“Isso, isso, isso...!”






















Não me esquecerei do grande menino
Poderia ser brasileiro, mas foi mexicano.
Com a pobreza dos que nascem sem ninhos
A fome, orfandade, o barril e o humano.


Desprovido do que tantos são
Brincando com a doçura da infância
Que não guarda em seu coração
Ruindade de adulto e arrogâncias


Chapolin, Chespirito ou Chavito.
“Tá bom, mas não se irrite”.
Como bola de gude ou pirulito
Não há quem te imite.


“Foi sem querer, querendo!”
Roberto Bolaños, o Eterno Chaves.
Sendo simples diante do que é grave.
Com a poesia de dores amolecendo


O Brasil de tantos seus Madrugas
Sem casas sem empregos
De tantas Florindas, Clotildes e seus Barrigas.
De professores Girafales, e Quicos e Chiquinhas.
Porque nos identificamos tanto?!
Porque apesar dos mesmos episódios?!
Sempre nos encontramos.


“E agora? Quem poderá nos defender!”
Sem heróis ou meninos.
“Ninguém tem paciência comigo!”
Mas guardaremos contigo
“A menos que o coração, que o coração sustente
A juventude, que nunca morrerá!”



Henrique Rodrigues Soares.



Há nos domingos um certo tom de blues
uma sensação crônica de Nada
uma preguiçosa e enovelada tristeza
de pensar profundidades tão fatais
que quando decidimos sair de nós

voltamos com os olhos ainda empoçados
de outros incuráveis domingos
.


Carlos Orfeu

Somos Pretos






















Somos todos pretos
Sem sangue nobre
Somos todos neutros
Somos todos pobres.


Somos todos pretos
Sem salame ou requeijão
Temos apenas café preto
Algumas vezes pão.


Somos todos pretos
Tutu de farinha e feijão
Somos prato feito
Escassez e sequidão.


Somos todos pretos
De planos pretos
De panos pretos
E de tão negros estamos pretos.


Somos todos pretos
Com metas e ideais desfeitos
Uniformizados pés pretos
Sem sobrenome ou respeito.


Somos todos pretos
Que cor cobre meu peito?
Não é a melanina que nos faz preto
Mas tudo isso, e o despeito.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Novembro de 2014.

Ironia


Meus retalhos estão todos intactos,
e como antes da tempestade, inalterados.
Possuo a serenidade das piores tormentas,
que destroem vilas inteiras, ironia...
Penso em ti e sinto-me terna e branda,
livre de desejos e tão fria,
como um poderoso vulcão,
em plena erupção.


Reggina Moon

O apanhador de desperdícios


















Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros.
- 19 de dezembro de 1916 / 13 de novembro de 2014 -

BICHO INDOMÁVEL


eu
bicho indomável
entre venenos e sangue

lanço-me nu e verdadeiro
na pele do papel

sujo-me de tinta
miro a palavra sem endereço


Carlos Orfeu

Poema de um enigma só


























a solidão é uma faca cravada com uma rosa
delírio quase impossível de se ver
estrada rumo ao vazio que se preenche de ilusão
que de repente como que por magia
a solidão no vazio é cheia de mentiras que se querem verdades
que se quer vaidade, que se quer amor
ninguém sabe da mentira que o outro cria
da mentira nossa de cada dia

do filme que na cabeça se fia


Luiza Maciel Nogueira

Sem que...






















Nenhum dia se vai
Sem que eu lembre teu nome
Sem que eu te pertença infinitas vezes
Sem que eu me afunde em teu amor.
Cada dia é cheio dessa espera
De que eu abra meus olhos
E te encontre perto de algum céu
Onde eu possa colorir teus lábios
Com beijos feitos de canção
Onde eu possa me prender ao teu corpo
Com laços vermelhos invisíveis de paixão
Sim, meu amor,
Nenhum dia se vai
Sem esse céu que invento,
Sem que eu perceba
Que a única forma de te tocar
É através das poesias
Que ao entardecer te escrevo...


Cáh Morandi 
Imagem da Internet.

Poética

Alguma palavra, este cavalo que me vestia como um cetro, algum vômito tardio modela o verso. Certa forma ...