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Mostrando postagens de Junho, 2017

Poema de toda, tanta

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de toda, tanta beleza presente
o mar soube como sempre
nos encantar com seus brilhos
a nos afagar com suas águas
no toque da pele
os barcos deslizavam melodias
e era a infinitude que nos beijava
o sol nascia no início do traço
rasgavam as sombras ao meio
e a verdade se via discreta
nenhuma ilusão nos tinha
as coisas se eram, nós estávamos
prenhes de ternura
dessa vez era a simplicidade
que nos abraçava
e nos cantava bem baixinho
o nosso desesperar
os barcos se iam
acenavam uma nova viagem

a vida tem dessas coisas
de nos trazer encantos
entre tantos entretantos
tanto enquanto nascer
quando a coisa nos toma
e nos mostra seu vazio
quando o ser emerge da coisa
e o sonho se vê


Luiza Maciel Nogueira

Soneto XVII

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Quem crerá em meu verso no futuro,
Se for tomado por teu completo abandono?
E Deus sabe que tua vida se transformou em tumba,
Sem deixar entrever sequer a metade de teu ser.

Se eu pudesse descrever a beleza de teus olhos,
E enumerar infinitamente todos os teus dons,
O futuro diria, este poeta mente,
Tanta graça divina jamais existiu em um ser.

Podem os papéis amarelados em que escrevo
Serem desprezados como velhos falastrões,
E tuas verdades poriam fim à ira deste poeta,
E prolongariam o som de uma antiga canção:

Mas, se um filho teu vivesse, então,
Viverias duas vezes – nele e em meu canto.




Sonnets XVII

Who will believe my verse in time to come
If it were filled with your most high deserts?
Though yet heaven knows it is but as a tomb
Which hides your life, and shows not half your parts:

If I could write the beauty of your eyes,
And in fresh numbers number all your graces,
The age to come would say this poet lies,
Such heavenly touches ne'er touched earthly faces.

So should my papers (yellowed with thei…

Portugal

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Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga

O último adeus II

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O navio desatraca
imagino um grande desastre sobre a terra
as lições levantam vôo,
agudas
pânicos felinos debruçados na amurada.

E na deck-chair
ainda te escuto folhear os últimos poemas
com metade de um sorriso.



Ana Cristina Cesar
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a calma se esvai pelas horas
as horas crescem no escuro
vem sofreguidão das pálpebras
que se fecham e se abrem

o cansaço dos músculos que se recusam a repousar
os demônios acordam assombrando o silêncio
vem o instinto aflorado de erguer e soerguer a fé
na oração dita e redita como mantra
o abrir a janela e a cuíra de olhar para o céu
em busca de respostas nas estrelas

a lua me espreita
assim como Eu
insone

o desejo do sonho se contorce na insônia

mas como posso dormir se a noite sempre me encharca de dúvidas.


Wanda Monteiro

Espelho

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Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras.

Aníbal Beça

O último adeus I

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Os navios fazem figuras no ar
escapam as cores - os faunos.
Os corpos dos bombeiros bailam
no brilho dos meus pés.
Do cais mordo
impaciente
a mão imersa
nos faróis.


Ana Cristina Cesar

Amar, nunca me coube

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Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou

E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,
Não possa me salvar

Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento

E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior

Mário Quintana

Amor

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Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo

Islândia - Uma variação insular

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Cratera estranha, fria quanto baste
E húmida, uma secreção intumescendo
A haste da figueira e o figo único
Que a boca rasga;

Não é aqui a saga de Thor, nem a espada
De Tristão, flácida.
Dobra-se o herói de lava e, em rotação de si,
Abraça o fogo petrificado.
E teme o gelo à deriva no mar, as palavras
Brancas, o sal que escorre
- alguém disse: “da terra, de onde sois” –
seu corpo aberto em fissuras cósmicas
ou lucernário; Ele que se metamorfoseou
em relâmpago e breve sabia como derivam
no tempo os frutos e o seu esplendor;

O figo único que a palavra rasga.


Luis Carlos Patraquim, O Osso Côncavo e outros poemas, Lisboa: Caminho, 2004, p.50, 93-4, 130

O Novo

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Do estático como se movo
Do elástico ao que se alcança
As flores sempre com seus renovos
Brotam uma nova esperança

Contraio os pensamentos e me revolvo
Para enquadrar-me nos consentimentos
Distraio-me e no que envolvo
Por necessidade ou entendimento

Esse cheiro bom que vem do novo
Sobrevoa como combustível as emoções
Se sobra algo nada devolvo
Do que arrebata corações

Com tantas tentáculos de polvo
No arredio olhar das atrações
Como grávida assim é o povo
Que sorrir nas dores e contrações.

Henrique Rodrigues Soares – Pra Fora. Por Dentro.

Viúva

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Refeita, vou aquietar-me
Chega de querer colo
Isso agita

O coração aguenta
Sofrer muito
Ou a humanidade não existiria

Vou prender meus cabelos num coque
Com todos os meus fios prata
E vou cozinhar para netos
Receitas que os distraiam
Do que eu sei.


Adriane Garcia, poema que fecha o livro O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura)

Arte de Amar

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Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel Bandeira

Sonetos que não são

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Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst

Lembranças Saudosas

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Lembranças saudosas, se cuidais
De me acabar a vida neste estado,
Não vivo com meu mal tão enganado,
Que não espere dele muito mais.

De longo tempo já me costumais
A viver de algum bem desesperado:
Já tenho co'a Fortuna concertado
De sofrer os tormentos que me dais.

Atada ao remo tenho a paciência
Para quantos desgostos der a vida;
Cuide quanto quiser o pensamento.

Que pois não posso ter mais resistência
Para tão dura queda, de subida,
Aparar-lhe-ei debaixo o sofrimento.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

O Amor É uma Companhia

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O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

Soneto XVI

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Mas, por que não lutas com mais destemor
Contra o Tempo tirano e sanguinário,
E te fortificas contra teu declínio
Com meios mais abençoados que minha frágil rima?
Estás agora no ápice das horas felizes,
E em meio aos jardins ainda em flor,
Com o desejo virtuoso carregas as vívidas flores,
Mais do que as tuas falsas pinturas.
Então, deveriam as linhas que a vida repara
Com isto, o lápis do Tempo ou a pena de meu discípulo,
Nem pelo valor intrínseco ou beleza visível
Podem fazer-te viver diante dos olhos do mundo.
Ceder faz com que permaneças,
E vivas inspirada pelos teus doces dons.




Sonnets XVI

But wherefore do not you a mightier way
Make war upon this bloody tyrant Time?
And fortify your self in your decay
With means more blessed than my barren rhyme?

Now stand you on the top of happy hours,
And many maiden gardens yet unset,
With virtuous wish would bear you living flowers,
Much liker than your painted counterfeit:

So should the lines of life that life repair
Which this (Time's pencil) or my pupil pen
Ne…

Amar-te...

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Amar-te, é escrever-te.

Amar-te é deixar que me toques até ser teu,

até que te deites no meu corpo e adormeças

inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar.

Cheiram a ti. São para ti.

Um "bouquet" de palavras que floriram

neste tempo de amor.


Joaquim Pessoa

Gaita

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Eu não tinha mais palavras,
Vida minha,
Palavras de bem-querer;
Eu tinha um campo de mágoas,
Vida minha,
Para colher.

Eu era uma sombra longa,
Vida minha,
Sem cantigas de embalar;
Tu passavas, tu sorrias,
Vida minha,
Sem me olhar.

Vida minha, tem pena,
Tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
Como a tua sombra longa;
Eu bem sei que vou sonhar
Sem colher a tua vida,
Vida minha,
Sem ter mãos para acenar,
Eu bem sei que vais levando
Toda, toda a minha vida,
Vida minha, e o meu orgulho
Não tem voz para chamar.

Augusto Meyer

Acender as luzes

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Abaixo pálpebras
E apago o dia
Dentro de mim
O escuro avia
Minha intimidade

Pudesses me tocar
Eu diria:
– Aí dói muito
E tu deixarias
Quieto
O meu rio?

Os peixes nadam
Num lodaçal difícil
E ainda há um monstro
De comer pântanos

Tu fazes um
Movimento brusco
Eu choro e
Me inundo
E para não me afogar eu
Abro os olhos.

Adriane Garcia

Soneto II

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Eu não sei quem tu és. Sonhei-te linda,
amei-te em sonho e vivo neste sonho.
Para encontrar-te, numa dor infinda
pus-me a caminho, pálido e tristonho.

Tu não sabes quem sou. Sonhas-me ainda
a alma triste dos versos que componho.
E, suspirando pela minha vinda,
pulsa, em teu peito, o coração risonho.

Sonhamos. Quando, um dia, eu for velhinho,
hei de encontrar-te, velha, no caminho…
E juntos, cambaleando, aos solavancos,

nós levaremos, pela tarde calma,
toda uma primavera dentro da alma,
todo um inverno de cabelos brancos…

Guilherme de Almeida - da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 22.

Acordar, Viver

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Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.


Carlos Drummond de Andrade

Espiral

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No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

Mia Couto - no livro “Tradutor de Chuvas”
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o perfume escapa
das flores despedaçadas

o azul acorda a asa do pássaro
colheres na espiral do café
dialogam com as mãos

músculos e nervos
se levantam como plantas
no incansável não-sentido do dia


Carlos Orfeu

Insônia

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Silêncio,
Madrugada.
Rua vazia.
Uma lua branca de linho
estendida no escuro,
sobre o nada.
Num momento insone,
conversam confidentes
Presente, Passado, Futuro.
Um pensamento corta o espaço
versejando a esmo.
Escuto passos:
é meu coração abrindo a porta de mim mesmo.

Flora Figueiredo

Suficiente

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Somente este dia
Pesando mil toneladas
Este dia com suas mil ignorâncias

Somente este, acordo e peço
Que eu o carregue
E me encontre viva

Este dia de asfalto
Que eu o respire
E ainda haja ar nos pulmões

Amanhã, não, suspeito que não fomos
Feitos
Para suportar duas manhãs.



Adriane Garcia

Soneto XV

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Quando penso que tudo o que cresce
Guarda em perfeição só um momento,
Que este imenso palco, sem desvendar, apresenta
O que as estrelas influenciam em segredo;
Quando noto que os homens, como as plantas,
Vivem e morrem sob o mesmo céu,
Gabando-se de um viço que se esvai,
E de todas as bravatas imemoriais;
Então a vaidade desta breve permanência
Faz-te mais jovem ante meus olhos,
Onde o Tempo perdido se debate com a Morte
Para transformar teu dia de juventude em noite escusa;
E sempre combatendo o Tempo pelo teu amor,
Se de ti ele roubar, mais uma vez te recomponho.



Sonnets XV

When I consider every thing that grows
Holds in perfection but a little moment.
That this huge stage presenteth nought but shows
Whereon the stars in secret influence comment.

When I perceive that men as plants increase,
Cheered and checked even by the self-same sky:
Vaunt in their youthful sap, at height decrease,
And wear their brave state out of memory.

Then the conceit of this inconstant stay,
Sets you most rich in youth before my s…