Gênesis














Então fomos criados
E de mal-criados somos
Obedientes a nossa desobediência
Já atentos e cultivando a maledicência


E assim por uma infeliz sorte
Escolhemos a morte
O livre arbítrio do corte
De quem nunca soube escolher


Acreditando naquilo dito por terceiros
A cobiça e ambição, nosso próprio vespeiro
Que flui no teu sangue corrente
O veneno mortal da serpente


Em frente ao desastre repentino
Sem ter esperanças do que nos vestir
Voltamos ao nosso destino
De cegos esperando o divino nos redimir


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Outubro 2015


Versos Urbanos















Estou correndo pelas vielas
Estou escondido nas encostas
Depois do acontecido sou as seqüelas
Sou a real fratura exposta


As ruas são margens da civilidade
As calçadas, os cracudos, o abandono
Os mortos vivos nas cidades
Estou suave, estou sem sono


No verão árduo da vingança
Qualquer sombra que faça diferença
Na falta de uma mísera esperança
Qualquer exemplo torna-se uma referência


Lágrimas para compor meu oceano
Espinhos para construir meu jardim de cactos
O que ganho ou perco todos os anos
A dureza que me torna intacto


A faca que tua capa corta
Intervindo com dor para tua cura
A faca que abre tuas portas
Te fragiliza te depura



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Solidão
















Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Humildade























Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.


Cora Coralina

O Cântico da Terra
















Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


Cora Coralina

Tudo é Paixão



















Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

JÁ É NATAL NA LÍDER



Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines

Pré-Natal que era de grávida
virou data Black Friday
Partos de Cesária por I-Cloud
Marca de vacina é código de barra
Já é Natal na Lista de Schindler
das necessidades criadas
nas filas dos shoppings
do SPC e Serasa

Já é Natal pras elites
e pra quem é deixado de lado
pra quem brinca de amigo oculto
e pras crianças do orfanato

Já é Natal de tender
Já é Natal de chester
Já é Natal pra gente
que a gente finge
que não enxerga
Natal pra prometer outra dieta

É Natal por antecedência
pra dividir em mais parcelas
as vidas que cheiram a plástico
envoltas num papel dourado
produto com prazo contado
pra ser o novo obsoleto

Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines


Alan Salgueiro

Poesia de Natal


Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração laços de cetim rosa,
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante

Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho,
ternura,
reconciliação,
perdão!

Tem presente de montão
no estoque do nosso coração
e não custa um tostão!
A hora é agora!
Enfeite seu interior!
Sejas diferente!
Sejas reluzente!


Cora Coralina

Um Segredo



















Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.

Fernando Namora, in 'Nome Para Uma Casa'

VOU SAIR PRA VER O MAR


Deixa eu viver de forma plena
nem arma de fogo
nem rota de fuga
nem fita que isola
nem o muro que separa
vão me proibir de ver o mundo

Deixa eu sair pra ver a rua
que o luto e o nó na garganta
não me intimidem tanto
pois se pro caos não há hora marcada
é tão latente essa ameaça
que até trava o meu passo à frente

Mas se eu pisar na areia
haverá quem creia
que vai ser mais forte a resiliência
Com essa coragem que me arremessa
vou subir nas pedras
para que o vento então me acalante

E entardecendo no colo da moça
resistir aos trancos com a sua força
destravar bloqueios
que antes me prendiam num canto do quarto
Que o medo não meça os passos de me libertar
Hoje avanço, vou sair pra ver o mar


Alan Salgueiro

Suspensão



















Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo…
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa…
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.

Vinicius de Moraes, no livro “O caminho para a distância”. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Retalhos


O sol se derrama no asfalto
a tarde de domingo invade as salas do bairro

Janelas abertas em rostos
a carne assada nas bocas
o cheiro da cevada exala dos copos

Lá fora tudo acontece
e se agasalha na superfície do domingo

Aqui dentro
costuro retalhos que eu mesmo recortei.


Carlos Orfeu/Wanda Monteiro

Os Aprendizes












Aos que serão, que sejam
Aos que terão, que tenham
Aos que vão, que voem
Aos que virão, que venham


Que teus caminhos sejam como seus sonhos
Que cada noite recebida seja como ganho
Que teus sorrisos sejam como o sol
Que precisa nascer todas as manhãs


Tudo que temos, tudo que somos
Uma sacola de vontade e sonhos
Tudo que queremos, tudo que seremos
Vai até onde nós nos propomos


Os segredos guardados
Que sejam libertados
Os aprendizes fardados
Que se tornem mestres


O carinho do abraço doado
Como a palavra dita não volta atrás
O conhecimento apropriado
Não se perderá jamais


Que cresçam como as flores
Que voem como condores
Não bebam o vinho dos impostores
Não desistam como desertores


Que teus dias possam ser duradouros
Os ensinos absorvidos um ancoradouro
Para mapear os rostos desconhecidos
Para abrir as portas trancadas


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

18/11/2015

Usura do Amor
























Por cada hora em que agora me poupares
Eu dar-te-ei,
Usurário deus do Amor, vinte para ti
Quando meus cabelos castanhos os grisalhos igualarem.
Até então, Amor, deixa meu corpo reinar e permite
Que viaje, me hospede, arrebate, intrigue, possua, esqueça,
Retome a conquista do ano passado, e pense que até agora
Nunca nos tínhamos encontrado.

Deixa-me tomar por minha qualquer carta de um rival,
E nove horas mais tarde,
Cumprir a promessa da meia-noite; pelo caminho, enganar
A criada, e contar à senhora da demora.
Deixa que não ame nenhuma — não —, só o jogo do amor.
Junto da erva do campo, dos doces da corte
Ou «coisinhas» da cidade, torna públicas
As disposições da minha mente.

Fazes um bom negócio. Se já velho vier a ser
Inflamado por ti
E se, a tua própria honra, minha vergonha ou dor
Cobiças, muito mais ganharás nessa idade.
Faz então a tua vontade, porque sujeito e mandatário
E fruto do amor, Amor, a ti me submeto.
Poupa-me até então, e suportá-lo-ei, mesmo que ela seja
Uma que me ame.

John Donne, in "Poemas Eróticos"
Tradução de Helena Barbas

As seis cordas














A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que boiam no seu negro
abismo de madeira.


Federico Garcia Lorca

Ode a alegria


Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!


Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo, Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma, possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza: todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus!

Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória.

Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o Pai Amado.
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóboda estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.


Friedrich Schiller

Horário do Fim


















morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

De todas as obras

















De todas as obras humanas, as que mais amo 
São as que foram usadas.
Os recipientes de cobre com as bordas achatadas, e com mossas
Os garfos e facas cujos cabos de madeira
Foram gastos por muitas mãos; tais formas
São para mim as mais nobres. Assim também as lajes
Polidas por muitos pés, e entre as quais
Crescem tufos de grana: estas
São obras felizes.
Admitidas no hábito de muitos
Com frequência mudadas, aperfeiçoam seu formato e tornam-se valiosas
Porque delas tanto se valeram.
Mesmo as esculturas quebradas
Com suas mãos decepadas, me são queridas. Também elas
São vivas para mim. Deixaram-nas cair, mas foram carregadas.
Embora acidentadas, jamais estiveram altas demais.
As construções quase em ruína
Têm de novo a aparência de incompletas
Planejadas generosamente: suas belas proporções
Já podem ser adivinhadas, ainda necessitam porém
De nossa compreensão. Por outro lado
Elas já serviram, sim, já foram superadas. Tudo isso
Me contenta.


Von allen Werken

Von allen Werken, die liebsten
Sind mir die gebrauchten.
Die Kupfergefäße mit den Beulen und den abgeplatteten Rändern
Die Messer und Gabeln, deren Holzgriffe
Abgegriffen sind von vielen Händen: solche Formen
Schienen mir die edelsten. So auch die Steinfliesen um alte Häuser
Welche niedergetreten sind von vielen Füßen, abgeschliffen
Und zwischen denen Grasbüschel wachsen, das
Sind glückliche Werke.
Eingegangen in den Gebrauch der vielen
Oftmals verändert, verbessern sie ihre Gestalt und werden Köstlich
Weil oftmals gekostet.
Selbst die Bruchstücke von Plastiken
Mit ihren abgehauenen Händen liebe ich. Auch sie
Lebten mir. Wenn auch fallen gelassen, wurden sie doch getragen.
Wenn auch überrannt, standen sie doch nicht zu hoch.
Die halbzerfallenen Bauwerke
Haben wieder das Aussehen von noch nicht vollendeten
Groß geplanten: ihre schönen Maße
Sind schon zu ahnen; sie bedürfen aber
Noch unseres Verständnisses. Anrerseits
Haben sie schon gedient, ja, sind schon überwunden. Dies alles
Beglückt mich.

Bertolt Brecht: Gesammelte Werke in 20 Bänden (8-10), Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1967.
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], Sâo Paulo, Editora 34, 2000, p. 84

Procura-se


















Eu quero qualquer coisa mágica,
qualquer coisa azul,
qualquer forma de ser feliz.
Não quero acordar cedo,
quero prolongar o sonho mesmo
que a história seja trágica.
Não quero sonhos falsos,
Não quero destino já traçado,
Não quero uma vida básica.
Não quero restos ou pedaços
Não quero olhar o relógio,
Não quero um tempo sádico.
Quero valer um mar azul
uma estrela na varinha de condão
um poema de efeito mágico,
que seja fácil, que seja simples,
nem litúrgico, nem letárgico,
mas que fale ao coração...

Sônia Schmorantz

RASCUNHO

















Quem explica a logística da órbita?
O que leva a caneta a ferir a página?
O que leva a escrita a alcançar a lágrima?
Por que se aproxima se depois se afasta?

Se é pela paz que a gente briga
Se é pra sorrir que a gente chora
Quem vai controlar o rumo dessa história?

Se na equidistância entre os pontos
Se no alinhamento dos planos
Lua e sol nunca se encontram

Se te alertassem
que não atinges teu ápice
mostrando teus superpoderes
mas sim nos teus momentos frágeis
talvez te visitasse outra galáxia
talvez desativasse o pára-quedas

Respiro
Rabisco meu próprio infinito
Sou só caminho, rascunho
Incessante tentativa


Alan Salgueiro

Lista de Preferências de Orge














Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis;
Conselhos, os inexeqüíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, Outubro

Elementos, os fogos
Divindades, o Logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.



Orges Wunschliste

Von den Freunden, die nicht abgewogenen.
Von den Häuten, die nicht abgezogenen.

Von den Geschichten, die nicht unverständlichen.
Von den Ratschlägen, die nicht unverwendlichen

Von den Mädchen, die neuen.
Von den Weibern, die getreuen.

Von den Orgasmen, die ungleichzeitigen.
Von den Feindschaften, die beiderseitigen.

Von den Aufenthalten, die vergänglichen.
Von den Abschieden, die unerschwänglichen.

Von den Künsten, die unverwertlichen.
Von den Lehreren, die beerdlichen.

Von den Genüssen, die aussprechlichen.
Von den Zielen, die nebensächlichen.

Von den Feinden, die empfindlichen.
Von den Freunden, die kindlichen.

Von den Farben, die rote.
Von den Botschaften, der Bote.

Von den Elementen, das Feuer.
Von den Göttern, das Ungeheuer.

Von den Untergehenden, die Lober.
Von den Jahreszeiten, der Oktober.

Von den Leben, die hellen.
Von den Toden, die schnellen.


Bertolt Brecht: Gesammelte Werke in 20 Bänden (8-10), Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1967.
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], Sâo Paulo, Editora 34, 2000, p. 47.

Cada Dia























O tempo se esfumaça
na janela em que se espreita a vida.
O alaranjado entardecer traz nostalgia
como se a vida também desaparecesse
com o sol ao final de cada dia.
Não se vive uma história sem amor
Não se faz um caminho sem coragem
Não se passa os dias em branco.
Há em cada dia uma chegada e uma partida,
coisas que estão além do bem e além do mal.
Cada dia tem sua dose de ironia e de amor
sua dose de rotina e sua dose de humor,
mas quando chega ao final morrem com ele
tudo que se passou, morremos nós.
Ficam as lembranças do que marcou,
o resto fica num labirinto de imagens,
engavetados na memória, sem uso...
Cada dia amanhece e anoitece à mesma hora,
cada um com seu destino ou desatino,
entre um e outro há o tempo que não volta.
O tempo parece brincar entre acasos e ocasos,
dias compridos, coisas novas e coisas velhas.
Depois desarruma tudo e vai embora...

Sônia Schmorantz

Primeira Palavra























Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios umedeça
a primeira palavra do teu corpo.


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Transitoriedade




















Cai-me da árvore da vida
Folha por folha,
Oh mundo, vertigem colorida!
Como me sacia,

Como sacia e cansa
Como me inebria!
Hoje a chama mansa
Logo jaz em sombra fria.

Em breve zune o vento
Sobre minha cova rubra,
Sobre seu rebento
A mãe se debruça.

Os olhos dela quero rever,
Seu olhar é minha sorte,
Tudo pode partir e se perder,
Tudo morre, tudo tende à morte.

Só a grande mãe é eterna,
Seu ventre nos fez homem,
Seu dedo rabisca feito pena
No céu fugaz nosso nome.



Vergänglichkeit

Vom Baum des Lebens fällt
Mir Blatt um Blatt,
O taumelbunte Welt,
Wie machst du satt,

Wie machst du satt und müd,
Wie machst du trunken!
Was heut noch glüht,
Ist bald versunken.

Bald klirrt der Wind
Über mein braunes Grab,
Über das kleine Kind
Beugt sich die Mutter herab.

Ihre Augen will ich wiedersehn,
Ihr Blick ist mein Stern,
Alles andre mag gehn und verwehn,
Alles stirbt, alles stirbt gern.

Nur die ewige Mutter bleibt,
Von der wir kamen,
Ihr spielender Finger schreibt
In die flüchtige Luft unsre Namen.



Hermann Hesse
Cadernos de Literatura em Tradução, nº. 11, USP, p. 277-280.

Entrada

















Quem quer que você seja: quando a noite vem,
saia do quarto, que você conhece bem;
seu último reduto antes do além:
quem quer que seja o quem.
Com os seus olhos que, de cansaço,
mal conseguem se erguer do pó,
levante, lento, a árvore negra do espaço
e a ponha contra o céu: esguia, só.
E você fez o mundo. E ele é grande
como a palavra que o silêncio expande.
E quando o seu sentido lhe penetre a mente,
que os seus olhos o levem suavemente...


Eingang

Wer du auch seist: am Abend tritt hinaus
aus deiner Stube, drin du alles weißt;
als letztes vor der Ferne liegt dein Haus:
wer du auch seist.
Mit deinen Augen, welche müde kaum
von der verbrauchten Schwelle sich befrein,
hebst du ganz langsam einen schwarzen Baum
und stellst ihn vor den Himmel: schlank, allein.
Und hast die Welt gemacht. Und sie ist groß
und wie ein Wort, das noch im Schweigen reift.
Und wie dein Wille ihren Sinn begreift,
lassen sie deine Augen zärtlich los...


Rainer Maria Rilke, em "O livro de Imagens " (1902-1906) Primeiro Livro Parte I. In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 42-43
.

Ressurgências



















Gorjeia o pássaro na manhã,
e com o seu acalanto encanta
o mais próximo dos pecadores;
canta sua natureza sem culpas
neste império de mistérios e dores.

Quem o ouve olha em volta
e o busca na imensidão dos tempos:
cede o instante de perduração
e a memória em triunfo
torna a morte uma crise inútil.

Em vão é o pensamento -
o pássaro na manhã evade-se.


Rosalvo Acioli Júnior, em "Inventário de cinzas". Rio de Janeiro: Editora Íbis Libris, 2014.

E AS MINHAS MENINICES...
















Ainda tem o atrevimento
aqueles olhos que não se contentam
e as minhas meninices
não se amedrontam

Ainda tem o ato impensado
e a pureza da brincadeira
e as minhas meninices
lá se amontoam

Ainda tem a roupa suja
e o sorriso enfeitado de farra
e as minhas meninices
não se amarrotam

Ainda tem a turma, a cura
e um restinho de tinta na cara
e as minhas meninices
não se amarguram

Tem verdade gigante
em alma de pequenino
e as minhas meninices
não se amenizam
Alan Salgueiro

Se fôssemos infinitos














Fôssemos infinitos
Tudo mudaria.
Como somos finitos
Muito permanece.


Dauerten wir unendlich

Dauerten wir unendlich
So wandelte sich alles
Da wir aber endlich sind
Bleibt vieles beim alten.


Bertolt Brecht
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo, Editora 34, 2000, p. 343.

Dita Duras












Se lutar já foi crime
Alguns pagaram o preço
De ser preso
O prisioneiro agora oprime
O ostracismo escolhido
Dos livres surpresos


Se pensar deprime
O que não sabe por que lutar
Os passos pesados e firmes
De quem todo dia é labutar


As bocas secas pedem o molhado
As mãos vazias na espera do trocado
O desvio calculado do bocado
Com o sabor delicioso do pecado


Se pedem pelo verde nas ruas
Não é o verde da esperança
Mas diante do que está ruim
Brincar disso, só tinha graça quando criança


Queremos sonhar com os pés no chão
Queremos amor e um pedaço de pão
Queremos andar livre sem sentir medo
Das prisões sem grades
Construídas em segredo


Dos porões nos libertamos uma vez
Não adianta está belo com cheiro de mofo
Tantas representantes que não nos representam
Tantas oportunidades que nos inventam


Este sol que derrete minha paciência
Este caminhar perdeu os seus motivos
Não somos os que perderam a decência
Somos todos decadentes e nocivos



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


Pensamentos Noturnos























Tão belas na rútila luz soberana,
Guia do navegante aflito, sem norte
(E sem recompensa, divina ou humana),
– Tenho dó de vocês, estrelas sem sorte,
Sem jamais amar e sem saber do amor!
Tangendo, incansáveis, as horas eternas
Na ronda do tempo das vastas esferas,
Vocês vão cumprindo percursos sem conta.
Mas eu, se nos braços dela permaneço,
Da noite que passa – e de vocês – me esqueço.



Nachtgedanken

Euch bedaur’ ich, unglücksel’ge Sterne,
Die ihr schön seyd und so herrlich scheinet,
Dem bedrängten Schiffer gerne leuchtet,
Unbelohnt von Göttern und von Menschen.
Denn ihr liebt nicht, kanntet nie die Liebe!
Unaufhaltsam führen ew’ge Stunden
Eure Reihen durch den weiten Himmel.
Welche Reise habt ihr schon vollendet,
Seit ich weilend in dem Arm der Liebsten
Euer und der Mitternacht vergessen!



Goethe
Poesia Pois É Poesia 1950-2000, Décio Pignatari, Cotia, SP, Ateliê Editorial, Campinas, SP, Editora da UNICAMP, 2004, p. 267.

Destino


















à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?


Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

ME EMPRESTA TEU OMBRO
















Me empresta teu ombro
pra eu lembrar que o mundo
ainda vale a pena

Me leva pro teu universo
onde tudo é mais simples e repleto
daquelas famosas perguntas
que nos deixam de saia justa

Deixa eu repousar o peso
Clareia com o sorriso essa neblina
E como complica essa gente crescida
que não se permite sonhar acordada

No ouvido me conta um segredo
e brinca de esconder teus medos
Faz do meu colo um porto seguro
no pulo que nos encoraja

Me diz algumas coisas
que me tiram o chão
Parece impossível dizer não
pra qualquer coisa que tu peças

Eu já esgotado, você sem cansaço
Me inspira com energia após cada tombo
Só não se esqueça nunca
de emprestar teu ombro


Alan Salgueiro

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...