por maldição estranha,
o beijo a que não chegam as entranhas.


Reza, reza que é bom; mas reconhece
que não sabes, com tua língua avara,
dizer um só Pai Nosso que salvara.


E não chames a morte de clemente,
porque, na carne que a brancura alcança,
uma beirada viva fica e sente
a pedra que te afoga
e o verme voraz que te destrança.



Gabriela Mistral - Trad. de Ruth Sylvia de Miranda Salles

Rasha

















Despertei com alma no cio
A boca seca de algo em estio
Força desembainhada no fio
Para quem quiser testar


Sonhei com a brisa e nuvens macias
Sono guardado na memória de noites e dias
Mas as pedras da asfixia
Não deixaram apagar


O amor que não bebi
A amizade que não reguei
A dívida que não contraí
A promessa que não paguei


A carta que não escrevi
As bocas que não beijei
O desejo que não traí
A verdade que não falei


O algo que não percebi
A mentira que não tramei
O perdão que não parí
A mágoa que não libertei


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Novembro 2015


Quando entre nós só havia




















uma carta certa 
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café



Ana Cristina Cesar

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...