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Mostrando postagens de 2017

Lugar do Sol

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Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade

Transmutar

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As vidraças balançaram
Eu estava distraída
Sentia tanto frio
Que não vi que o frio vinha

O vento disse meu nome
Avisou-me
Pegasse um casaco
E quando saí à porta
Rodou-me como aos sacos plásticos

Depois, pôs me no chão
E deu-me um beijo de folha

Uma chuva miúda caía
Como quem me trocasse de roupa.


Adriane Garcia

Morte Íntima

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Quatro sílabas viajam
no rumo de ninguém.
Quatro caladas mágoas
já sem uso em palavras.
Língua cortada, o eco
regressando à origem
que se presume oblíqua
anterior à linguagem.


A ideia segue a sílaba
em seu perecimento
mantendo-se intranquila
durante algum momento.Sejam dias ou séculos
igual será o lamento
desse ruído – som morto
cavado na laringe.


Persista embora o símbolo
constante do alfabeto
os signos não reunidos
jamais na mesma sílaba
lerão palavra idêntica
a essas duas minúsculas
outrora pronunciadas
carreando emoções mágicas.


A morte dessas sílabas
completa a do indivíduo.




Fernando Py - (de A construção e a crise, 1969)
30-05-1966

SOMOS TODOS ÍNDIOS

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Desde sempre
lá dos portugueses
dos espelhos
nos enganam
desde os engenhos de cana
nos tornamos estrangeiros
de nós mesmos
na terra que a gente ama

Desde sempre
em nome do progresso
das estradas de rodagem
do interesse econômico
que se rasgam as florestas
as famílias e as culturas
e batizam o extermínio
de Transamazônico

E os escravos fortes fogem pra cidade
firmam sua memória ainda não devastada
na aldeia urbana em meio à metrópole
são atropelados pelos canos torpes

O manifesto contra o despejo
decreta a morte coletiva:
Se for pra me tirar aqui dessa terra
me mate nela que eu ganho vida

Resistência não é ser selvagem
Desde sempre genocídio
Me atearam fogo, dormi na calçada
Deixaram-me em chamas, me chamaram índio

Marcamos a pele
Andamos em tribo
Temos nossos ritos
Somos todos índios

Alan Salgueiro

Trem Bala

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Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E, então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o Teu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abrace teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, p…

Memória

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Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Vítor Matos e Sá

Ressurreição

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Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.


Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.


Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais
Descansavam apenas um momento.


E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza dum rebento
Na seiva do poema que sonhou.




Miguel Torga - Libertação - 1944

Ressurreição

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Se somos sepulcros vazios O finito da morte nos espera Se somos sonhos tardios Dos números totais da esfera.
Contaminados pela ciência descrente Pelas formulas éticas e morais Se o meu ser e ter é crente Dos templos e catedrais
Um sepulcro no domingo vazio Trouxe-nos infinita esperança Para o vivente perdido e vadio Que nada mais esperava de suas andanças
Com seus passos e ações doentes Com seus pesares quase ficcionais Agora como um indestrutível insurgente Amparado pela fé genuína de irracionais
Que acredita na graça do Redentor que vive Ressurreto, vencedor e imortal Que espera na data que será seu limite O seu chamado no Juízo Final.



Henrique Rodrigues Soares

Páscoa

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Porque para ressuscitar um Deus
não se prescrevem datas
(o divino brota
quando se rompe couraças)


e porque os símbolos, os mitos
são do humano a ceia mais farta,
peço-vos licença, Senhor de minha estória,
para à vossa mesa sentar-me,
com minha nudez
 e toda fome de minha alma
inglória.


Fernando Campanella - Páscoa 2017.

Portas de catedral em Sexta-feira Santa

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Portas de catedral em Sexta-feira Santa,
Grandes olhos cristãos piedosamente erguidos
Para o Altar onde a Glória imorredoura canta...
Brandos violões, brandos violinos dos sentidos:


Campo-santo onde flore a imarcescível planta
Do Amor que espera sempre os beijos prometidos,
E na hora vesperal, quando o luar se levanta,
Perfume para o olfato e som para os ouvidos:


Torres de eremitério onde os dobres dos sinos
Parecem prolongar um réquiem surdo e frouxo,
Um responso de morte acompanhado de hinos:


Grandes olhos cristãos de olheiras de veludo,
Altares quaresmais enfeitados de roxo,
Benditos para sempre Onde revive tudo!


Alphonsus de Guimaraens  - de: “Câmara Ardente” (Perystilum) (1899)

Soneto XIV

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Não faço meus julgamentos pelas estrelas;
Embora conheça bem a astronomia,
Mas não para adivinhar o azar ou a sorte,
As pragas, as privações, ou as mudanças de estação;
Nem posso adivinhar o futuro próximo,
Dando a cada um a sua tormenta,
Ou dizer aos príncipes se tudo passará,
Predizendo o que apenas os céus podem trazer:
Porém, retiro a minha sabedoria de teus olhos,
E (eternas estrelas) neles entendo a sua arte,
Pois, juntos, vencerão a verdade e a beleza,
Se de teu próprio ser verteres o teu alento;
Senão, isto, eu prenunciaria:
Em ti toda a verdade e beleza findam.





Sonnets XIV

Not from the stars do I my judgement pluck,
And yet methinks I have astronomy,
But not to tell of good, or evil luck,
Of plagues, of dearths, or seasons' quality,

Nor can I fortune to brief minutes tell;
Pointing to each his thunder, rain and wind,
Or say with princes if it shall go well
By oft predict that I in heaven find.

But from thine eyes my knowledge I derive,
And constant stars in them I read such art
As truth and beaut…

Da minha aldeia

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Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro

Humildade

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Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.


Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.


E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.


(E uma canção tão bela!)


Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.

Cecília Meireles

Ataroxia

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Quando na falta me é negado
O necessário, o apropriado,
Ficando o silêncio do interrogado
Justa prova sobre o culpado


Diante do que precisava ser revelado
O que é claro em demasia
Cega a verdade tirando a valia
Soando falso o que fora perdoado


As circunstâncias, as perspectivas,
São uma floresta assustadora
As mudanças, as expectativas,
Sombra efêmera perturbadora


É duro coabitar com a agonia
Como um remorso frio que adoece
Como que ainda no galho apodrece
Esperando no purgatório a aponía.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Janeiro – 2017.

XXIII

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Aperto um chumaço de interior.
Não tive destino plástico mercado.
Não me acordo relógio, minhas paredes derramam cabelos.
O azeite serrano cavalo está joelho.
Um ronco de pétalas mortas esperam coroas.
Lagarto, lisas pedras escuras cemiteriam várzeas águas.
Tudo se acaba no pastar da noite, na sua boca vertical.
Me surdam o bater de portas madeiras, seus dentes ferros rangeram-nos velhos.
Fantasmam névoas na mata noite, sua geometria de poeira fria se arma.


Para deter beijo deleite o passo marulho dos peitos derramados.
Para se metal paralisar o desespero de besouros mortos.

A folhagem se renova.
E bicam meus colos frutos.
Queimo estralares de uma roda.
Fervência da nervura deslineariedade pirilampa.
Meus ombros represam rolos fogo de asas chumbo.
Ditirambos pulsos larvam meu rosto sobre as superfícies vegetais.
Para me acordar encachoeirado
arrastando sob sua boca vertical.

Lucas Alvim

Casa na chuva

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A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


Eugênio de Andrade
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o sol: fruto que se come
com os dentes dos olhos

guardadas as sementes
seculares

o sol amadurece
o escuro



Carlos Orfeu














Dias da Semana

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Amanhã é quinta-feira.
Se o mundo cumprir com suas obrigações,
depois de amanhã será sexta.
Se não, talvez possa mesmo ser domingo
e nunca ninguém saberá
onde se extraviou a nossa vida.



Days of the Week

Tomorrow is Thursday.
If the world meets its obligations,
the following day will be Friday.
If it doesn’t, it could even be Sunday,
and no one will ever guess
where our life got mislaid.


Piotr Sommer - tradução desconhecida
Pintura - Charles Amable Lenoir 1860–1926

Tango

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Um tango me persegue desde a infância
no canto, no piano, na memória
e se me impõe à voz, timbrando vário
são prolongar em mim a sua essência
nos dedos de meu pai sobre o teclado.
Não somente: transporta desde longo
tempo a escrita do pai, letra de tango
no papel sempre então visto e relido.
Um tango me persegue: sua marca
é o realejo crepuscular que sinto
na imaginação rodando lento
e quanto mais passado mais se acerca.


E letra e pai e som, tudo afinal
gira ao compasso do tango fatal.



Fernando Py - junho 1991 (de Sol nenhum)

História da América II

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E Colombo como bom cristão Descobriu nas terras para lá do Atlântico O desconhecido e populoso Jardim do Éden Ao primeiro contato a contaminação E os descobertos descobriram que estavam nus E foram catequizados no bem e para o mal.

A serpente astuta que veio do mar Era européia gente e podia andar Semeando a morte com todos os seus vírus e bactérias Trazendo o seu conhecimento e suas matérias.

Pouco satisfeito o bom cortes rei de Espanha Enviou Hernan Cortez e sua manha De conquistar com a palavra e os canhões Aos astecas com profecias sobre seus corações.

Para salvá-los e ensiná-los a vida Cortez cortou árvores, cortou feridas, Cortou braços, pernas e memórias, Cortou credos, almas e histórias.

Chegou também o benfeitor Francisco Pizarro Que uniu todo o Império Inca Numa espanhola colônia rica Dando pedigree a um povo pobre e bizarro. Com o intento sempre de melhorar Aos ameríndios foram oferecidos A encomienda e a mita Em troca de se cristianizar.

Agora somos de Deus e civilizados Chapetones, criollos e cabil…

Há na intimidade um limiar sagrado

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Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.


Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.


Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


Anna Akhmátova

Profissão de Fé

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Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.


Anibal Beça

Rascunhando numa noite de abril

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Que existam cores:
azul, amarelo, branco,vermelho e verde!
Que existam sons:
soprano, baixo,trompa,oboé!
Que existam línguas:
vocábulos,versos,rimas,
delicadeza de acordes,
marcha e dança de sintaxes!
Quem com tais jogos brincou,
quem seus encantos provou,
terá sempre a sorrir-lhe e a encaminhá-lo
o coração e os sentidos.

O que amaste e desejaste,
o que sonhaste e viveste,
faz parte do teu saber:
foi deleite ou sofrimento?
Lá-bemol, sol-sustenido,
mi-bemol, ré-sustenido:
pode isolá-los o ouvido?

Hermann Hesse - in Andares

O Canto da Estrada Aberta

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1
A pé e de coração leve eu tomo a estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo diante de mim,
O longo caminho de terra diante de mim me levando para onde quer que eu escolha.

Doravante eu não peço boa sorte, eu mesmo sou a boa sorte,
Doravante eu não choramingo mais, não adio mais, não preciso de nada,
Basta de reclamações em interiores, bibliotecas, querelas críticas,
Forte e satisfeito eu viajo a estrada aberta.

A terra, isto é o suficiente,
Eu não quero as constelações mais perto,
Eu sei que elas estão muito bem lá onde estão,
Eu sei que elas bastam para aqueles que pertencem a elas.

(Mesmo aqui eu carrego meus velhos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego comigo para onde quer que eu vá,
Eu juro que é impossível me livrar deles,
Eu estou preenchido com eles, e vou preenchê-los de volta).


2.
Você eu adentro, estrada, e olho em volta, acredito que você não é tudo o que há aqui,
Eu acredito que muito não-visto também está aqui.

Aqui a profunda lição da recepção: nem preferênc…