Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2015

ME EMPRESTA TEU OMBRO

Imagem
Me empresta teu ombro
pra eu lembrar que o mundo
ainda vale a pena Me leva pro teu universo
onde tudo é mais simples e repleto
daquelas famosas perguntas
que nos deixam de saia justa Deixa eu repousar o peso
Clareia com o sorriso essa neblina
E como complica essa gente crescida
que não se permite sonhar acordada No ouvido me conta um segredo
e brinca de esconder teus medos
Faz do meu colo um porto seguro
no pulo que nos encoraja Me diz algumas coisas
que me tiram o chão
Parece impossível dizer não
pra qualquer coisa que tu peças Eu já esgotado, você sem cansaço
Me inspira com energia após cada tombo
Só não se esqueça nunca
de emprestar teu ombro Alan Salgueiro
Imagem
Da janela vejo ruas sem nome
casas coloridas abrigadas em montanhas,
da janela sinto a brisa e cheiro dos eucaliptos,
o cheiro das ruas sem nome
onde vento balança verdes folhas
e nascem flores em pedras.

Estas ruas tem silêncios mágicos
como poemas ainda imaginados,
acabam no pé da montanha
mas seguem a caminho do mar...

Ruas de casas pequeninas e pequenos jardins.
Ruas sem nomes, sem números
que da janela vejo encantada
enquanto as flores crescem
agarradas às saliências das duras pedras.

O verão pinta o quadro
e eu aqui, o vejo

Música Surda

Imagem
Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.
O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.
Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.
Dante Milano, Obra Reunida, Organização e estabelecimento de texto de Sérgio Martagão Gesteira, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. 529 p.

Urbanidade

Imagem
Despertando cansado e sem vontade As dores que me ferem com claridade A indiferença andando com a possibilidade Que valoriza a quantidade versus a qualidade

Os despossuídos das ruas não ferem minha humanidade O menino abandonado não fere a minha identidade Dos vidros que possuo pela cidade Transmito a frieza rejuvenescida da urbanidade

Que constrói muros com praticidade Que escolhe a quem dar as oportunidades Que acerta nos outros a enfermidade Ludibriando a vida com conformidade

Entendendo miséria e pobreza como continuidade Olhos altivos e mãos sujas de cumplicidade Olhos sombreados e unhas pintadas de vaidade Cortejando o solitário mundinho da sociedade.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Do pobre B.B.

Imagem
1 Eu, Bertolt Brecht, venho da floresta negra.
Para a cidade minha mãe me carregou
Quando ainda vivia no seu ventre. O frio da floresta
Estará em mim até o dia em que eu me for. 2 Na cidade de asfalto estou em casa. Recebi
Desde o início todos os sacramentos finais:
Jornais, muito fumo e aguardente. Desconfiado
Preguiçoso e contente – não posso querer mais! 3 Sou amável com as pessoas. Uso
Um chapéu cartola segundo seu costume.
Digo: São animais de cheiro bem peculiar
E digo: Não faz mal, também tenho este perfume. 4 Pelas manhãs, em minha cadeira de balanço
De vez em quando uma mulher faço sentar
E observando-a calmamente lhe digo:
Em mim você tem alguém em quem não pode confiar. 5 À noite, alguns homens se reúnem à minha volta
E entre nós, “gentlemen” é o tratamento vigente.
Colocam os pés sobre a minha mesa
Dizem: As coisas vão melhorar. E eu não pergunto: Realmente? 6 Na luz cinzenta da aurora os pinheiros urinam
E seus parasitas, os pássaros, começam o gorjeio.
Por essa hora eu …

Lolita

Imagem
Aquela menina feia Uma linda ceia Para os absolutos Uma imperceptível teia Para os impolutos.

Aquela menina sem graça Graceja as praças Da sedução Derramas as taças Da celebração.

Aquela menina perdida Sem medidas E nada propício Uma bala perdida Um precipício

Aquela menina pura Com suas pernas nuas Com suas vazias ruas

Aquela menina pobre Sem sonhos nobres Escavando cobres Agora morta Abre portas Para outras meninas Que serão meninas Até perderem O que não importa!


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

A Que Vai Ficar Cega

Imagem
Ela sentou-se como as outras para o chá.
Me pareceu então que segurava a taça
de um jeito diferente das que estavam lá.
Pouco depois sorriu. Um sorriso sem graça.
Quando se levantaram, enfim, conversando,
e juntas percorreram numerosas salas,
devagar, ao acaso (entre risos e falas)
de súbito, eu a vi. Ela seguia o bando
das outras, concentrada, como que alguém que deve
cantar diante de um grande público em instantes.
Sobre seus olhos claros e rejubilantes,
como a incidir num lago, a luz caía, leve.
Precisava de espaço. Andava lentamente.
Andava quase como se não fosse andar.
Como se houvesse algum degrau à sua frente.
Como se, de repente, ela fosse voar.

Die Erblindende
Sie saß so wie die anderen beim Tee.
Mir war zuerst, als ob sie ihre Tasse
ein wenig anders als die andern fasse.
Sie lächelte einmal. Es tat fast weh.
Und als man schließlich sich erhob und sprach
und langsam und wie es der Zufall brachte
durch viele Zimmer ging (man sprach und lachte),
da sah ich sie. Sie ging den ande…

Os Canibais

Imagem
Não há nada que sacie seus olhos O que se constrói no meio da destruição Os passos migalhados dos destroços Intoxicante, inconveniente é esta canção.

Não há apego no seu desprezo Não há ruínas sem ter tido construção Os sentimentos fétidos no despejo Da reflexão sem concentração

Somos animais racionais Com valores econômicos e sem apreço Encoleirados em marcas internacionais Com um HTTP de endereço

Somos urbanos, somos animais, Ouvindo nomes, cheirando cheiros. Somos humanos, somos canibais, Dos fracionados aos números inteiros.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos.
Imagem
Eu quero qualquer coisa mágica,
qualquer coisa azul,
qualquer forma de ser feliz.
Não quero acordar cedo,
quero prolongar o sonho mesmo
que a história seja trágica.
Não quero sonhos falsos,
Não quero destino já traçado,
Não quero uma vida básica.
Não quero restos ou pedaços
Não quero olhar o relógio,
Não quero um tempo sádico.
Quero valer um mar azul
uma estrela na varinha de condão
um poema de efeito mágico,

Identidade

Imagem
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço.

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Favelização

Imagem
O aço escorou, num perfil bem soldado,
as tramas do cesto de palha da cata
dos milhos que brilham nas juntas do junco
que cobre as cabeças das mulheres da roça
que seca até o solo sob o sol das dez.
E arriou sobre uma terra urbana:
é a vista do morro à noite.
O concreto armado firmou com seu traço,
entre as tranças e nós de uma rede de pesca,
pequenos cacos de escamas de peixes
que sobram nas mãos dos homens do mar
e brilham na luz da lua das três.
E estendeu sobre uma montanha urbana:
é a vista do morro à noite.
(O armado soldado traçou com seu aço
a rede de pesca, de tranças, de nós
que nasce nas mãos de homens de palha
que secam o mar de mulheres concretas
que escoram seus peixes já mortos na trama.
E lançou sobre uma terra humana:
é a vista do morro à noite.)
As firmes cabeças que enchem o solo
trazem na luz da lua das três
milhares de cestos com os sóis das dez
que surgem do brilho das juntas das mãos
que plantam pra cata de frutos concretos.
E espalham sobre uma terra urbana:
é…

As novas eras

Imagem
As novas eras não começam de uma vez
Meu avô já vivia no novo tempo
Meu neto viverá talvez ainda no velho.
A nova carne é comida com os velhos garfos.
Os carros automotores não havia
Nem os tanques
Os aeroplanos sobre nossos tetos não havia
Nem os bombardeiros.
Das novas antenas vêm as velhas tolices.
A sabedoria é transmitida de boca em boca.

Die neuen Zeitalter
Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal.
Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit.
Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben.
Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen.
Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht
Noch die Tanks.
Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht.
Noch die Bomber.
Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten.
Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.
Bertolt Brecht Poemas 1913-1956, Bertolt Brecht, [seleção e tradução de Paulo César de Souza], São Paulo, Editora 34, 2000, p. 294.

Inicial

Imagem
Deixe a sua beleza se mostrar
sem cálculo e sem fala.
Ela diz por você: eu sou. Você se cala.
E ela se manifesta de mil modos
e enfim atinge a todos.

Initiale
Gieb deine Schönheit immer hin
ohne Rechnen und Reden.
Du schweigst. Sie sagt für dich: Ich bin.
Und kommt in tausendfachem Sinn,
kommt endlich über jeden.
Rainer Maria Rilke, em "O livro de Imagens " (1902-1906) Primeiro Livro Parte I. In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 58-59.

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA

Imagem
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo. 

MANUEL BANDEIRA  In Lira dos cinquent’anos, 1940

Sóis

Imagem
Um dia vou embora Não sei se hoje, nesta hora. Para quem sempre esteve fora Carregando os sóis de agora

Estudante sem cadernos ou escola Sacerdote sem deus ou sem estola Com poucos sonhos na sacola Com o desapego frio da pistola

Pobre livro, pouca história, Tristes versos, triste trajetória, De ser expurgo, ser escória, Sem uma linha introdutória.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos.

Bodas Urbanas

Imagem
Não troco meu ninho Pelo voo livre sem destino Não troco meus dias rotineiros Pelas aventuras de desfiladeiros

Não vou namorar seus pudores Não vou me associar a seus rancores Prefiro o amar despretensioso no ócio Quero o ponto do teu negócio

Não me cercas com teu ódio O que te enciumas pelo pódio Prefiro os muros culturais da cidade Do que uma falsa e perigosa liberdade

Não me quero num amor livre Sem regras do que me prive Quero o de sempre que conheço Quero um nome e endereço.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio Julho/Agosto 2015

Tercetos

Imagem
Eu sou um rio, a água fria de um rio.
Profundo, cabe em mim todo o vazio,
Um reflexo me causa um calafrio.
Sou uma pedra de cara escalavrada,
Uma testa que pensa, e sonda o nada,
Uma face que sonha, ensimesmada.
Sou como o vento, rápido e violento,
Choro, mas não se entende o meu lamento.
Passo e esqueço meu próprio sofrimento.
Sou a estrela que à noite se revela,
O farol que vê longe, o olhar que vela,
O coração aceso, a triste vela.
Sou um homem culpado de ser homem,
Corpo ardendo em desejos que o consomem,
Alma feita de sonhos que se somem.
Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta
Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:
Significação grande, mas secreta.
Dante Milano, Obra Reunida, Organização e estabelecimento de texto de Sérgio Martagão Gesteira, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. 529 p.

Adão

Imagem
Pasmo, da íngreme balaustrada,
junto à rosácea da alta catedral, a
sua visão parece perturbada
por esta apoteose que assinala
acima dos demais sua figura.
Ele está ali e exulta porque dura,
determinado, como o lavrador
que tendo começado seu labor
no Éden, o Jardim perfeito, erra
sem achar para a sua nova terra
uma saída. Deus não deu suporte
ao homem e só fez ameaçar
dia após dia com o mal da morte.
Mas ele ousou: ela vai procriar.

Adam
Staunend steht er an der Kathedrale
steilem Aufstieg, nah der Fensterrose,
wie erschreckt von der Apotheose,
welche wuchs und ihn mit einem Male
niederstellte über die und die.
Und er ragt und freut sich seiner Dauer
schlicht entschlossen; als der Ackerbauer
der begann, und der nicht wusste, wie
aus dem fertig-vollen Garten Eden
einen Ausweg in die neue Erde
finden. Gott war schwer zu überreden;
und er drohte ihm, statt zu gewähren,
immer wieder, dass er sterben werde.
Doch der Mensch bestand: sie wird gebären.
Rainer Maria Rilke, em "O livro de Im…

Últimos Instantes

Imagem
Aquele menino mimado Absolutista de poder ilimitado Que já deu ordens até aprisionado Agora, agora está indo embora

Que na escola notas vermelhas Que na vida tudo se assemelha Que ao perigo se aparelha A predileção por esta cor

Para tudo correu riscos Do errado formou seu aprisco Escreveu rápido como rabiscos Sua vida estranha de condor

No seu covil equivocado Livre ou tão cercado De pessoas, de motivos ou pecados Agora, agora vai indo embora

Corre... corre... foi baleado Por tudo isso, aquilo e um bocado O Estado havia lhe condecorado E agora... ele foi embora Foi embora.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

UM TANTINHO DE FELICIDADE

Imagem
É tão raro, como um lapso
que de tão rápido não seria captado
pela foto, nem por testemunhas
nem pelos radares o que os relógios não pudessem registrar
e a memória não deixasse apagar
qual a conta da soma dos poucos
vai dar a impressão de ser suficiente? Qual das esperas será mais serena?
Qual vai ser o gosto da angústia?
Qual cena vai ser destaque
nos teus melhores momentos? Quanto tempo vai durar o instante
que te faz se perder no tempo?
Quando a luz se apaga
e se sonha em fuga... Quando tudo é quase nada
qual palavra vai ser mais precisa?
qual ação faz repensar a vida?
como caber no verso sem ferir a métrica? Antes que os despertadores
berrem realidade
Qual ajuste dos ponteiros
vai me dar um dia inteiro
pra que eu conte 'inda nos dedos
um tantinho de felicidade Alan Salgueiro