Canção amiga
















Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade















diante da nudez do horizonte
estranha-se

desdobra-se no reflexo
disforme do mundo
em repouso na angústia

diante da nudez do horizonte
chega-se ao subterrâneo de si

olhando-se
mais
a fundo

reencontra o nada
de ser


Carlos Orfeu

Poema


A minha vida é o mar o abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada


Sophia de Mello Breyner Andresen

A instabilidade das cousas do mundo























Nasce o sol e não dura mais que um dia.
Depois da luz, se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se trasfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol e na luz falta a firmeza;
Na formosura, não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza:
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos.Obra Completa.

O que Alécio vê













A voz lhe disse ( uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por seu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro - e último - da vida.

E Alécio vai e vê
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem
das pessoas na rua, o idílio
jamais extinto sob as ideologias,
a graça umbilical do nu feminino,
conversas de café, imagens
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco
para depositar-se numa folha
sobre a pedra do cais
ou para sorrir nas telas clássicas de museu
que se sabem contempladas
pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas,
ou ainda
para dispersar-se e concentrar-se
no jogo eterno das crianças.

Ai, as crianças... Para elas,
há um mirante iluminado no olhar de Alécio
e sua objetiva.
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?)
Tudo se resume numa fonte
e nas três menininhas peladas que a contemplam,
soberba, risonha, puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade,
hino matinal à criação
e a continuação do mundo em esperança.


Carlos Drummond de Andrade

A Paz



















A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais

A paz fez um mar da revolução
Invadir meu destino, a paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz

Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz

Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"


Compositores: Lucas Correa De Oliveira / Wilibaldo Neto

Intérprete: Gilberto Gil

Vinda do Oceano Revolto, a Multidão















1
Vinda do oceano revolto, a multidão, chegou suave a mim uma gota,
Sussurrando, eu te amo, antes que um dia eu morra,
Fiz uma longa viagem, para meramente te ver, te tocar,
Pois eu não podia morrer até eu te ver uma vez,
Pois eu temia poder depois te perder.


2
(Agora nos conhecemos, nos vimos, estamos seguros;
Retorne em paz ao oceano, meu amor;
Sou também parte deste oceano, meu amor – nós não estamos tão separados;
Contemple a grande curvatura – a coesão de tudo, como é perfeita!
Mas, quanto a mim, a você, o irresistível mar irá nos separar,
A hora nos carrega, distintos – mas não pode nos carregar assim para sempre;
Não seja impaciente – por um pequeno espaço – Eu te conheço, eu saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todo dia, no ocaso, por você, meu amor.)



Walt Whitman

Central do Brasil

















Desde o primeiro que chega
Desde o primeiro que parte
Vontades em pernas e braços
Passam pela gare.

Algumas ainda dormindo caladas
Mas seguem seus caminhos
Carregando o peso dos sonhos.

Produzem uma melodia
Ensurdecedora
Nas lanchonetes de cafezinhos
Nos mais apressados
No balé dos corredores
Da estação de ferro D, Pedro II

Que entre trens que chegam
E trens que partem.
Entre o Império que parte
E a República que chega
Tornou-se Central do Brasil.

Com bailarinos ensaiados
Pelos ponteiros
De um relógio pessoal.
Da valsa ao samba
Cada um no seu ritmo
Matutino ou noturnal

Sonhos descem
Ao submerso
Seguem trilhos de novo
Sonhos atravessam
As avenidas
Buscando as calçadas
Calçadas tomadas
De sonhos
E também dos que não podem dormir.

Sonhos pegam ônibus
Táxis ou urbes
Sonhos vão de VLT
Sonhos andam a pé
Para economizar
E poder ter tempo de sonhar.
E o retorno do dia
A mesma pressa
Em uma melodia mais cansada
Do compromisso firmado
De continuar a música

O dia todo sonhos chegam
E sonhos partem
Até que o silêncio ecoa
Nas suas entranhas
E podemos dormir
Para sonhar de verdade.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora/ Por Dentro




Geometria Civil























Eu tenho um corpo
feito de barro vil
mas cheio de deveres
e obediência civil.

Sou um transeunte
em dia com o código
da ética pedestre.
Não raro invento dívidas
só pelo prazer
de saldá-las, lesto,
antes do protesto.
Para depois entrar
entre os festões vermelhos,
num salão de baile
cumprimentando-me cordialmente
Exato no meu fato
azul, sob medida;
exato na cesura
de um verso alexandrino;
exato se combino
um encontro de dois,
pois chego à hora certa,
nem antes nem depois.
Exato — se procuro
te beijar no escuro
não erro a tua boca
entre os pontos cardiais
de minha geografia
amorosa;
enfim, sou tão exato
como é o número
do meu sapato.

Sofro, também, de ordem.
Da irrecorrível ordem
que aceitei por herança.
Em vão as vespas
da revolução me mordem.
Minha geometria
é uma coisa viva
feita de carne e osso.
Um ângulo quebrado
logo escorre sangue.
Todo o meu futuro
é um retângulo obscuro...

Estes meus dois braços
são linhas paralelas
que se cruzarão em viagem
para algum infinito.
A lua, esfera fria,
me ensinou, em garoto,
a riscar bolas de ouro,
sem compasso,
na aula de geometria.

Ah, eu sofro de ordem,
mas em vão;
pois não ganhei, com isso,
nenhum laurel, comenda,
ou condecoração.
E nem pertenço à Ordem
do Cruzeiro.
Pertenço — e é só — à ordem
em que estão colocadas,
no céu, as estrelas.
E à outra ordem —
a em que, no futuro,
estarão colocadas,
em redor do meu corpo,
quatro velas acesas...


Cassiano Ricardo

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR
















Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

Matilde Campilho - [in Jóquei, Tinta da China, 2014]















corto cebolas
com olhos ensopados
de águas esquecidas

a casa
há muito calou-se
sem motivo de banquete

corto cebolas
para domar o silêncio

a lâmina ceifando a vida em seiva

sinto-me como elas
talo, colo, pele
casca
raiz,
catafilos

como se partindo-me
em abas desamparáveis

Carlos Orfeu

Uma despedida















Eu que ao longo dos anos lhe cantei canções,
Parto
A haste rompeu-se
A jovem planta de ébano afunda no pântano.
Esses ventos ululam com sementes.
Hão de espalhá-las sobre o espaço aberto
Onde chuvas darão nascença a selvas.
Creio no grande dia
Que fará nossos caminhos se encontrarem:
Hei de acordar, pois, do deserto
Vendo você se aproximar com alguidares cheios d’água.
Sentaremos ao local do velho homem
Desatando os nós pela extensão da tarde,
Na fertilidade da figueira,
Na amplidão do salgueiro,
Nas savanas do antílope fugaz.


Mazisi Kunene

Tradução Adriano Moraes Migliavacca - tradução foi feita a partir do texto em inglês, que, por sua vez, é uma tradução do original zulu feita pelo próprio autor (Kunene trabalhava muito se traduzindo: frequentemente escrevia seus poemas em zulu e os traduzia para o inglês, publicando as duas versões).
Fonte: Estadão de São Paulo.

O canto de um bardo


















Sem sabor
Mastigo o meu intimo
Nestes dias escuros

Sem escolhas
Como um pobre arrimo
Para fora dos muros

Dias de mau humor
Transpiram nos passos apressados
Pelas calçadas
Dias de temor
Nos faróis cansados
Pela insegurança.

A noite chega
Em cápsulas receitadas
Por mãos descrentes
A alma cega alimenta-se
Em prateleiras abandonadas
Com livros doentes.

A criatividade
Segue o manual
De instrução
A objetividade
É animal
E sem noção

Solitários,
Altistas
E urbanos
Obituários
De artistas
Fazem-te humano

Por lágrimas
Exprimidas como espinhos
Num rosto triste
E amargo
Por páginas
Como moinhos
Que resistem
Como um bardo.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora/Por Dentro

THE UNENDING GIFT













Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti,
como outras vezes, a tristeza de
compreender que somos como um sonho.
Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo
uma coisa a mais, uma das vaidades ou
hábitos da casa; agora é ilimitada,
incessante, capaz de qualquer forma e
qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como
uma música e estará comigo até o fim.
Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)


Em español

Un pintor nos prometió un cuadro.
Ahora, en New England, se que ha muerto. Sentí
como otras veces, la tristeza y la sorpresa
de comprender que somos como un sueño.
Pensé en el hombre y en el cuadro perdidos.
(Sólo los dioses pueden prometer, porque son inmortales).
Pensé en el lugar prefijado que la tela no ocupará.
Pensé después: si estuviera ahí, sería con el
tiempo esa cosa más, una cosa, una de las
vanidades o hábitos de mi casa; ahora es
ilimitada, incesante, capaz de cualquier
forma y cualquier color y no atada a
ninguno.
Existe de algún modo. Vivirá y crecerá como una
música, y estará conmigo hasta el fin.
Gracias, Jorge Larco.
(También los hombres pueden prometer, porque
[ en la promesa hay algo inmortal).


Jorge Luís Borges - De Elogío de la Sombra, 1969 - Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques

O homem, a luta e a eternidade
















Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.


Murilo Mendes

Gargalhada















Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...

João Guimarães Rosa, em 'Magma'.

Apelo
















Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência.

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.

Miguel Torga

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente














Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.


em italiano

Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, et non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
contra colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco:

però al mio parer non li fu honore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.


Francesco Petrarca

PETRARCA, Francesco. Diz mal do amor que o feriu inesperadamente / Fala dos efeitos contrários do amor. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: JACKSON, W. M., INC. (Eds.). Tesouro da juventude: livro da poesia. São Paulo, SP: Gráfica Editora Brasileira Ltda., 1955. Vol. VI, p. 316.

Horizontes
















Pai não adianta as botas
Se tiraste minhas pernas
Num mundo de cotas
Transformo-me em percentual

Meus sonhos estão em compotas
Guardados no fundo do universo
Minhas palavras amostras
De meu cérebro convencional

Garantias em mãos agiotas
Que tiram seu futuro lucro
Perdendo ou ganhando nas apostas
Que fingem está fazendo

E nessa vida caçando propostas
Para construir um futuro
Sem perguntas e respostas
Como uma idosa cosendo

Velhas cobranças nas portas
Para o novo que vai nascendo
O novo trigo barato se exporta
Enquanto nossos campos tristes morrendo.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora/Por Dentro

Gaia Ciência



















Gosto de me iludir
pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.

Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso, encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.



Affonso Romano de Sant'Anna

Canção amiga

Eu preparo uma canção em que minha mãe se reconheça, todas as mães se reconheçam, e que fale como dois olhos...