Desintegração
















Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!
Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto...


Abgar Renault

O Poema


















Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?


Ivan Junqueira, in “A Sagração dos Ossos"

Revolta


















Todos foram saindo, de mansinho,
tão calados,
que eu nem sei
se fiquei mesmo só.
Não trouxe mensagem
e nem deram senha…
Disseram-se que não iria perder nada,
porque não há mais céu.
E agora, que tenho medo,
e estou cansado,
mandam-me embora…
Mas não quero ir para mais longe,
desterrado,
porque a minha pátria é a minha memória.
Não, não quero ser desterrado,
que a minha pátria é a memória…

Guimarães Rosa

Nova Profissão de Fé























O poeta já não escreve.
Sua escrita
por mais breve
ele digita.

Hoje se arrima
na frase elétrica
muito mais prática:
Adeus à rima.
Adeus à métrica.
Adeus gramática.

Como declara
ser bom poeta
na tela clara,
já não procura
a via reta
na selva escura

E de atalaia
se pôe à espreita
de uma palavra que lhe caia
na rede branca que ele deita.

Ronda noturna essa
caçada
que nunca cessa.
No fim da madrugada
ainda acessa.

Da tela branca
noite afora
por fim arranca
a sua aurora.

No fim cansado
de tanta busca
com dissabor
toca o teclado
de forma brusca.

Nada se salva
de seu labor
de poeta.
Pois nada salva
na tela alva
que ele deleta.


Ivo Barroso

Encilhar o dia




















Já sei domar o meu dia
Agitado hoje
Ele não para quieto
E relincha

.
Passo-lhe a mão no focinho
Acarinho-lhe a cara
As patas inda chutam o chão

.
Tento fazer com que seja
o mesmo inspirar expirar
da nossa respiração

.
Pronto
Calma
Subo.



.
Adriane Garcia

Sinfonia do Lixo


Passei mal,
Não pelo voo irrequieto das moscas
ao redor do asco
da sinfonia do lixo,
mas pelo fato do lixo ser banquete
de pais, cachorros e crianças.

Mortos vivos de si mesmos,
esqueceram seus nomes,
esqueceram seus passaportes brasileiros.
Os desgraçados nunca viajaram
para além de uma torpe agonia de baques,
povoada de torpes embates.
Não jogam futebol e são chamados de craques.

Em cada fresta de osso
Em cada marca
Eu vejo a fome que se cala.
Aparências esquálidas
sustentam as olímpicas quimeras
dos hiatos das desigualdades
confirmadas
pela história
pela língua
pelo fogo de chumbo
das armas oficiais.

Acendi o cigarro imaginário
que me faz companhia.
Andei pelas vielas exauridas
de pão, sonho e poesia.
Só há excesso de cinza e sofrimento.

Chorei. Segui em frente.
Minha omissão é violência.
Gritei o berro da certeza
que sem luta
a vida segue muda
e o mundo não muda.

Passei mal pela miséria, decerto
porque o miserável refugo humano
A matéria deste meu triste canto
ficou fora do alfabeto.


Paula Beatriz Albuquerque - (Inspirado em O Bicho, de Manuel Bandeira)

A minha morte são as coisas






















A minha morte são as coisas
e não poder retê-las,
é a matéria que existe
e resiste
à minha sorte,
como as estrelas.

A minha morte é a manhã
que se estende claríssima
sem temor, é este amor
de só desesperança,
como um clamor.

A minha morte é esta voz
por que a garganta enseia
e não sabe,
ela cabe
inteira nos meus olhos
que a lágrima incendeia.

Sobretudo é
esta vontade
de chorar e ir chorando
como uma única pergunta
sem remédio:
até quando?


Walmir Ayala

Tsunamis














Pode o que não pode ser,
Pobre a pedra de ouro.
Pode a manhã amanhã nem nascer,
Matam a alma para revender o couro.

Pode o mar não se conter,
E vir bater à sua porta.
Pode o que não pode ser:
Celebram a vida, ainda mais se aborta.

Pode tanto ser tão pouco,
Pode o que não pode ser.
Preso o pássaro solto,
Deixam a lógica aos loucos se perder.

Pode a birra virar ira,
O irmão te fira a bel-prazer.
---------------------------------,
Ah! Pode ser o que não pode ser!


Pedro Ramúcio

Mensagem ao Poeta Carlos Drummond de Andrade
















Fazendeiro sem fazenda,
eu escuto a tua moenda
moendo a cana dolorida
de que escorre intenso caldo
com gosto de sangue e vida;
teu trigo de nuvens, alto,
contemplo, que surge em ouro
do teu brejo de lembranças,
e perscruto salso coro
de póstumas esperanças;
bebo a tua água de sede,
de todo ti me embriago,
e na tua áspera rede
me vou, me levo, me trago,
de chão e dia me esqueço:
montado no teu cavalo,
densas roças atravesso,
a longínquos ventos falo,
sobre bocas cismadoras
velhos bigodes escuto,
que percorrem as lavouras,
impondo seu estatuto;
vejo um anjo: é fel e doce,
tomou tua mão de infância
e pelo escuro te trouxe;
tua essência e circunstância
vão subindo ausente escada
de tênue casa de lua;
flor de palavra fechada
em tua alma se insinua;
rosa-cardo desabrocha
o seu perfume de espinho
no cimo da tua rocha,
destila pungente vinho
na corola de uma taça,
tingindo-a amargosamente;
pelo seu terreiro esvoaça
vôo de canto silente,
e o colhes entre teus lábios,
e a ele teu dom se mistura;
engendras teus astrolábios,
constróis teus abismos e altura,
dás olhar a escuros seres
desces a peitos opacos
e vês sombrios haveres,
letras, horas, cinzas, cacos;
compões palhadas e esteiras,
abacelas as raízes
alporcas fuscas roseiras,
estrumas cansadas terras,
cuidoso limpa os pastos,
cavalo, pensas e ferras,
voas sobre os campos vastos;
voltas, casas as camélias,
fenas e ensilas forragens,
desgalhas árvores velhas,
e os teus pés engolem viagens
para amanhares alqueires;
e regas os teus transplantes,
examinas teus alfeires,
com sábias mãos incessantes
podas, sachas e mondas,
e em cada de tuas tulhas
teus grãos de estrelas escondes,
sóis disfarçados debulhas
das mais inscientes espigas;
se penetras nas senzalas,
em seu negrume respigas
brilhos de duras opalas;
és tu a foice e a colheita
dos teus íntimos idiomas,
e indelével lua espreita
ruas de tempo em que assomas.

*

Homem de pranto sem pranto,
que soluças, do teu barro
escondido sob o manto,
vida e amor — anéis sem aro;
Homem triste de Itabira
que do galpão da memória
extrais a nublosa tira
de uma estrada merencória.
revelhas arcas exumas,
cavalgas teu submarino
dentro de argilas e brumas,
pões no bolso o raro sino
de murcho som de violetas
esferas de sumos grossos
e pélagos de ondas pretas
que comoveram teus ossos
no ontem país dos Andrade,
— colhe a voz que, há quarenta anos
mais um, te disse amizade,
e no vale dos enganos
nunca se enganou contigo,
tua voz de ouro calado,
amaridúlcido amigo!
sulcos de teu grave arado,
teu sideral moenda,
fazendeiro sem fazenda.


Abgar Renault

Pântano


A minha casa está vazia
O lar se apagou
Anteontem
Como dizem os da Grécia
E os das Minas
Antigas

Ninguém ganha a poesia
À toa
É aquele sinal na testa
Com que você sai
Na rua

Se acham aquele objeto
Caro
Precisam ver o que é viver
Com essa coisa
Que não se vende

Por dentro o poeta é verde
Musgo
Dele escorrem algas
Se reparar bem
São úmidos

Não chame um para a sua casa
Verá que eles molham
Os tapetes.
.

Adriane Garcia

ALGÚN VESTIGIO DE TU PASO




















La dulzura de recordar el sol en la espiral del sueño
y el vano poder de haber ido tan lejos.


Es tan extraño perdurar, oír aún
la grave letanía de los huesos y el hechizo del mundo.


Déjame ver, déjame ver:
alguien me condujo hasta aquí y se oculta,


cubierto de grandes praderas, de climas,
refugios baldíos, luces que brillan


en el faro donde la tierra termina.
Salido de lugares inciertos, de trópicos y lluvias,


voraz como fuego, intruso,
la huella de sus dientes y sus besos en la manzana.


¿De quién es ese rostro desconocido entrevisto
donde se pierde? Es incierto y ansioso


extraviado en la fábula oscura de mi vida.
Adiós, sombra mía.





Em português:



A doçura de lembrar o sol na espiral do sonho
e o poder vão de ter ido tão longe.

É tão estranho perdurar, ouvir ainda
a grave ladainha dos ossos e o feitiço do mundo.

Deixe-me ver, deixe-me ver:
alguém me conduziu até aqui e se esconde,

Coberto de grandes prados, de climas,
refúgios baldios, luzes que brilham

no farol onde a terra termina.

Saído de lugares incertos, de trópicos e chuvas,

voraz como o fogo, intruso,
o vestígio de seus dentes e seus beijos na maçã.

De quem é esse rosto desconhecido pressentido
onde se perde? É incerto e ansioso

extraviado na fábula escura de mina vida.
Adeus, sombra minha.


Enrique Molina - Tradução de Antonio Miranda

Pão nosso
























Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.

Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.


Ivo Barroso

Matizes

Matizes Dumont













pelas manhãs desperto
as fontes de uma
cor
ação
tingindo o dia de anseios

pelas tardes enfrento
o véu cigano do olhar
em ruas humanas e
claras

pelas noites guarneço
as forças do sonho
sonar
de novos matizes de
ser


Renato Tapado

Soneto II





















Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.


Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,

E provará ter herdado de ti toda a formosura.
Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.




Sonnets 2

When forty winters shall besiege thy brow,
And dig deep trenches in thy beauty's field,
Thy youth's proud livery so gazed on now,
Will be a tattered weed of small worth held:

Then being asked, where all thy beauty lies,
Where all the treasure of thy lusty days;
To say within thine own deep sunken eyes,
Were an all-eating shame, and thriftless praise.

How much more praise deserved thy beauty's use,
If thou couldst answer 'This fair child of mine
Shall sum my count, and make my old excuse'
Proving his beauty by succession thine.

This were to be new made when thou art old,
And see thy blood warm when thou feel'st it cold.


William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Sal eterno

















Corres para o que te alcanças
Descansar dá trabalho
Olha as nuvens em um breve desmaio sobre a luz que pousa sobre a nossa terra
O mar configura as almas
As águas aguardam sua sede
E eu não canso de beber-te
Aqui nasci e sei que teu sal é doçura, que tua dor tem cura
Que tipo de amor procuras?
Tens o meu e o dos meus, que, juntos aos seus, igualam ideais e cidades
Meu canto de intimidade entre o intervalo do nascer e do morrer, por ti tudo farei.
Pairo aqui, desconstruo qualquer sentimento para celebrar-te.


Carlinhos Brown

Tocando em Frente


















Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe?
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir

Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.

Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história,
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
de ser feliz.

Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs,
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Almir Sater e Renato Teixeira

Aqualismo


A tristeza
É um vício
Dos peixes
Impossível estar
Atento
Para não tomar
O segundo
O terceiro e o quarto
Goles
Desta água
Verde.

*

Adriane Garcia, em Só, com peixes, editora Confraria do Vento.

Pessoas e Coisas






















Se apanho também bato
Me imponho e combato
Se de boca foi feito o trato
Comi o que estava no prato

O que senti foi o impacto
Quando consenti o diabólico pacto
Aceitei a cor do anonimato
Caçava os meus. Capitão do mato

O que recebo também reparto
Se fico também parto
O que não tive está intacto
Reduzi-me estou compacto

Deixei de ser não me abato
O que não vou ter eu rebato
O que não sou estou inapto
O que fui perdi contato

Apagou-se valores do extrato
Pessoas e coisas são contratos
Sonhos e ideias são socráticos
Ter mais que ser é prático.


 Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Aquatempo
























I
teus olhos miram invisível rio
nele
palavras que nunca disseste
nadam como peixes cegos
nadam famintas
morrendo à míngua
de tua coragem de dizê-las
no leito
um Eu nunca dito
naufraga
reverberando seus assombros
e soçobros



II
teus olhos
minguados
padecem do estio dessa tarde
o sol bebe
gota à gota
teu rio
quando a noite chegar
deita-te no chão de tua noite
colhe a chuva de teu sereno
quem sabe
tu possas chorar sobre tua madrugada
a carne orvalhada
dói menos
dói menos
menos


III
silenciosa
a memória corre
lambe as margens de teus olhos
que choram água
e sal
no rio de teus olhos
um leito seca de saudade



IV
turva água a tua
que de teus olhos
escorre nua
molha a pedra
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
fina janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus Ais


V
no ventre de tua rosa tardia
nasce um tempo
de espera solidão silêncio
um tempo de plantar
no pouco de tua terra
uma semente de rio
espera pelo rio nascer
ainda que nessa espera
um frio minuano atravesse-Te
tomando-Te o corpo na angústia
que tu possas não germinar
nem crescer
nem florescer
no canto
de uma derradeira estação.



Wanda Monteiro

Resmungo minha solidão de mundo.
De vida desfeita, me solto no que me rarefeita.
Qual arvore escurecerá a noite?

Não há ópio que opina.
Pó de memórias ruínas.
Ou flecha que me deserda.

De quinas esquinas
me espera sem cabeça
minha primeira pessoa.

Está no esôfago
de vossa excelência,
procurando emergir
pintada a estibordo
de planos de enganos.

A se decorar
ou a se esquecer?
Não há saída,
apenas a curtida
em melífluo uivo
entre as pernas.

E partem
procurando por minúsculas
pontes e gerúndios
que deslize e sorria
músicas de músculos
algas cabeleiras negras.

E a noite se sexa
servindo deste diafragma
de ar telúrico,
para nossa espécie
que resmunga a solidão de mundo.


Lucas Alvim

Epitáfio






















Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr


Sergio Britto - Titãs

Assistir ressurreições


A vida exige
Os enterros de antes
É terra, sim
O que nos penetra
Narinas e boca

O peso destes sete palmos
Comprime-nos as coxas
Nada de andar como ontem:

E é bizarro, mas existem mesmo
Os que se levantam
E depois de muito choro
Dançam cheios de barro.
Adriane Garcia

O que sobrou do céu











Faltou luz mas era dia
O sol invadiu a sala
Fez da TV um espelho
Refletindo o que a gente esquecia

Faltou luz mas era dia dia
Faltou luz mas era dia dia dia

O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal

Um chá pra curar esta azia
Um bom chá pra curar esta azia

Todas as ciências
De baixa tecnologia
Todas as cores escondidas
Nas nuvens da rotina

Pra gente ver
Por entre os prédios e nós
Pra gente ver
O que sobrou do céu


Falcão / Lauro Farias / Marcelo Lobato / Marcelo Yuka / Xandão

PENA QUE NÃO DÁ MEDALHA


Pena que não dá medalha:
A crise política
A calamidade pública
A corrupção que é cíclica
O transporte fétido
E o heróico atleta
compete sem incentivo
Pena que não dá medalha

Pena que não dá medalha:
O estado quebrado
e a Lava-Jato
e o levar jeito
pro estelionato
e o tiroteio
e a acomodação precária
Pena que não dá medalha

Pena que não dá medalha:
A queda da ciclovia
E a força da vaia
E o próximo escândalo
E mais esse trânsito
que me assalta o tempo
feito uma navalha
Pena que não dá medalha

E a sinuca de bico
E o golpe e a fossa
E a zica e a sínica mania
de negar o desastre
e a capacidade
de ser o lanterna da tabela
e os miseráveis
no contraste da paisagem

Enquanto aqui se responde
a pergunta ínfima:
Onde anda a tocha olímpica?
Eu subo no pódio
mas de mãos vazias
tendo a fé como a única glória
que talvez me valha
Pena que não dá medalha


Alan Salgueiro

Partisans






















A luta é renhida
Contra a destemida
Que quer me arrancar
Meu custo é caro
Levanto-me num disparo
Para te enfrentar


O barco à deriva
O vento que briga
Para me abortar
Não naufragarei sem disputa
Não aceito permuta
Para me entregar


Como quem luta
Com o invencível
Como Heitor cara a cara
Com Aquiles o semideus
O intransponível
Como Jacó até alvorada
Prevaleceu contra o divino
Para tocar no impossível
Por mais que fiquem marcas.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Marés



















espuma triste como alguém que parte
as águas tentando um toque
extensões
cada vontade é uma onde que molha
em marés diárias
a frieza de um pingüim
eu guardo o mar
dentro de mim


Renato Tapado

O que é um Homem























Quem é que vai por aí
aflito, místico, nu?
Como é que eu tiro energia
da carne de boi que como?
O que é um homem, enfim?
O que é que eu sou?
O que é que vocês são?

Tudo o que eu digo que é meu,
vocês podem dizer que é de vocês:
de outro modo, escutar-me
seria perder tempo.
Não ando pelo mundo a lastimar
o que o mundo lastima em demasia:
que os meses sejam de vácuo
e o chão seja de lama
e podridão.

A gemer e acovardar-se,
cheio de pós para inválidos,
o conformismo pode ficar bem
para os de quarta categoria;
eu ponho o meu chapéu como bem quero,
dentro ou fora de portas.

Por que iria eu rezar?
Por que haveria eu de me curvar
e fazer rapapés?
Tendo até os extratos perquirido,
analisado até um fio de cabelo,
consultado doutores
e feito os cálculos apropriados,
eu não encontro gordura mais doce
do que a inserida em meus próprios ossos.

Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo,
nem mais nem menos um grão de mostarda,
e o bem ou mal que falo de mim mesmo
falo dela também.
Sei que sou sólido e são,
para mim num permanente fluir
convergem os objetos do universo;
todos estão escritos para mim
e eu tenho de saber o que significa
o que está escrito.
Sei que sou imortal,
sei que esta minha órbita não pode
ser traçada
pelo compasso de um carpinteiro qualquer.

Sei que não passarei
assim que nem verruga de criança
que à noite se remove
com um alfinete flambado.
Eu sei que sou majestoso,
não vou tirar a paz do meu espírito
para mostrar quanto vale
ou para ser compreendido:
tenho visto que as leis elementares
jamais pedem desculpas.
(Eu reconheço que, afinal de contas,
não levo meu orgulho
além do nível a que elevo minha casa.)

Existo como sou,
isso é o que basta:
se ninguém mais no mundo
toma conhecimento,
eu me sento contente;
e se cada um e todos
tomam conhecimento,
eu contente me sento.
Existe um mundo
que toma conhecimento,
e este é o maior para mim:
o mundo de mim mesmo.
Se a mim mesmo eu chegar hoje,
daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
posso alcançá-lo agora bem-disposto
ou posso bem-disposto esperar mais.
O lugar de meus pés
está lavrado e ajustado em granito:
rio-me do que dizem ser dissolução
- conheço bem a amplitude do tempo.


Walt Whitman

Para Cris














Escreverei para ti uns versos
Que sei que você nunca vai ler
Escreverei... Para aliviar meu peito
Deste momento estreito
Que estou pisando

Deixe-me chorar estes versos tristes
Escrever minha dor, a tua partida
Com tintas e lágrimas


Deixe-me guardar de ti tudo que posso
E que não ouso esquecer
Não há como esquecer
Não vou me esquecer


Está sendo estranho tua partida rápida
Mas estamos sujeitos a estas horas
Que nos mostram toda nossa fragilidade
Minha doce partisan


A infância e a adolescência acabaram
O que passou serão lembranças
De um livro com páginas amarelas
E uma realidade que faz doer os meus ossos.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
04 de agosto de 2016


Soneto I
























Dentre os mais belos seres que desejamos enaltecer,
Jamais venha a rosa da beleza a fenecer,
Porém mais madura com o tempo desfaleça,
Seu suave herdeiro ostentará a sua lembrança;

Mas tu, contrito aos teus olhos claros,
Alimenta a chama de tua luz com teu próprio alento,
Atraindo a fome onde grassa a abundância;
Tu, teu próprio inimigo, és cruel demais para contigo.

Tu, que hoje és o esplendor do mundo,
Que em galhardia anuncia a primavera,
Em teu botão enterraste a tua alegria,

E, caro bugre, assim te desperdiças rindo.
Tem dó do mundo, ou sê seu glutão –
Devora o que cabe a ele, junto a ti e à tua tumba.




Em Inglês

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty's rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:

But thou contracted to thine own bright eyes,
Feed'st thy light's flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thy self thy foe, to thy sweet self too cruel:

Thou that art now the world's fresh ornament,
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content,


And tender churl mak'st waste in niggarding:
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world's due, by the grave and thee.



William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Marinha

Teu corpo é mar com frêmitos frescos de ondas e fosforescência de espumas. Teu corpo é profundidade equórea, fil...