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Mostrando postagens de Julho, 2017

A Partida

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Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
Aonde me leva este amor.

Dante Milano

Entre Polos

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Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada.
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim,
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata.

Fernando Campanella

O vestido

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Quero te dar um vestido com um desenho que ainda
não sei como será
Penso frutas, dragões, sereias
Fantasias que nem ainda sei bordar
Mas quero te dar um vestido, quem sabe de areia
Quem sabe de uma linha que não se saiba coser
Penso te dar um vestido bordado de ambos os lados
do querer
Nem te quero vestir
Nem quero que o vejas nem que o queiras talvez
quero te dar um vestido que a minha alma deseja.

José Carlos Capinan

Ausência

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Fala
Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Daniel Faria, in "Oxálida"

Fica

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Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.

Jane Hirshfield

Fluminense

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Nasceste desde menino como gigante.
Formaste teu caráter nas disputas
dos campos do mundo.
Nos olhos meninos teu brilho constante
do teu estandarte de lutas
que transmuta o profundo.

O futebol está na tua essência.
Nomes e nomes fizeram parte da história
construindo a trajetória
com legalidade e opulência
de tempo presente, futuro e memórias
para um olimpo de glória.

Nos gramados com suas luvas e chuteiras
nas piscinas, nas quadras com sua fidalguia
Nas arquibancadas infantes com bandeiras
as tuas cores como uma magia
nos encanta,
os cantos da torcida
nos guia
como uma energia divina.

Teu verde firme de esperança.
Teu branco livre da paz.
Teu grená em nossas veias
São cores de nossa paixão,
de nossas famílias,
de nossa nação.

Teu escudo cobrindo crianças
Tua flâmula nas mãos do rapaz
Nos anciãos,
teus embates
tornam-se enredos de épicas histórias.
Nossos cronistas,
nos debates
como gladiadores de um coliseu.

Meu Fluminense
tão imenso
e tão intenso.
Nosso Fluminense
Sempre e sempre
O Tricolor de toda gente
que o ama sem lim…

Soneto III

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Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.


Guilherme de Almeida Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 23.

As Iluminações

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Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

Lêdo Ivo
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o dia come o escuro estende solferinos
lençóis acesos

trinos na mesa
o sol no pão
simetria clara

fora do núcleo
habitual o azul
deita no terno

de musgos do
muro: fogo
em demasia

Carlos Orfeu


Grinfa

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Quero provar o gosto novo das palavras
sobre a tua boca.
Será um poema gostado:
a tua boca forma a rima cruzada.

Quero medir a terra boa do teu corpo,
também sou agrimensor.
Te dou um vestido de mãos.
Toma um cinto de abraços.

Como a gente se completa...
O corpo-duplo tem alma.
Um mais um igual a Um.

Mas não fales no AMOR.

Repara:
é uma palavra desgraçada

é uma palavra engraçada que separa.

Augusto Meyer

Encontrei-te

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Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que umdia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida q…

Alucinação

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Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
Play it cool, baby
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo …

Leito

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Pousa neste leito palavras inúteis e nunca ditas.
Pousa neste leito espíritos cansados e desinteressados.

Este leito é testemunha de discórdias e paixão desmoronada.
De mágoas ancestres
De atritos infatigáveis
e de lágrimas que não dão conta dos lenços e lençóis.

Marcamos um encontro que nunca fomos.
Sonhamos uma vida que nunca teremos.
Invejamos as estrelas que nunca serão nossas.

Me arrependi tarde demais.

O vento também nunca trouxe as promessas sussurradas...

Fatima Reis
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abre-se o velho
olho da casa

rangendo tempo
nos alicerces

violados pelo vento
gatuno que salta

para dentro do espaço
dissipando

os ossos ante-
passados


Carlos Orfeu

Parêmias

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Colho do olhar a calma mansidão
presente, sempre armada na visão.
Vejo e muito olho o lombo nas retinas de livros grossos lidos na surdina.

Eis que de estante fogem personagens
todos aqueles vistos na viagem

Na descoberta mágica do sonho
Acordado, nas lentes, um sardônico


ser, plasmado entre o medo e os meus pecados
de Sade a Nabukov degredado

lambendo em Chatterley godivas ladies
prendo lolitas dóceis nas paredes.

Madame Bovary o teu Flaubert sou seu!
Despindo as tuas vestes, teu plebeu.

Entre basílios e bentinhos sei-me Eça
Cruzado com Machado em dor expressa.

Na verdade nem Freud nem Masoch
Apenas um comum ser sem retoque.

Aníbal Beça

Tu, Vã Filosofia

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Tu, vã Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas visões do pensamento,
Turvo clarão de raciocínios tristes
Por entre sombras nos conduz, e a mente,
Rastejando a verdade, a desencanta;
Nem doloroso espírito se ilude,
Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.
Até no afortunado a vida é sonho
(Sonho, que lá no fim se verifica),
E ansioso pesadelo em mim, que a choro,
Em mim, que provo o fel da desventura,
Desde que levantei, que abri, carpindo,
Os olhos infantis à luz primeira;
Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,
E a vítima serei, e o desengano
Da suprema paixão, por ti cantada
Em versos imortais, como o princípio
Etéreo, criador, de que emanaram.

Bocage, in 'Ao Senhor Joaquim Severino Ferraz de Campos (Epístola - excerto)'

Canção do Amor-Perfeito

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Eu vi o raio de sol 
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles

Escolher

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Há você
Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la

Liberdade
Pode ser
Antes da porta.


Adriane Garcia

Melodia desentoada

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De mim o que prefiro
É o que perco pouco a pouco
No que sobre a que refiro
São estes versos roucos.

Com uma melodia desentoada
Sem métricas ou bom gosto
Na batida inconstante da toada
Que cobre do que vem ao rosto.

Nada levo do que adquiro
Do volúvel sem razão e tosco
O que sinto e respiro
São os instantes marotos e loucos.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro

Prelúdio

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Levanta-se da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.

Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.

Minhas mãos são chagas,
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…
Levanta-se da rocha a flor esmagada.

Cristovam Pavia

Contra métrica

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Não posso metrificar teus sentimentos,
há um tempo e um espaço para te amar?
Nestes quatorze degraus vou ao lugar
mesmo cansado do ar desses momentos
de subidas e descidas, ondas do mar,
(gangorra desenha fumaça em segmentos),
tuas mãos bailando aos quatro ventos
até teu coração, num frêmito, expulsar
a escrita do trigal e do teu nome, onde
deitamos e os lírios assomam teus cabelos,
amor, campina, tudo para e se esconde
e se repete amor, campina, brancos ventos,
eis a paisagem, amostra dos meus apelos
por não poder metrificar teus sentimentos!

Aníbal Beça
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há no dito
um não-dito
oculto

duplicando-se
no outro
e avizinhando-o

nessa teia
infinita da linguagem
que em nós é nada

espaço
tempo
fluxo

tece-se entre
a dupla boca
e o labirinto do discurso

o animal estrutural
feito de saliva
e desejo



Carlos Orfeu

Em Amor não há senão Enganos

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Suspiros inflamados que cantais
A tristeza com que eu vivi tão cedo;
Eu morro e não vos levo, porque hei medo
Que ao passar do Leteo vos percais.

Escritos para sempre já ficais
Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
Como exemplo de males; e eu concedo
Que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes largas esperanças
De Amor e da Fortuna (cujos danos
Alguns terão por bem-aventuranças),

Dizei-lhe que os servistes muitos anos,
E que em Fortuna tudo são mudanças,
E que em Amor não há senão enganos.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Cabeceira

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Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel nem dar a conhecer minha ternura. Faço ar de dura, muito sóbria e dura, não pergunto 'da sombra daquele beijo que farei' É inútil ficar à escuta ou manobrar a luta da adivinhação. Dito isto o livro de cabeceira cai no chão. Tua mão que desliza distraidamente? sobre a minha mão

Ana Cristina Cesar

Ato de Sonhar

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Quando te perdi... não sei? No vôo límpido Livre da borboleta? Na escrita grafite Apagada docemente pela borracha?
Só sei... que me dói! Como horas arenosas Que escaparam na ampulheta Como um palpite Rancoroso sobre lágrimas.

Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro
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às vezes
o tempo me toma de assalto
parte-me ao meio
deixa-me fronteiriça

olhos no passado
olhos no futuro
no ínfimo instante do espanto

o
presente
carregado
. de

i
m
P
o
s
s
i
b
i
l
i
d
a
d
e
s

Wanda Monteiro