Idade























Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.


Mia Couto - No livro “Vagas e lumes”

Glória morta
























Tanto rumor de falsa glória,
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio de si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.

De tão lúcido, sinto-me irreal.


Dante Milano, in “Poesia e prosa”

















escrevo em seus olhos
pai

o gesto contínuo que nos acende
sob o tempo e potência

pai em seu dorso
aprendi o princípio do voo

o ato de abrir os braços
desatados do medo

e abraçar com latência
o deslimite

Carlos Orfeu

Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo
























Esses seus cabelos brancos, bonitos
Esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas num grito
Me ensinando tanto do mundo

E esses passos lentos de agora
Caminhando sempre comigo
Já correram tanto na vida
Meu querido, meu velho, meu amigo

Sua vida cheia de histórias
E essas rugas marcadas pelo tempo
Lembranças de antigas vitórias
Ou lágrimas choradas ao vento

Sua voz macia me acalma
E me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo

Seu passado vive presente
Nas experiências contidas
Nesse coração consciente
Da beleza das coisas da vida

Seu sorriso franco me anima
Seu conselho certo me ensina
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo

Eu já lhe falei de tudo
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto
Olhando seus cabelos tão bonitos

Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo

Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo

Erasmo Carlos / Roberto Carlos

O Filho de Patmore















Meu filho, ralhei contigo, 

eu, que sou tão teu amigo! 
Mas, se sou tão teu amigo, 
por que é que ralho contigo?! 

Quando me desobedeces 
já com o homem te pareces... 
Vais ser o homem que pareces: 
vejo que não obedeces! 

Foste chorar para a cama, 
ofendido com quem te ama! 
E teu pai, que tanto te ama, 
salta, tão triste, da cama 

e vai dar-te a sua bênção. 
Ah, vocês filhos não pensam, 
ah, vocês filhos nem pensam 
que um pai é um deus, dando a bênção!


Attílio Milano

Vestida de Flores























Que alegria em todas estas Flores!
Viva! Venha bailar com plenitude
Nesta colorida festa de odores
Que trazem o perfume de juventude.

As Flores sempre vêem anunciar
Da Natureza, a ressurreição.
Sorrindo com o astro Sol a raiar,
Elas cantam do Amor bela canção.

Cantam horas e embelezam os dias...
Depois escondem sua frágil beleza,
Para que outras desabrochem em poesias...
E assim, obedecem a lei da Natureza.

Pra que nunca seja quebrada
Esta dança de cores vestida,
A Natureza fez uma bela grinalda
Com as flores que enfeitam a Vida!


Efigênia Coutinho

Canção Lapidar

















Era um caminho. Mudei-o
De lugar e ele morreu.
Nenhuma pedra me conta
Onde foi que ele nasceu.

Era uma pedra. Deixei-a
No lugar em que nasceu.
Nem ela ficou sabendo
De que caminho morreu.

Era o silêncio. Falei-o
Mas ele pronto esqueceu
Em que pedra, em que caminho
Nada mais me aconteceu...

Homero Frei

Constatação














Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.
Não digas nada.
Longe não deslindas um som que te frequentava.
Não aguces os ouvidos.
Na gruta passam por ti como se te não vissem.
Não esfregues os olhos.
Caminhas pela campina e teu pés nada sentem.
Não troques de passo.
A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.
Não fales nada.

No universo transverso desse tempo
Na contramão de versos claudicantes
Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.



Aníbal Beça

Lisboa














Ó Cidade da Luz! Perpétua fonte
De tão nítida e virgem claridade,
Que parece ilusão, sendo verdade,
Que o sol aqui feneça e não desponte...

Embandeira-se em chamas o horizonte:
Um fulgor áureo e róseo tudo invade:
São mil os panoramas da Cidade,
Surge um novo mirante em cada monte.

Ó Luz ocidental, mais que a do Oriente
Leve, esmaltada, pura e transparente,
Claro azulejo, madrugada infinda!

E és, ao sol que te exalta e te coroa,
— Loira, morena, multicor Lisboa! —
Tão pagã, tão cristã, tão moira ainda...



Alberto de Oliveira, in "Poemas de Itália e Outros Poemas"

XIV
















Quem deixa o trato pastoril, amado,
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado.

Que bem é ver nos campos, trasladado
No gênio do Pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado!

Ali respira Amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna que soçobre;
Aqui quanto se observa é variedade:
Oh! ventura do rico! oh! bem do pobre! 


Cláudio Manoel da Costa

Risos















Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
A vida é triste - quem nega?
- Nem vale a pena dize-lo .
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!
Como o dia, a nossa vida
Na aurora é - toda venturas,
De tarde - doce tristeza.

Casimiro de Abreu

Sentimento do mundo




















Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.


Carlos Drummond de Andrade

Soneto XXII






















Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.


em italiano

S’ amor non è, che dunque è quel ch’ io sento?
Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond’ è si dolce ogni tormento?

S’a mia voglia arado, ond’ è ‘I pianto e ‘I lamento?
S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s’io nol consento?

E s’io ‘I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trivo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d’error sí carca,
Ch’ i i’ medesmo non so quel ch’ io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno.

Francesco Petrarca
in “Poemas de amor de Petrarca” - “Il Canzonieri”

Noite sonora
















Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...

As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...


Olegário Mariano

Origami
























Dobra que dobra,
redobra
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.


Flora Figueiredo

Soneto XVIII
















Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:


Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;

Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:

Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.



Sonnets XVIII

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wand'rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,

So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Fósseis



















Desenterramos verdades e complicações
Escavamos identidades e sentimentos
Que com suas histórias nos afetam
Que com suas memórias nos arremetam
O tempo que ficaram para trás

Quantos anos foram dados a estes versos
Quantos escombros sobre os remorsos
Que ficam nítidos com as pás, espátulas,
Picaretas e pinceis trabalhando.

E os achados ganham vida
Quanto mais estavam submersos
O seu valor, a sua descoberta
Nos transmitem um regresso

De algo necessário descobrir
Para nos descobrirmos
Diante do tudo que nos vestimos
Entre o tanto de chegar e de partir.



Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Pra Dentro

Opção
















Arquitetos adotam a transparência
como regra e matéria-prima
cobrem as cidades com casas de vidro
quase tudo se sabe
de lado a lado

é livre a visão
do peito rasgado
da luz que se apaga
dois gatos à espera
papilas que exultam

(o verbo esconder resseca
as coordenadas abertas)

há até quem prefira
vender suas vestes
e assim exposto
no ventre da urbana vitrine
apenas estar
em linha reta

outros rezam
pelo final das tempestades
ou pelo tiro na testa


Alberto Bresciani

Conserto a Palavra

















Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados"

Pacificada















Que liberdade essa
De encarar a dor
De não querer mais
Curá-la
De chamá-la para uma conversa
Quase todos os dias
E dizer: - senta aí.

Quase o amor obrigatório e
Doído
Por uma parenta velha
Doente, chata e longeva
Que a gente aceitou
E que não pode mais pôr
Para fora de casa.


Adriane Garcia

Luar


















Quero ver-te banhada pela lua
Quero ver-te como lua
Simplesmente lua
Com as saliências e a beleza crua
Que a luz clareou na tua pele.

Não fique longe dos meus olhos
Não fuja minha prateada lua
De acariciar silenciosamente
A minha rua
E a minha solidão.

Quero ver o teu lado obscuro
E cair nos teus braços
Na ponta dos pés sobre os muros
Como um equilibrista no espaço.

Quero te ter cheia
Cobrir meu copo e meu corpo
Como uma farta ceia
Para meus sonhos.

Quero tua presença e teu mistério
Do folclore a realidade
Do encanto ao carinho clandestino
Da métrica claridade.

Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro

A Partida














Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
Aonde me leva este amor.


Dante Milano

Entre Polos
















Há uma luz que incide em nossos corpos,
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada.
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim,
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -

desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata.

Fernando Campanella

O vestido


















Quero te dar um vestido com um desenho que ainda
não sei como será
Penso frutas, dragões, sereias
Fantasias que nem ainda sei bordar
Mas quero te dar um vestido, quem sabe de areia
Quem sabe de uma linha que não se saiba coser
Penso te dar um vestido bordado de ambos os lados
do querer
Nem te quero vestir
Nem quero que o vejas nem que o queiras talvez
quero te dar um vestido que a minha alma deseja.

José Carlos Capinan

Ausência










Fala
Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Daniel Faria, in "Oxálida"

Fica


Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.


Jane Hirshfield

Fluminense














Nasceste desde menino como gigante.
Formaste teu caráter nas disputas
dos campos do mundo.
Nos olhos meninos teu brilho constante
do teu estandarte de lutas
que transmuta o profundo.

O futebol está na tua essência.
Nomes e nomes fizeram parte da história
construindo a trajetória
com legalidade e opulência
de tempo presente, futuro e memórias
para um olimpo de glória.

Nos gramados com suas luvas e chuteiras
nas piscinas, nas quadras com sua fidalguia
Nas arquibancadas infantes com bandeiras
as tuas cores como uma magia
nos encanta,
os cantos da torcida
nos guia
como uma energia divina.

Teu verde firme de esperança.
Teu branco livre da paz.
Teu grená em nossas veias
São cores de nossa paixão,
de nossas famílias,
de nossa nação.

Teu escudo cobrindo crianças
Tua flâmula nas mãos do rapaz
Nos anciãos,
teus embates
tornam-se enredos de épicas histórias.
Nossos cronistas,
nos debates
como gladiadores de um coliseu.

Meu Fluminense
tão imenso
e tão intenso.
Nosso Fluminense
Sempre e sempre
O Tricolor de toda gente
que o ama sem limites.


Henrique Rodrigues Soares - Pra Fora/ Pra Dentro.

Soneto III






















Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.


Guilherme de Almeida
Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 23.

As Iluminações
















Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.


Lêdo Ivo












o dia come o escuro
estende solferinos
lençóis acesos

trinos na mesa
o sol no pão
simetria clara

fora do núcleo
habitual o azul
deita no terno

de musgos do
muro: fogo
em demasia

Carlos Orfeu


Grinfa













Quero provar o gosto novo das palavras
sobre a tua boca.
Será um poema gostado:
a tua boca forma a rima cruzada.

Quero medir a terra boa do teu corpo,
também sou agrimensor.
Te dou um vestido de mãos.
Toma um cinto de abraços.

Como a gente se completa...
O corpo-duplo tem alma.
Um mais um igual a Um.

Mas não fales no AMOR.

Repara:
é uma palavra desgraçada

é uma palavra engraçada que separa.


Augusto Meyer

Encontrei-te



















Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.



Joaquim Pessoa

Alucinação















Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
Play it cool, baby
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais


Belchior

Leito


















Pousa neste leito palavras inúteis e nunca ditas.
Pousa neste leito espíritos cansados e desinteressados.

Este leito é testemunha de discórdias e paixão desmoronada.
De mágoas ancestres
De atritos infatigáveis
e de lágrimas que não dão conta dos lenços e lençóis.

Marcamos um encontro que nunca fomos.
Sonhamos uma vida que nunca teremos.
Invejamos as estrelas que nunca serão nossas.

Me arrependi tarde demais.

O vento também nunca trouxe as promessas sussurradas...

Fatima Reis












abre-se o velho
olho da casa

rangendo tempo
nos alicerces

violados pelo vento
gatuno que salta

para dentro do espaço
dissipando

os ossos ante-
passados


Carlos Orfeu

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...