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Alheio

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Às vezes
tenho o perfil de um caracol:
o dia bate à minha porta
e não desperto —

ando catando poesia
na sombra

ando cismando o universo
em espiral.

Fernando Campanella

Adeus

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Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas est…

Pátria Reformadora

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Pornográfico as leis de falso indulto Como um libidinoso conteúdo adulto Que busca o silêncio das madrugadas Ao clarear do dia os infográficos Que nas mentes controlam o influente tráfico As cortinas para informações enganadas

Reforma séria essa da providência Que coloca nos colos do divino Ou em corredores étnicos assassinos Aos que disputam a sobrevivência

Tudo agora é terceirizado Até o amor e o direito do pecado O final do produto deixou de ser sujeito Em hipóteses caracterizados Em frases que só possuem agora predicados O país que pra tudo dar-se jeito

Reforma séria essa da educação Arrancamos as luzes, já estavam queimadas Temos vagas para conformidade apropriada E para os que não têm preocupação



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Até amanhã

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Não há mais ninguém na janela
A mulher que vende os peixes
Foi dormir
Já nada espera
(Alguém foi deixando de vir
Apesar das promessas)


Há um visco lacrimal
Nos peixes de dentro
E de fora da água
O sono é um ensaio de morte

Enquanto o despertador
Não toca
A dor fica presa
No freezer.



Adriane Garcia

Cantos novos

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Diz a tarde: "Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: "Eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
.

Cantos nuevos

Dice la tarde: "¡Tengo sed de sombra!"
Dice la luna: "¡Yo, sed de luceros!"
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de e…

Síndromes

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Coloco meu sonho Ainda onde ponho O meu braço.

Onde está meu tamanho Onde vaga meu rebanho Este é o laço.

Ainda saio, me acanho Com palavras, me apanho Em visíveis fracassos.

Se a mim torno estranho Obtuso, e tacanho A caligrafia do meu traço.

No tímido assanho Um riso, me exponho Ao sutil embaraço.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Para os Amigos

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De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.

Vítor Matos e Sá, in 'Companhia Violenta'

Lugar do Sol

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Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade

Transmutar

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As vidraças balançaram
Eu estava distraída
Sentia tanto frio
Que não vi que o frio vinha

O vento disse meu nome
Avisou-me
Pegasse um casaco
E quando saí à porta
Rodou-me como aos sacos plásticos

Depois, pôs me no chão
E deu-me um beijo de folha

Uma chuva miúda caía
Como quem me trocasse de roupa.


Adriane Garcia

Morte Íntima

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Quatro sílabas viajam
no rumo de ninguém.
Quatro caladas mágoas
já sem uso em palavras.
Língua cortada, o eco
regressando à origem
que se presume oblíqua
anterior à linguagem.


A ideia segue a sílaba
em seu perecimento
mantendo-se intranquila
durante algum momento.Sejam dias ou séculos
igual será o lamento
desse ruído – som morto
cavado na laringe.


Persista embora o símbolo
constante do alfabeto
os signos não reunidos
jamais na mesma sílaba
lerão palavra idêntica
a essas duas minúsculas
outrora pronunciadas
carreando emoções mágicas.


A morte dessas sílabas
completa a do indivíduo.




Fernando Py - (de A construção e a crise, 1969)
30-05-1966

SOMOS TODOS ÍNDIOS

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Desde sempre
lá dos portugueses
dos espelhos
nos enganam
desde os engenhos de cana
nos tornamos estrangeiros
de nós mesmos
na terra que a gente ama

Desde sempre
em nome do progresso
das estradas de rodagem
do interesse econômico
que se rasgam as florestas
as famílias e as culturas
e batizam o extermínio
de Transamazônico

E os escravos fortes fogem pra cidade
firmam sua memória ainda não devastada
na aldeia urbana em meio à metrópole
são atropelados pelos canos torpes

O manifesto contra o despejo
decreta a morte coletiva:
Se for pra me tirar aqui dessa terra
me mate nela que eu ganho vida

Resistência não é ser selvagem
Desde sempre genocídio
Me atearam fogo, dormi na calçada
Deixaram-me em chamas, me chamaram índio

Marcamos a pele
Andamos em tribo
Temos nossos ritos
Somos todos índios

Alan Salgueiro

Trem Bala

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Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E, então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o Teu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abrace teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, p…

Memória

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Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Vítor Matos e Sá

Ressurreição

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Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.


Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.


Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais
Descansavam apenas um momento.


E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza dum rebento
Na seiva do poema que sonhou.




Miguel Torga - Libertação - 1944

Ressurreição

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Se somos sepulcros vazios O finito da morte nos espera Se somos sonhos tardios Dos números totais da esfera.
Contaminados pela ciência descrente Pelas formulas éticas e morais Se o meu ser e ter é crente Dos templos e catedrais
Um sepulcro no domingo vazio Trouxe-nos infinita esperança Para o vivente perdido e vadio Que nada mais esperava de suas andanças
Com seus passos e ações doentes Com seus pesares quase ficcionais Agora como um indestrutível insurgente Amparado pela fé genuína de irracionais
Que acredita na graça do Redentor que vive Ressurreto, vencedor e imortal Que espera na data que será seu limite O seu chamado no Juízo Final.



Henrique Rodrigues Soares

Páscoa

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Porque para ressuscitar um Deus
não se prescrevem datas
(o divino brota
quando se rompe couraças)


e porque os símbolos, os mitos
são do humano a ceia mais farta,
peço-vos licença, Senhor de minha estória,
para à vossa mesa sentar-me,
com minha nudez
 e toda fome de minha alma
inglória.


Fernando Campanella - Páscoa 2017.

Portas de catedral em Sexta-feira Santa

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Portas de catedral em Sexta-feira Santa,
Grandes olhos cristãos piedosamente erguidos
Para o Altar onde a Glória imorredoura canta...
Brandos violões, brandos violinos dos sentidos:


Campo-santo onde flore a imarcescível planta
Do Amor que espera sempre os beijos prometidos,
E na hora vesperal, quando o luar se levanta,
Perfume para o olfato e som para os ouvidos:


Torres de eremitério onde os dobres dos sinos
Parecem prolongar um réquiem surdo e frouxo,
Um responso de morte acompanhado de hinos:


Grandes olhos cristãos de olheiras de veludo,
Altares quaresmais enfeitados de roxo,
Benditos para sempre Onde revive tudo!


Alphonsus de Guimaraens  - de: “Câmara Ardente” (Perystilum) (1899)

Soneto XIV

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Não faço meus julgamentos pelas estrelas;
Embora conheça bem a astronomia,
Mas não para adivinhar o azar ou a sorte,
As pragas, as privações, ou as mudanças de estação;
Nem posso adivinhar o futuro próximo,
Dando a cada um a sua tormenta,
Ou dizer aos príncipes se tudo passará,
Predizendo o que apenas os céus podem trazer:
Porém, retiro a minha sabedoria de teus olhos,
E (eternas estrelas) neles entendo a sua arte,
Pois, juntos, vencerão a verdade e a beleza,
Se de teu próprio ser verteres o teu alento;
Senão, isto, eu prenunciaria:
Em ti toda a verdade e beleza findam.





Sonnets XIV

Not from the stars do I my judgement pluck,
And yet methinks I have astronomy,
But not to tell of good, or evil luck,
Of plagues, of dearths, or seasons' quality,

Nor can I fortune to brief minutes tell;
Pointing to each his thunder, rain and wind,
Or say with princes if it shall go well
By oft predict that I in heaven find.

But from thine eyes my knowledge I derive,
And constant stars in them I read such art
As truth and beaut…

Da minha aldeia

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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro

Humildade

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Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.


Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.


E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.


(E uma canção tão bela!)


Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.

Cecília Meireles