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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

QUE NÃO HAJA NADA QUE NOS ACONTEÇA

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Quem é que dá as cartas: É a própria natureza O que o sistema nos oferta Aqueles que nos governam Quem é que dita as regras?
Quem é que determina Quem é que monitora quando a cidade pára quando o povo perde a hora
A força estática versus o caminho alternativo Os atalhos onde ainda não se instala o caos urbano Onde não há rios transbordados Transpassa-se uma carta da manga
Mas a manga já está encharcada Manda alguém ligar pra comunicar o atraso Terá mais alguém ilhado? Já chegaram no trabalho? Eu parado, dois de paus, só olho
O desespero A sirene dos bombeiros Barricada em via expressa O vidro que embaça e o suor da janelas fechadas A frase que mais ouço "Tá tudo parado!"
Nos emparelham Nos emparedam Nos embaralham Somos meros naipes nas mesmas manchetes em que as autoridades declaram nunca terem visto esse níveis pluviométricos
que não haviam testemunhado antes cenas tão dantescas nunca é culpa deles
Jogo de revolta e paciência Observo os quase submersos não há trunfo …

POESIA-BOMBA

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Poesia que não cabe em seu formato transborda de tão farta
Transpassa sorrateiro meu poema pois quer virar roteiro de cinema Inspirar o quadro ou quiçá a peça Poesia que convence na conversa
O drama do teatro O riso do stand-up Poesia se replica Pula que nem pipoca Poesia de interfaces
Poesia voa Pomba branca em indícios se desfaz Poesia de resquícios de amor e paz
O granito que compõe o piso O granizo que advém da chuva Argumento pra compor a música Qualquer mera pedra brusca
Estilhaços de granada Não machuca Chega e dança Poesia-Bomba!


Alan Salgueiro

A concha

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Talvez não precises de mim,
Noite; da mundial voragem
Tal como a concha sem pérolas,
A tua margem fui lançado.
Tu espumas as ondas com indiferença
E cantas com teimosia,
Mas terás apreço, amarás
Da concha a inútil mentira.
Ao seu lado deitarás na areia,
Com sua casula te vestirás,
Um indestrutível e grande sino
Com ela na marola erguerás.
E as paredes da frágil concha,
Como a casa de vazio coração
Encherás com os sussurros da espuma,
Com a chuva, o vento e a bruma... 1911
Em Russo: Раковина
Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.
Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь;
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.
Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей;
И хрупкой раковины стены,
Как нежилого сердца дом,
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем... 1911

dEsEnrEdoS, ano II, número 04, Teresina – Piauí, janeiro fevereiro março 2010, p. 4. …

Soneto das Alturas

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As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.
Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.
Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.
E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.

Lêdo Ivo, in "Acontecimento do Soneto", 1948.

Integral

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Por um segundo, apenas, não ser eu: 
Ser bicho, pedra, sol ou outro homem,
Deixar de ver o mundo desta altura,
Pesar o mais e o menos doutra vida.
Por um segundo, apenas, outros olhos,
Outra forma de ser e de pensar,
Esquecer quanto conheço, e da memória
Nada ficar, nem mesmo ser perdida.
Por um segundo, apenas, outra sombra,
Outro perfil no muro que separa,
Gritar com outra voz outra amargura,
Trocar por morte a morte prometida.
Por um segundo, apenas, encontrar
Mudado no teu corpo este meu corpo,
Por um segundo, apenas, e não mais:
Por mais te desejar, já conhecida.

José Saramago, em "Os Poemas Possíveis", 1966.

Sotaque da terra

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Estas pedras 
sonham ser casa
sei
porque falo
a língua do chão
nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico
agora,
ouço em mim
o sotaque da terra
e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol

Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas", 1999.

Da eternidade

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Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.

Thiago de Mello (Santiago, 93) Do livro ‘De uma vez por todas, (1996)’, reunido em "Melhores poemas Thiago de Mello”. [Seleção Marcos Frederico Krüger Aleixo], São Paulo: Global Editora, 2009.

Monólogo

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Há restos de tempos. . .
folhas soltas aos ventos
aos luares despertos. Há restos de tempos. . .
noites lúgubres.
. . . momentos aos cantares da vida. Há restos de tempos. . .
perdidos nos templos
das memórias aos sonhos. Há restos de tempos.
em mim,
desfolhados, molhados.
. . . céus de chuvas sobre folhas
amarelas, esquecidas deformadas.

Alvina Tzovenos

De como a terra e o homem se unem

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Fica a terra, passa o arado,
mas o homem se desgasta;
sangra o campo, pasce o gado,
brota o vento de outro lado
e a semente também brota.


Fica a terra, passa o arado
e o trabalho é o que nos passa,
como nome, como herança;
fica a terra, a noite passa.


A semente nos consome,
mas a terra se desgasta.


2.
Que será do novo homem
sobre a terra que vergasta ?
Sangra a terra, pasce o gado
e o trabalho é o que nos passa.


Vem o sol e cava a terra;
a semente é como espada.
Há uma noite que nos gera
quando a noite é dissipada.


Vem a noite e cava a terra;
vem a noite, é madrugada.


3.
O homem se desgasta,
sopro misturado
ao sopro rijo do arado.
Vai cavando.


Madrugada sai da terra,
como um corpo se entreabre
para o orvalho e para o trigo.


O homem vai cavando,
vai cavando a madrugada.



Carlos Nejar

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

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Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


Sophia de Mello Breyner Andresen

Fenômenos pluviais

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Esperei... Esperei por ti! Saudades...  Que saudades senti. Saudades profundas do teu carinho De tua presença Tua ausência Teu estio Causou erosão no meu peito.

Quando chegaste pela noite Teus toques miúdos pela terra O cheiro de tuas carícias Subiram pelas minhas narinas

Os meus lábios estavam cinzentos O meu idioma estava sem palavras Molhaste como unguentos Os meus cortes, as minhas dores.

Trazendo esperança, trazendo cores. Trazendo cheiro e sabores Na tua chegada como bagagem A poesia voltou de sua longa viagem.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio 19/10/2014.

TANTO TEMPO QUE NÃO VEJO CHUVA

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Tanto tempo que não vejo chuva
que me dá até angústia
Parece que as gotas só saltam
de precipícios rasos
dos nossos suores, dos nossos olhares
e secam de imediato ao tocar o asfalto

Tanto tempo que não vejo poça
nem a moça nem a cabeça com o balde
Tanto tempo que faz eco o poço
Tanto tempo que não molho o passo
que não vejo lama nem o barro
nem a vaca nem o carro atolado
E a represa vazia, acabou-se
e o rio de areia
e o chuveiro e a cachoeira
chorando à conta-gotas
Quanta boca seca
Saliva engolida
Nem banho de bica
Piscina ou mangueira
Tá virando coisa rara
artigo de indústria
de caminhão pipa
ouro de garrafa
Tanto tempo que não vejo chuva
que evaporo para onde eu possa
virar partícula d'água
e saltar sem pára-quedas
me encharcar como um moleque
me hidratar como molécula
Só de pensar me afogo
que eu abra os braços
nessa terra turva
e que venha a chuva!
Alan Salgueiro Rascunhos de Revolução www.rascunhosderevolucao.com

Viagem

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Rude vento noturno arrebatou-me
Para longe da terra, nu e impuro.
Perdi as mãos e em meio ao oceano escuro
Em desespero o vento abandonou-me.

Perdido, rosto de água e solidão,
Adornei-me de mar e de desertos.
Meu paletó de azuis rasgões abertos
Esconde amanhecer e maldição...

Um deserto menino me acompanha
Na viagem ( que flores deste caos!)
E em rosa o sol me veste e me inaugura.

Dou às praias de Deus: a alma ferida,
As mãos envenenadas de ternuras
E um buquê de carnes corrompidas.



Manoel de Barros

A Ilha

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E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia

num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
erguemos nosso tempo de água e de partida.


Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,


Felicidade

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Deixei amores no passado Sabores que não foram degustados Este instante me custa tão caro Como um diamante raro.

Não choro pelo que foi embora Culpas ou tristezas agora Semeio sim, a alegria de outrora De ficar para sentir estas horas.

Ontem, é tão longe como saudade Hoje, daqui a pouco vira antiguidade Quero flores e sorrisos no meu jardim.

Retirei os espinhos, mas deixe o capim Para concentrar o desabrochar da beleza Foram escolhas caminhos para certeza.

Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Romance

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Com olhos tristes e contemplantes Buscando no ar seco e estagnado Cristalizar... Fotografar o instante E guardar nos bolsos do passado.

O corpo escapa ao alcance De mãos e de sonhos Escrevo um breve romance De destinos estranhos

No desfiladeiro de intranqüilas curvas Com a visão envelhecida e turva Preciso aperfeiçoar meu tato

Em breves... Poucas palavras Páginas quentes de letras brasas Vive um mundo intacto.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Dança das Horas

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O velho pêndulo da sala
tiquetaqueia a vida
para além do mecanismo das horas.
Traz levezas, alegres algaravias -
asas de borboletas - entremeadas a ruídos
das mais secas, dolorosas matracas.
Quando nascemos, são júbilos e sinos,