Seguidores

terça-feira, 28 de março de 2017

Nec Mergitur















A sorte, muita vez, é bem amarga.
Vai-se, corrente abaixo, sem sentir,
e eis, de repente, o passo nos embarga
um cachão de água brava a refluir.

Eis a piroga a corcovar de ilharga,
a vela a estremeer, a ir, a vir;
eis que rolou por água abaixo a carga,
eis a água pelas bordas a subir.

Mas tenhamos paciência! Ao menos esta
não sossobre aos boleus da sorte infesta,
para todo o perdido recompor;

e, se o não recompõe, ao menos, diga:
— Raivai, águas! Raivai, sorte inimiga!
exijo inteiro o meu quinhão de dor.



 Amadeu Amaral -(, de Lâmpada Antiga, 1921)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Adeus à hora da largada










Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis


Mas a vida
matou em mim essa mística esperança


Eu já não espero
sou aquele por quem se espera


Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida


Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos


Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura


Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


(Sagrada esperança)



Agostinho Neto

domingo, 26 de março de 2017

O Alfa e o Ômega


















Carregas tuas coisas
E na verdade nada tens
Elas apenas te parecem
Tuas
Teu, mesmo, é só teu consolo
De ter a ti ainda
Para que esperes que possas ter
Algo mais que outras coisas
Tu que fora de ti nada tens nem nunca terás
Tu que fora de ti nada és nem nunca serás
Tu, eterno efêmero buscante
Do que primeiro e último se chama Amor.



Adriane Garcia - O nome do mundo - ed. Armazém da cultura 2014.

sábado, 25 de março de 2017

SÓ O SOFRIMENTO NÃO SE TERCEIRIZA​
















Aquele que ativa o botão da máquina
Veste um cinza semi invisível
Só o sofrimento não se terceiriza
Pois pra cada lombo há uma chibata

Gente moendo carne de gente
Servida estragada ao chão da fábrica
Enquanto suas massas encefálicas
Eclodem de angústias quase mudas

As dores duradouras querem férias
Mas quando se institui a miséria
A uniformidade linda e bela
Faz da migalha não misericórdia

Mas ouro pra quem nada tem na horta
E antes do sol nascer também acorda
E sofre à flor da idade a sua poda
Morrendo quase no fim da jornada


Alan Salgueiro
Rascunhos de Revolução

sexta-feira, 24 de março de 2017

O Choro de África


















O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África


Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África


e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens


o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas


o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida


fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência


O choro de África e' um sintoma


Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!
E amor
e os olhos secos.



Agostinho Neto

quinta-feira, 23 de março de 2017

Há Tempos























Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
Descompasso, desperdício
Herdeiros são agora da virtude que perdemos
Há tempos tive um sonho
Não me lembro, não me lembro

Tua tristeza é tão exata
E hoje o dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso

Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito
Dissestes que se tua voz
Tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira

E há tempos nem os santos
Têm ao certo a medida da maldade
E há tempos são os jovens que adoecem
E há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção
Meu amor!

Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
Lá em casa tem um poço
Mas a água é muito limpa


Renato Russo - Legião Urbana

quarta-feira, 22 de março de 2017

Soneto XIII




















Ah, se pudesses ser quem és! Mas, amado,
Tens a vida apenas enquanto ela pertence a ti.
Deverias te preparar para um fim tão próximo,
E a outro emprestar o teu doce semblante.


Assim, se a beleza que deténs em vida
Não tiver um fim, então, viverias
Novamente após a tua morte,
Quando a tua doce prole ostentasse a tua doce forma.


Quem poderia ruir uma casa assim tão bela,
Cuja economia em honra se poderia prevenir
Contra o vento impiedoso dos dias frios,
E a estéril fúria do eterno estupor da morte?


Ó, quanto desperdício! Meu caro, sabes
Que tiveste um pai: deixa o teu filho dizer o mesmo.




Sonnets


O that you were your self, but love you are
No longer yours, than you your self here live,
Against this coming end you should prepare,
And your sweet semblance to some other give.

So should that beauty which you hold in lease
Find no determination, then you were
Your self again after your self's decease,
When your sweet issue your sweet form should bear.

Who lets so fair a house fall to decay,
Which husbandry in honour might uphold,
Against the stormy gusts of winter's day
And barren rage of death's eternal cold?

O none but unthrifts, dear my love you know,
You had a father, let your son say so.




William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta