Fósseis



















Desenterramos verdades e complicações
Escavamos identidades e sentimentos
Que com suas histórias nos afetam
Que com suas memórias nos arremetam
O tempo que ficaram para trás

Quantos anos foram dados a estes versos
Quantos escombros sobre os remorsos
Que ficam nítidos com as pás, espátulas,
Picaretas e pinceis trabalhando.

E os achados ganham vida
Quanto mais estavam submersos
O seu valor, a sua descoberta
Nos transmitem um regresso

De algo necessário descobrir
Para nos descobrirmos
Diante do tudo que nos vestimos
Entre o tanto de chegar e de partir.



Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Pra Dentro

Opção
















Arquitetos adotam a transparência
como regra e matéria-prima
cobrem as cidades com casas de vidro
quase tudo se sabe
de lado a lado

é livre a visão
do peito rasgado
da luz que se apaga
dois gatos à espera
papilas que exultam

(o verbo esconder resseca
as coordenadas abertas)

há até quem prefira
vender suas vestes
e assim exposto
no ventre da urbana vitrine
apenas estar
em linha reta

outros rezam
pelo final das tempestades
ou pelo tiro na testa


Alberto Bresciani

Conserto a Palavra

















Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados"

Pacificada















Que liberdade essa
De encarar a dor
De não querer mais
Curá-la
De chamá-la para uma conversa
Quase todos os dias
E dizer: - senta aí.

Quase o amor obrigatório e
Doído
Por uma parenta velha
Doente, chata e longeva
Que a gente aceitou
E que não pode mais pôr
Para fora de casa.


Adriane Garcia

Luar


















Quero ver-te banhada pela lua
Quero ver-te como lua
Simplesmente lua
Com as saliências e a beleza crua
Que a luz clareou na tua pele.

Não fique longe dos meus olhos
Não fuja minha prateada lua
De acariciar silenciosamente
A minha rua
E a minha solidão.

Quero ver o teu lado obscuro
E cair nos teus braços
Na ponta dos pés sobre os muros
Como um equilibrista no espaço.

Quero te ter cheia
Cobrir meu copo e meu corpo
Como uma farta ceia
Para meus sonhos.

Quero tua presença e teu mistério
Do folclore a realidade
Do encanto ao carinho clandestino
Da métrica claridade.

Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro

A Partida














Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
Aonde me leva este amor.


Dante Milano

Entre Polos
















Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada.
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim,
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata.

Fernando Campanella

O vestido


















Quero te dar um vestido com um desenho que ainda
não sei como será
Penso frutas, dragões, sereias
Fantasias que nem ainda sei bordar
Mas quero te dar um vestido, quem sabe de areia
Quem sabe de uma linha que não se saiba coser
Penso te dar um vestido bordado de ambos os lados
do querer
Nem te quero vestir
Nem quero que o vejas nem que o queiras talvez
quero te dar um vestido que a minha alma deseja.

José Carlos Capinan

Ausência










Fala
Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Daniel Faria, in "Oxálida"

Fica


Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.


Jane Hirshfield

Fluminense














Nasceste desde menino como gigante.
Formaste teu caráter nas disputas
dos campos do mundo.
Nos olhos meninos teu brilho constante
do teu estandarte de lutas
que transmuta o profundo.

O futebol está na tua essência.
Nomes e nomes fizeram parte da história
construindo a trajetória
com legalidade e opulência
de tempo presente, futuro e memórias
para um olimpo de glória.

Nos gramados com suas luvas e chuteiras
nas piscinas, nas quadras com sua fidalguia
Nas arquibancadas infantes com bandeiras
as tuas cores como uma magia
nos encanta,
os cantos da torcida
nos guia
como uma energia divina.

Teu verde firme de esperança.
Teu branco livre da paz.
Teu grená em nossas veias
São cores de nossa paixão,
de nossas famílias,
de nossa nação.

Teu escudo cobrindo crianças
Tua flâmula nas mãos do rapaz
Nos anciãos,
teus embates
tornam-se enredos de épicas histórias.
Nossos cronistas,
nos debates
como gladiadores de um coliseu.

Meu Fluminense
tão imenso
e tão intenso.
Nosso Fluminense
Sempre e sempre
O Tricolor de toda gente
que o ama sem limites.


Henrique Rodrigues Soares - Pra Fora/ Pra Dentro.

Soneto III






















Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.


Guilherme de Almeida
Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 23.

As Iluminações
















Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.


Lêdo Ivo












o dia come o escuro
estende solferinos
lençóis acesos

trinos na mesa
o sol no pão
simetria clara

fora do núcleo
habitual o azul
deita no terno

de musgos do
muro: fogo
em demasia

Carlos Orfeu


Grinfa













Quero provar o gosto novo das palavras
sobre a tua boca.
Será um poema gostado:
a tua boca forma a rima cruzada.

Quero medir a terra boa do teu corpo,
também sou agrimensor.
Te dou um vestido de mãos.
Toma um cinto de abraços.

Como a gente se completa...
O corpo-duplo tem alma.
Um mais um igual a Um.

Mas não fales no AMOR.

Repara:
é uma palavra desgraçada

é uma palavra engraçada que separa.


Augusto Meyer

Encontrei-te



















Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.



Joaquim Pessoa

Alucinação















Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
Play it cool, baby
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais


Belchior

Leito


















Pousa neste leito palavras inúteis e nunca ditas.
Pousa neste leito espíritos cansados e desinteressados.

Este leito é testemunha de discórdias e paixão desmoronada.
De mágoas ancestres
De atritos infatigáveis
e de lágrimas que não dão conta dos lenços e lençóis.

Marcamos um encontro que nunca fomos.
Sonhamos uma vida que nunca teremos.
Invejamos as estrelas que nunca serão nossas.

Me arrependi tarde demais.

O vento também nunca trouxe as promessas sussurradas...

Fatima Reis












abre-se o velho
olho da casa

rangendo tempo
nos alicerces

violados pelo vento
gatuno que salta

para dentro do espaço
dissipando

os ossos ante-
passados


Carlos Orfeu

Parêmias
















Colho do olhar a calma mansidão
presente, sempre armada na visão.
Vejo e muito olho o lombo nas retinas
de livros grossos lidos na surdina.

Eis que de estante fogem personagens
todos aqueles vistos na viagem

Na descoberta mágica do sonho
Acordado, nas lentes, um sardônico


ser, plasmado entre o medo e os meus pecados
de Sade a Nabukov degredado

lambendo em Chatterley godivas ladies
prendo lolitas dóceis nas paredes.

Madame Bovary o teu Flaubert sou seu!
Despindo as tuas vestes, teu plebeu.

Entre basílios e bentinhos sei-me Eça
Cruzado com Machado em dor expressa.

Na verdade nem Freud nem Masoch
Apenas um comum ser sem retoque.


Aníbal Beça

Tu, Vã Filosofia





















Tu, vã Filosofia, embora aviltes
Os crentes nas visões do pensamento,
Turvo clarão de raciocínios tristes
Por entre sombras nos conduz, e a mente,
Rastejando a verdade, a desencanta;
Nem doloroso espírito se ilude,
Se o que, dormindo, creu, crê, despertando.
Até no afortunado a vida é sonho
(Sonho, que lá no fim se verifica),
E ansioso pesadelo em mim, que a choro,
Em mim, que provo o fel da desventura,
Desde que levantei, que abri, carpindo,
Os olhos infantis à luz primeira;
Em mim, que fui, que sou de Amor o escravo,
E a vítima serei, e o desengano
Da suprema paixão, por ti cantada
Em versos imortais, como o princípio
Etéreo, criador, de que emanaram.

Bocage, in 'Ao Senhor Joaquim Severino Ferraz de Campos (Epístola - excerto)'

Canção do Amor-Perfeito



















Eu vi o raio de sol 
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles

Escolher















Há você
Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la

Liberdade
Pode ser
Antes da porta.


Adriane Garcia

Melodia desentoada











De mim o que prefiro
É o que perco pouco a pouco
No que sobre a que refiro
São estes versos roucos.

Com uma melodia desentoada
Sem métricas ou bom gosto
Na batida inconstante da toada
Que cobre do que vem ao rosto.

Nada levo do que adquiro
Do volúvel sem razão e tosco
O que sinto e respiro
São os instantes marotos e loucos.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro

Prelúdio
















Levanta-se da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.

Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.

Minhas mãos são chagas,
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…
Levanta-se da rocha a flor esmagada.


Cristovam Pavia

Contra métrica



















Não posso metrificar teus sentimentos,
há um tempo e um espaço para te amar?
Nestes quatorze degraus vou ao lugar
mesmo cansado do ar desses momentos

de subidas e descidas, ondas do mar,
(gangorra desenha fumaça em segmentos),
tuas mãos bailando aos quatro ventos
até teu coração, num frêmito, expulsar

a escrita do trigal e do teu nome, onde
deitamos e os lírios assomam teus cabelos,
amor, campina, tudo para e se esconde

e se repete amor, campina, brancos ventos,
eis a paisagem, amostra dos meus apelos
por não poder metrificar teus sentimentos!


Aníbal Beça






















há no dito
um não-dito
oculto

duplicando-se
no outro
e avizinhando-o

nessa teia
infinita da linguagem
que em nós é nada

espaço
tempo
fluxo

tece-se entre
a dupla boca
e o labirinto do discurso

o animal estrutural
feito de saliva
e desejo



Carlos Orfeu

Em Amor não há senão Enganos
























Suspiros inflamados que cantais
A tristeza com que eu vivi tão cedo;
Eu morro e não vos levo, porque hei medo
Que ao passar do Leteo vos percais.

Escritos para sempre já ficais
Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
Como exemplo de males; e eu concedo
Que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes largas esperanças
De Amor e da Fortuna (cujos danos
Alguns terão por bem-aventuranças),

Dizei-lhe que os servistes muitos anos,
E que em Fortuna tudo são mudanças,
E que em Amor não há senão enganos.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Cabeceira
























Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
'da sombra daquele beijo
que farei'
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a luta
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão


Ana Cristina Cesar

Ato de Sonhar

















Quando te perdi... não sei?
No vôo límpido
Livre da borboleta?
Na escrita grafite
Apagada docemente pela borracha?

Só sei... que me dói!
Como horas arenosas
Que escaparam na ampulheta
Como um palpite
Rancoroso sobre lágrimas.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro
















às vezes
o tempo me toma de assalto
parte-me ao meio
deixa-me fronteiriça

olhos no passado
olhos no futuro
no ínfimo instante do espanto

o
presente
carregado
. de

i
m
P
o
s
s
i
b
i
l
i
d
a
d
e
s

Wanda Monteiro

Nós - IV

Quando as folhas caírem nos caminhos, ao sentimentalismo do sol poente, nós dois iremos vagarosamente, de braços dados, como ...