Hugh Selwyn Mauberly (trecho)

Pintura de Nom Kinnear King












Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz
Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.
Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
Ezra Pound. Tradução de A. de Campos

Fingimento

















Nunca fui poeta,
fingi que era para sobreviver.
Existe alguma forma mais bonita
de enganar a si mesmo,
brincar de ser profeta,
ser feliz, viver?
Errei?
Sem a menor falsidade,
tenho certeza de que nunca os enganei,
os amigos
fingiram gostar dos meus versos
por solidariedade.


Ivone Boechat

OFERTA























O que me ofereces é o que tens,
a cor da rosa vermelha no vaso,
algumas palavras de amor,
metade de um cobertor.

O que me contenta é o sorriso,
que vez ou outra tens,
quando o relógio para
em algum momento feliz.

O que posso ser eu sou
a outra mão, o beijo,
o silêncio,
sem recompensas
ou mirabolantes contos de amor.


Reggina Moon

Hematidrose






















Cansado estou... de tantos problemas
Farda infartada com tantos emblemas
Viciado por todo um inexorável sistema
Entre os números e seus teoremas


Se não me esforço para deixar o beco
Da falta de vida de um poço seco
Questionando por uma encorpada inconstância
Em que tudo soa como vigorosa discrepância


Como me comporto não deixa eco
Na arte ventríloqua sou boneco
O que suponho não tem importância
Morre nas nuvens da ignorância


Encontro com minhas trevas
Desarmado, desnudado sem reservas
Na pele brota o que me conserva
Como uma tênue rubra relva


A transpiração que dolorosa
Não suaviza a hora assombrosa
Não cria raízes de esperança
Nem traz calmaria ou temperança



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Março de 2016

A Lista













Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...
Quantos você ainda vê todo dia ?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora...
Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?
Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer ?
Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...
Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita que amam você?


Oswaldo Montenegro

ALELUIA!



















Ele vive e Ele Reina
Aleluia!
Ele aquece e conforta
Aleluia!
Ele chega de manso
Ele bate na porta.
Aleluia!
Ele livra do mal
e desfaz o perigo
Ele vem ao teu lar
Ele fica contigo,
Aleluia!Aleluia!


Ele pega o teu pulso,
Ele espanta o teu tédio,
Ele encontra o teu mal
e oferece o remédio.
Ele faz o alicerce
e levanta a parede
Ele te refrigera
e te mitiga a sede.
Aleluia! Aleluia!


Ele te ressuscita,
Ele te faz forte,
e te livra do medo,
e te livra da morte.
Aleluia!


Ele te vê sofrendo
Ele te revigora,
e levanta o que tomba
e consola o que chora
e perdoa o que peca
e alivia o que punge
e te abraça e te beija
E te marca e te unge.
Aleluia!Aleluia!

Ele apaga o pecado
e o fardo se faz leve
e o vermelho escarlata
é mais alvo que a neve
Ele lava o vestígio
e a nódoa do teu crime
e a insônia que te esmaga
e a angústia que te oprime
e pela sua chaga
Ele enfim te redime!
Aleluia!Aleluia!


Ele meigo te envolve
afável com seu manto;
glória ao Pai, glória ao Filho
e ao Espírito Santo
Aleluia!


Ele é com uma ovelha,
Ele é como uma estrela,
a bem-aventurada
Estrela da Manhã !


Ele é o lírio dos vales,
Ele é a água da fonte,
Ele é a pedra de esquina,
a fonte sempiterna,
a que mana água pura,
água da vida eterna,
a pedra em que se assenta
a nossa segurança,
a nossa salvação
e a fundada esperança.


Ele é a Cruz do Calvário
e a coroa de espinho,
a única verdade
e o único caminho.
Aleluia! Aleluia!


Ele é a nossa alegria
e a morte suportou,
mas no terceiro dia
Ele ressuscitou.
Ó trombetas de prata,
Ecoai! Ecoai!
Ele reina em triunfo
à direita do Pai
Aleluia!


Ele habita no céu
onde vela por mim
e onde no juízo
há-de voltar enfim
Aleluia! Aleluia!


E entre vivos e mortos,
a trombeta a soar
Ele vai nos ouvir
Ele vai nos julgar
Ele vai nos medir
Ele vai nos pesar.
Aleluia!Aleluia!
Oh salvos por seu sangue
Exultai! Exultai!
Ele nos chamará
"Benditos de meu Pai".
Aleluia!Aleluia!

E estaremos com Ele
em glória e majestade
habitando no céu
por toda eternidade!
Aleluia!Aleluia!
Aleluia!Aleluia!


Gióia Júnior - Janeiro de 1980 no livro - Orações do Cotidiano

Sacrifício Perfeito

















Mãos que foram lavadas
E corações injuriosos
Pena capital que lavrada
Em julgamentos indecorosos


Na nossa páscoa sacrossanta
Foi o perfeito cordeiro
O eficaz, o imaculado,
O derradeiro.
Que nos propôs como herdeiro
De sua herança na eternidade


Foi naquela cruz
Resolvido o nosso imbróglio
Retiraste-nos a mancha,
A vergonha e o opróbrio


Como calcular a tua dor?
Como calcular o teu amor?
Minha dívida impagável sem credor
Teu sangue nobre nosso penhor


Saraste de nossas imperfeições
Com suas chagas e suas dores
A salvação em refeições
Multiplicaste aos famintos


No teu partir do pão
Encontrei o meu perdão
No teu cálice de vinho
Encontrei o meu caminho

Aquela mesa me trouxe vida
Do teu corpo com minhas feridas
Fluiu teu sangue carmesim
Para me libertar do meu próprio fim.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Março 2016.

Hino litúrgico das vésperas




















Nesta tarde de Cristo do Calvário,

Eu vim para pedir a minha carne é fraca;

mas, veja, meus olhos vêm e vão

meu corpo o seu corpo com vergonha.

Como reclamar sobre os meus pés cansados,

quando eu ver o seu partido?

Como mostrar minhas mãos vazias,

quando o seu estão cheios de feridas?

Como explicar-lhe a minha solidão,

quando na elevação cruz e você sozinho?

Como explicar que eu não tenho amor,

quando tiver arrancado o coração?

Agora já não se lembra de nada,

Eles fugiram meus todos os meus males.

O impulso trazido pray

que me afoga no mendigo boca.

E só peço que não perguntar nada.

Estar aqui com a sua imagem mortos

e vão aprender que a dor é única

a chave sagrada à sua porta santa.








Himno litúrgico de vísperas


En esta tarde, Cristo del Calvario,

vine a rogarte por mi carne enferma;

pero, al verte, mis ojos van y vienen

de mi cuerpo a tu cuerpo con vergüenza.

¿Cómo quejarme de mis pies cansados,

cuando veo los tuyos destrozados?

¿Cómo mostrarte mis manos vacías,

cuando las tuyas están llenas de heridas?

¿Cómo explicarte a ti mi soledad,

cuando en la cruz alzado y solo estás?

¿Cómo explicarte que no tengo amor,

cuando tienes rasgado el corazón?

Ahora ya no me acuerdo de nada,

huyeron de mi todas mis dolencias.

El ímpetu del ruego que traía

se me ahoga en la boca pedigüeña.

Y sólo pido no pedirte nada.

Estar aquí junto a tu imagen muerta

e ir aprendiendo que el dolor es sólo

la llave santa de tu santa puerta.


Gabriela Mistral

Velejando para Bizâncio (trecho)










Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.

Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
em busca da cidade santa de Bizâncio.

Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.

Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássaro,
o que passou e passará e sempre passa.

 William Buttler Yeats. Tradução de Augusto de Campos)

Invernáculo














Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.


Paulo Leminski

Inveja























Perda de tempo
esforço a mais, em vão,
vendavais...
ódio mudo
contra-mão,
vento
que derruba tudo
ao chão.

Inveja é
luta desperdiçada
que arrebata o próprio vigor,
impedindo momentos
risonhos...amor.
A inveja puxa a vida
pra trás,
deturpa, divide,
produz tormentos,
ativa a ferida,
ainda mais,
acende lamentos,
tira a paz.

Ivone Boechat

Aprendimentos



















O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


Manoel de Barros

Emergência















Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.



Mário Quintana

CUME


















É a hora da tarde, essa que põe
seu sangue nas montanhas.


E nesta hora alguém está sofrendo;
uma perde, angustiada,
bem neste entardecer o único peito
contra o qual se estreitava.


Há algum coração em que o poente
Mergulha aquele cume ensangüentado.


O vale já sombreia
e se enche de calma.
Mas, lá do fundo, vê que se incendeia
de rubor a montanha.


A esta hora ponho-me a cantar
minha eterna canção atribulada.


Sou eu que estou batendo
o cume de escarlate?


Ponho em meu coração a mão e o sinto
a verter quando bate.




CIMA



La hora de la tarde, la que pone
su sangre en las montañas.


Alguien en esta hora está sufriendo;
una pierde, angustiada,
en este atardecer el solo pecho
contra el cual estrechaba.


Hay algún corazón en donde moja
la tarde aquella cima ensangrentada.


El valle ya está en sombra
y se llena de calma.
Pero mira de lo hondo que se enciende
de rojez la montaña.


Yo me pongo a cantar siempre a esta hora
mi invariable canción atribulada.


¿Será yo la que baño
la cumbre de escarlata?


Llevo a mi corazón la mano, y siento
que mi costado mana.




Gabriela Mistral -  Trad. de Ruth Sylvia de Miranda Salles















sou um animal de ruínas ilógicas
vocifero o timbre
tambor de meu chão

sou um animal que viceja
nos meus braços há muitos pássaros

e uma ópera de dor consciente de existir
em colisão com o tempo
meu confidente e inimigo


Carlos Orfeu

Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo















Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 



Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim. 


Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito. 


Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.



Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Oração


























Dá-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Poesia eu fazê-la sua
"Eis minha carne e meu sangue!"
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração...
Mas, ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho,
Deixai-me dar de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza...


Mario Quintana


 7 Anos de Existência - Nossa Poesia de Cada Dia
Nascido no dia 15/03/2009, já são 1843 publicações com esta poesia, temos 82 amigos seguidores e fomos visitados 130.121 vezes.

Obrigado à todos que sempre dão uma passadinha por aqui. Fiquem à vontade e meu muito Obrigado!


Henrique Rodrigues Soares

Mulher ao espelho
























Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.


Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.


Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?


Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.


Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.


Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


Cecília Meireles

















...quando a melancolia me assola
tudo me invade e vira nada
um nada
que de tão nada
expurgar-Me

fora de mim
feito terra desgarrada
viro ilha
ilha que de tão ilha
em vez de flutuar na água
flutua no ar
entre o abismo do céu
e o abismo de mim.


Wanda Monteiro

Que mulher é essa?














Que mulher é essa
que não se cansa nunca,
que não reclama nada
que disfarça a dor?
Que mulher é essa
que contribui com tudo,
que distribui afeto,
tira espinhos do amor!
Que mulher é essa
de palavras leves,
coração aberto,
pronta a perdoar?
Que mulher é essa?
que sai do palco,
ao terminar a peça,
sem chorar!
Essa mulher existe,
sua doçura resiste,
às dores da ingratidão,
resiste à saudade imensa,
resiste ao trabalho forçado,
resiste aos caminhos do não!
Essa mulher é MÃE,
linda, como todas são.

Ivone Boechat

Os Homens Ocos









Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.


II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular


III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.


IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.


V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.


T.S.Eliot

(Trecho de “Os Homens Ocos”, de T.S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)

Dor elegante















Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski

EU VOU PRA REDENÇÂO























Ainda que nada me sobre
que me façam o rapa no bolso
no mundo dos falsos acúmulos
ao teu lado eu volto farto
de coragem na garrafa
e mesmo depois do furto
de enfrentar outro sarrafo
tenho o meu porto seguro

E mesmo que eu me perca
seguir tua mandala
vai me puxar pra rota
Vai haver o Norte
o salmo, o bálsamo, a bússola
para me trazer de volta ao solo
E ela que me eleva a alma
vai me inspirar pra um novo salto

Se envolve dos meus braços
e me beija das mãos o dorso
com o amor mais forte
que possa existir
e me diz simplesmente:
"Eu tô aqui"
Não é qualquer discórdia
que vai nos acossar

E apesar das rasteiras
a vida nos brinda
de forma incrível
deixando a lição
Em vez me render ao que se espera
Com ela eu vou pra redenção


Alan Salgueiro

Canção das mulheres



Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.



Lya Luft

O menino que carregava água na peneira










Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Manoel de Barros






















A solidão sempre bate à porta
nem sempre abro
só abro minha porta
quando ela me trás silêncio...

esse silêncio que me deixa a sós
com esses que fazem solilóquios dentro de mim.


Wanda Monteiro

Uma didática da invenção






I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.


II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.


III
Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.


IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.


V
Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.


VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.


VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.


VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.



IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.


X
Não tem altura o silêncio das pedras.



Manoel de Barros

Poética

Alguma palavra, este cavalo que me vestia como um cetro, algum vômito tardio modela o verso. Certa forma ...