QUE NÃO HAJA NADA QUE NOS ACONTEÇA

















Quem é que dá as cartas:
É a própria natureza
O que o sistema nos oferta
Aqueles que nos governam
Quem é que dita as regras?

Quem é que determina
Quem é que monitora
quando a cidade pára
quando o povo perde a hora

A força estática versus o caminho alternativo
Os atalhos onde ainda não se instala o caos urbano
Onde não há rios transbordados
Transpassa-se uma carta da manga

Mas a manga já está encharcada
Manda alguém ligar
pra comunicar o atraso
Terá mais alguém ilhado?
Já chegaram no trabalho?
Eu parado, dois de paus, só olho

O desespero
A sirene dos bombeiros
Barricada em via expressa
O vidro que embaça
e o suor da janelas fechadas
A frase que mais ouço
"Tá tudo parado!"

Nos emparelham
Nos emparedam
Nos embaralham
Somos meros naipes
nas mesmas manchetes
em que as autoridades declaram
nunca terem visto
esse níveis pluviométricos

que não haviam
testemunhado antes
cenas tão dantescas
nunca é culpa deles

Jogo de revolta e paciência
Observo os quase submersos
não há trunfo
com cartas marcadas

O triunfo é chegar em casa
que não seja a barco
que não seja a nado
que não haja nada que nos aconteça


Alan Salgueiro

POESIA-BOMBA

















Poesia que não cabe
em seu formato
transborda
de tão farta

Transpassa sorrateiro meu poema
pois quer virar roteiro de cinema
Inspirar o quadro ou quiçá a peça
Poesia que convence na conversa

O drama do teatro
O riso do stand-up
Poesia se replica
Pula que nem pipoca
Poesia de interfaces

Poesia voa
Pomba branca
em indícios se desfaz
Poesia de resquícios
de amor e paz

O granito que compõe o piso
O granizo que advém da chuva
Argumento pra compor a música
Qualquer mera pedra brusca

Estilhaços de granada
Não machuca
Chega e dança
Poesia-Bomba!



Alan Salgueiro

A concha


Talvez não precises de mim,
Noite; da mundial voragem
Tal como a concha sem pérolas,
A tua margem fui lançado.

Tu espumas as ondas com indiferença
E cantas com teimosia,
Mas terás apreço, amarás
Da concha a inútil mentira.

Ao seu lado deitarás na areia,
Com sua casula te vestirás,
Um indestrutível e grande sino
Com ela na marola erguerás.

E as paredes da frágil concha,
Como a casa de vazio coração
Encherás com os sussurros da espuma,
Com a chuva, o vento e a bruma...


1911


Em Russo:

Раковина

Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.

Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь;
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.

Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей;

И хрупкой раковины стены,
Как нежилого сердца дом,
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем...


1911



dEsEnrEdoS, ano II, número 04, Teresina – Piauí, janeiro fevereiro março 2010, p. 4.
Осип Мандельштам – Ossip Mandelstam – Tradução: Francisco Araújo




Soneto das Alturas


As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.


Lêdo Ivo, in "Acontecimento do Soneto", 1948.

Integral


Por um segundo, apenas, não ser eu:
Ser bicho, pedra, sol ou outro homem,
Deixar de ver o mundo desta altura,
Pesar o mais e o menos doutra vida.

Por um segundo, apenas, outros olhos,
Outra forma de ser e de pensar,
Esquecer quanto conheço, e da memória
Nada ficar, nem mesmo ser perdida.

Por um segundo, apenas, outra sombra,
Outro perfil no muro que separa,
Gritar com outra voz outra amargura,
Trocar por morte a morte prometida.

Por um segundo, apenas, encontrar
Mudado no teu corpo este meu corpo,
Por um segundo, apenas, e não mais:
Por mais te desejar, já conhecida.


José Saramago, em "Os Poemas Possíveis", 1966.

Sotaque da terra


Estas pedras
sonham ser casa
sei
porque falo
a língua do chão
nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico
agora,
ouço em mim
o sotaque da terra
e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol


Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas", 1999.

Da eternidade


















Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.


Thiago de Mello (Santiago, 93)

Do livro ‘De uma vez por todas, (1996)’, reunido em "Melhores poemas Thiago de Mello”. [Seleção Marcos Frederico Krüger Aleixo], São Paulo: Global Editora, 2009.

Monólogo















Há restos de tempos. . .
folhas soltas aos ventos
aos luares despertos.

Há restos de tempos. . .
noites lúgubres.
. . . momentos aos cantares da vida.

Há restos de tempos. . .
perdidos nos templos
das memórias aos sonhos.

Há restos de tempos.
em mim,
desfolhados, molhados.
. . . céus de chuvas sobre folhas
amarelas, esquecidas deformadas.


Alvina Tzovenos

De como a terra e o homem se unem

















Fica a terra, passa o arado,
mas o homem se desgasta;
sangra o campo, pasce o gado,
brota o vento de outro lado
e a semente também brota.


Fica a terra, passa o arado
e o trabalho é o que nos passa,
como nome, como herança;
fica a terra, a noite passa.


A semente nos consome,
mas a terra se desgasta.


2.
Que será do novo homem
sobre a terra que vergasta ?
Sangra a terra, pasce o gado
e o trabalho é o que nos passa.


Vem o sol e cava a terra;
a semente é como espada.
Há uma noite que nos gera
quando a noite é dissipada.


Vem a noite e cava a terra;
vem a noite, é madrugada.


3.
O homem se desgasta,
sopro misturado
ao sopro rijo do arado.
Vai cavando.


Madrugada sai da terra,
como um corpo se entreabre
para o orvalho e para o trigo.


O homem vai cavando,
vai cavando a madrugada.



Carlos Nejar

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS





















Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos


Sophia de Mello Breyner Andresen

Fenômenos pluviais
















Esperei... Esperei por ti!
Saudades...  Que saudades senti.
Saudades profundas do teu carinho
De tua presença
Tua ausência
Teu estio
Causou erosão no meu peito.


Quando chegaste pela noite
Teus toques miúdos pela terra
O cheiro de tuas carícias
Subiram pelas minhas narinas


Os meus lábios estavam cinzentos
O meu idioma estava sem palavras
Molhaste como unguentos
Os meus cortes, as minhas dores.


Trazendo esperança, trazendo cores.
Trazendo cheiro e sabores
Na tua chegada como bagagem
A poesia voltou de sua longa viagem.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
19/10/2014.


TANTO TEMPO QUE NÃO VEJO CHUVA


Tanto tempo que não vejo chuva
que me dá até angústia
Parece que as gotas só saltam
de precipícios rasos
dos nossos suores, dos nossos olhares
e secam de imediato ao tocar o asfalto

Tanto tempo que não vejo poça
nem a moça nem a cabeça com o balde
Tanto tempo que faz eco o poço
Tanto tempo que não molho o passo
que não vejo lama nem o barro
nem a vaca nem o carro atolado

E a represa vazia, acabou-se
e o rio de areia
e o chuveiro e a cachoeira
chorando à conta-gotas

Quanta boca seca
Saliva engolida
Nem banho de bica
Piscina ou mangueira

Tá virando coisa rara
artigo de indústria
de caminhão pipa
ouro de garrafa

Tanto tempo que não vejo chuva
que evaporo para onde eu possa
virar partícula d'água
e saltar sem pára-quedas
me encharcar como um moleque
me hidratar como molécula

Só de pensar me afogo
que eu abra os braços
nessa terra turva
e que venha a chuva!


Alan Salgueiro


Viagem


Rude vento noturno arrebatou-me
Para longe da terra, nu e impuro.
Perdi as mãos e em meio ao oceano escuro
Em desespero o vento abandonou-me.

Perdido, rosto de água e solidão,
Adornei-me de mar e de desertos.
Meu paletó de azuis rasgões abertos
Esconde amanhecer e maldição...

Um deserto menino me acompanha
Na viagem ( que flores deste caos!)
E em rosa o sol me veste e me inaugura.

Dou às praias de Deus: a alma ferida,
As mãos envenenadas de ternuras
E um buquê de carnes corrompidas.


Manoel de Barros

A Ilha



















E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia

num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
erguemos nosso tempo de água e de partida.

Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,

de um amor anterior a todo estio,
de um amor anterior a toda história.
E seguimos no caminho de ser vento

onde as aves vinham ver se havia maio,
e as marcas espalmadas contra o frio
recobriam de brancura nosso rumo.

E abrimos velas alvas que se escondem
dos mapas de um sonho pequenino,
do início de uma selva que se espraia

na distância entre mim e o meu destino.




Antonio Carlos Secchin - (Todos os Ventos – Antologia poética, 2005)

Felicidade

















Deixei amores no passado
Sabores que não foram degustados
Este instante me custa tão caro
Como um diamante raro.


Não choro pelo que foi embora
Culpas ou tristezas agora
Semeio sim, a alegria de outrora
De ficar para sentir estas horas.


Ontem, é tão longe como saudade
Hoje, daqui a pouco vira antiguidade
Quero flores e sorrisos no meu jardim.


Retirei os espinhos, mas deixe o capim
Para concentrar o desabrochar da beleza
Foram escolhas caminhos para certeza.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Romance























Com olhos tristes e contemplantes
Buscando no ar seco e estagnado
Cristalizar... Fotografar o instante
E guardar nos bolsos do passado.


O corpo escapa ao alcance
De mãos e de sonhos
Escrevo um breve romance
De destinos estranhos


No desfiladeiro de intranqüilas curvas
Com a visão envelhecida e turva
Preciso aperfeiçoar meu tato


Em breves... Poucas palavras
Páginas quentes de letras brasas
Vive um mundo intacto.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Dança das Horas























O velho pêndulo da sala
tiquetaqueia a vida
para além do mecanismo das horas.
Traz levezas, alegres algaravias -
asas de borboletas - entremeadas a ruídos
das mais secas, dolorosas matracas.
Quando nascemos, são júbilos e sinos,
ao partirmos - ranger de ossos -
são traques - catracas -

quem sabe, enfim, o silêncio -
a tua voz que desincorpora -
mas um vulto sempre lhe dá cordas
e o velho pêndulo da sala não para.


Fernando Campanella

SINE QUA NON















Ah, este instante na tarde
quando o sol bate seu ponto
e se despede
de um afugentar as sombras,
de mais um dia de claro ofício.
Pago pelos préstimos
ao operário sine qua non
com a moeda de meus sonhos,
um certo dourar de meus sentidos.
Logo à noite vou desejar
que no outro dia retorne,
que nunca me deixe sem seu brilho.
Posso então, a alma estendida, ressonar:
a luz, eu sei, em seu percurso também
me busca, e sempre haverá de me achar.


Fernando Campanella
http://fernandocampanella.blogspot.com.br/

Escrevo



























As melhores palavras
guardei para você
mesmo que ainda
não as tenha declamado
aos quatro ventos
As melhores lembranças
guardei em segredo
mesmo que as tenha perdido
ao longo do tempo
Os melhores versos
escrevi para nós
mesmo que nada valha
e que você não os compreenda
Por isso tudo, ainda te escrevo!


Reggina Moon

Meu Pensar






















Eu penso demais
corro demais, desejo demais...
Queria serenar meus passos
protelar os séculos
para que os dias
não fossem tão apressados
feito uma flecha
daquelas atiradas contra o vento.
Sem alvo certo
sem rumos, sem miras...
Eu penso demais
amo demais, erro demais
e mais difícil seria essa vida
se não fosse toda a poesia
o teu sorriso, teu olhar
e as nossas fantasias...


Reggina Moon

Eu queria escrever um poema bonito


eu queria escrever um poema bonito
que faça sorrir, um poema hilário,
que nasçam pássaros na tua gargalhada
um poema simples, mas essencial
que abra os olhos para o amor,
para a ternura e o carinho
algo assim dengoso e entregue
sem confusão, mágoa ou ressentimento
algo que alimente o amor pela vida
que faça compreender
o papel da paz tanto quanto o do caos,
que diminua a pressa e te faça consciente,
que te tire do cansaço e te dê vontade
de dançar infinitamente
algo sem explicação e sem lamento
essa coisa de amar a palavra da boca,
escutar o silêncio de tudo, respeitar todo mistério,
esperar o melhor do agora, do instante, do já,
para não se prender em delírios sem fim
não querer saber demais o que não se explica
era isso que eu queria
um poema composto de absurdos,
um dos teus sorrisos
e se eu tiver uma sorte imensa
um abraço do infinito vindo de ti
porque cada pessoa é um infinito
um pedaço do delírio mais lindo
uma música, um silêncio, um oceano
e é preciso expandir


Luiza Maciel Nogueira

Pingo de Luz














Pingo de luz brota
da gota do oceano
lágrima de felicidade que tece
o vendaval da luz
crescem os lábios
na onda do verso
reinventa a poesia
enquanto alimenta o amor
da pequena que cresce
amada gota, infinita luz

Dentro da poesia
dentro da poesia
lá no interior do verso
jaz a essência da luz em suspensão
na intenção de quem escreve
e também nos olhos de quem lê
do encontro entre poeta e leitor
dos sons das vidas em união
jaz na estrada nos olhos
a ternura, a entrega, a poesia
também os muros, também as pontes
também as sombras, também as mortes
jaz silêncio, jaz sonho, jaz semente
e jaz também amor

amor pouco, mas amor



Luiza Maciel Nogueira

Teus dedos piano
Navegavam em meu rosto
Simbolavam em meus cachos,
Cordas de contrabaixo

Teus lábios flauta
Me sopravam segredos
Sabor de Violoncelo.
Respirava teu orvalho sustenido
que me fazia gargalhar pela manhã.
Flutuava com vestido de idílio
para celebrar os bosques com Pã.

Chegavas de mansinho
E pousavas, passarinho, dentro dos meus olhos
como se o mundo tivesse mudado de lugar
e tua alma só tocasse esse órgão.

Voaste para junto do longe
Nas alturas de meu amparo.
Com a luz do sol embebida
e a pele dourada
Cravei minha boca na tua língua
"ouço o som de tua saliva"


Paula Beatriz Albuquerque

Vísceras vagam pelas vagas
poéticas
do palco do pensamento,
humana ficção.
Simultaneamente quero,
sinto, sofro, sonho.
E então fujo
para o miolo do mundo.
Voo para além dos muros
Silenciosos das liberdades que não escolhi.
Densa, condenso.
Planto gotas de chuvas
no árido de mim
no árido cálido
deserto entreaberto
dos retornos de mim.
Penso
Enlouqueço
Renasço
Banhada de grafite
Na pele do meu papel.


Paula Beatriz Albuquerque

Sou da cor da Noite
couraça
luta
asa
palavra

Escrevo nas pedras
sangue, pele, ossos
aos meus irmãos e irmãs

Ainda sinto os algozes dos Séculos
nas cicatrizes da alma

Fortaleço-me Trovão
orgulhosamente Negro


Carlos Orfeu

Do sangue dos seios da cabocla
nasceram os rios como crianças
correndo no vasto dorso do mundo

Crianças de verdes veias
veias que viraram veredas
na pele dos homens que aprenderam a liberdade

do canto colossal das águas


Carlos Orfeu

Poeminha em círculo

Wassily Kandinsky

... A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão...


Ellen Rose



Antes depois do que nunca.
Antes eles do que nós.
Do que quem dispersa, antes quem junta.
Do que à água funda,
antes aos faróis.

Antes muito do que pouco.
Antes pouco do que nada.
Do que preso, antes solto.
Do que são, antes louco.
Antes caneta do que espada.

Antes rico do que pobre.
Antes pobre do que infeliz.
Do que indigno, antes nobre.
Antes amigo do que esnobe.
Do que "farei", antes "eu fiz".

Antes à mostra do que escondido.
Antes nossos do que meus.
Antes sarado do que ferido.
Antes ferido do que superprotegido.
Do que a nós, antes ao nosso Deus.

Antes amar do que ferir.
Antes amar do que julgar.
Antes amar do que diminuir.
Antes amar do que fingir.
Antes amar, antes amar.

Antes "de nada" do que "desculpa".
Antes "desculpa" do que calar.
Do que a rendição, antes a luta.
Antes sábia do que culta.
Antes ouvir do que falar.

Antes uma jabuticaba no chão,
do que duas jacas brotando.
Antes Sol do que verão.
Antes uma sobriedade na mão
do que duas ilusões voando.


Ellen Rose







VAGÃO DESTEMPERADO



















Vagão destemperado
A mão mira no teto
detectando a possibilidade
de surgir algum vento
como se clamasse aos céus
no seu apelo


A mochila junto ao corpo
Um assopro meio inútil no pescoço
O suor da pele sem sensualidade
sugere meio nojo
parece até que é cola
grudando o sufoco


A gota pára e brilha no meio da testa
Os testes de arrefecimento de novo falharam
O sol faz companhia ao nosso sofrimento
A roupa já responde com umas marcas d'água


O inferno dá acesso ante a superfície
Me lembro até da cela dos presidiários
Toalha enxuga o rosto dos meus desalentos
A lentidão cozinha até os meus neurônios
Demônios que concedem o transporte público
Queria o alívio só por um momento


Têmporas de cachoeira
Sal nem é de lágrima
Minhas intempéries
de mobilidade



Alan Salgueiro

DE CARAMBAS E CARACÓIS !?



















Fui criando estrofes desde criança
Depositando perguntas numa urna
Guardando-as dentro de um cofre


Pois perguntar não ofende:
É Deus quem defende ou garante
que a minha questão não se finda?
que não vai haver desavença?
Suas chaves desvendam segredos?
As minhas são chaves de fenda


Por outro lado tem bastão que brada
que nunca tem sua razão quebrada
que briga, rege, luta, manda e também pontua


Já basta, exclamação!
Parece uma batuta!
Dê forma à curva!
Nem tudo é reto!
Nem tudo é alvo,
seu implacável!


Questão que espezinha
tem gentileza gráfica
Tataraneta do método socrático
Logo, interrogo


Fisgo da pergunta uma linha torta
Reparo na forma dos seus anzóis
Pesco uma nova muda
As minhas dúvidas
Os meus carambas e caracóis



Alan Salgueiro

Biografia























O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.

O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.

Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.


Antonio Carlos Secchin

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...