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Mostrando postagens de Abril, 2016

Cantos das Américas

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I Oh, América! Minha América! De uma desigualdade numérica De sonhos e diferenças infindas Oh, América! Minha América! Das hostes homéricas Com seus bastardos indígenas.

Da cabeça ianque tão bélica Cintura caribenha, afrodisíaca, lotérica Cordilheira, eldorado, andino, platino Criollo, mestiço, pobre, latino

Das peles multicores Dos paladares e sabores Puritano protestante Esotérica, católica de dores Que se veste de militante Que dança ao toque dos tambores.

Vestido pelas florestas densas De um verde dolarizado As razões, sincretismo e crenças Do americano globalizado.

II América! Minha América! Pueblo, personnes, people, povo Todos americanos Big steak, arriba, liberdade, aur revoir Uma América para todos americanos E todas as nossas origens, peles e sotaques Astecas, Maias, Incas, Apaches Tupi, Guarani, Sioux e seus tacapes.

América de estreladas noites Correntes em filas, açoites Humanos e desumanos nos parques Navios navegam no delírio Do Atlântico tão americano Africano, meu ritmo afro americano.

Cadê os ameríndio…

ás

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desordem violenta
todos os movimentos
estáticos às 6 da tarde
antenas de bombril do rádio
captam o exaspero do sangue
o magma dos gritos
tímpanos se desesperam
na microfonia do caos
não adianta ranger dentes
nos rosários e nem acender
labaredas de santos nos recantos
caninos das imundas calçadas
a desordem cavalga
na dor que não se deita
com aspirina nem droga nenhuma
se contorce atrás da jaula
cinética do olho e não
foge pelas glândulas

Carlos Orfeu

Assim nasce um conservador

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De todos os invernos
De todas as noites sangrentas
De todos os infernos
De todos os céus desterrados de perdão. De toda obediência burra
Ao oficial, burocrata,
À coroa, ao cetro,
Ao papa, ao cura. De todo medo
“Agora não, ainda é cedo”,
de todo gesto invertido para dentro,
de toda palavra que morre na boca. Do obscurantismo, de todo preconceito,
de tudo que te cega, de tudo que te cala,
de tudo que lhe tolhe, de tudo que recolhes,
de tudo que abdicas, de tudo que te falta. Um beijo o assusta,
um abraço o enfurece,
a dúvida o enlouquece,
a razão se esvanece no vácuo. Germina, assim, uma impotência tão grande,
que deforma as feições e torna tenso o corpo,
o dedo em riste, a veia que salta no pescoço,
a boca transformada em latrina. Assim nasce o conservador.
Ele teme tudo que é novo e se move.
É um ser frágil, arrogante, assustado…
e violento.
Mauro Iasi

Branco

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No meio do Branco
O Verso No meio do Verso
Uma Janela Dentro da Janela
O Rio Dentro do Rio
O Silêncio Atravessando Silêncio
O Deserto Atravessando o Deserto
O Mar No fundo do Mar
O Céu No fundo do Céu...
O Branco

Wanda Monteiro
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agora ar é ar e coisa é coisa:traço
nenhum da terra celestial seduz
nossos olhos sem ênfase onde luz
a verdade magnífica do espaço.
Montanhas são montanhas;céus são céus -
e uma tal liberdade nos aquece
que é como se o universo uno,sem véus,
total,de nós(somente nós)viesse
- sim;como se, despertas do torpor
do verão,nossas almas mergulhassem
no branco sono onde se irá depor
toda a curiosidade deste mundo
(com júbilo de amor)imortal e a coragem
de receber do tempo o sonho mais profundo

e.e. cummings - tradução: Augusto de Campos

rosto de barro

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mãos invisíveis tramam
num áspero ritmo
o duro rosto de barro
em desacordo com o espelho
o rosto se reconhece e se dissolve
outras faces nascem
atravessando o mudo reflexo
uma imagem cansada parte
e sobre a desalmada terra
incidem mil disfarces em pedaços

Carlos Orfeu

O Barulho do Mar

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Na tarde de domingo, volto ao cemitério velho de Maceió
onde os meus mortos jamais terminam de morrer
de suas mortes tuberculosas e cancerosas
que atravessam a maresia e as constelações
om suas tosses e gemidos e imprecações
e escarros escuros
e em silêncio os intimo a voltar a esta vida
em que desde a infância eles viviam lentamente
com a amargura dos dias longos colada às existências monótonas
e o medo de morrer dos que assistem ao cair da tarde
quando, após a chuva, as tanajuras se espalham
no chão maternal de Alagoas e não podem mais voar.
Digo aos meus mortos: Levantai-vos, voltai a este dia inacabado
que precisa de vós, de vossa tosse persistente e de vossos gestos enfadados
e de vossos passos nas ruas tortas de Maceió. Retornai aos sonhos insípidos
e às janelas abertas sobre o mormaço.
Na tarde de domingo, entre os mausoléus
que parecem suspensos pelo vento
no ar azul
o silêncio dos mortos me diz que eles não voltarão.
Não adianta chamá-los. No lugar em que estão, não há retorno.
Apenas nomes em lá…

Hay un niño en la calle

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A esta hora, exactamente,
hay un niño en la calle.

Le digo amor, me digo, recuerdo que yo andaba
con las primeras luces de mi sangre, vendiendo
un oscura vergüenza, la historia, el tiempo,
diarios,
porque es cuando recuerdo también las presidencias,
urgentes abogados, conservadores, asco,
cuando subo a la vida juntando la inocencia,
mi niñez triturada por escasos centavos,
por la cantidad mínima de pagar la estadía
como un vagón de carga
y saber que a esta hora mi madre está esperando,
quiero decir, la madre del niño innumerable
que sale y nos pregunta con su rostro de madre:
qué han hecho de la vida,
dónde pondré la sangre,
qué haré con mi semilla si hay un niño en la calle.

Es honra de los hombres proteger lo que crece,
cuidar que no haya infancia dispersa por las calles,
evitar que naufrague su corazón de barco,
su increíble aventura de pan y chocolate,
transitar sus países de bandidos y tesoros
poniéndole una estrella en el sitio del hambre,
de otro modo es inútil ensayar en la tierra
la alegría y el can…

Dissidência ou a arte de dissidiar

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Há hora de somar E hora de dividir. Há tempo de esperar E tempo de decidir. Tempos de resistir. Tempos de explodir. Tempo de criar asas, romper as cascas Porque é tempo de partir. Partir partido, Parir futuros, Partilhar amanheceres Há tanto tempo esquecidos. Lá no passado tínhamos um futuro Lá no futuro tem um presente Pronto pra nascer Só esperando você se decidir. Porque são tempos de decidir, Dissidiar, dissuadir, Tempos de dizer Que não são tempos de esperar Tempos de dizer: Não mais em nosso nome! Se não pode se vestir com nossos sonhos Não fale em nosso nome. Não mais construir casas Para que os ricos morem. Não mais fazer o pão Que o explorador come. Não mais em nosso nome! Não mais nosso suor, o teu descanso. Não mais nosso sangue, tua vida. Não mais nossa miséria, tua riqueza. Tempos de dizer Que não são tempos de calar Diante da injustiça e da mentira. É tempo de lutar É tempo de festa, tempo de cantar As velhas canções e as que ainda vamos inventar. Tempos de criar, tempo…

Conquista

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Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente. 


Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua! 


Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

Enquanto eu Ponderava em Silêncio

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1 Enquanto eu ponderava em silêncio,
Retornando sobre meus poemas, considerando, muito demorando-me
Um Fantasma ergueu-se diante de mim, de aspecto desconfiado,
Terrível em beleza, idade e poder,
O gênio de poetas de antigas terras,
Como se a mim direcionasse seus olhos feito chama,
Com dedo apontado para muitas canções imortais
E voz ameaçadora, O que cantas tu?, disse;
Não sabes que há senão um tema para bardos sempiternos?
E que esse é o tema da Guerra, a fortuna das batalhas,
A feitura de soldados perfeitos? 2 Que assim seja, pois, respondi,
Também eu, altivo Vulto, canto a guerra – e uma maior e mais longa do que qualquer outra,
Travada em meu livro com fortunas várias – com fuga, avanço e retirada – a Vitória trêmula e deferida,
(No entanto, creio, certa, ou quase o mesmo que certa, afinal,) – O campo o mundo;
Pois a vida e a morte – para o Corpo, e para a Alma eterna,
Vede! também venho, entoando o canto das batalhas,
Eu, sobretudo, promovo bravos soldados.

As I Ponder’d in Silence 1 As I po…

O Polvo

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Ai… um polvo!
Tentáculos na sala de estar.
Nada mais incômodo que
tentáculos pegajosos.
Este pedaço de vida
que voa pela janela
não é aquele onde eu dizia:
“Eu já resolvi isto”?
Jurei ser diferente.
Papai casou com mamãe,
perante a Igreja e a Lei.
Juraram ser felizes:
mentiram!
Nem Deus, nem os juizes
parecem se preocupar.
Eu não…
Reneguei altares,
cuspi nos papéis amarelados
dos livros de registros civil.
Comigo não…
Apaixonei-me
por olhos meigos,
por uma boca pequena
que guardava palavras doces
e beijos serenos.
Dormimos juntos
moramos juntos
juntos vivemos
comemos
saímos
amamos.
O dia
o café
o almoço
a escova de dentes
os hábitos
o hálito
os sábados
os mitos
os fatos
os filhos.
O ato falho
as falas
as facas
as falas feito facas
as feridas
Meus filhos me olham
como a dizer:
“Papai casou-se com mamãe.
nada jurou a ninguém,
nem a Deus, nem a Lei.
Não registrou seu casamento burguês
por isso pensa que sua infelicidade
é diferente”.
Tem um polvo na sala de estar!
Nada mais grudento que um polvo.
Seus tentáculos enormes e infinitos
crescem a c…

Soneto a Vera

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Estavas sempre aqui, nesta paisagem.
E nela permaneces, neste assombro
do tempo que só é o que já fomos,
um céu parado sobre o mar do instante. 


Vives subitamente em despedida,
calma de sonhos, simples visitante
daquilo que te cerca e do que fica
imóvel no que é breve, pouco e humano. 

As regatas ao sol vêm da penumbra
onde abria as janelas. E de então,
vou ao campo de trevo, à tua espera. 

O que passa persiste no que tenho:
a roupa no estendal, o muro, os pombos,
tudo é eterno quando nós o vemos. 


Alberto da Costa e Silva, in 'A Roupa no Estendal, o Muro, as Pombas'

Quando

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Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta. 


Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei. 

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Dia do Mar'

A CADA PASSO

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A cada passo, marca ou pegada
caminhada árdua, luta nossa
levantar de madrugada
da cama pula, trabalha e estuda
jornada dupla e outras coisas tantas A cada passo, pulso firme
cumpre o prazo, veia e sobressalto
cansaço bate a cada metro percorrido
até parecer de fato
que a gente tá esgotado ... que a ladeira é muito íngreme
mas a entrega nos define
e assim surge um gás
que nos faz capaz
de vencer qualquer aclive A cada passo sacolejo o desânimo
Espetacular é o obstáculo
quando a gente ama
e se amontoa de uma força
que nos transporta pra vitória A cada passo a sede mato
suplanto, raiz forte finco
pernas bem postadas, às suas marcas
fôlego novo, pedalo nas curvas da estrada
outro horizonte tão logo estará próximo E feito esse esforço
ao lado dela, cessar um pouco
olhar pra nossa história construída
respirar do frescor que nos inspira
permear de amor a nossa trilha
e as paisagens acompanham a sinergia
Alan Salgueiro

Rosa de Outono

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No outono, em abril, nascem flores. No outono, em abril, todos os anos. Tu desabrochas, e como amo, O teu perfume, como teu riso, Enleia os dias com as tuas cores. Enche meu paladar de sabores.

Nas nossas calientas diferenças Vou até teu encontro e te amo. Em suas apaixonadas interferências Vejo a garra dos teus cuidados O zelo espontâneo que demonstra Sou mais do que feliz ao teu lado.

Minha doce pele morena Que elogios tu merece? Se na vida comigo contracenas Se ao mesmo Deus fazemos preces.

Frutos recebi do que cultivamos Juntos, e escrevemos páginas Com letras ternas e amantes. Encontramos e lapidamos Juntos, no profundo da magna Lindos e originais diamantes.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos