ME EMPRESTA TEU OMBRO
















Me empresta teu ombro
pra eu lembrar que o mundo
ainda vale a pena

Me leva pro teu universo
onde tudo é mais simples e repleto
daquelas famosas perguntas
que nos deixam de saia justa

Deixa eu repousar o peso
Clareia com o sorriso essa neblina
E como complica essa gente crescida
que não se permite sonhar acordada

No ouvido me conta um segredo
e brinca de esconder teus medos
Faz do meu colo um porto seguro
no pulo que nos encoraja

Me diz algumas coisas
que me tiram o chão
Parece impossível dizer não
pra qualquer coisa que tu peças

Eu já esgotado, você sem cansaço
Me inspira com energia após cada tombo
Só não se esqueça nunca
de emprestar teu ombro


Alan Salgueiro

















Da janela vejo ruas sem nome
casas coloridas abrigadas em montanhas,
da janela sinto a brisa e cheiro dos eucaliptos,
o cheiro das ruas sem nome
onde vento balança verdes folhas
e nascem flores em pedras.

Estas ruas tem silêncios mágicos
como poemas ainda imaginados,
acabam no pé da montanha
mas seguem a caminho do mar...

Ruas de casas pequeninas e pequenos jardins.
Ruas sem nomes, sem números
que da janela vejo encantada
enquanto as flores crescem
agarradas às saliências das duras pedras.

O verão pinta o quadro
e eu aqui, o vejo
pela janela emoldurado...

Sônia Schmorantz

Música Surda

















Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.



Dante Milano, Obra Reunida, Organização e estabelecimento de texto de Sérgio Martagão Gesteira, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. 529 p.

Urbanidade

















Despertando cansado e sem vontade
As dores que me ferem com claridade
A indiferença andando com a possibilidade
Que valoriza a quantidade versus a qualidade


Os despossuídos das ruas não ferem minha humanidade
O menino abandonado não fere a minha identidade
Dos vidros que possuo pela cidade
Transmito a frieza rejuvenescida da urbanidade


Que constrói muros com praticidade
Que escolhe a quem dar as oportunidades
Que acerta nos outros a enfermidade
Ludibriando a vida com conformidade


Entendendo miséria e pobreza como continuidade
Olhos altivos e mãos sujas de cumplicidade
Olhos sombreados e unhas pintadas de vaidade
Cortejando o solitário mundinho da sociedade.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


Do pobre B.B.






















1
Eu, Bertolt Brecht, venho da floresta negra.
Para a cidade minha mãe me carregou
Quando ainda vivia no seu ventre. O frio da floresta
Estará em mim até o dia em que eu me for.

2
Na cidade de asfalto estou em casa. Recebi
Desde o início todos os sacramentos finais:
Jornais, muito fumo e aguardente. Desconfiado
Preguiçoso e contente – não posso querer mais!

3
Sou amável com as pessoas. Uso
Um chapéu cartola segundo seu costume.
Digo: São animais de cheiro bem peculiar
E digo: Não faz mal, também tenho este perfume.

4
Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
De vez em quando uma mulher faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você tem alguém em quem não pode confiar.

5
À noite, alguns homens se reúnem à minha volta
E entre nós, “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre a minha mesa
Dizem: As coisas vão melhorar. E eu não pergunto: Realmente?

6
Na luz cinzenta da aurora os pinheiros urinam
E seus parasitas, os pássaros, começam o gorjeio.
Por essa hora eu na cidade, entorno a bebida
Jogo fora o charuto e vou dormir com receio.

7
Habitamos, uma geração fácil
Em casas que acreditávamos eternas
(Assim construímos aquelas imensas caixas na ilha de Manhattan
E as antenas cujos sinais cruzam o mar como invisíveis lanternas).

8
Destas cidades ficará: o vento que por elas passa!
A casa faz alegre o conviva: ele a esvazia.
Sabemos que somos fugazes
E depois nada virá somente poesia.

9
Nos terremotos que virão tenho esperança
De não deixar meu “Virgínia” apagar com amargura
Eu, Bertolt Brecht, chegado há tempo na selva de asfalto
No ventre de minha mãe, vindo da floresta escura.




Vom armen B.B.


Ich, Bertolt Brecht, bin aus den schwarzen Wäldern.
Meine Mutter trug mich in die Städte hinein
Als ich in ihrem Leibe lag. Und die Kälte der Wälder
Wird in mir bis zu meinem Absterben sein.

In der Asphaltstadt bin ich daheim. Von allem Anfang
Versehen mit jedem Sterbsakrament:
Mit Zeitung. Und Tabak. Und Branntwein.
Misstrauisch und faul und zufrieden am End.

Ich bin zu den Leuten freundlich. Ich setze
Einen steifen Hut auf nach ihrem Brauch.
Ich sage: Es sind ganz besonders riechende Tiere
Und ich sage: Es macht nichts, ich bin es auch.

In meine leeren Schaukelstühle vormittags
Setze ich mir mitunter ein paar Frauen
Und ich betrachte sie sorglos und sage ihnen:
In mir habt ihr einen, auf den könnt ihr nicht bauen.

Gegen Abend versammle ich um mich Männer
Wir reden uns da mit “Gentlemen” an.
Sie haben ihre Füße auf meinen Tischen
Und sagen: Es wird besser mit uns. Und ich frage nicht: Wann?

Gegen Morgen in der grauen Frühe pissen die Tannen
Und ihr Ungeziefer, die Vögel, fängt an zu schrein.
Um die Stunde trink ich mein Glas in der Stadt aus und schmeiße
Den Tabakstummel weg und schlafe beunruhigt ein.

Wir sind gesessen, ein leichtes Geschlechte
In Häusern, die für unzerstörbare galten
(So haben wir gebaut die langen Gehäuse des Eilands Manhattan
Und die dünnen Antennen, die das Atlantische Meer unterhalten).

Von diesen Städten wird bleiben: der durch sie hindurchging, der Wind! Fröhlich machet das Haus den Esser: er leert es.
Wir wissen, daß wir Vorläufige sind
Und nach uns wird kommen: nichts Nennenswertes.

Bei den Erdbeben, die kommen werden, werde ich
hoffentlich Meine Virginia nicht ausgehen lassen durch Bitterkeit
Ich, Bertolt Brecht, in die Asphaltstädte verschlagen
Aus den schwarzen Wäldern in meiner Mutter infrüher Zeit.



Bertolt Brecht: Gesammelte Werke in 20 Bänden (8-10), Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1967.
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], Sâo Paulo, Editora 34, 2000, p. 53-54.

Lolita















Aquela menina feia
Uma linda ceia
Para os absolutos
Uma imperceptível teia
Para os impolutos.


Aquela menina sem graça
Graceja as praças
Da sedução
Derramas as taças
Da celebração.


Aquela menina perdida
Sem medidas
E nada propício
Uma bala perdida
Um precipício


Aquela menina pura
Com suas pernas nuas
Com suas vazias ruas


Aquela menina pobre
Sem sonhos nobres
Escavando cobres
Agora morta
Abre portas
Para outras meninas
Que serão meninas
Até perderem
O que não importa!



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


A Que Vai Ficar Cega


















Ela sentou-se como as outras para o chá.
Me pareceu então que segurava a taça
de um jeito diferente das que estavam lá.
Pouco depois sorriu. Um sorriso sem graça.

Quando se levantaram, enfim, conversando,
e juntas percorreram numerosas salas,
devagar, ao acaso (entre risos e falas)
de súbito, eu a vi. Ela seguia o bando

das outras, concentrada, como que alguém que deve
cantar diante de um grande público em instantes.
Sobre seus olhos claros e rejubilantes,
como a incidir num lago, a luz caía, leve.

Precisava de espaço. Andava lentamente.
Andava quase como se não fosse andar.
Como se houvesse algum degrau à sua frente.
Como se, de repente, ela fosse voar.



Die Erblindende

Sie saß so wie die anderen beim Tee.
Mir war zuerst, als ob sie ihre Tasse
ein wenig anders als die andern fasse.
Sie lächelte einmal. Es tat fast weh.

Und als man schließlich sich erhob und sprach
und langsam und wie es der Zufall brachte
durch viele Zimmer ging (man sprach und lachte),
da sah ich sie. Sie ging den andern nach,

verhalten, so wie eine, welche gleich
wird singen müssen und vor vielen Leuten;
auf ihren hellen Augen die sich freuten
war Licht von außen wie auf einem Teich.

Sie folgte langsam und sie brauchte lang
als wäre etwas noch nicht überstiegen;
und doch: als ob, nach einem Übergang,
sie nicht mehr gehen würde, sondern fliegen.


Rainer Maria Rilke, em "Novos Poemas I" (1907). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 134-135.

Os Canibais



















Não há nada que sacie seus olhos
O que se constrói no meio da destruição
Os passos migalhados dos destroços
Intoxicante, inconveniente é esta canção.


Não há apego no seu desprezo
Não há ruínas sem ter tido construção
Os sentimentos fétidos no despejo
Da reflexão sem concentração


Somos animais racionais
Com valores econômicos e sem apreço
Encoleirados em marcas internacionais
Com um HTTP de endereço


Somos urbanos, somos animais,
Ouvindo nomes, cheirando cheiros.
Somos humanos, somos canibais,
Dos fracionados aos números inteiros.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos.

Descaso


























Não costumo escrever sobre amor,
este amor de que falam os apaixonados,
minhas rimas são dispersas, inócuas,
desejos imersos em rimas dispersas.
Não tenho muitos sonhos,
mas invento meus versos,
perdidos versos que vagam sozinhos
fazendo um eco na solidão.
É uma estéril caminhada poética,
poemas invisíveis que ninguém lê,
monólogos que restam do dia a dia,
falando surdamente para mim mesma.
São versos distraídos de silêncio,
no descaso do nada querer,
mas se todo amor é um refúgio,
resta então uma esperança
para uma súbita poesia....

Sonia Schmorantz

Identidade

















Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço.


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Favelização















O aço escorou, num perfil bem soldado,
as tramas do cesto de palha da cata
dos milhos que brilham nas juntas do junco
que cobre as cabeças das mulheres da roça
que seca até o solo sob o sol das dez.
E arriou sobre uma terra urbana:
é a vista do morro à noite.

O concreto armado firmou com seu traço,
entre as tranças e nós de uma rede de pesca,
pequenos cacos de escamas de peixes
que sobram nas mãos dos homens do mar
e brilham na luz da lua das três.
E estendeu sobre uma montanha urbana:
é a vista do morro à noite.

(O armado soldado traçou com seu aço
a rede de pesca, de tranças, de nós
que nasce nas mãos de homens de palha
que secam o mar de mulheres concretas
que escoram seus peixes já mortos na trama.
E lançou sobre uma terra humana:
é a vista do morro à noite.)

As firmes cabeças que enchem o solo
trazem na luz da lua das três
milhares de cestos com os sóis das dez
que surgem do brilho das juntas das mãos
que plantam pra cata de frutos concretos.
E espalham sobre uma terra urbana:
é a vista do dia do morro.


Ellen Rose

As novas eras
















As novas eras não começam de uma vez
Meu avô já vivia no novo tempo
Meu neto viverá talvez ainda no velho.

A nova carne é comida com os velhos garfos.

Os carros automotores não havia
Nem os tanques
Os aeroplanos sobre nossos tetos não havia
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vêm as velhas tolices.
A sabedoria é transmitida de boca em boca.




Die neuen Zeitalter


Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal.
Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit.
Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben.

Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen.

Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht
Noch die Tanks.
Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht.
Noch die Bomber.

Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten.
Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.



Bertolt Brecht
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo, Editora 34, 2000, p. 294.

Inicial
















Deixe a sua beleza se mostrar
sem cálculo e sem fala.
Ela diz por você: eu sou. Você se cala.
E ela se manifesta de mil modos
e enfim atinge a todos.



Initiale

Gieb deine Schönheit immer hin
ohne Rechnen und Reden.
Du schweigst. Sie sagt für dich: Ich bin.
Und kommt in tausendfachem Sinn,
kommt endlich über jeden.



Rainer Maria Rilke, em "O livro de Imagens " (1902-1906) Primeiro Livro Parte I. In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 58-59.

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA













O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


MANUEL BANDEIRA In Lira dos cinquent’anos, 1940

Sóis
















Um dia vou embora
Não sei se hoje, nesta hora.
Para quem sempre esteve fora
Carregando os sóis de agora


Estudante sem cadernos ou escola
Sacerdote sem deus ou sem estola
Com poucos sonhos na sacola
Com o desapego frio da pistola


Pobre livro, pouca história,
Tristes versos, triste trajetória,
De ser expurgo, ser escória,
Sem uma linha introdutória.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos.

Bodas Urbanas
















Não troco meu ninho
Pelo voo livre sem destino
Não troco meus dias rotineiros
Pelas aventuras de desfiladeiros


Não vou namorar seus pudores
Não vou me associar a seus rancores
Prefiro o amar despretensioso no ócio
Quero o ponto do teu negócio


Não me cercas com teu ódio
O que te enciumas pelo pódio
Prefiro os muros culturais da cidade
Do que uma falsa e perigosa liberdade


Não me quero num amor livre
Sem regras do que me prive
Quero o de sempre que conheço
Quero um nome e endereço.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
Julho/Agosto 2015


Tercetos


















Eu sou um rio, a água fria de um rio.
Profundo, cabe em mim todo o vazio,
Um reflexo me causa um calafrio.

Sou uma pedra de cara escalavrada,
Uma testa que pensa, e sonda o nada,
Uma face que sonha, ensimesmada.

Sou como o vento, rápido e violento,
Choro, mas não se entende o meu lamento.
Passo e esqueço meu próprio sofrimento.

Sou a estrela que à noite se revela,
O farol que vê longe, o olhar que vela,
O coração aceso, a triste vela.

Sou um homem culpado de ser homem,
Corpo ardendo em desejos que o consomem,
Alma feita de sonhos que se somem.

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta
Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:
Significação grande, mas secreta.


Dante Milano, Obra Reunida, Organização e estabelecimento de texto de Sérgio Martagão Gesteira, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. 529 p.

Adão























Pasmo, da íngreme balaustrada,
junto à rosácea da alta catedral, a
sua visão parece perturbada
por esta apoteose que assinala

acima dos demais sua figura.
Ele está ali e exulta porque dura,
determinado, como o lavrador
que tendo começado seu labor

no Éden, o Jardim perfeito, erra
sem achar para a sua nova terra
uma saída. Deus não deu suporte

ao homem e só fez ameaçar
dia após dia com o mal da morte.
Mas ele ousou: ela vai procriar.



Adam

Staunend steht er an der Kathedrale
steilem Aufstieg, nah der Fensterrose,
wie erschreckt von der Apotheose,
welche wuchs und ihn mit einem Male

niederstellte über die und die.
Und er ragt und freut sich seiner Dauer
schlicht entschlossen; als der Ackerbauer
der begann, und der nicht wusste, wie

aus dem fertig-vollen Garten Eden
einen Ausweg in die neue Erde
finden. Gott war schwer zu überreden;

und er drohte ihm, statt zu gewähren,
immer wieder, dass er sterben werde.
Doch der Mensch bestand: sie wird gebären.



Rainer Maria Rilke, em "O livro de Imagens " (1902-1906) Primeiro Livro Parte I. In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 232-233.

Últimos Instantes



















Aquele menino mimado
Absolutista de poder ilimitado
Que já deu ordens até aprisionado
Agora, agora está indo embora


Que na escola notas vermelhas
Que na vida tudo se assemelha
Que ao perigo se aparelha
A predileção por esta cor


Para tudo correu riscos
Do errado formou seu aprisco
Escreveu rápido como rabiscos
Sua vida estranha de condor


No seu covil equivocado
Livre ou tão cercado
De pessoas, de motivos ou pecados
Agora, agora vai indo embora


Corre... corre... foi baleado
Por tudo isso, aquilo e um bocado
O Estado havia lhe condecorado
E agora... ele foi embora
Foi embora.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


UM TANTINHO DE FELICIDADE























É tão raro, como um lapso
que de tão rápido não seria captado
pela foto, nem por testemunhas
nem pelos radares

o que os relógios não pudessem registrar
e a memória não deixasse apagar
qual a conta da soma dos poucos
vai dar a impressão de ser suficiente?

Qual das esperas será mais serena?
Qual vai ser o gosto da angústia?
Qual cena vai ser destaque
nos teus melhores momentos?

Quanto tempo vai durar o instante
que te faz se perder no tempo?
Quando a luz se apaga
e se sonha em fuga...

Quando tudo é quase nada
qual palavra vai ser mais precisa?
qual ação faz repensar a vida?
como caber no verso sem ferir a métrica?

Antes que os despertadores
berrem realidade
Qual ajuste dos ponteiros
vai me dar um dia inteiro
pra que eu conte 'inda nos dedos
um tantinho de felicidade


Alan Salgueiro

Canção de uma enamorada




















Quando me fazes alegre
Penso por vezes:
Agora poderia morrer
Então seria feliz
Até o fim.

E quando envelheceres
E pensarem em mim
Estarei como hoje
E terás um amor
Sempre jovem.




Liebeslied II

Wenn du mich lustig machst
Dann denk ich manhmal:
Jetzt könnt ich sterben
Dann blieb ich glücklich
Bis an mein End

Wenn du dann alt bist
Und du denkst an mich
Seh ich wie heute aus
Und du hast ein Liebchen
Das ist noch jung.


Bertolt Brecht
Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo, Editora 34, 2000, p. 319.

Éden




















Depois que me cobri
Descobri o pecado
Ao compreender tudo
Fui enganado
De minha carne
E ossos aprisionados
Pelo desejo dos olhos
Que foram encantados


Perdi o jardim
E abreviei a vida
Entre tudo livre
Preferi a proibida
Troquei o divino
E minha eternidade
Pelo calor do sangue
E a vulnerabilidade


Se deus queria ser
Quebrei o servo
Em que fui torneado
Naufraguei no saber
Como um condenado.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


O Amigo














Palavras homeopáticas nutritivas como trigo
Aceitação simpática construtiva do abraço
O olhar meigo telepático que desarma embaraços
O ouvir aconchegante protetor como um abrigo

Compreensão aditiva sem exigências
Suaviza mas identifica nossas carências
Prefere ficar calado nas incongruências
Do que ser depreciativo na demência


Cativas na tua dor o irmão escolhido
Entende tuas lágrimas e teu olhar perdido
Faz dos seus os teus inimigos
Se faz tão presente perante os perigos.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


As ensinanças da dúvida


Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor


Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.

A Demora
















O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"

Testamento do Homem Sensato


Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.


Carlos Pena Filho
Os Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, Edilberto Coutinho (org.), Ed. Global, 4a. ed., São Paulo, 2000.

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...