A ansiosa solicitude pela vida


25
¶ Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?
26
Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?
27
Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? {ao curso da sua vida; ou à estatura}
28
E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.
29
Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
30
Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?
31
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos?
32
Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas;
33
buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
34
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.


Jesus Cristo - Mateus 6 versículos 25 ao 34

Poema quase morto



















As necessidades de alguns
se resumem a um corpo
Os sonhos de alguns
se resumem a um copo
Meu refúgio são lágrimas
que meus olhos deitam
no tempo e no vento


Minha poesia confusa
não quer dizer nada
O meu verso é estrume
que fede e que apodrece
ao ficar exposto
Não misture com a terra
os seus sonhos
Na terra tudo é rápido
se nasce, cresce, brota
envelhece até fenecer


Instantes de vida
são perdidos
são assassinados
E a morte este ser suave
nos rodeia
nos apalpa
com sua pele.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Confluência



















Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.


Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.


Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
Intumescente encontro de reentrâncias.


Ter-te amado
fez-me sentir:


No corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.


Affonso Romano de Sant'Anna

Anima Bella Da Quel Nodo Sciolta

























Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.


Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.


Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.


Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.


Francesco Petrarca

Não Calo



















Se eu não falar da rosa... Qual o tema
que me há-de conduzir à eternidade?
Eu sei, já percebi... Há quem a tema...
Talvez por viver longe da verdade.


Em meio ao roseiral, a paz é extrema,
o mundo é mansidão, fraternidade.
Em cada reflorir... Novo poema...
Mais um canto de amor... E de humildade!


Porque o amor é simples, tão sereno,
eleva à plenitude o que é pequeno,
transforma a vida em êxtase sem fim.


Se eu me calar agora, miserere!
Se eu abafar o canto... Ele me fere...
Se emudecer... O que vai ser de mim?


Patricia Neme

Construção




















Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego


Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público


Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


Chico Buarque

Flor de Lis

























Valei-me Deus, é o fim do nosso amor
Perdoa por favor, eu sei que o erro aconteceu
Mas não sei o que fez tudo mudar de vez
Onde foi que eu errei
Eu só sei que amei, que amei, que amei, que amei
Será, talvez, que minha ilusão
Foi dar meu coração com toda força
Pra essa moça me fazer feliz
E o destino não quis
Me ver como raiz de uma flor de lis
E foi assim que eu vi nosso amor na poeira, poeira
Morto na beleza fria de Maria
E o meu jardim da vida ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria
Nem margarida nasceu


Djavan

Oficio



















Naturezas de borboleta
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.


Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.


O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.


Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.


Fernando Campanella

Soneto IV




















Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbedo passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.


Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia...
Quantos moços perdidos vejo agora!


Oh! não proíbam, pois, no meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.


Numa fumaça o canto d'alma escuto...
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!


Álvares de Azevedo

Passagem


















Só eu, que vivo um sonho de gigante,
Na pequenez dos versos que componho,
Cantando o que é passado, bem distante,
E, do presente, o que é apenas sonho;


Só eu, que desejei que a lusa gente
Se mantivesse nobre, como outrora,
E que, na pequenez do seu presente,
Levasse essa nobreza mundo fora ;


Direi que alguma vez será passado
Aquilo que, nos povos africanos,
Por lá deixou ficar cada soldado.


Bem mais do que a lembrança dessas guerras,
Perdurará ainda, muitos anos,
O muito que fizeram nessas terras.


Vitor Cintra

Os Navegantes
















Quando meu corpo
encontrar teu corpo
numa noite dispersa
em que embebedo do teu perfume
Meu barco arrebentará
na volúpia do mar
que é teu corpo
Então afogarei nos teus olhos
e deixarei unir-me ao mar


Vejo gestos voluntários
de uma guerra ocupacional
Sentimentos ferozes
como tempestade
Avassala e destrói
Corpos ocupam o mesmo lugar
um ponto no universo


No quarto
um mar nunca dantes navegado
é descoberto
E os navegantes sobrevivem ao temporal


Os céus param de chorar
A tempestade bebe tranquilizantes
o vento dorme, acalma-se o mar
Dois corpos navegam
na calmaria de um quadrado.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Quarto em desordem




















Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor


que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar


a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo


verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.


Carlos Drummond de Andrade

Samurai

























Aaaaaiii...
Quanto querer
Cabe em meu coração..


Aaaaaiii...
Me faz sofrer
Faz que me mata
E se não mata fere...


Vaaaaiii...
Sem me dizer
Na casa da paixão...


Saaaaii...
Quando bem quer
Traz uma praga
E me afaga a pele..


Crescei, luar
Prá iluminar as trevas
Fundas da paixão...


Eu quis lutar
Contra o poder do amor
Cai nos pés do vencedor
Para ser o serviçal
De um samurai
Mas eu tô tão feliz!
Dizem que o amor
Atrai...


Djavan

VIII




















A vida encanta
porque passa
- canta, vida,
a arte repassa.


Fernando Campanella

XVII















Dispus a madeira dos versos
Com o zelo de um carpinteiro
Em sua atribuição usual
E nos entregamos a nossas funções
E vimos que o cedro era bom
Assim como as palavras
Com o mais alto primor talhadas.
Quem dera também eu pudesse
No sétimo dia descansar meu intento
Como o bom carpinteiro
Ou talvez como abelhas
No aconchego da arquitetura final.


Fernando Campanella

A pureza dos teus óculos















caminhos tortuosos da mente
a verdade cruelmente fere e abate
preso pela sua imaturidade
somos como um caroço de abacate


imaturidade com inutilidade
falta de amor com crueldade
na floresta dos sentimentos
tudo se mistura
os ruídos da máquina selvagem
devoram a pureza das criancinhas
não há mais plantas vegetais
sim! apenas plantas industriais
não há mais animais
apenas cibernéticos orientais
não há mais pureza em teus olhos
há apenas um corrimento de remelas grudando tuas pálpebras.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

A felina




















Seus olhos brincam com a vida
O teu charme desabrocha pelos cantos
O teu riso é suave
malicioso e inocente
Palavras saem da tua boca como mel
Desta boca saborosa
que esconde encantos que até você desconhece


jeito de gatinha manhosa
felina que luta como leoa pelo que quer
nos teus olhos a certeza da vitória
esconde fragilidade aos inimigos.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

O ventre grávido

















os cavalos conversam no campo
as pessoas pastam suavemente sua preguiça
os cavalos galopam rumo ao desconhecido
os homens morrem na aniquilação


os cavalos se respeitam
os homens se mordem e se comem
os homens tem medo


estou grávido!
estou com medo!
do meu verme se perder
na floresta cibernética
e tornar-se homem
estou com medo!
estou a ponto de dar a luz
mais um verme rastejador
que se diz supremo
e incomparável aos outros animais.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

O Tempo não Para
















Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara


Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára


Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta


A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára


Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro


Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro


Cazuza/Arnaldo Brandão

Dependência


























Olho a morena que passa
olhos vidrados na vidraça
vendo o seu caminhar


Cheia de toque, cheia de graça
levando amor, levando desgraça
no seu caminhar


Meus olhos de caça
esperam a presa
como uma armadilha
como quem se disfarça


Minhas mãos ficam nervosas
minhas mãos querem te tocar
me escondo nas palavras
me dissolvo frente ao teu olhar


Vivo cheio de rimas na boca
para te envolver, te enamorar
mas, apenas fico calado
olhando você passar.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Engarrafado para momentos especiais















Amanheço,... anoiteço dias, sem teu corpo perto de mim
Não sinto teu cheiro de nicotina e bebida passada
Minha alma agoniza tua incompreensão sobre nossos destinos
A tua relutância cheia de mimos
sobre o óbvio que se esconde nas lentes da paixão


A originalidade envelhecera e anda de muletas
A sociedade empobrecera nos deixando na sarjeta
Cadê nossas flores? Cadê nossos perfumes de boutiques?
Quem fechou nossas adegas?
Precisamos de todo o álcool possível.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Marca da Pantera




















Te desejo pantera negra
noite de carnes vermelhas
te dilatarei, te espalharei no matadouro
Lençóis brancos mancham
teu sangue escorre no vento
as marcas de tuas garras ficaram em mim.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Arrojos
















Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.


Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" (1) e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.


Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.


Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.


Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.


Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.


Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.


E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.


Cesário Verde

Arte-final















Não basta um grande amor
para fazer poemas.


E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.


O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.


Uma coisa é a letra,
e outra o ato,


quem toma uma por outra
confunde e mente.


Affonso Romano de Sant'Anna

Outono




















Não há mais andorinhas nos beirais
Nem zumbem as abelhas pelos campos,
Nos rios já aumentam os caudais
Mercê da Natureza com seus prantos.


Passou a Primavera e o Estio
Deixou atrás seus tempos de pujança.
Do Norte sopra agora um vento frio
Que acende uma lareira na lembrança.


No chão, de folhas mortas, um tapete
De que se despojou o arvoredo
Em tempo, que é agora, de seu sono.


Qual ordem que em silêncio se repete
Por toda a Natureza, num segredo,
Sintomas da chegada de Outono.


Vitor Cintra

Verão
















Quantas dúvidas neste mar, eu tenho
Quantos desejos neste mar, eu ponho
Oh, mar! Me deixe sentir a espuma dos teus lábios
Me acaricie, me adormeça no teu colo


Os dias estão secos e sem oxigênio
Venha me dar teu sangue e tua fúria
Liberte meus anseios e temores
e deixe-os perder na vastidão do teu finito corpo


Minhas mãos desconsoladas gritam
por tua pele serena e doce
Lágrimas brotam de meu corpo
para alimentar minha flor de verão.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Copo de Vinho
















Mulheres, mulheres
rostos irreais
espíritos inquietos
são corpos viciados
pelo desejo do domínio
dominam os homens
no que eles são mais fracos
a sede que seca
suas bocas


Afundo meus olhos
na cama
este oceano frio
solido
minha vida passa
e vejo perfumes entrando e saindo
sem direção
sons diluem no orgasmo


Mulheres, mulheres
são vinho no copo
para me embebedar
como um bom Dionísio
as bebo como sangue para vida.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Faz parte do meu show




















Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão


Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor


Confundo as tuas coxas com as de outras moças
Te mostro toda a dor
Te faço um filho
Te dou outra vida pra te mostrar quem sou
Vago na lua deserta das pedras do Arpoador
Digo 'alô' ao inimigo
Encontro um abrigo no peito do meu traidor


Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou
Vivo num 'clip' sem nexo
Um pierrot retrocesso
meio bossa nova e 'rock'n roll'


Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor
Meu amor, meu amor, meu amor...


Cazuza/Renato Ladeira

Soneto II

























Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós - e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...


Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!


Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!


Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!


Álvares de Azevedo

Prostituta



















Chamas-lhe " mulher sarjeta "
Porque se vende na rua ...
- Afinal, uma faceta
Duma vida, como a tua . -

" Sarjeta " ?! ... " Mulher da vida" ?! ...
Pois chama-lhe o quiseres
Há tanta mulher perdida
Igual às outras mulheres !


É mais nobre a prostituta
Que, mesmo num rumo torto,
Não vende os seus sentimentos,

Que muita "dama" impoluta
Que, no recurso ao aborto,
Mascara comportamentos.


Vitor Cintra

Poema para a Amiga

















Contemplo agora
o leito que vazio
se contempla.


Contemplo agora
o leito que vazio
em mim se estende
e se me aproximo
existe qualquer coisa
trescalando aroma em mim.


Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho
que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila
ainda ontem descobrias?


Agora eu te diria
o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas,
e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti
o que de ti me vais doando.


Eu muito te agradeço este teu corpo
quando nos leitos o estendias e o me davas,
às vezes, temerosa,
e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo
em mim me conturbei
– (o percebeste) me aguardaste
e nos olhos te guardei.


Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava
quanto mais o via,
pequeno e manso enigma
que eu decifrei como podia.


Agora eu te diria
o que não soubeste
e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara
e nunca o doaria.


Nele eu fui pousar
quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar
quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia
e foi por ele que eu senti
a solidão, e o amor
que em mim havia.


Teu corpo quando amava
me excedia,
e me excedendo
com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente
de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho
não sei como permaneço nesta ausência
em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor
e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.


Affonso Romano de Sant'Anna

A serpente que dança





















Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.


Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,


Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento


Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.


Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.


Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.


E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.


Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes


Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!


Charles Baudelaire

Esperança


















Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade


Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?


Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.


Mário de Sá-Carneiro

Cabelos


















Ó vagas de cabelos esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;


Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.


Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.


Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!


E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal do hinos triunfais;


Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um pobre sonhador.


Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.


E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de Verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.


E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos,
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.


Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.


Cesário Verde

O Livro dos Dias


















Ausente o encanto
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre ao meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomaste como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho, força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores


Renato Russo

Ao meu filho adotivo























Anteontem, me fecundei
Ontem, engravidei
Hoje, te pari
Forte e robusto como a terra
Num vento repentino que ninguém espera
Nasceu meu filho como um fênix
no primeiro raio d'aurora


Não fui teu pai, nem tua mãe
Mas pude sentir as dores do teu parto
Num dia que tornou noite num mar tempestuoso
Do néctar dos deuses você nasceu
como um anjo cândido de olhinhos negros e assustados


Meu filho! este teu sorriso
é água que refresca minha boca
Não se surpreenda com a beleza do mundo
O mundo é fantástico, doce, amargo e desprezível
Como é doce brincar com você
viajar no mundo de balas e chocolates
Seremos loucos, seremos super homens
nos transformaremos em borboletas, passarinhos e em estrelas
No brilho da tua inocência meus olhos brilharão
Te protegerei das noites solitárias e dos janjões que a vida criará


E quando o medo brotar no teu peito
Dê um abraço forte no teu pai emprestado
E lembrei que serei teu amigo por toda tua vida.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Ao meu querido Douglas.

Se eu pudesse


















Ah! Se eu pudesse
acariciar teu rosto
num silêncio absorto
num perder de consciência


Ah! Se eu pudesse
penetrar dentro dos teus olhos
Vê teus horizontes
dominar teus desejos


Ah! Se eu pudesse
beijar tua boca
escondido dos olhos alheios
E numa bruma suave
congelar teus seios


Ah! Se eu pudesse
Ah! Se eu pudesse
controlar meus anseios
colocando uns arreios
para os acalmar


Ah! Se eu pudesse
Se eu pudesse
Arrancaria teus olhos
e tornaria meus diamantes.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Antes de três meses...






















Semente de Amor
guardado no ventre
calado, formado em silêncio
na madre daquela que sente


Nem se mostrou, já é conhecido
não precisou fazer nada para ser amado
foste abençoado antes de nascido
nascerás como um abençoado.


Antes, de seus ossos formados
teu pai, tua mãe o tem recebido
em seus corações e, em seus abraços
na vontade de Deus. Seja bem-vindo!!


Henrique Rodrigues Soares - O que é a Verdade
Poesia feita antes do nascer do Fernando Henrique Moura Soares que no dia de hoje faz seis anos.
Meu filho.

Com lento Amor

















Com lento amor olhava os dispersos
Tons da tarde. A ela comprazia
Perder-se na complexa melodia


Ou na curiosa vida dos versos.
Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado,


Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.
Sem se atrever a andar neste perplexo


Labirinto, olhava lá de fora
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.


Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o
Fogo...


Jorge Luis Borges

Último Soneto




















Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes – e vieste...
Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.


Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...


Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...


E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?...


Mário de Sá-Carneiro

Perfume Exôtico



















Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.


Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.


Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,


Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.


Charles Baudelaire

Eu e ela

























Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;


Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.


Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.


Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.


Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.


Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...


Cesário Verde

Descontrole Emocional
















As migalhas são lançadas ao vento
As bocas caçam migalhas
Detritos de miséria suavizam nossa fome
Noites e mais noites apodrecidas pelo tédio
A minha vida não tem janelas
nem portas
é um corredor obscuro
sem esperanças e provisões
Flashes e mais flashes
alucinam meus olhos
com sua violência
com sua possessividade
com sua perversidade


E durmo minha cabeça
no teu colo maleável
e escondo meus sonhos
num desespero incontrolável
pela dor de perdê-los de minhas mãos


Minhas mãos não se mexem
Elas estão presas pela realidade
A realidade retira da vida os seus prazeres
E esta febre que contamina meus pensamentos
rompe as fontes lacrimais.


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Fascinio














Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço.
Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.


Affonso Romano de Sant'Anna

Soneto do Corifeu

























São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.


E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.


Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.


Uma mulher que é como a própria
Lua:Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.


Vinicius de Moraes

Mulher























Mulher que mata e que dar vida
o remédio ao mesmo tempo ferida
teus beijos são um laço
em que homem pobre fracasso


deleita sua essência sua alma
o teu lábio suave gosto de carne
teu andar solto livre e cheio de charme
é desprevenido cheio de calma


sabes olhos atentos te vigiam
não como donos mas como escravos
da tua beleza são iluminados
e os seus desejos em ti se criam


mulher! algumas puras recatas
outras liberais cultas
diamante de disputa
dos homens dominador


Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica

Reconhecimento do Amor
















Amiga, como são desnorteantes
Os caminhos da amizade.
Apareceste para ser o ombro suave
Onde se reclina a inquietação do forte
(Ou que forte se pensa ingenuamente).
Trazias nos olhos pensativos
A bruma da renúncia:
Não queiras a vida plena,
Tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
Não pedias nada,
Não reclamavas teu quinhão de luz.
E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.


Descansei em ti meu feixe de desencontros
E de encontros funestos.
Queria talvez - sem o perceber, juro -
Sadicamente massacrar-se
Sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
Desde a hora do nascimento,
Senão desde o instante da concepção em certo mês perdido
na História,
Ou mais longe, desde aquele momento intemporal
Em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
No caos universal


Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
Sua espada coruscante, seu formidável
Poder de penetrar o sangue e nele imprimir
Uma orquídea de fogo e lágrimas.


Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
O Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
Quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.


Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
Dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
Com o olhar pervagante e larga ciência das coisas.
Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
E a pura essência em que nos transmutamos dispensa
Alegorias, circunstâncias, referências temporais,
Imaginações oníricas,
O vôo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
As chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
Todas as imposturas da razão e da experiência,
Para existir em si e por si,
À revelia de corpos amantes,
Pois já nem somos nós, somos o número perfeito: UM.


Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
à vacuidade de persistir, fixo e solar,
E se confessasse jubilosamente vencido,
Até respirar o júbilo maior da integração.
Agora, amada minha para sempre,
Nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
A melodia, a paisagem, a transparência da vida,
Perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.


Carlos Drummond de Andrade

Renascer



















No teu olhar vejo prenúncio de alvorada,
canto de pássaros... O sol... A brisa amena...
A relva verde... O rio manso... Até a estrada
de onde a esperança, enternecida, a mim, acena.


No teu olhar de mil paixões... Ventura plena?
Perco meu norte... Sou quem sou... Ou não sou nada?
Olhos que juram vida em paz, simples, serena...
E me sussurram aventura não pensada.


No teu olhar... Sonho... Delírio... Insanidade?
Como saber se és ilusão... Ou se és verdade?
Se creio, arrisco... Se desisto... O que fazer?


Como eu quisera mergulhar nessa promessa
e palmilhar teu coração, sem medo ou pressa...
No teu olhar, viver, morrer... E renascer!


Patricia Neme

O mar e a Rocha

















O mar se entrega à rocha sem receios
e a cobre com espuma virginal.
E lhe acarinha todos os permeios,
e a ama, como nunca amou igual.


Lhe conta dos seus mais sutis anseios,
lhe fala desse amor, já outonal...
E a cerca com seus mil e um meneios...
E lhe oferece todo o seu caudal.


Porém, sempre centrada em sua essência,
ela não se permite a experiência
de se entregar aos braços desse amor.


E perde um oceano de venturas,
e mais e mais conhece as amarguras,
de quem jamais permite su'alma expor!


Patricia Neme

Somos todos iguais nesta noite













Somos todos iguais nesta noite
Na frieza de um riso pintado
Na certeza de um sonho acabado
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Onde estão os atores?


Pede à banda pra tocar um dobrado
Olha nós outra vez no picadeiro
Pede à banda pra tocar um dobrado
Vamos dançar mais uma vez


Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
É o circo de novo
Nós vivemos debaixo do pano
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores


Ivan Lins

Marinha

Teu corpo é mar com frêmitos frescos de ondas e fosforescência de espumas. Teu corpo é profundidade equórea, fil...