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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Semelhanças


















Somos a mistura proibida
por termos a essência parecida,
por pertencermos ao mesmo pecado
e nos confundirmos quando postos lado a lado.
Mas, polos positivos
que se contatados
queimarão o que é direito
e se desmancharão.
Números primos de perfeito resultado.
Somos só tendência,
programação.
E esses desejos não resolvidos,
safados,
pulsantes,
bandidos,
vão se amadurando conosco a cada instante,
só nos tornando cada vez mais parecidos.


Flora Figueiredo - In Florescência

domingo, 19 de fevereiro de 2017

E por que nós?



















Dentro de todos nós
há uma casa vazia
escura ou clara
translúcida de vida e morte
cheirando memórias de tempo.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

de pranto e de paz e de luz
de risos e de tardes plenas de azul.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

quando os braços da noite
dizem das coisas vividas e
falam com olhos de menino travesso
como se caracóis e caretas de palhaço
enfeitassem nossos desenganos.

Dentre de todos nós
há sempre uma casa vazia . . .



Alvina Nunes Tzovenos

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Do último poema


















sem tantas palavras
mas uma infinidade de sensações
sem tanto adeus 
mas um para sempre
recheado de agoras 
antes a vida não era
apenas passava
agora a vida é sempre
abraço o que vier
passo quando o beijo do já
infinita a vida
saboreio o íntimo pulsar do mundo 
em lugar da triste espera
infinitei a alegria de amar
sem tantas palavras
e sem nenhuma explicação
a poesia faz morada no silêncio 
faz ninho de maravilhas na pele
depois desse poema
não te direi mais nada
as maravilhas são pássaros 
que voam na alegria de voar
enquanto o amor é o ar, o sol, o céu 
que permite voarem as maravilhas



Luiza Maciel Nogueira

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Soneto X
















Envergonha-te de negar que não ames,
Tu que és tão imprudente;
Aceita, se quiseres, ser amada por tantos,
Mas é certo que não ames ninguém;


Pois tens um ódio tão mortal,
Que apenas contra ti mesma não conspiras,
Buscando arruinar este nobre teto,
Que tanto desejas consertar:


Ah, muda teu pensamento que mudarei o meu!
Deve o ódio ter mais reservas do que o amor?
Sê como tua presença, gentil e graciosa;
Ou a ti, ao menos, te proves amável,


Sê outra pelo amor que tens por mim,
Para que a beleza continue a viver em ti.




Sonnets X

For shame deny that thou bear'st love to any
Who for thy self art so unprovident.
Grant if thou wilt, thou art beloved of many,
But that thou none lov'st is most evident:

For thou art so possessed with murd'rous hate,
That 'gainst thy self thou stick'st not to conspire,
Seeking that beauteous roof to ruinate
Which to repair should be thy chief desire:

O change thy thought, that I may change my mind,
Shall hate be fairer lodged than gentle love?
Be as thy presence is gracious and kind,
Or to thy self at least kind-hearted prove,

Make thee another self for love of me,
That beauty still may live in thine or thee.



William Shakespeare - Tradução  de Thereza Christina Rocque da Motta

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Vulcões


















Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!



Florbela Espanca

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A tua luta interior

























Se procuras aquilo que queres sentir,
Talvez encontres o que julgas ser real.
Tantas coisas que não quiseste admitir,
O que irás encontrar? O bem ou o mal?

Uma luta interior na tua prisão,
Pressiona-te, obriga-te a mudar.
Pode ser a tua ruína, teu caixão.
Assumes fantasias, para te salvar.

Então afinal quem serás tu? Mas que raio… 
Hipócrita! Lutarás contigo mesmo.
Foste tu que escreveste o teu destino.

Assume as tuas fraquezas. Não és lacaio!
Purifica-te, afasta-te do abismo.
Selaste o teu caixão. Sai desse inferno!



Vasco de Sousa

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Pergunta-me!




















Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser

se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer



Mia Couto

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

E o Vento Levou
















... em seu bojo pesado
de sóis e luas desfeitas
todas as máscaras de sonhos.

... no seu vestido cor de rosa
mais rosa que todas as rosas
a beleza branca de todas as horas.

... da ramagem crespa das folhas
folhas de ilusões
que se misturam
e tingem de gritos negros
a esperança dos que esperam.

... roubando um ar nostálgico
(ao ser o pior dos ladrões)
das manhãs poéticas
quando usam sandálias
da cor das lágrimas
da cor ao longe
dos barcos que partem.

Alvina Nunes Tzovenos - in Palavras ao Tempo

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Fotografia: Jerry Uelsmann

















o mar lateja murmúrios
depósitos de séculos
sereias de harpas poluídas
garrafas pet de escamas

espermas bóiam filhos invisíveis

um fêmur de cavalo parece leve
no ritmo azul martelando na areia
como fosse um cão de escumas e algas

o mar morde artelhos e o mergulho do atleta
e ainda sofre o abuso das gaivotas
bicando seu dorso selvagem


Carlos Orfeu

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Dualidade
















Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte.

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!



J. G. de Araujo Jorge

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Versos Simples

















Sabe, já faz tempo
Que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito

Saudade, já não sei se é
A palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito

Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo

Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples
Mas que fiz de coração


 Cassiane Silva / Richardson Maia - Chimarruts

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O Castelo


















O teu castelo é como um castelo de cartas
Como tantos que ao vento aluíram no mar.
Não lhe toques. Nada ficou por acabar.
Tal como o ergueste hás de deixá-lo quando partas.

Mesmo um friso de espuma é o princípio da morte
Que alonga pela areia o braço da maré.
Muros houve que mal estiveram de pé,
Ainda que parecendo os de uma praça forte.

A areia é eterna, o mar é eterno, eterno é o vento,
Mas eterno será também o esforço vão
De erguer castelos que bem pouco durarão
Nesta praia que só promete esquecimento.


Ribeiro Couto - In: Longe

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Idades


















No início,
eu queria um instante
A flor.
...Depois,
nem a eternidade me bastava.
E desejava a vertigem do incêndio partilhado.
O fruto.
Agora,
quero apenas
o que havia antes de haver a vida
A semente.



Mia Couto

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Três Coisas



















Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.
A morte será o escuro?
Em teu olhar me procuro.



Paulo Mendes Campos

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Soneto IX
















É por medo de causares pranto a uma viúva
Que despendes a vida como solteiro?
Ah, se morreres sem deixar um herdeiro,
O mundo te lamentará como uma esposa estéril;


Deixarás enviuvar o mundo, que ainda lamentará
Não teres legado a ninguém a tua semelhança,
Como cada viúva mantém, em memória,
Nos olhos dos filhos, as feições do marido.


Vê que desperdício há no mundo
Mudando senão de lugar, e ainda lhe aproveita;
Mas o desperdício da beleza aqui termina,
E sem uso, seu beneficiário a destrói.


Esse peito não tem amor pela humanidade
E a si mesmo lança em vergonha mortal.




Sonnets IX

Is it for fear to wet a widow's eye,
That thou consum'st thy self in single life?
Ah, if thou issueless shalt hap to die,
The world will wail thee like a makeless wife,

The world will be thy widow and still weep,
That thou no form of thee hast left behind,
When every private widow well may keep,
By children's eyes, her husband's shape in mind:

Look what an unthrift in the world doth spend
Shifts but his place, for still the world enjoys it;
But beauty's waste hath in the world an end,
And kept unused the user so destroys it:

No love toward others in that bosom sits
That on himself such murd'rous shame commits.



William Shakespeare


domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Dia


















Das profundezas da tarde vem o dia em que se vive eternamente
igual à água múrmura entre os rochedos
onde se ocultam na antemanhã os peixes perseguidos pelos
homens.

Não se percebe o outro dia melodioso lá fora
nas perspectivas dos arranha-céus, nos cinemas e no trânsito.
A hora tem uma espessura de segredo guardado
e as gargantas de onde as sedes emigraram
suplicam apenas o que sobrou do frio e do sono.

As imprecações dormem no ar, com uma resistência de anjos,
e as doçuras se desfiguram numa ilusão de joelhos fendidos
n'água

como se os corpos sentissem que o tempo foi embora.
A vida, liberta dos vocabulários eventuais, festeja-se sem
memória

no espírito acorrentado a um infinito agora
eternamente presente como o oceano nas praias.


Lêdo Ivo - Cântico, 1949.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Buscando Horizontes













E o tempo me falou
em subir escadas
e lá em cima
encontrar entre cismas
o almejado.

E o tempo me ensinou
a colher flores expressivas
sem espinhos.

E o tempo
silenciando minha voz
tapando meus olhos
me ensinou a falar.

A falar que o sonho emudece
e a ensinar-me
que entre as rosas
eu encontraria verdes espinhos


Alvina Nunes Tzovenos - in Palavras ao Tempo

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Versos de Orgulho

























O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além …
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
__O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
__São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.



Florbela Espanca

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Nunca são as coisas mais simples




















Nunca são as coisas mais simples
que aparecem quando as esperamos.
O que é mais simples, como o amor,
ou o mais evidente dos sorrisos,
não se encontra no curso previsível da vida.

Porém, se nos distraímos do calendário,
ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras.

Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar;
ou a mão que se demora no teu ombro,
forçando uma aproximação dos lábios.



Nuno Júdice

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A Graça Triste
















Só me resta agora
Esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.
Ouço agora o rumor
Das raízes da noite,
Também o das formigas
Imensas, numerosas,
Que estão, todas, corroendo
As rosas e as espigas.

Sou um ramo seco
Onde duas palavras
Gorjeiam. Mais nada.
E sei que já não ouves
Estas vãs palavras.
Um universo espesso
Dói em mim com raízes
De tristeza e alegria.
Mas só lhe vejo a face
Da noite e a do dia.

Não te dei o desgosto
De ter partido antes.
Não te gelei o lábio
Com o frio do meu rosto.
O destino foi sábio:
Entre a dor de quem parte
E a maior — de quem fica —
Deu-me a que, por mais longa,
Eu não quisera dar-te.

Que me importa saber
Se por trás das estrelas
haverá outros mundos
Ou se cada uma delas
É uma luz ou um charco?
O universo, em arco,
Cintila, alto e complexo.
E em meio disso tudo
E de todos os sóis,
Diurnos, ou noturnos,
Só uma coisa existe.

É esta graça triste
De te haver esperado
Adormecer primeiro.

É uma lápide negra
Sobre a qual, dia e noite,
Brilha uma chama verde.



Cassiano Ricardo