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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

FATAL





























O amor te faz nascer
E morrer
Dez vezes por dia se ele quiser
O amor é senhor
E você sabe
Só é possível servir a um
O amor te acorda de noite
Te deixa sem sono
Te põe pra dormir, te deixa
Em coma, letárgico
O amor te dá sonhos
E tira
O amor se ri dos sonetos
De amor e gargalha e se finge
De terno, o amor
Se apresenta sério
O amor faz mistério
E entrega o jogo, se quer
O amor vai te deixar louco
Vai te fazer rouco
De gritar o amor
E aí, vai fingir estar surdo
Vai te tornar mudo
E perguntar: O quê?
O amor vai matar o seu deus
Te fazendo tão pleno
De só haver o amor
E vai sair muitas vezes
Deixando vazio o quarto
E o altar
O amor vai querer te matar
E te fazer querer morrer
E nascer
E morrer
De amor.
.
Adriane Garcia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pra Você Guardei o Amor


















Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
Explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo os meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
Explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
Explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


Nando Reis

domingo, 15 de janeiro de 2017

Realização da Vida
















Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida

- nisto que se buscara
pelas estrelas
com febre e lágrimas,
e que era a vida.


Cecília Meireles

sábado, 14 de janeiro de 2017

Sacode as nuvens


















Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Grande Pai

























Nunca foram super-heróis, por mais que tentam todos os dias a superação da autonegação de si por causa de filhos. Nos dias atuais há vários tipos de pais: pais ausentes por necessidade, e os que são por escolha; pais suficientes que cobram como se fossem, e os que são porque não enxergam seus filhos; pais fracassados pelos seus próprios pecados, e os que não conseguem atender a todos desejos de seus filhos; existem muitos outros tipos de pais.
O meu Pai foi daqueles que trabalhavam sem parar, e que só parou quando a saúde colocou nele uma pontuação. Meu Pai é daqueles que não reclama, não chora pelo tempo doado a quem nunca vai lhe poder pagar ou devolver seu tempo, seu máximo dedicado.
Meu Pai sempre nos amou por mais educados ou não que fossemos, por mais lúcidos ou tresloucados que nos comportamos. Nos amou assim, porque Pai não reproduz e abandona. Pai é aquele que abraça causas que não são suas. Pai não adota, é simplesmente como uma árvore acolhe a todos como se fossem seus frutos pendurados em seus galhos, e de sua seiva os alimenta.
Ontem, lembranças dominaram minha mente, meu Pai chegando cansado em casa com balas e doces em seus bolsos, orgulhoso dos sorrisos que transbordavam dos nossos rostos. Outros dias no seu fusca nos levando num passeio noturno, eu, meus dois irmãos de pijamas com nossa mãe, para fazer nada, comprar nada... apenas termos o prazer de estarmos com ele. O nosso Pai!

Hoje também sou pai, mas um pai que aprende todos os dias com este Pai que Deus me deu.

Que Deus abençoe todos os verdadeiros pais desta terra, os avôs que são pais e outros. E que filhos valorizem muito mais de suas presenças do que coisas que esperam receber deles.

Obrigado o Pai Eterno que está nos Céus! Obrigado Meu Pai aqui nesta Terra!


Henrique Rodrigues Soares

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Soneto










Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor



Ana Cristina Cesar

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ALGO QUE NUM VERSO CAIBA

























Hoje o congestionamento embargou os olhos
e fez da lágrima parte do trânsito
Inerte testemunha à sinfonia de buzinas
Alerta ao holofote incessante intermitente

Receia o caos diário da hora do rush
em meio ao céu cinzento relâmpago e a PEC
O fôlego que falha à moléstia do corte
Com a mão que dilacera, a seara do golpe

Como se fosse pleno pesadelo
pousa o dia inteiro
sobre o travesseiro
esse pulsar tenso de dor de cabeça

E a clausura que nos nega até as ruas
por trás dos vidros escuros
faz as faces se esconderem
dos pingos de chuva

Mas vai ter uma prece de agradecimento
no meu compêndio sobre resistência
Mas vai ter uma tese que explique o sofrimento
E a luta do momento existe em resistência

Algo que promova o alívio
mas que não seja comprimido
combatido ou confiscado
algo que num verso caiba


Alan Salgueiro

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

De Janeiro a Janeiro




















Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar
Me deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr pra não me entregar
Às loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A consequência do destino é o amor
Pra sempre vou te amar

Mas talvez, você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor, não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar


Roberta Campos - Interprete: Nando Reis

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Soneto VIII


















Doce música, por que a ouves tão triste?
Doçuras não se atacam; a alegria se rejubila;
Por que amas aquilo que não recebes efusivo,
Ou com prazer aceitas teu incômodo?


Se a harmonia de afinados sons
Bem ajustados ofendem o teu ouvido,
Docemente te repreendem, tu que confundes
As partes do que deverias suportar.


Vê como uma corda à outra unida,
São tangidas, de cada vez, mutuamente;
Assemelhando-se a pai e filho, e à feliz mãe,
Que, em uníssono, entoam um doce som;


Cujo canto inaudível, sendo muitos, soa como um,
Assim cantando para ti: “De nada valerá a tua solidão”.




Sonnets VIII

Music to hear, why hear'st thou music sadly?
Sweets with sweets war not, joy delights in joy:
Why lov'st thou that which thou receiv'st not gladly,
Or else receiv'st with pleasure thine annoy?

If the true concord of well-tuned sounds,
By unions married do offend thine ear,
They do but sweetly chide thee, who confounds
In singleness the parts that thou shouldst bear:

Mark how one string sweet husband to another,
Strikes each in each by mutual ordering;
Resembling sire, and child, and happy mother,
Who all in one, one pleasing note do sing:

Whose speechless song being many, seeming one,
Sings this to thee, 'Thou single wilt prove none'.



William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

domingo, 8 de janeiro de 2017

Fisionomia


















não é mentira 
é outra 
a dor que dói 
em mim 
é um projeto 
de passeio 
em círculo 
um malogro 
do objeto 
em foco 
a intensidade 
de luz 
de tarde 
no jardim 
é outra 
outra a dor que dói



Ana Cristina Cesar

sábado, 7 de janeiro de 2017

Neste Leito de Ausência



















Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


Ferreira Gullar

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

















Que alegria é ter-te, nuvem
Alívio de minha visão periférica
Tu, de algodão quando as arestas
São o tempo inteiro e mais algumas facas
Quis a natureza que existíssemos
E para isso inventou também nuvens
A natureza crudelíssima
Que bate e assopra
Mas tu, nuvem
Tu és minha esperança de chuva e choves
No meu dorso curvado e árido
Antes, durante e depois do deserto.
.
Adriane Garcia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Presença em Pompéia

















Esta conta não pagarás:
— ficará sob uma cinza que não sabes.


Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.


Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.


Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.


Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;
os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.


As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'água:
— a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.



Cecília Meireles

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O Sonho de uma Sombra




















A sorte dos mortais
cresce num só momento
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a sua luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

Píndaro - tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Novo Homem




















O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.


Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa'

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Soneto XXV





















O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada
canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!



Guilherme de Almeida

domingo, 1 de janeiro de 2017

Cântico VI






















Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Cecília Meireles

sábado, 31 de dezembro de 2016

Ano Novo

















Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento


Fernando Pessoa

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Deixa que o olhar...

























Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes, se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Desse amor, que minh`alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo.

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


Alphonsus de Guimaraens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Dança das Horas

























Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz…
São as horas, que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.
Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e, embora irmãs,
não se vêm, não se dão, não se parecem
as doze tecelãs!
E, de mãos dadas, confundidas quase,
no invisível sabá,
elas são silenciosas como a gaze,
ou farfalhante como o tafetá.
Frágeis: têm a estrutura inconsistente
de teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.
E, entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia,
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa, que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.
Sessenta rosas, vivas como brasas,
traz cada uma; e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer…
À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos poucos, se desfaz.
E quando as doze dançarinas, feitas
de plumas, vão recuar,
levam as frontes, claras e perfeitas,
circundadas de espinhos, a sangrar…
Assim, depois que a estranha sarabanda
na sombra se dilui,
penso, vendo o outro bando que ciranda
em torno do que fui,
que há uma alma em cada gesto e em cada passo
das horas que se vão:
pois fica a sombra de seu véu no espaço,
fica o silêncio de seus pés no chão!…

Guilherme de Almeida, 1919.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Kohelet

















Quando deixei de ser eu mesmo
E as lágrimas foram o único conforto
Naveguei pelo impreciso extremo
Sem expectativas sem porto

Não pude mais querer coisas
A juventude passou
E as páginas ficaram amarelas
A beleza são mariposas
O encanto voou
Logo a curta vida em uma procela

A tristeza tem mais alma e verdade
Do que a disfarçante alegria
Que esconde nos escombros
Rachaduras e queimaduras
Diante da sua claridade.

A tristeza tem cheiro de antiguidade
É dura, sem noites ou dias,
Não carrega nada em seus ombros
Não se embriaga em frases de ternuras
Nem em discursos de humanidade.

Me pergunto, porque o amor
Tem o hábito de revelar-se
Apenas com a perda, com a dor
Partidas em dias sem cor
Com sombrias traduções
Em melodias de labor.

Quando os sonhos acabarem
E o cansaço for mais forte do que eu
Que minhas luzes se apaguem
Como um dia se acenderam

Que seja ao me despedir
Como uma mãe que deixa seus filhos
Não porque quer
Mas por causa do inevitável partir
De que em seus olhos escureceu o brilho.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Nua






















NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
 
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pelo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
 
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
 
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.


Pablo Neruda

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Amigo



















Vamos conversar
Como dois velhos que se encontraram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.

Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens.

É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.

Mas… ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo. O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.

Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois… depois…
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.



Cora Coralina