Seguidores

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Poema



















Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?


Ivan Junqueira, in “A Sagração dos Ossos"

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Revolta


















Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.
Não trouxe mensagem
e nem deram senha…
Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora…
Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a minha memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória…

Guimarães Rosa

domingo, 28 de agosto de 2016

Nova Profissão de Fé

























O poeta já não escreve.
Sua escrita
por mais breve
ele digita.

Hoje se arrima
na frase elétrica
muito mais prática:
Adeus à rima.
Adeus à métrica.
Adeus gramática.

Como declara
ser bom poeta
na tela clara,
já não procura
a via reta
na selva escura

E de atalaia
se pôe à espreita
de uma palavra que lhe caia
na rede branca que ele deita.

Ronda noturna essa
caçada
que nunca cessa.
No fim da madrugada
ainda acessa.

Da tela branca
noite afora
por fim arranca
a sua aurora.

No fim cansado
de tanta busca
com dissabor
toca o teclado
de forma brusca.

Nada se salva
de seu labor
de poeta.
Pois nada salva
na tela alva
que ele deleta.


Ivo Barroso

sábado, 27 de agosto de 2016

Encilhar o dia




















Já sei domar o meu dia
Agitado hoje
Ele não para quieto
E relincha

.
Passo-lhe a mão no focinho
Acarinho-lhe a cara
As patas inda chutam o chão

.
Tento fazer com que seja
o mesmo inspirar expirar
da nossa respiração

.
Pronto
Calma
Subo.



.
Adriane Garcia

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Sinfonia do Lixo












Passei mal,
Não pelo voo irrequieto das moscas
ao redor do asco
da sinfonia do lixo,
mas pelo fato do lixo ser banquete
de pais, cachorros e crianças.

Mortos vivos de si mesmos,
esqueceram seus nomes,
esqueceram seus passaportes brasileiros.
Os desgraçados nunca viajaram
para além de uma torpe agonia de baques,
povoada de torpes embates.
Não jogam futebol e são chamados de craques.

Em cada fresta de osso
Em cada marca
Eu vejo a fome que se cala.
Aparências esquálidas
sustentam as olímpicas quimeras
dos hiatos das desigualdades
confirmadas
pela história
pela língua
pelo fogo de chumbo
das armas oficiais.

Acendi o cigarro imaginário
que me faz companhia.
Andei pelas vielas exauridas
de pão, sonho e poesia.
Só há excesso de cinza e sofrimento.

Chorei. Segui em frente.
Minha omissão é violência.
Gritei o berro da certeza
que sem luta
a vida segue muda
e o mundo não muda.

Passei mal pela miséria, decerto
porque o miserável refugo humano
A matéria deste meu triste canto
ficou fora do alfabeto.

Paula Beatriz Albuquerque - (Inspirado em O Bicho, de Manuel Bandeira)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A minha morte são as coisas























A minha morte são as coisas
e não poder retê-las,
é a matéria que existe
e resiste
à minha sorte,
como as estrelas.

A minha morte é a manhã
que se estende claríssima
sem temor, é este amor
de só desesperança,
como um clamor.

A minha morte é esta voz
por que a garganta enseia
e não sabe,
ela cabe
inteira nos meus olhos
que a lágrima incendeia.

Sobretudo é
esta vontade
 de chorar e ir chorando
como uma única pergunta
sem remédio:
                      até quando?  



Walmir Ayala

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Tsunamis
















Pode o que não pode ser,
Pobre a pedra de ouro.
Pode a manhã amanhã nem nascer,
Matam a alma para revender o couro.

Pode o mar não se conter,
E vir bater à sua porta.
Pode o que não pode ser:
Celebram a vida, ainda mais se aborta.

Pode tanto ser tão pouco,
Pode o que não pode ser.
Preso o pássaro solto,
Deixam a lógica aos loucos se perder.

Pode a birra virar ira,
O irmão te fira a bel-prazer.
---------------------------------,
Ah! Pode ser o que não pode ser!




Pedro Ramúcio

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Mensagem ao Poeta Carlos Drummond de Andrade



















Fazendeiro sem fazenda,
eu escuto a tua moenda
moendo a cana dolorida
de que escorre intenso caldo
com gosto de sangue e vida;
teu trigo de nuvens, alto,
contemplo, que surge em ouro
do teu brejo de lembranças,
e perscruto salso coro
de póstumas esperanças;
bebo a tua água de sede,
de todo ti me embriago,
e na tua áspera rede
me vou, me levo, me trago,
de chão e dia me esqueço:
montado no teu cavalo,
densas roças atravesso,
a longínquos ventos falo,
sobre bocas cismadoras
velhos bigodes escuto,
que percorrem as lavouras,
impondo seu estatuto;
vejo um anjo: é fel e doce,
tomou tua mão de infância
e pelo escuro te trouxe;
tua essência e circunstância
vão subindo ausente escada
de tênue casa de lua;
flor de palavra fechada
em tua alma se insinua;
rosa-cardo desabrocha
o seu perfume de espinho
no cimo da tua rocha,
destila pungente vinho
na corola de uma taça,
tingindo-a amargosamente;
pelo seu terreiro esvoaça
vôo de canto silente,
e o colhes entre teus lábios,
e a ele teu dom se mistura;
engendras teus astrolábios,
constróis teus abismos e altura,
dás olhar a escuros seres
desces a peitos opacos
e vês sombrios haveres,
letras, horas, cinzas, cacos;
compões palhadas e esteiras,
abacelas as raízes
alporcas fuscas roseiras,
estrumas cansadas terras,
cuidoso limpa os pastos,
cavalo, pensas e ferras,
voas sobre os campos vastos;
voltas, casas as camélias,
fenas e ensilas forragens,
desgalhas árvores velhas,
e os teus pés engolem viagens
para amanhares alqueires;
e regas os teus transplantes,
examinas teus alfeires,
com sábias mãos incessantes
podas, sachas e mondas,
e em cada de tuas tulhas
teus grãos de estrelas escondes,
sóis disfarçados debulhas
das mais inscientes espigas;
se penetras nas senzalas,
em seu negrume respigas
brilhos de duras opalas;
és tu a foice e a colheita
dos teus íntimos idiomas,
e indelével lua espreita
ruas de tempo em que assomas.

*

Homem de pranto sem pranto,
que soluças, do teu barro
escondido sob o manto,
vida e amor — anéis sem aro;
Homem triste de Itabira
que do galpão da memória
extrais a nublosa tira
de uma estrada merencória.
revelhas arcas exumas,
cavalgas teu submarino
dentro de argilas e brumas,
pões no bolso o raro sino
de murcho som de violetas
esferas de sumos grossos
e pélagos de ondas pretas
que comoveram teus ossos
no ontem país dos Andrade,
— colhe a voz que, há quarenta anos
mais um, te disse amizade,
e no vale dos enganos
nunca se enganou contigo,
tua voz de ouro calado,
amaridúlcido amigo!
sulcos de teu grave arado,
teu sideral moenda,
fazendeiro sem fazenda.



Abgar Renault

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pântano















A minha casa está vazia
O lar se apagou
Anteontem 
Como dizem os da Grécia
E os das Minas
Antigas
Ninguém ganha a poesia
À toa
É aquele sinal na testa
Com que você sai
Na rua
Se acham aquele objeto
Caro
Precisam ver o que é viver
Com essa coisa
Que não se vende
Por dentro o poeta é verde
Musgo
Dele escorrem algas
Se reparar bem
São úmidos
Não chame um para a sua casa
Verá que eles molham
Os tapetes.
.
Adriane Garcia

domingo, 21 de agosto de 2016

ALGÚN VESTIGIO DE TU PASO




















La dulzura de recordar el sol en la espiral del sueño
y el vano poder de haber ido tan lejos.


Es tan extraño perdurar, oír aún
la grave letanía de los huesos y el hechizo del mundo.


Déjame ver, déjame ver:
alguien me condujo hasta aquí y se oculta,


cubierto de grandes praderas, de climas,
refugios baldíos, luces que brillan


en el faro donde la tierra termina.
Salido de lugares inciertos, de trópicos y lluvias,


voraz como fuego, intruso,
la huella de sus dientes y sus besos en la manzana.


¿De quién es ese rostro desconocido entrevisto
donde se pierde? Es incierto y ansioso


extraviado en la fábula oscura de mi vida.
Adiós, sombra mía.





Em português:



A doçura de lembrar o sol na espiral do sonho
e o poder vão de ter ido tão longe.

É tão estranho perdurar, ouvir ainda
a grave ladainha dos ossos e o feitiço do mundo.

Deixe-me ver, deixe-me ver:
alguém me conduziu até aqui e se esconde,

Coberto de grandes prados, de climas,
refúgios baldios, luzes que brilham

no farol onde a terra termina.

Saído de lugares incertos, de trópicos e chuvas,

voraz como o fogo, intruso,
o vestígio de seus dentes e seus beijos na maçã.

De quem é esse rosto desconhecido pressentido
onde se perde? É incerto e ansioso

extraviado na fábula escura de mina vida.
Adeus, sombra minha.


Enrique Molina - Tradução de Antonio Miranda

sábado, 20 de agosto de 2016

Pão nosso

























Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos. 
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra 
e o comeremos. 
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera, 
será pedra, 
e o comeremos. 

Pois aceitar é o que estamos 
fazendo neste dia, pois aceitar 
é o que viemos fazendo nos dias 
que antecederam mais um, que é este dia; 
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir 
como quem come a pedra em vez do pão 
pensando o pão. 
Partindo-o, partiremos um seixo apenas. 
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo 
— comeremos.


Ivo Barroso

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Matizes

Matizes Dumont














pelas manhãs desperto
as fontes de uma
    cor
    ação
tingindo o dia de anseios

pelas tardes enfrento
o véu cigano do olhar
em ruas humanas e
claras

pelas noites guarneço
as forças do sonho
    sonar
de novos matizes de
ser


Renato Tapado

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Soneto II





















Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.


Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,

E provará ter herdado de ti toda a formosura.
Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.




Sonnets 2

When forty winters shall besiege thy brow,
And dig deep trenches in thy beauty's field,
Thy youth's proud livery so gazed on now,
Will be a tattered weed of small worth held:

Then being asked, where all thy beauty lies,
Where all the treasure of thy lusty days;
To say within thine own deep sunken eyes,
Were an all-eating shame, and thriftless praise.

How much more praise deserved thy beauty's use,
If thou couldst answer 'This fair child of mine
Shall sum my count, and make my old excuse'
Proving his beauty by succession thine.

This were to be new made when thou art old,
And see thy blood warm when thou feel'st it cold.


William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sal eterno














Corres para o que te alcanças
Descansar dá trabalho
Olha as nuvens em um breve desmaio sobre a luz que pousa sobre a nossa terra
O mar configura as almas
As águas aguardam sua sede
E eu não canso de beber-te
Aqui nasci e sei que teu sal é doçura, que tua dor tem cura
Que tipo de amor procuras?
Tens o meu e o dos meus, que, juntos aos seus, igualam ideais e cidades
Meu canto de intimidade entre o intervalo do nascer e do morrer, por ti tudo farei.
Pairo aqui, desconstruo qualquer sentimento para celebrar-te.



Carlinhos Brown

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tocando em Frente


















Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe?
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
de ser feliz.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Almir Sater e Renato Teixeira

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Aqualismo















A tristeza
É um vício
Dos peixes
Impossível estar
Atento
Para não tomar
O segundo
O terceiro e o quarto
Goles
Desta água
Verde.
*
Adriane Garcia, em Só, com peixes, editora Confraria do Vento.

domingo, 14 de agosto de 2016

Pessoas e Coisas






















Se apanho também bato
Me imponho e combato
Se de boca foi feito o trato
Comi o que estava no prato

O que senti foi o impacto
Quando consenti o diabólico pacto
Aceitei a cor do anonimato
Caçava os meus. Capitão do mato

O que recebo também reparto
Se fico também parto
O que não tive está intacto
Reduzi-me estou compacto

Deixei de ser não me abato
O que não vou ter eu rebato
O que não sou estou inapto
O que fui perdi contato

Apagou-se valores do extrato
Pessoas e coisas são contratos
Sonhos e ideias são socráticos
Ter mais que ser é prático.


 Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos