Nós - IV















Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.



Guilherme de Almeida

Amo-te














Amo-te.

E é tão sublime este amor, que me faz pensar que nada sou sem ti.

Amo-te.

E a distância leva num sopro
A ternura tanta que guardo em mim, para ti.

Amo-te.

E enquanto o som da sua música dormir em meu peito,
Meus braços abrigarão teu sono de menino.

Amo-te.

Quieto como um pescador a recolher seus anzóis....


Fatima Reis

Cavaleiros da Ordem dos Templários















Juraste sem medo
Servir tuas ordens
Honrar tua farda e teus dogmas
Libertar a terra sagrada
De deus.
Que deus? Que deus?

Carrega todo peso
Todo fardo
De tua missão
Carregado de bravura
E toda coragem
E toda montagem
De sua armadura.
Carregado de medo
Impondo o medo
Com pisadas firmes
Para o encontrão da peleja.

Das cruzes de morte
Nas bandeiras da legião
De uma idade média.
Caveiras veste preto
De morte
Para manter a média
E tornar-se solução.

Os inimigos com seus deuses
Maltrapilhos em seus ombros
Atravessados que cospem morte
E derramam sangue
De meninos que virarão estatísticas.
Nos pescoços cordões
Em forma de correntes
Que parecem medalhas
Ostentando poder.

Tiros e tiros
Assassinam o silêncio das ruas
Vazias de sonhos
E de céus estrelados.
Sarracenos
Defendem de pé
A fé
Dos seus patrões
E a farinha de ovos de ouro
Que paga as contas
Dos deuses do morro.

Os nobres de seus castelos
Multimídia e ao vivo
Com seus olhos observam
Caveiras que sobem
E corpos que caem.



Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora/Por Dentro

Desejo























Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só' por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse d'inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como d'harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!


Casimiro de Abreu























Ao mesmo tempo que um grito
É universal
Um grito é algo inaudível

É de surdez que morremos
E matamos
Linguagem alguma suficiente
Para nos salvar

Gritamos
No fundo invisível do poço
Também ninguém vê

Um dia
Finalmente
(Oh, paz!)
Silenciamos.

.


Adriane Garcia

Cruzadas


















A cidade sagrada
De cada um
É violada...
Acuada...
Atacada!

Homens com suas armaduras
Empunhando símbolos e brasões
Sobem e descem ladeiras,
Ruas e escadarias,
Que são caminhos por onde
Passa todo tipo de esperança.

Metal vil metal.
O que está em disputa?
Qual verdade será válida?
Quem é o alvo?
Escudos motorizados para o mal
Entram e sai bufando atrás do
Que foi perdido muito antes.
O luto dirigível dos Caveirões
Não é mais novidade.

Nós matamos e colocamos cruzes
Ainda somos cristãos!
Via dolorosa
Vida dolorosa.
Quantos Cristos ainda mataremos?
São apenas judeus
Que resistem todos os dias.

A Palestina é aqui.
Gaza é aqui.
E ainda queremos paz
A paz que se faz
Com suas ordens e seus canhões,
Com canetas e ocupações.

“Jerusalém! Jerusalém!”
Com seu Cristo de braços abertos
Que de sempre bem perto
Está dos que vão ao seu encontro.

 Rio! Rio de lágrimas!
De futuro sombrio e incerto
Entre templários e sarracenos
Que perderam sua fé
Na luta sem vencedores
E de perdas sagradas.




Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora/ Por Dentro.

NO MEIO DO TIROTEIO

















No meio do tiroteio
o alvo tem forma de teia
Eu caminho como aranha
no equilíbrio em corda bamba

A bala que se aloja é feita de palavra
e as rajadas vêm de todos os lados
Aos ouvidos cada grito é um surto
Como um anúncio de tudo ao mesmo tempo

Quem dera apenas os motores berrassem barulho
e o meu escapismo se aquietasse de alento
Quem sabe um dia a fuga afugente o mundo
E eu possa por uns dias morar no silêncio

No meio do tiroteio se enfrenta a carga
O fogo se ateia em cabeça de fósforo
Afago já não tenho nem mais do horóscopo
Os tempos são difíceis pra quem é de água

Quem dera fossem os pássaros que me falassem
E o som do vento arfante abrande os meus anseios
E a serenidade amena me imunize
Pra eu sair intacto do tiroteio




Alan Salgueiro

O nome do poeta


















Se eu tivesse o teu nome
e não o meu nome apenas
escreveria não um,
mas muitos outros poemas

Procurava outras letras
misturava-as com magia
e com elas construía
palavras para dizer
que não escrevo por escrever
nem se o que escrevo é poesia
mas sei que em tudo o que escrevo
está o que sinto, o que sou
é assim que eu me dou
de outro modo não escrevia

Mesmo parecido com o teu
tenho um nome que é só meu
é com ele que eu assino
os versos que gosto e faço
e deixo por onde passo

Se eu tivesse o teu nome
e não o meu nome apenas
não escrevia como eu escrevo
frases simples e pequenas
para falar de flores
lilases, rosas e amores
dos perfeitos e dos outros
e do alecrim aos molhos

Das lágrimas de canto e pranto
do encanto e do prazer
que sinto quando leio
o que acabo de escrever
com o meu nome apenas


Fernanda Lopes

Fragmentos - 3



















O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano.



Vladimir Maiakovski

Nós II
























Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário
ouvindo o canto que daqui se evola
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto.



Guilherme de Almeida

Pátria


















A Pátria não é apenas
Um corpo de bailador.
Não são duas mãos morenas
Nem mesmo um beijo de amor
Mais do que os livros que lemos,
Mais que os amigos que temos,
Mais até que a mocidade,
A Pátria, realidade,
Vive em nós, porque vivemos.



Pedro Homem de Mello, in "Eu Hei-de Voltar um Dia"

Fragmentos - 2














Passa da uma 
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama.


Vladimir Mayakovsky

















sede é como um rugido de rio
encontrando a margem da garganta

sede é peixe uterino
no oceano do corpo

visto por fora
despido no espelho
visível deserto de assombros

sede é a possibilidade de romper
o naufrágio e a adejar na superfície



Carlos Orfeu - Poema do livro (In)visíveis Cotidianos

Exílio

















Quando a pátria que temos não a temos 
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades



Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'

Nós - I


















Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!



Guilherme de Almeida















Fazer poesia
não é costurar lantejoulas
num pano,
ou colar pedaços
quebrados de espelho
ou mesmo enfeitar
os cabelos com flores.
Fazer poesia é andar
a esmo
em busca de um poço
onde se debruçar
enquanto o mundo
ruge e se desfaz.
Fazer poesia é carregar
o mundo entre os braços,
seus estilhaços.


Roseana Murray

Soneto XXIV

















Meus olhos brincaram de pintar-te, e lançaram
A forma de tua beleza sobre a tela do meu coração;
Meu corpo é a moldura onde está contida,
E a perspectiva é a melhor arte do pintor;


Pois através do artista deves constatar seu talento
Para perceber onde está tua verdadeira imagem retratada,
Que, no espaço dentro do peito ainda está dependurada,
Onde teus olhos são janelas lustradas.

Agora vê que bem fizeram mudar de olhos:
Os meus desenharam a tua forma, e os teus para mim
São as janelas em meu peito, por onde o sol
Deleita-se em admirar, vendo-te dentro de mim.

Embora os olhos queiram exibir a sua arte –
Pintam só o que vêem, sem conhecer o coração.



Sonnets


Mine eye hath played the painter and hath stelled,
Thy beauty's form in table of my heart,
My body is the frame wherein 'tis held,
And perspective it is best painter's art.

For through the painter must you see his skill,
To find where your true image pictured lies,
Which in my bosom's shop is hanging still,
That hath his windows glazed with thine eyes:

Now see what good turns eyes for eyes have done,
Mine eyes have drawn thy shape, and thine for me
Are windows to my breast, where-through the sun
Delights to peep, to gaze therein on thee;

Yet eyes this cunning want to grace their art,
They draw but what they see, know not the heart.

William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Sobrado da Rua do Trapiche

Meninos soltando pipas - Cândido Portinari


















Nem o musgo é capaz de trespassar
a angústia
que os cômodos vazios exalam
ou mesmo as roupas penduradas
na sacada
disputando luz com insetos
e lamúrias.
Ali o tempo se encanta
em fermentar o ócio
de tudo o que se move e ainda pulsa.
A vida só espera um pouco
nos meninos que soltam papagaios.


Lenita Estrela de Sá

Nossa Pátria














Soldados e estudantes marcham 
numa demonstração de ardor patriota.
O toque da Independência negociada
arrepia nossa pele.
Nossas fronteiras abertas para 
novas entradas e novas missões.
A nossa Educação tombada
pelos jesuítas e tradições.

Com data de validade vencida 
Nossa identidade descaracterizada e perdida
por anos de violação.
Da terra amada e querida
somos uma nacionalidade construída
em latifúndios de cartas de doação.

Que terra consome seus filhos?
Índios, indígenas, nativos e indigentes
nômades, caçadores e coletores
selvagens e maltrapilhos,
somos gente sem ser gente.

O nosso sol de justiça tem brilho diferente
tem olhos que mais do que cor
enxerga nos cobres e pobres
toda sua esfera de ação.
Açoita a pele do negro, pardo e mulato
nos morros partidos por facções
com a força de uma cega demonstração
como o agir de um nobre
que a espada vale mais que a multidão.

Somos cabanos, favelados e urbanos.
Que nossa bandeira nos cubra 
 e esconda nossas vergonhas.
Que cubras nossos filhos nas ruas.
Que cubra nossa falta de tudo.
Que cubra nossas estranhas
formas de ser brasileiro.

Pátria de desempregados
Filas e filas que marcham 
sem destino ou esperança.
Negreiros atravessam
os Atlânticos todos os dias.
Seus ofícios, almas, mais que valia
vendidos nos transportes coletivos
e buscam motivos
para acordar outra manhã.

Direitos caçados
como nossos animais em extinção.
Nossos bosques estão sem vida
ocupados por mineradoras e tratores.
Elegemos as indicações
dos nossos Senhores
como bons cidadãos.

Moramos no que sobramos
no abandono do campo ou dos morros,
nas periferias ou nos entornos,
nas palafitas ou nas ruas
iluminados pela lua, 
os pombais suburbanos.

Marchemos, marchemos!
Nem que nossas pernas Temerm!
Pois gostamos de ser brasileiros
e "não desistimos nunca"
das nossas senzalas e nossas mazelas
das nossas danças e nossa camisa amarela.


Henrique Rodrigues Soares - Pra Fora/ Por Dentro - 07 de setembro de 2017.

Nós - III



















Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dôr num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

- É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perde-lo.


Guilherme de Almeida

Nós - IV

Quando as folhas caírem nos caminhos, ao sentimentalismo do sol poente, nós dois iremos vagarosamente, de braços dados, como ...