Poética


















Alguma palavra,
este cavalo que me vestia como um cetro,
algum vômito tardio modela o verso.
Certa forma se conhece nas infinitas,
a fauna guerreira, a lua fria
encrustada na fria atenção.
Onde era nuvem
sabemos a geometria da alma, a vontade
consumida em pó e devaneio.
E recuamos sempre, petrificados,
com a metafísica
nos dentes: o feto
fixado
entre a náusea e o lençol.
Meu poema me contempla horrorizado.


Cacaso - Rio, 1965
Publicado no livro “A palavra cerzida”, de 1967)

Satélite














Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
– Satélite.



Manuel Bandeira

Morte e Vida Severina
















— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.


João Cabral de Melo Neto

Maçã



















Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino.

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.



Manuel Bandeira

Ou Isto ou Aquilo
























Ou se tem chuva e não se tem sol 
ou se tem sol e não se tem chuva! 

Ou se calça a luva e não se põe o anel, 
ou se põe o anel e não se calça a luva! 

Quem sobe nos ares não fica no chão, 
quem fica no chão não sobe nos ares. 

É uma grande pena que não se possa 
estar ao mesmo tempo em dois lugares! 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, 
ou compro o doce e gasto o dinheiro. 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . . 
e vivo escolhendo o dia inteiro! 

Não sei se brinco, não sei se estudo, 
se saio correndo ou fico tranqüilo. 

Mas não consegui entender ainda 
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Cecília Meireles

O Girassol



















Sempre que o sol 
Pinta de anil 
Todo o céu 
O girassol 
Fica um gentil 
Carrossel. 

O girassol é o carrossel das abelhas. 

Pretas e vermelhas 
Ali ficam elas 
Brincando, fedelhas 
Nas pétalas amarelas. 

— Vamos brincar de carrossel, pessoal? 

— "Roda, roda, carrossel 
Roda, roda, rodador 
Vai rodando, dando mel 
Vai rodando, dando flor". 

— Marimbondo não pode ir que é bicho mau! 
— Besouro é muito pesado! 
— Borboleta tem que fingir de borboleta na 
entrada! 
— Dona Cigarra fica tocando seu realejo! 

— "Roda, roda, carrossel 
Gira, gira, girassol 
Redondinho como o céu 
Marelinho como o sol". 

E o girassol vai girando dia afora . . . 

O girassol é o carrossel das abelhas.


Vinícius de Moraes

Convite














Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia?


José Paulo Paes

Quando as crianças brincam




















Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.



Fernando Pessoa  - 5-9-1933

Pular corda


















Se pudesse o menino pularia
corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
da Terra
para sempre e sempre
saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
fina

e o menino vai até a cozinha
fritar ideias


Roseana Murray


O Menino Azul























O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


 Cecília Meireles

Ao jardim, o mundo












Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,
Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,
O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,
Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;
Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,
Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;
Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;
Existindo, eu perscruto e penetro ainda,
Contente com o presente – contente com o passado,
Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,
Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.


To the Garden the World

To the garden, the world, anew ascending,
Potent mates, daughters, sons, preluding,
The love, the life of their bodies, meaning and being,
Curious, here behold my resurrection, after slumber;
The revolving cycles, in their wide sweep, have brought me again,
Amorous, mature—all beautiful to me—all wondrous;
My limbs, and the quivering fire that ever plays through them, for reasons, most wondrous;
Existing, I peer and penetrate still,
Content with the present—content with the past,
By my side, or back of me, Eve following,
Or in front, and I following her just the same.


Walt Whitman

Mercado Central














Cheiro de cravo que de menina trago
meu pai me leva pela mão entre vozes e verduras
a paisagem profusa e pulsante do mercado me
encanta
brinco com as formas que vejo sob camapus
maduros: fruto e tecido,
joia imaginária que reincorporo na boca
- delicioso exercício de existir,
atávica lembrança de enfeitar-se.
Meu pai comprando maxixe, sapotis e carambolas.
Travessa, surpreendo-me na banca de temperos
onde as, mulheres se confundem com alimento.
Eu entro elas - me ouvindo.


Lenita Estrela de Sá

Uma Faca só Lâmina













Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.


João Cabral de Melo Neto

´Poemeto Irônico

















O que tu chamas tua paixão,
É tão somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade…

Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.

Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.

Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios…

Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento…

E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências…
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.

E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade…
O que tu chamas tua paixão
É tão-somente curiosidade.



Manuel Bandeira

A pedidos















Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.


Flora Figueiredo

Fragmentos - 4
















Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo.


Vladimir Maiakovski

Meus olhos estão cansados de morrer














Meus olhos
estão cansados
de morrer.

E morrem abertos
anestesiados de um ai profundo.

Eles sabem
que no fundo de cada alma
há sempre um abismo novo
que compete com o abismo do outro,
e que, somados,
são o abismo de um povo.

Meus olhos sentem
as farpas,
as farsas,
as fissuras
da estrutura dos mundos.

Eles se banham silentes,
face a indiferença de muitos.
Mas morrem de pé
como quem se recusa a quedar-se.

Morrem eretos,
como quem
nem mesmo ante a morte se curva.
Pois sabem enxergar o sol
nas profundezas mais turvas.

Nara Rúbia Ribeiro

Promessa de uma noite
















cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se

ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

Mia Couto - No livro “Raiz de orvalho e outros poema”

O rio

"Céu Estrelado Sobre o Rio Rohne" - Vincent van Gogh



















Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.


Manuel Bandeira

O mal e o sofrimento













Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

Poética

Alguma palavra, este cavalo que me vestia como um cetro, algum vômito tardio modela o verso. Certa forma ...