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Mostrando postagens de Junho, 2016

Parada cardíaca

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Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.
Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.


Paulo Leminski

sendo

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estar aqui 
sendo a víscera do absurdo sem onde
apodrecendo feito fruto ferido 
na gengiva suja do chão
sendo nada mais que finito pungido punido insólito sendo coisa

O Cão Sem Plumas

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A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.


João Cabral de Melo Neto

Do Mirante

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Metade do que tu és
É mentira
Da outra metade, revê
Do que são falas de tua mãe
Do que são ralhos de teu pai
Se és de mágoas
Já não és inteiro
Mergulha no abismo
E te encontra
E sobe como um ressurreto
E vem ver comigo daqui de cima.


Adriane Garcia

Banzo

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O que sobrou para mim Foi uma madrugada em pedaços O que ficou em mim Um intenso cansaço de sono pesado

Tenho substituído coisas Tenho comprado coisas Que não substituem o que perdi

Não se vive sem horizontes Quantos nascimentos e florescer Quantos poentes querem anoitecer

As crises de idades As disputas de vontades Constantes como o ar Que carinhos de saudade Que elogios de vaidade Para me decantar

Sou confuso e me falta fé Para ficar de pé O que me cala fala mais alto E esta febre não passa...

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Marcha

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As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquil…

Atemporal

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Se o Tempo limita-me?
Esse Tempo?
Não!

Sempre liberto-me desse Tempo que demarca o dia

Que demarca a noite
Que demarca a vida
Que represa o pensamento roubando-lhe as cores
Os sons 
As sensações 


Wanda Monteiro

Metade

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Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança …

Hermético

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Em minhas pradarias não praias desceu a espuma láctea do cheiro melancólico de um mar, agora distante e subterrâneo. O seu metal dura dura mais que qualquer uva mais que seu trilho mais que sua ferrugem mais que seu calor fosco ombro de seu lombo eco de sua ecologia cristalizada. É difícil rompê-lo tento sujá-lo, para que não brilhe em meus ossos desertores

M. de memória

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Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.


Paulo Leminski

Canção Final

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Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.


Carlos Drummond de Andrade

O Imigrante

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Aonde coloquei meu coração? Meus sonhos chegam aos meus olhos A esperança arde em meus olhos Novas palavras vêm a minha boca Como uma criança que mastiga Silabicamente suas primeiras falas

Um cheiro de terra nova Meus pés precisaram conhecer Não faziam parte dos meus planos Mas é a realidade que pisam meus pés Aprender a te amar é necessário Encontrar em ti o que perdi

É no meu lar que encontro paz Onde está o meu lar? Nas terras longínquas que ficaram para trás Com o meu aroma e as minhas raízes Com os meus alicerces e diretrizes

Onde está meu lar? Nas novas portas abertas Pintadas por outros que não são meus Nas novas fronteiras e costumes obedecidos Nas afrontas e preconceitos recebidos.


Eu vou te amar minha nova pátria Meus filhos serão teus filhos Seus juramentos serão meus juramentos Casado pela gratidão da nova vida Encoberta dor da viuvez.

Minha canção eterna Eu não vou te esquecer Argila do que sou feito Pois não te serei desconhecido Se puder te encontrar outra vez.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urb…

Ventos do Leste

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Com folhas de salgueiros
é como posso pagar a vossa cortesia. Matsuo Bashô

Esta viração de outono
me traz versos de Bashô.
Revolve memórias da terra —
aromas, pastos, rastelos —

traz também o viés da vida —
lume e cinza,
pétala ressequida.

Esta aragem nos salgueiros do leste
tocou poetas longínquos
e hoje ressoa minhas hastes —

já não sou o grande pária do mundo,
ave dispersa na serrania.

Este sopro, de mais longe,
de outros píncaros e ares,
traduz-se agora em coisas minhas,
em paisagens do quintal

(e com folhas de laranjeiras
minha vez então a pagar
por tão primaz cortesia).

Fernando Campanella

Pescador de ilusões

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Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões

Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Valeu a pena
Valeu a pena
Sou pescador de ilusões
Sou pescador de ilusões
Valeu a pena



Rappa - Lauro Far…

Interdito

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De mãos em punho
O Passado
Chega a cada instante
E investe contra meu peito


O Passado é o murro que me açoita


A cada açoite
A face do Presente evanesce
O futuro a recolhe
Sorvendo-a
Roubando-me o Meio


O Tempo erra-me
Decreta-me
Interdito!


Sou apenas um patético corpo
Orgânico
E hipotético de uma história inacabada


Existência fadada à eternidade etérea da
memória
Povoada por fantasmas


Eu perdi meu itinerário
No interlúdio melancólico da Saudade


Wanda Monteiro

Ladainha

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Pelo tempo, em que “Arruda” era uma folhinha para espantar mal olhado
Pela meia, onde antigamente, só o pé era guardado.
Pela catedral que acertou Berlusconi
Pelo dinheiro de Brasília para comprar panetone.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo carisma do Lula
Pela Dilma, que ele quer que  o eleitor engula.
Pela ponte Salvador/Itaparica
Por tanto factóide na política.
Senhor, tende piedade de nós!
Pela inexistência do mensalão
Pelo inexplicado apagão.
Por Sarney mantido no senado
Pelo castelo do deputado.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo tempo em que macho admirava mulher bela de vestido curto
Por quando  universidade ruim não era surto.
Pelo botox dos artistas
Pelas plásticas da ministra.
Senhor, tende piedade de nós!
Pelo maiô da primeira dama
Pelo sungão do presidente, que não vê o mar de lama
Pela inconseqüência de “los hermanos”: Chaves, Morales, Zelaia...
Para que o Brasil não caia nessa gandaia
Senhor, tende piedade de nós!
Pela insegurança pública
Pelas vítimas do SUS que sobr…

Bandolins

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Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins


E como não,
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim?
Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim


Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins


Como fosse um lar
Seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite
Caminhava assim


E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam a fada
Do meu botequim


Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim


Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins...



Oswaldo Montenegro

Penélope no último dia

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Esperar Ulisses Sem fios Esperar Ulisses quando sem mais não alcanço senão Minha agulha Prefiro bordar, Ulisses Enfiar na borda o vermelho púrpura Onde talvez se banhe, oh, não! Achem para mim meus cabelos, escravas Preciso tecer de loucura o furor que entre As pernas soluça: Ulisses Preciso aplacar o calor que mesmo agora no frio Nua Desfiei minhas vestes...
É muito o tempo Todo o tecido apodreceu...

Levem-me ao mar.

Adriane Garcia poemas do livro Fábulas para adulto perder o sono