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Mostrando postagens de Março, 2015

Morfina

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É grande a semelhança desses dois
jovens e belos vultos, muito embora
um pareça mais pálido e severo
ou, posso até dizer, bem mais distinto
do que o outro, o que, terno, me abraçava.
Havia em seu sorriso tanto afeto,
carinho e, nos seus olhos,tanta paz!
Ornada de papoulas, sua fronte
tocava a minha, às vezes – e seu raro
odor me dissipava a dor do espírito.
Tal alívio, porém , não dura. Eu só
hei de curar-me inteiramente quando
o irmão severo e pálido abaixar
a sua tocha. – O sono é bom; o sono
eterno, ainda melhor; mas certamente
o ideal seria nunca ter nascido.

Morphine
Groß ist die Ähnlichkeit der beiden schönen
Jünglingsgestalten, ob der eine gleich
Viel blässer als der andre, auch viel strenger,
Fast möcht ich sagen: viel vornehmer aussieht
Als jener andre, welcher mich vertraulich
In seine Arme schloß – Wie lieblich sanft
War dann sein Lächeln und sein Blick wie selig!
Dann mocht es wohl geschehn, daß seines Hauptes
Mohnblumenkranz auch meine Stirn berührte
Und seltsam duftend allen Schmerz v…

Canção Noturna do Andarilho

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No alto das colinas
há paz;
não se houve, ali nos
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.
Wanderers Nachtlied
Über allen Gipfeln
Ist Ruh
In allen Wipfeln
Spürest du
Kaum einen Hauch:
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.
Johann Wolfgang von Goethe Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização] Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 270-271

Ao Sol

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Mais belo que a notável lua e sua nobre luz
Mais belo que as estrelas, as insígnias célebres da noite,
Muito mais belo que a irrupção em chamas de um cometa
E eleito para algo mais belo que outro astro qualquer,
Pois minha e tua vida a ele estão ligadas dia a dia, é o sol.
Belo sol que, ao se erguer, não esqueceu suas tarefas
E as cumpre ainda com mais beleza no verão quando, na costa,
Um dia se evapora e, refletidas sem esforço, as velas passam
Pelo teu olho até que te fatigues e abrevies a derradeira.
Sem o sol mesmo a arte volta a pôr o véu,
Não me apareces mais e, vergastados pelas sombras,
Areia e mar abrigam-se sob minha pálpebra.
Bela luz que nos dá calor, nos guarda e propicia esse prodígio
Que é novamente ver e ter rever.
Não mais belo sob o sol do que estar sob o sol...
Nada mais belo do que ver a haste na água e, rio alto, o pássaro
Ponderando seu vôo e, embaixo, os peixes em cardumes
de muitas cores, multiformes e trazidos num jato de luz ao mundo,
Ver a circunferência, o…

Elegias Romanas, 1

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Dizei-me, pedras, respondei-me, altos palácios!
Falai-me ruas! Génio, manifesta-te!
Tudo está vivo em teus sagrados muros, Roma
eterna – é frente a mim só que se cala?
Alguém revele-me a janela à qual verei
a bela cujo fogo me refresque
e a rota em que, a caminho dela ou regressando,
hei sempre de perder horas preciosas!
Visito ainda pilar, palácio, igreja e ruínas,
sisudo como quem viaja a sério.
Mas não por muito; haverá logo um templo apenas
– Templo de Amor –aberto ao iniciado.
Roma, és um mundo, sim; mas, sem amor, nem mesmo
seria mundo o mundo; ou Roma, Roma.

Römische Elegien, 1
Saget, Steine, mir an, o sprecht, ihr hohen Paläste!
Straßen, redet ein Wort! Genius, regst du dich nicht?
Ja, es ist Alles beseelt in deinen heiligen Mauern,
Ewige Roma; nur mir schweiget noch Alles so still.
O! wer flüstert mir zu, an welchem Fenster erblick' ich
Einst das holde Geschöpf, das mich versengend erquickt?
Ahn ich die Wege noch nicht, durch die ich immer und immer,
Zu ihr und von ihr zu gehn, opfre…

Aos que vão nascer

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1 É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?
Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nado do que faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d`água falta ao quem tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é a sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejo…
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Mais que tua mão
tua alma me conduzia
pelo verde das relvas
era um dia
para misturar-me a ti
na pura sinergia das horas
deitei-me tão calma
buscando o sentido do teu amar
enquanto procedias
ao ritual sacro:
lavava-me com fragmentos
das águas de um riacho.
beijava-me docemente
as falhas e os erros
soprava-me que o amor
pousa na simplicidade
e que tu já estavas em mim.
meu corpo, revolução e torvelinho,
rompia o frêmito do momento
do teu toque
com lágrimas nuas,
transparentes de afeto.
abri os olhos e não te tive ao alcance
Mas tua voz embalou-me o corpo
com detalhes e arrepio
por entre as árvores
de longe
ouvi tua fome berrar o meu nome.

Paula Beatriz Albuquerque

Soneto

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De chumbo eram somente dez soldados, plantados entre a Pérsia e o sono fundo, e com certeza o espaço dessa mesa era maior que o diâmetro do mundo.
Aconchego de montanhas matutinas com degraus desenhados pelo vento; mas na lisa planície da alegria corre o rio feroz do esquecimento.
Meninos e manhãs, densas lembranças que o tempo contamina até o osso, fazendo da memória um balde cego
vazando no negrume do meu poço. Pouco a pouco vão sendo derrubados as manhãs, os meninos e os soldados.


 Antônio Carlos Secchin

Eu, Etiqueta

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Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,

“Quando eu te desposar...”

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Quando eu te desposar, teus dias
Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
E ociosidade régia.
Hei de perdoar-te mau humor,
E queixas mas – é claro –
Se não cobrires de louvor
Meu verso, eu me separo.

“Und bist du erst mein ehlich Weib…”
Und bist du erst mein ehlich Weib,
Dann bist du zu beneiden,
Dann lebst du in lauter Zeitvertreib,
In lauter Pläsier und Freuden.
Und wenn du schiltst und wenn du tobst,
Ich werd` es geduldig leiden;
Doch wenn du meine Verse nicht lobst,
Laß ich mich von dir scheiden.
Heinrich Heine Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização] Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 274-275.

O Que é a Verdade?

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Estamos perdidos ao encontrar tantas verdades Que nos explicam tudo sem autenticidade Nas ruínas de um racionalismo desconhecido Caminhamos para um futuro indefinido.

No escrutínio de oráculos das deidades Nas verdades fabricadas por entidades Continuo sem saber por que fui concebido Para onde vou quando falecido

Respostas filosóficas que não formam identidade Certezas teológicas que não suprem necessidades O que é real?  No que acredito?  No que tenho crido?

Alegoria platônica, vida de sombras e obscuridade. Fantasias, códigos, sinais!  Acordado ou adormecido? Livre ou escravo?  Insano ou submetido?


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Amor em Braile

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Você que se juntou à multidão só pra subestimar os meus sentidos Você desafiou, fez desaforo e eu tive que deixar meu faro ativo
Com você fiz teste cego Consciente, abdiquei dos olhos Te lia então com os meus dedos Na geografia da tua forma
A métrica do teu sorriso encaixa perfeito no verso O cheiro se fez possuído no teu perfume que detecto
O lábio era prova final Tão sã a textura da boca Bem antes do beijo fatal Bem antes do cair da roupa
Só com o teu sussurro e o frescor do hálito descobri seus hábitos e o tipo sanguíneo
Teu DNA e teu dono Te conheço como a minha palma A mão deste amor em braile chega até tocar tua alma
O que eles chamam de olhos Eu chamo de meros detalhes

Alan Salgueiro

Dia de outono

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Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.
Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.
Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho

Herbsttag
Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.
Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.
Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.
Rainer Maria Rilke – Tradução Nelson Ascher

A canção do cego

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Sou cego – escutem – é uma maldição,
um contrassenso, uma contradição,
não é uma doença qualquer.
Eu ponho a mão no braço da mulher,
minha mão cinzenta no seu cinza gris,
e ela só me leva para onde eu não quis.
Vocês andam, volteiam e gostam de pensar
que fazem um som diferente em seu andar,
mas estão errados: eu sozinho
vivo e vozeio o vazio.
Trago comigo um grito sem fim
e não sei se é a alma ou são as entranhas
o que grita em mim.
Já cantaram esta canção? Ninguém o saberia,
ao menos não com este acento.
Para vocês uma luz nova todo dia
vem e aquece o claro aposento.
E de olhar a olhar passa aquela energia
que induz à indulgencia e ao alento.

Das Lied des Blinden
Ich bin blind, ihr draußen, das ist ein Fluch,
ein Widerwillen, ein Widerspruch,
etwas täglich Schweres.
Ich leg meine Hand auf den Arm der Frau,
meine graue Hand auf ihr graues Grau,
und sie führt mich durch lauter Leeres.
Ihr rührt euch und rückt und bildet euch ein
anders zu klingen als Stein auf Stein,
aber ihr irrt euch: i…

A canção do mendigo

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Vou indo de porta em porta, 
ao sol e à chuva, não importa;
de repente descanso o meu ouvido
direito em minha mão direita:
minha voz me soa imperfeita,
como se nunca a tivesse ouvido.
E já nem sei quem clama em meus ais,
eu ou outra pessoa.
Eu clamo por qualquer coisa à toa.
Os poetas clamam por mais.
Com os olhos eu fecho o meu rosto
e minha mão lhe serve de encosto;
de modo que ele pareça
descansar. Para que não se esqueça
que eu também tenho um posto
para pousar a cabeça.

Das Lied des Bettlers
Ich gehe immer von Tor zu Tor,
verregnet und verbrannt;
auf einmal leg ich mein rechtes Ohr
in meine rechte Hand.
Dann kommt mir meine Stimme vor
als hätt ich sie nie gekannt.
Dann weiß ich nicht sicher wer da schreit,
ich oder irgendwer.
Ich schreie um eine Kleinigkeit.
Die Dichter schrein um mehr.
Und endlich mach ich noch mein Gesicht
mit beiden Augen zu;
wie's dann in der Hand liegt mit seinem Gewicht
sieht es fast aus wie Ruh.
Damit sie nicht meinen ich hätte nicht,
wohin ich mein Haupt …

NA SALA DE FRACASSOS

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Na sala de fracassos todas as derrotas são expostas como feridas em vitrines servidas com taças de vinho amargo
Todos os triunfos ao contrário as datas fatídicas as lágrimas caídas gravadas nas placas
Todas as fraquezas empilhadas reluzentes relembradas
Todas as medalhas para os peitos alvejados Toda batalha de guerra perdida
Todas as cobranças e frustrações e exigências por todos os títulos
Toda volta olímpica impecável dentro do buraco
Todo desapego que apregoo e me faz inútil


Alan Salgueiro