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Mostrando postagens de 2017

Amor Verdadeiro

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Tua frieza aumenta o meu desejo:
fecho os meus olhos para te esquecer,
mas quanto mais procuro não te ver,
quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo,
humildemente, sem te convencer,
enquanto sinto para mim crescer
dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
que outro feliz, ditoso como um rei
enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
amam metade os que amam com espr'ança,
amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.

Eugénio de Castro, in 'Antologia Poética'

Haras

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Crio
Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

Adriane Garcia

A Estrela

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

Manuel Bandeira

Baú aberto

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Eu gosto das coisas inúteis
Eu guardo tantas coisas fúteis
E esqueço o que é importante
De minhas mãos caiu o instante


Que valia, e agora em pedaços
Ocupam valioso espaço
Das coisas que seriam úteis
Em nos deixar ocupados


Nada pode ser constante
O coração pesado e preocupado
Com os ocultos pecados
Que rebelados vieram emergir


Ao jogar fora o antigo e guardado
Doeram meus ossos e artérias
Conversa fiada é coisa séria
Não há perfume no passado.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Aspiração

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Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu Desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

*

Sou um mistério.
Vivo as mil mortes
que todos os dias

morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me …

A tua casa é o meu coração

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A tua casa é o meu coração e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites.  Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da gazela  e a brevidade suicida das flores do hibisco.  O meu coração dá abrigo a um grande amor,  como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto  ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis.  Não há armadilhas montadas no percurso que te leva  à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo  de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia.  És em mim. Estás em mim. Há-de o meu coração  ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá  o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que  tem a envergonhada cor da flor do lótus.  Há-de o meu coração calar-se, mas  esse silêncio não impedirá a promessa  de uma eterna noite de amor. 

Joaquim Pessoa, in “O Poeta Enamorado”
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colher na poeira dos ossos
a estrela

escutar a matéria
de sua centelha

dissolvê-la em escrita
e princípio


Carlos Orfeu

O que é a Poesia?

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A poesia é choro
Não é mera distração
A poesia é coro
De luta,
Não é lamentação.

A poesia é soro
Não é amamentação
A poesia é estouro
Da alma, explosão.

A poesia é touro
Sem dominação
A poesia é couro
Veste, reveste, é proteção.

A poesia é nascedouro
De rios de imaginação
A poesia é matadouro
De lágrimas e situações.


Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro.

Noite

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Deito,
no límpido lenço
passado pelo sol
que esconde
a maçã podre
do colchão de sua cinza.
Estou nas palmas enormes da noite
que se ergueram
e esqueceram a oração.
E elas seguram,
cabide de meus melhores panos,
o abacate verde de meu corpo
que jamais se envelhecera
com minha teimosia venenosa
com a cobertura do cromo de meu verniz
de chegar sempre mais jovem
no salão
do azul da noite
porque era lá
que me ouvia
com o palmo da terra
em minha orelha.
E me flertava,
apaixonado, por ela e dela.

Eu nunca quis me decepcionar.


Lucas Alvim - Poemas de "Contorcionismo" (Editora Penalux, 2016).

Mãe

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Mãe - que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem - dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Antero de Quental

Reverso

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O silêncio
me fala
com sua voz reversa
o imponderável
o imponderável
o imponderável
Declina
gentilissimo
seus versos brancos


De ouvidos atentos
retenho-me
aguço-me
nele que é
a alma
da palavra
A antessala
do verbo.

Maria Helena Latini - do livro "Múltiplo Um", Editora Literacidade.

Porque Eu Sei que é Amor

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Porque eu sei que é amor
Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova

Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir embora

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Sei que cada palavra importa
Porque eu sei que é amor
Sei que só há uma resposta

Mesmo sem porquê eu te trago aqui
O amor está aqui comigo
Mesmo sem porquê eu te levo assim
O amor está em mim mais vivo

Eu sei que é pra sempre
Enquanto durar
Eu peço somente
O que eu puder dar

Porque eu sei que é amor
Porque eu sei que é amor
Porque eu sei que é amor

Paulo Miklos/ Sergio Brito

Oração da manhã

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Bom dia, Pai.
Vamos tomar juntos o café da manhã?
Temos pendentes tantos assuntos!
(O pão está fresquinho,
o café bem quente).
Ainda que só um minutinho,
nós precisamos conversar:
o mundo desandou de tal jeito,
que nada mais parece ter efeito.
Nem ciência, nem teoria,
nem fórmula, nem maestria
conseguem colaborar.
Cada qual briga pelo seu bocado
sem nenhuma decência, sem qualquer restrição.
Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão.
Por isso, a minha idéia
(por favor, passe a geléia)
de recorrer a uma ajuda;
sem você, a situação não muda.
A ambição vem engolindo a Terra;
a sociedade, cada vez mais dissoluta.
E fique atento,
pois andam procurando uma fé substituta.
Os governantes estão cegos;
que tal devolver-lhes a visão?
Carregam pregos nas mãos,
crucificam o povo.
Não quero que Você morra de novo!
Meus Jesus, multiplique o pão.
Perdoe esse bate-papo,
(à sua frente tem um guardanapo)
é que estou aflita!
Que bom receber Sua visita logo de manhã
Devo Lhe contar um segredo:
quero sair de…

O laço de fita

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Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepit…

De Mim

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Devo convencer-me a viver entre os demais –
mesmo sofrendo da aguda sensação
de sentir-me como um peixe atônito
flutuando sobre uma multidão
que se forma e deforma.
Mas não pretendo renunciar aos atributos do humano. E, tampouco,
deixar de comover-me com o mundo,
enxergando nos invisíveis cotidianos
o íntimo absurdo da impermanência
do tudo que há em mim
e do tudo que há nos demais.

Wanda Monteiro

O Esquizofrênico

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No seu delírio vai compondo os gestos
diante da platéia inexistente;
ele próprio é a platéia, mas não sente
do espetáculo mais que os pobres restos

que a memória lhe acende nos esgares
da fisionomia descomposta.
No seu delírio a fala, sem resposta,
se resolve em grunhidos singulares,

num discurso arbitrário de fonemas
reduzidos à simples expressão
de sons primevos que de sempre estão
revelando carências, e as extremas

ruínas de seu cérebro em pedaços.
Os gestos multiplicam-se em algemas
e a platéia se cala, membros lassos.



Fernando Py - 30-01-1994 - (de Sol nenhum)

Fruto podre

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Olhei por dentro de mim Há tempos morrendo coisas Entre silêncios e os amargos O doce abandono do passado

O futuro não sei se nasce? O fruto não sei se cresce? Maduro de antes que apodrece Como o que tinhas e nunca amaste

Entre perguntas e permutas Perdeu-se desnudar virgem Como o enigma da esfinge Que evitou a vida, evitou a luta

Triste, e melancólico sabor Nas bocas velhas e poucas Sílabas, tônicas e roucas Que não valem o seu penhor.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos Março – 2017.

Como Nossos Pais

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Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo


Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa


Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens


Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu lábio
O meu braço e a minha voz


Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantado
Como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
E eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração


Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais


Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais


Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as apar…

Metamorfose

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quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância

sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silênc…

Para Fazer Poesia

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O que é preciso para fazer poesia?
Antes de tudo, como dizia o Gullar, sentir o assombro correndo em nossas veias. Somos mortais e cada dia é único. Pode ser o último. Com esse sentimento amarrado em nosso corpo, certamente não deixaremos escapar nada. Nosso espanto é nosso alimento.
Em seguida, já que não posso desperdiçar nada, tenho que afiar o olhar como se afia uma navalha. Meus olhos tampouco podem deixar escapar nada.
E meus outros sentidos. Sendo poeta tenho que usar meu corpo como um bicho. Farejar e sentir. Nada pode ser desperdiçado. Não posso desperdiçar sensações.
Eu vejo as imagens à medida que vou escrevendo o poema. Eu as vejo e tenho que correr para que elas não escapem.
A minha respiração é a música do poema.
Sem música dentro do poema, alguma coisa deixará de funcionar.
E mesmo que o poema seja muito triste, alguma alegria terá que habitá-lo, será, digamos, a sua luz.
Eu busco alegria em tudo. Foi um longo aprendizado. Mesmo na dor. O poeta tem que gostar das palavras, das …

Escrever

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Dou água para meus
Unicórnios
E à tarde vou à costureira

Deus é engraçadinho
Deu-nos por dentro
Um irmão Lumière

Não pesquei nuvens
Hoje
Vou beber na taverna

E com um pouco de sorte
Talvez me perder
Na floresta

Quero contar
Mil mentiras
Para cada verdade
Insuficiente.


Adriane Garcia
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a vida é susto
desprevenido

uma hora exibe
todos os dentes solares


outra hora com os mesmos
dentes expostos

carcome até o mínimo
pedaço de murmúrio

da fotografia
entre objetos inutilizáveis

Carlos Orfeu

Apenas um Rapaz Latino americano

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Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior


Mas trago de cabeça
Uma canção do rádio
Em que um antigo
Compositor baiano
Me dizia
Tudo é divino
Tudo é maravilhoso


Tenho ouvido muitos discos
Conversado com pessoas
Caminhado meu caminho
Papo, som, dentro da noite
E não tenho um amigo sequer
Que ainda acredite nisso não
Tudo muda!
E com toda razão


Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior


Mas sei
Que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido
Até beijar você
No escuro do cinema
Quando ninguém nos vê


Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém


Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer
Ao vivo é muito pior


E eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Po…

Alheio

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Às vezes
tenho o perfil de um caracol:
o dia bate à minha porta
e não desperto —

ando catando poesia
na sombra

ando cismando o universo
em espiral.

Fernando Campanella

Adeus

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Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas est…

Pátria Reformadora

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Pornográfico as leis de falso indulto Como um libidinoso conteúdo adulto Que busca o silêncio das madrugadas Ao clarear do dia os infográficos Que nas mentes controlam o influente tráfico As cortinas para informações enganadas

Reforma séria essa da providência Que coloca nos colos do divino Ou em corredores étnicos assassinos Aos que disputam a sobrevivência

Tudo agora é terceirizado Até o amor e o direito do pecado O final do produto deixou de ser sujeito Em hipóteses caracterizados Em frases que só possuem agora predicados O país que pra tudo dar-se jeito

Reforma séria essa da educação Arrancamos as luzes, já estavam queimadas Temos vagas para conformidade apropriada E para os que não têm preocupação



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Até amanhã

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Não há mais ninguém na janela
A mulher que vende os peixes
Foi dormir
Já nada espera
(Alguém foi deixando de vir
Apesar das promessas)


Há um visco lacrimal
Nos peixes de dentro
E de fora da água
O sono é um ensaio de morte

Enquanto o despertador
Não toca
A dor fica presa
No freezer.



Adriane Garcia

Cantos novos

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Diz a tarde: "Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: "Eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
.

Cantos nuevos

Dice la tarde: "¡Tengo sed de sombra!"
Dice la luna: "¡Yo, sed de luceros!"
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de e…

Síndromes

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Coloco meu sonho Ainda onde ponho O meu braço.

Onde está meu tamanho Onde vaga meu rebanho Este é o laço.

Ainda saio, me acanho Com palavras, me apanho Em visíveis fracassos.

Se a mim torno estranho Obtuso, e tacanho A caligrafia do meu traço.

No tímido assanho Um riso, me exponho Ao sutil embaraço.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Março – 2017.

Para os Amigos

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De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.

Vítor Matos e Sá, in 'Companhia Violenta'

Lugar do Sol

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Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade