A Infância


















Quando era criança queria ser grande
Quando se é grande quer ser pequeno
Ainda me lembro de quando menino
apenas sonhava
Pesadelo é coisa de homem barbado.


Dirigia ônibus, era médico, matava ladrões,
governava o mundo, salvava as pessoas,
até podia ser um bom vilão.
Morria de brincadeirinha
quando se cresce vê que a morte não é brincadeira
Vivia de brincadeirinha
o mundo era um pequeno brinquedo
que minha inocência dominava.


Então cresci, e me perdi
pois o mundo tornou-se grande demais para mim
Quanto mais cresci
menor me tornei diante do mundo.
Meu coração virou um pequeno brinquedo
na mão de crianças más
então tudo aconteceu naturalmente
o ônibus me atropelou, o médico me maltratou,
fui acuado e dominado
não salvei nem a mim mesmo.
E o bom vilão?
Ah! esse me matou.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Poética

















Não faço versos
Eles apenas brotam na minha escuridão
e escorrem
suando
em minhas mãos,
e se entregam ao papel
É como uma fonte que mina na rocha
querendo encontrar seu destino.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Casa



















A casa me percorre
seus telhados inúteis
e cristaleiras opacas
a vida que nela habitava
um filme sem voz


naquele pedaço de rua
a casa quase humana
meu navio para sempre
fazendo água


em dias de calor úmido
a casa me atravessa
como um pássaro quebrado


Roseana Murray

O acidente


















Pai!
naquela noite senti a tua importância
no momento em que parecia te perder
senti o meu espelho quebrar
Meu espelho tão frágil
mas, no fundo duro como uma pedra


Este teu gênio de granito de rocha
Este teus cabelos brancos
Este teu rosto, teu corpo envelhecido
pelas duras lutas da batalha vida
escondem um diamante. Tua alma.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas 1991

Pecador contrito aos pés de Cristo crucificado



















Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
verdade é, meu Senhor, que hei delinquido,
delinquido vos tenho, e ofendido
ofendido vos tem minha maldade.


Maldade, que encaminha a vaidade,
vaidade, que todo me há vencido,
vencido quero ver-me e arrependido,
arrependido a tanta enormidade.


Arrependido estou de coração,
de coração vos busco, dai-me abraços,
abraços, que me rendem vossa luz.


Luz, que claro me mostra a salvação,
a salvação pretendo em tais abraços,
misericórdia, amor, Jesus, Jesus!


Gregório de Matos Guerra

Semente Embrionária














Minha mãe terra, meu pai agricultor
Arando com palavras belas e afáveis
o solo fértil
para receber as sementes


Semente embrionária
ali germinara
Em choro minha mãe me viu nascer
abrindo as portas do céu e do inferno para mim
Me dando calor no inverno
me guardando das dores geladas do mundo


Recebi dúvidas e incertezas como companhia
Andei, andei, andei...
e procurei, procurei, procurei...
por este mundo outro ser como eu
Então, te encontrei
Alguém melâncolico como a mim
Teu ódio parecia ser meu


Então você me roubou
neste mundo inseguro
Do meu coração
o sentimento mais puro
O sentimento que nasce, germina
e amadurece até cair de maduro.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

As duas pombinhas


















a pombinha branca
e a pombinha cinza
voando pelo céu
num primeiro voo de liberdade


a pombinha branca
queria voar para bem alto
mas, tinha medo de suas pequenas asas não aguentar
a pombinha cinza
era realista
voava até o meio do caminho
sem pensar no desconhecido


a pombinha branca
tinha os olhos fascinados
pelo o brilho do infinito
já a pombinha cinza,
essa, voava baixo
com os pés perto do chão


um dia, a pombinha branca voou
e nunca mais voltou
viajou pelos seus sonhos
de céus, mares e terras
mas, a pombinha cinza, ficou
pela terra a fazer seu ninho
que nunca mais deixou.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas
À Minhas Primas Edvânia e Edisandra.

Soneto V

























Umas vezes me tenho por perdido,
outras, inda me dou por bem parado;
cuidoso agora, agora descuidado,
aqui enlevado, ali aborrecido;


hoje ledo, amanhã arrependido;
já venturoso, já desventurado,
Em um tempo confiante e desconfiado,
juntamente que atento, confundido.


Deste estado igualmente morro e vivo,
temperado a alegria coa tristeza,
e sonhando melhor quando desperto.


Porque Amor, que me tem assim cativo,
é mais certo, quando é mor a incerteza,
quando é mor a certeza, é mais incerto.


Guilherme de Almeida

A Cama
















santuário de meditação
o oráculo de quem ama.
Meu esconderijo... solidão
onde minha dor inflama.


Onde nasci e morri
tantas vezes... e tanto
enfermo quieto sofri
neste que é meu canto.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Cancioneiro



















Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,


Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?


Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho,
Com que te oiço fugir!


Fernando Pessoa

Fimorte

















do fim... descanso, desencanto,
dor, choro, nuvens de pranto
saudade... imagem que fica
da doce criança que brinca


brinca com os sentidos puros da vida
e sua inocência... virtude
que acalenta e cura a ferida
retornando a plenitude


a morte carne, a morte alma
são tão iguais e tão diferentes
súbitas, destrutivas... uma calma


de morte que contenta
torna-se sepultamento... presente
de que lhe ostenta.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

No meio do caminho

















No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Carlos Drummond de Andrade

Pré-história


´




















Meu pai e minha mãe se olharam
um de uma esquina e outro de outra
se conheceram, namoraram, casaram,
sorriram, brincaram e se amaram
e daí, nove meses depois eu nasci.


Então veio os natais
e a escrita.
E assim começou minha história.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Amante Solitário

















Esta minha alma sombria e errante
que habita na noite profunda
de saudade, preenche e inunda
a tristeza de um amargo amante.


Como era tão fútil, mas flamante
um amor brutal animal no cio
podia ver neste teus olhos vazios
este teu desejo fatigante.


E na morte que estou vivendo
solitário, obscuro... perdido
e nas lágrimas que vão descendo


vejo minha vida sem sentido
e nesta caminhada vou sofrendo
as últimas de um amor rompido.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Coitado! que em um tempo choro e rio



















Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
De uma cousa confio e desconfio.


Avôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço
Cabo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.


Qu'ria, se ser pudesse, o impossível;
Qu'ria poder mudar-me, e estar quedo;
Usar de liberdade, e ser cativo;


Queria que visto fosse, e invisível;
Queria desenredar-me, e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!


Luís Vaz Camões

A torta torta
















Pessoas tortas
de cérebros tortos em vidas tortas.
Se entortam em tortos caminhos
procurando uma porta torta
com tortas esperanças atrás de casas tortas.


De tão tortos que são
não andam mais em pé.
Andam encurvados.
Pois o sol com seu olhar reto
vai na reta de suas frontes.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Epigrama n°8



















Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.


Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.


Cecília Meireles

Pensamentos

















"A poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas."


Manuel Bandeira

Destruição





















Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.


Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.


Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.


E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.


Carlos Drummond de Andrade

Residência















A minha residência é onde moram
as coisas impossíveis
um grito atravessa o tempo
e pousa em minhas mãos


tiro as palavras
de um poço seco
as palavras como sinos
quando se puxa a corda
a água não existe.


Roseana Murray

Renúncia


















Chora de manso e no íntimo... Procura
curtir sem queixa o mal que te crucia
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura...


Só a dor enobrece e é grande e é pura
Aprende a amá-la que a amarás um dia
Então, ela será tua alegria
E só ela será tua ventura.


A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira
Sem um grito sequer tua desgraça...


Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...


Manuel Bandeira

Amor Distante



















Nas noites de insônia, este teu vulto
que passeia como lembranças. Trago preso
sua beleza merecedora de culto.
Do seu amante que vaga indefeso.


E te espera com alma anelante
seja amanhã... Pela eternidade
Pois é crueldade para dois amantes
a distância de um amor. A saudade


Pois peço a Deus que no futuro
em vida, tua presença torne presente
pois minha ânsia. Ainda te procuro


E enquanto tu estiveres ausente
pois todo canto, teu canto procuro
esta saudade me corrói ardente.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Versos de Ocasião 2


















Quero teu caule, tuas raízes
os cortes e as cicatrizes
Mas não me deixe sozinho
sou terra que não brota
nem flores, nem espinhos
Apenas árvores secas
que não servem de ninhos.


Pois meu amor
não deixa nada viver.


Palavras de amor
nascem no jardim
não sei se são flores
ou capim
de emails até teletrim
podem chegar.


Te olho em segredo
por detrás do vidro
como um doce derretido
melo meus dedos


Te olho com medo
de perder os meus sentidos
não ser teu querido
morrer no desejo.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Vermes Apaixonados
















Se me perco em palavras
se tropeço nas pernas
se tombo nas pedras
se vivo como uma larva...


é esta saudade que me limita
é ela que me nutre
como um abutre,
da podridão, da carniça, tiro o meu alimento.


Escapou-me o brilho dos teus olhos
que haviam cristalizado em minhas mãos.
Fugiu como águia
como uma melodia que nunca mais lembrarei.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

O Mar

















O mar é onde
o tempo não existe
onda onda onda
a eternidade no mar
descansa sua dura face


o homem olha o mar
milenar espelho
e grita seu nome


no ar das gaivotas
um silêncio mineral
transforma a alma em peixe.


Roseana Murray

O Rio
























E este rio que jorra dentro de mim
que não sei do que é? de onde vem?
E lá vai o rio seguindo seu curso infinito
para os olhos de quem apenas o ver.


Rio fraco e pacifico
vezes forte e voraz
me consome por dentro
me renova por dentro
tem vida, tem morte
em suas correntezas
te vigio, te sinto
correr em minhas veias.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Poética



















Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.


Cassiano Ricardo

Trechos...



















"Ouvem-se vozes, surgem rostos, imagens e momentos vêm e vão - uma promessa quebrada, um sorriso falso, um túmulo, uma noite de núpcias, um capacete na chuva, um velho pai dançando, um filho usando a palavra "exibicionismo", a mancha de vermute num vestido cor-de-rosa e as de batom num lençol, os risinhos de malícia, os murmúrios de traição, todos os movimentos arriscados, ambíguos; armas por toda parte, mais os alvos escondidos, as condições de rendição ou vitória jamais firmadas.
Às vezes é preciso mais coragem para vencer os cem metros até a porta de casa do que atravessar os muros de uma fortaleza.

Cuidado com quem está no poder. Parece que estão sempre receosos de que vão tirar o dinheiro deles, e então reagem cegamente, golpeando em todas direções.
Cuidado com os sistemas. Cuidado com os governantes são todos iguais. Fazem tudo para continuar onde estão."


Partes do livro Lembranças de Um dia de Verão - Irwin Shaun

Busque Amor novas artes, novo engenho
















Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que não tenho.


Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não tenho contrastes nem mundanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;


Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.


Luis Vaz Camões

O Prisioneiro

















O ventre e os braços
da mãe, o berço,
a casa, a escola,
o pátio, o ônibus,
o escritório, a
mulher e o sono.


Mauro Mota

Versos de Ocasião

















Das ruínas de meu coração
posso construir minha prisão
e dos restos que sobraram
minha constelação


Do mal que extraí de tua urina
da seiva que sai de teus seios
de minhas lágrimas e meus anseios
posso criar meu oceano de perdição


Sou vento
sem canto
e canto
meu canto
por todo lugar


Não quero
falar do que perdi
pois senti
sofri
amei
chorei
por todo lugar


Que pena!
Meus olhos pobres apenas vêem
corpos que naufragam sem socorro
na noite vertical.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

A Cura

















Minha alma etérea, triste, sombria
como a noite estelar que me inunda
que o silêncio é tanto que perturba
virgem do sorriso e da alegria.


Nenhum dinheiro no mundo compraria
o brilho dos meus olhos neste instante
nenhum ouro, petroléo ou diamante
nem flores, outros amores, nem magia.


Apenas tu, com esta pele em calor
exalando sentimento em fragância
curando assim, este maldito tumor
que me atormenta desde a infância.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Momento de Febre



















A rua com seus perfumes
sabores e cores
A vida misteriosa, ativa,
imperfeita e cheia de dores
Os pássaros cantando
Os lírios brotando
no meu coração.
Não sei, não sei...
Se estou triste, se estou alegre,
se estou perdido, se estou sofrendo.


Apenas sei, que estou amando.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedades dos Eremitas

A Puta
























Naquele dia Maria
saiu se entregando ao amor ( dizem ser amor )
E amou os homens
com um amor intenso e febril
Amava tanto!
Amou José, amou Manuel,
amou Severino, amou João,
amou Antônio, amou Simão...
Amou tanto
que morreu sem amor
de ninguém.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Pais e Filhos



















Estátuas e cofres, e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do 5°andar
Nada é fácil de entender


Dorme agora... É só o vento lá fora
Quero colo, vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três


Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito


É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar
Na verdade não há


Me diz por que é que o céu é azul?
Me explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais


Sou uma gota d'água, sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?


Renato Russo

A História da Sociedade
















O ser humano
na sua primitiva essência
andava sem rumo
solitário e nômade.
Teve uma ideia!
Criou uma cidade
e procurou viver com seu semelhante.


E assim se criou
a inveja, e a ganancia,
o dinheiro, o ódio,
as armas, a pólvora,
o medo e a guerra.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Pensamentos


A vida humana pode ser resumida em três fatos importantes: nascer, viver e morrer. Mas o homem não se sente nascer, sofre ao morrer e se esquece de viver.


La Bruyere ( escritor francês )

Palavras



















A paz falsa encoberta por palavras
palavras que apaziguam, dignificam,
aquelas que lavam e purificam.
palavras que ficam e tu me encravas
escondidas, encarnadas, camufladas;
brandas, suaves, pesadas e macabras.


Sou um livro, um pergaminho
palavras nutrem minha alma
me dão esperança e calma
para voltar ao meu caminho
rumos negros como mim mesmo
só sei ferir-me próprio, a esmo.


Palavras nascem num riacho
rumarei onde forem elas
se por avenidas ou vielas
se em alto-mar ou em regato
andarei mais, andarei em terra
gritarei como bicho que berra.


Não me abra como a qualquer livro
sou encanto do mórbido... distante
não me queiras por mínimo instante
pois em fazer o mal, não me privo
não acredito em palavras... escrevo
tudo que com meu tato percebo.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Juventude

















Mar de fúria e de inquietude
as mãos engorduradas de desejos
roupas armadas de atitude
vaidosos em seus ensejos.


São água derramando no recipiente
falam como donos da verdade
são livres em suas mentes
mas se perturbam frente a liberdade.


Henrique Rodrigues Soares - Fases da Vida - Sociedade dos Eremitas

Adolescência
























Calmo, fui no que pude
preso nos sonhos adolescentes
cheio de fúria e atitudes
louco, tempestuoso e displicente.



Farto de desejos... amores crônicos
jeito puro, atirado e indômito
às vezes falo muito... vezes lacônico
bicho do mato, surpreso... atônito.



Minto por não saber a verdade.
Espinhos... meu rosto deformam
hormônios... meu corpo transformam
de sincero, minha autenticidade.



Voraz e de alma gentil
sentimentos ferozes
todos consigo... algozes
de um desejo mercantil.



Henrique Rodrigues Soares - Fases da Vida - Sociedade dos Eremitas

Infância

















Já pequenas plantas... elas cresciam
procurando seu lugar no mundo
falta de certeza do que faziam
brincando estes seres fecundos.



Do mal ou do bem, mas sem querência
pedras esperando serem lapidadas
algumas brutas e deformadas
em sua infinita inocência.


Henrique Rodrigues Soares - Fases da Vida - Sociedade dos Eremitas

O Embrião
























Nascemos embriões vigorosos
sete a nove meses guardados
para que nossa carne, nossos ossos
possam viver enfim... separados


Do seio materno que nos preparou
e a quebrar o cordão que nos prendia
num despertar quase que lento chorou
a semente mostrou sua magia.


Henrique Rodrigues Soares - Fases da Vida - Sociedade dos Eremitas

Apolo
























Narcisos enfurecidos
pintaram seus retratos.
O espelho de uma perfeição
que não existe.
Perfeitamente imundos
são suas almas
e seus preconceitos
e seus racionalismos
baratos.



Egoístas imaturos
não conseguem controlar
sua inferioridade
diante do seu frágil
disfarce
escondidos no espelho.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Poema Sujo












Não escreverei palavras belas ou afáveis.
Não cantarei a alegria, o romantismo,
nem as mulheres.
Cantarei, sim!
O som triste da solidão
os negócios escusos
os sentimentos confusos
a feiura e o ódio que exorcizam meus olhos


Não ficarei calado
é necessário continuar,
então escreverei... escreverei... palavras terríveis e absurdas
escreverei dores, derrotas e egoísmo.


Sinta nas suas narinas
as impurezas do meu coração.
Sinta nas suas narinas
o mau cheiro destas palavras.


Não há beleza na realidade.
Não há amor na realidade.
O não existir é perfeito
as flores são perfeitas
e o homem uma mentira mau contada.


Nossos olhos enganados sobrevivem
do vaivém dos disfarces
que circulam entre nós
com toda sorte de maquiagem.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Pensamentos
























Toda carne é impura
se todo desejo for impuro.
Pois toda carne deseja o que não lhe pertence.
Toda carne quer dominar, quer possuir...
As flores respiram no jardim
o ar impuro dos corpos
que se enganam, se estrupam,
dizendo está se amando,
porém, tudo é desejo...
apenas desejo.


Desejo é como o vento.
Vem...se achega como uma brisa
depois vira furacão e passa violentamente
deixando os vestígios de sua erosão.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Sensações

Foto Antônio Carlos Januário

















Não ligue para as televisões ligadas
não ligue para os telefones chamando
ouça apenas o som
ressoando lá fora,
o som do mundo vivo.
Não! para este mundo morto das televisões.
Não! para as vozes sem rosto dos telefones.
Não! para estas pessoas que te cercam
com seus pensamentos codificados.


Sim! quero ouvir...
Quero ouvir os ruídos dos insetos
quero ouvir o marulhar das águas do mar
quero ouvir o eco do vento
passear pela madrugada solitária
quero ouvir pássaros, bichos
entrando e saindo nos meus tímpanos.


Não! para o som metálico e correto das máquinas.


Apenas, quero ouvir
O som sem sentido
que dá sentido ao mundo.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Pensamentos extraídos


Os que aceitam o dever sem aceitar a aventura nele entranhada haverão de levar existências pálidas, vitimas da rotina. E os que julgam ser a aventura a porta da evasão que os sonega ao dever também estão antecipadamente condenados - e, após a fuga e a exaltação, a febre e o gasto, encontrarão o desencontro.


Ledo Ivo

Sociedade dos Eremitas

Foto Antônio Carlos Januário

















Sou uma pétala num jardim
sou uma gota d'agua no mar
sou um grão de areia na praia
sou tão pequeno...tão frágil
e tão soberbo
que as vezes
audaciosos como somos
julgamos ao mundo e a Deus.


Nos achamos um petardo, uma bomba nuclear
nossas línguas afiadas destruindo a tudo e a todos
a língua? a ponte? ou a destruição da amizade?


E a raça humana, superior aos outros seres vivos
não consegue viver sem o ser morto, sem o menor molusco
mas mesmo assim, nos achamos poderosos, sábios, deuses
e não entendemos a nós mesmos.
Nos enganamos na ânsia de esconder o medo, a angústia
humana de viver só
pois o homem vive só...
só ele que não sabe
-Por favor, não diga para ele.


Estamos cercados de pessoas
e as pisamos como pedras que ficam ao caminho.
Fingimos não vê-las ou não vemos
pois nosso orgulho cegou nossos olhos.


Então me pergunto,
até que dia
o homem vai acreditar
que ele é social?


Henrique Rodrigues Soares - Poesia de abertura do livro Sociedade dos Eremitas 1990/1996

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...