Parada cardíaca



















Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.


Paulo Leminski

sendo


estar aqui
sendo a víscera do absurdo sem onde
apodrecendo feito fruto ferido
na gengiva suja do chão
sendo nada
mais que finito 
pungido 
punido
insólito 
sendo 
coisa

golem guardando no fosso do barro-
corpo

o sangue e o ethos da merda de tantos séculos
e os mitos despeçados

entre a cadeia existencial
e o heráclito rio contínuo do instante

frag
men
to-
me


Carlos Orfeu

O Cão Sem Plumas

Maureen Bisilliat - Espaço Húmus  


















A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.


João Cabral de Melo Neto

Do Mirante



















Metade do que tu és
É mentira
Da outra metade, revê
Do que são falas de tua mãe
Do que são ralhos de teu pai
Se és de mágoas
Já não és inteiro
Mergulha no abismo
E te encontra
E sobe como um ressurreto
E vem ver comigo daqui de cima.



Adriane Garcia

Banzo
















O que sobrou para mim
Foi uma madrugada em pedaços
O que ficou em mim
Um intenso cansaço de sono pesado


Tenho substituído coisas
Tenho comprado coisas
Que não substituem o que perdi


Não se vive sem horizontes
Quantos nascimentos e florescer
Quantos poentes querem anoitecer


As crises de idades
As disputas de vontades
Constantes como o ar
Que carinhos de saudade
Que elogios de vaidade
Para me decantar


Sou confuso e me falta fé
Para ficar de pé
O que me cala fala mais alto
E esta febre não passa...


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Marcha


As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.


Cecília Meireles

Atemporal























Se o Tempo limita-me?
Esse Tempo?
Não!

Sempre liberto-me desse Tempo que demarca o dia

Que demarca a noite
Que demarca a vida
Que represa o pensamento roubando-lhe as cores
Os sons 
As sensações 


Wanda Monteiro 

Metade


























Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


Oswaldo Montenegro

Hermético


Em minhas pradarias
não praias
desceu a espuma láctea
do cheiro melancólico de um mar,
agora distante e subterrâneo.
O seu metal dura
dura mais que qualquer uva
mais que seu trilho
mais que sua ferrugem
mais que seu calor fosco
ombro de seu lombo
eco de sua ecologia
cristalizada.
É difícil rompê-lo
tento sujá-lo, para que não brilhe
em meus ossos desertores
transformando-me na terra
que me enterra
e me protege do nu frio
do céu vertical
de mil cavalos.
Basta me acostumar,
hirsuto e fastio,
me comprimindo
no comprimido
que juntou suas fendas internas
e removeu seu ar,
transpirando,
para tomar com um copo d'água,

antes de dormir.


Lucas Alvim




M. de memória




















Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.



Paulo Leminski

Canção Final



















Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.



Carlos Drummond de Andrade

O Imigrante
















Aonde coloquei meu coração?
Meus sonhos chegam aos meus olhos
A esperança arde em meus olhos
Novas palavras vêm a minha boca
Como uma criança que mastiga
Silabicamente suas primeiras falas


Um cheiro de terra nova
Meus pés precisaram conhecer
Não faziam parte dos meus planos
Mas é a realidade que pisam meus pés
Aprender a te amar é necessário
Encontrar em ti o que perdi


É no meu lar que encontro paz
Onde está o meu lar?
Nas terras longínquas que ficaram para trás
Com o meu aroma e as minhas raízes
Com os meus alicerces e diretrizes


Onde está meu lar?
Nas novas portas abertas
Pintadas por outros que não são meus
Nas novas fronteiras e costumes obedecidos
Nas afrontas e preconceitos recebidos.



Eu vou te amar minha nova pátria
Meus filhos serão teus filhos
Seus juramentos serão meus juramentos
Casado pela gratidão da nova vida
Encoberta dor da viuvez.


Minha canção eterna
Eu não vou te esquecer
Argila do que sou feito
Pois não te serei desconhecido
Se puder te encontrar outra vez.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

18/06/2016 – Nova Iguaçu

Ventos do Leste

Fotografia do Poeta Fernando Campanella



















Com folhas de salgueiros

é como posso pagar
a vossa cortesia.
Matsuo Bashô


Esta viração de outono
me traz versos de Bashô.
Revolve memórias da terra —
aromas, pastos, rastelos —

traz também o viés da vida —
lume e cinza,
pétala ressequida.

Esta aragem nos salgueiros do leste
tocou poetas longínquos
e hoje ressoa minhas hastes —

já não sou o grande pária do mundo,
ave dispersa na serrania.

Este sopro, de mais longe,
de outros píncaros e ares,
traduz-se agora em coisas minhas,
em paisagens do quintal

(e com folhas de laranjeiras
minha vez então a pagar
por tão primaz cortesia).


Fernando Campanella

Pescador de ilusões


























Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões
Valeu a pena



Rappa - Lauro Farias / Marcelo Falcão / Marcelo Lobato / Marcelo Yuka / Xandão

Interdito





















De mãos em punho
O Passado
Chega a cada instante
E investe contra meu peito


O Passado é o murro que me açoita


A cada açoite
A face do Presente evanesce
O futuro a recolhe
Sorvendo-a
Roubando-me o Meio


O Tempo erra-me
Decreta-me
Interdito!


Sou apenas um patético corpo
Orgânico
E hipotético de uma história inacabada


Existência fadada à eternidade etérea da
memória
Povoada por fantasmas


Eu perdi meu itinerário
No interlúdio melancólico da Saudade


Wanda Monteiro

Ladainha








Pelo tempo, em que “Arruda” era uma folhinha para espantar mal olhado
Pela meia, onde antigamente, só o pé era guardado.
Pela catedral que acertou Berlusconi
Pelo dinheiro de Brasília para comprar panetone.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo carisma do Lula
Pela Dilma, que ele quer que  o eleitor engula.
Pela ponte Salvador/Itaparica
Por tanto factóide na política.
Senhor, tende piedade de nós!
Pela inexistência do mensalão
Pelo inexplicado apagão.
Por Sarney mantido no senado
Pelo castelo do deputado.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo tempo em que macho admirava mulher bela de vestido curto
Por quando  universidade ruim não era surto.
Pelo botox dos artistas
Pelas plásticas da ministra.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo maiô da primeira dama
Pelo sungão do presidente, que não vê o mar de lama
Pela inconseqüência de “los hermanos”: Chaves, Morales, Zelaia...
Para que o Brasil não caia nessa gandaia
Senhor, tende piedade de nós!
Pela insegurança pública
Pelas vítimas do SUS que sobrevivem em súplica
Pelo caos no aeroporto
Pelo ensino quase morto
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo dinheiro na Bíblia, na cueca e na pasta preta
Pelos lobistas, máfias, corruptos e tanta mutreta
Pelos grampos ilegais de telefone
Pelos devotos de Ali Babá e Al Capone
Senhor, tende piedade de nós!
Pela sapatada que não acertou Bush filho
Pelo traficante com o dedo no gatilho
Pelo voto equivocado
Pela bala perdida achando um favelado
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo lixo que infecta a música brasileira
Por tão pouca arte e tanta asneira
Pela cultura que arrisca um enfarte
Pelos verdadeiros talentos deixados à parte
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo “o cara” do Obama
Pelo esconderijo do Osama
Pelas boas intenções do Ahmadinejad
Por quem nelas acreditar
Senhor, tende piedade de nós!
Pela endêmica impunidade
Pela parlamentar imunidade
Pela crise da ética
Pelos atentados à estética
Senhor, tende piedade de nós!
Pela Bahia da propaganda oficial
Pela mediocridade real
Pelo Pelourinho abandonado
Pela “professora” com “tudo enfiado”
Senhor, tende piedade de nós!
Pela extorsiva carga tributária
Pela gastança arbitrária
Pelas privatizações do FHC
Pelos abusos do MST
Senhor, tende piedade de nós!
Pela estrada perigosa
Por quem “relaxa e goza”
Por tanta propaganda de cerveja
Pelo que não saiu na Veja
Senhor, tende piedade de nós!
Pela liberação da maconha
Pela falta de vergonha
Pela legalização do aborto
Por quem acha certo o torto
Senhor, tende piedade de nós!
Pela birita mal tomada
Pela seleção mal escalada
Pelo terceiro lugar do Rubinho
Pela batida do Nelsinho
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo prato sem ranGo
Pelo hormônio do frango
Pela bolsa esmola
Pela péssima escola
Senhor, tende piedade de nós!
Pela jogatina financeira
Pelo planeta na fogueira
Pela profusa poluição
Pela grana, que dita dos gases a emissão
Senhor, tende piedade de nós!
Pela dengue, meningite, gripe suína...
Pela passividade bovina
Por quem não gosta de política
Pela cidadania paralítica
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo carro com o som no último volume
Pela ignorância tornada costume
Pela malhação física
Pela cerebração tísica
Senhor, tende piedade de nós!
Pelos caros e péssimos serviços de telefonia
Pela fila do ferry boat e sua agonia
Pelos barracos na encosta
Por quem na sorte aposta
Senhor, tende piedade de nós!
Pela banda larga estreita
Pelo hacker à espreita
Pela agência reguladora que mal regula
Pela prestadora de (des)serviço e sua gula
Senhor, tende piedade de nós!
Tende piedade Senhor!
Senhor, piedade!

Antonio Pereira APON

Bandolins



















Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins


E como não,
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim?
Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim


Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins


Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim


E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim


Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim


Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins...



Oswaldo Montenegro

Penélope no último dia





















Esperar Ulisses
Sem fios
Esperar Ulisses quando sem mais não alcanço senão
Minha agulha
Prefiro bordar, Ulisses
Enfiar na borda o vermelho púrpura
Onde talvez se banhe, oh, não!
Achem para mim meus cabelos, escravas
Preciso tecer de loucura o furor que entre
As pernas soluça: Ulisses
Preciso aplacar o calor que mesmo agora no frio
Nua
Desfiei minhas vestes...

É muito o tempo
Todo o tecido apodreceu...


Levem-me ao mar.


Adriane Garcia
poemas do livro Fábulas para adulto perder o sono

Canção de Amor




















Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.


Joaquim Pessoa, in 'Canções de Ex-Cravo e Malviver'

Conhecimento do amor


















Se o fruto já maduro da experiência
Me deu de amor algum conhecimento,
Só sei dizer que o seu entendimento
É saber que transcende toda ciência.


Com que palavras o direi? — "Paciência"
Ou "Impaciência", "Alento" ou "Desalento".
Quereis outra palavra? "Alheamento".
Outra? "Presença" ou sua igual "Ausência".


Esquecimento de si mesmo: olvido.
Quantas vezes morri sem ter morrido,
Sem sentir ao morrer nenhuma dor.


Nem a morte é culpada de tal morte,
Até a deseja o amante em seu transporte:
Só ela é eterna como o seu amor.


Dante Milano

Tantos














Multidões com meu rosto
Com meus olhos
Com meus gestos e corpo

Perambulam na orgânica metrópole
Onde em cada desértico rosto
Me desconheço

Tantos infinitos que carrego
Tantos que me esqueço


Carlos Orfeu

Lua e Flor

























Eu amava
Como amava algum cantor
De qualquer clichê
De cabaré, de lua e flor

Eu sonhava como a feia
Na vitrine
Como carta
Que se assina em vão

Eu amava
Como amava um sonhador
Sem saber porquê
E amava ter no coração
A certeza ventilada de poesia
De que o dia, amanhece não

Eu amava
Como amava um pescador
Que se encanta mais
Com a rede que com o mar
Eu amava, como jamais poderia
Se soubesse como te encontrar


Oswaldo Montenegro


Esquinas























Nunca viro esquinas sem antes sentir-me estancada pelo vórtice deitado de seus descaminhos. Elas sempre investem suas pontas contra meu peito, empurrando-me para o vão das ruas. Como se me forçassem ao mimetismo de um reles cordeiro em busca do cheiro de seu rebanho.    Recuso o vão das ruas.
Acabo cravando as mãos no cimento frio e pontiagudo de sua divisa para encontrar – talvez - reminiscências ancestrais sepultadas pela turba de falsas civilidades.
Nada vejo.
Silenciosa, essa cegueira me faz dobrar as esquinas.
Sigo passos de assombros e sofreguidão plantados em pedras.
Pouso meus ouvidos sobre o cimento - para ouvir os ecos de um chão desnudado de cinza.
De um chão que  não sentiu sede nem fome.
De um chão molhado que engolia passos se alimentando de afetos.
Acabo ouvindo um uníssono canto que me leva à várzea de outrora.
Lá - costuro os caminhos cruzados. Componho uma terra povoada por pessoas sem pressa, conversando com magos e bruxas, modelando - na areia do tempo - seus mitos e deuses.
Nessa terra tudo se move e flui sem tempo ou relevo.
Nela, o espaço está contido no tempo e todo o tempo é senão o espaço mapeado por seus ecos.
Passado, presente e futuro são paralelos olhando-se no sumidouro de seus espelhos.
São linhas criptografadas na contínua invenção da vida. 
Espectros de memória aflorada em espasmos.
Os ecos desenham frames colados um a um.
A música reverbera faces, corpos, paisagens.
Tudo se divide e se funde no ritmo martelado de uma nostalgia que acorda ao frenético som buzinas e ranger de pneus.
A esquina é outra.  
Tudo volta a ser impalpável, etéreo, e carregado de impossibilidades.



Wanda Monteiro

Vão
















Viajo no Vão do Tempo...

Poder invisível
Indizível
Intangível

Num espaço imponderável
Demarcado por perguntas e respostas

Num duelo constante
Da mente que mente
Que Engendra o que sinto e pressinto
O que vejo e o que revejo
Que captura e revela o que parece ser

Viajo atônita
Tentando dissipar o medo e desvendar mistérios

Seguindo...
Na mais perene dúvida



Wanda Monteiro

Eu amo tudo o que foi




















Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa - 1931

Poesias Inéditas (1930-1935).  Lisboa: Ática, 1955 

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...