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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

Ano Novo

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Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento


Fernando Pessoa

Deixa que o olhar...

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Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes, se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio Desse amor, que minh`alma se consome De te exaltar aos olhos do universo.

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso.

Alphonsus de Guimaraens

A Dança das Horas

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Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz…
São as horas, que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.
Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e, embora irmãs,
não se vêm, não se dão, não se parecem
as doze tecelãs!
E, de mãos dadas, confundidas quase,
no invisível sabá,
elas são silenciosas como a gaze,
ou farfalhante como o tafetá.
Frágeis: têm a estrutura inconsistente
de teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.
E, entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia,
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa, que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.
Sessenta rosas, vivas como brasas,
traz cada uma; e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer…
À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos pou…

Kohelet

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Quando deixei de ser eu mesmo E as lágrimas foram o único conforto Naveguei pelo impreciso extremo Sem expectativas sem porto
Não pude mais querer coisas A juventude passou E as páginas ficaram amarelas A beleza são mariposas O encanto voou Logo a curta vida em uma procela
A tristeza tem mais alma e verdade Do que a disfarçante alegria Que esconde nos escombros Rachaduras e queimaduras Diante da sua claridade.
A tristeza tem cheiro de antiguidade É dura, sem noites ou dias, Não carrega nada em seus ombros Não se embriaga em frases de ternuras Nem em discursos de humanidade.
Me pergunto, porque o amor Tem o hábito de revelar-se Apenas com a perda, com a dor Partidas em dias sem cor Com sombrias traduções Em melodias de labor.
Quando os sonhos acabarem E o cansaço for mais forte do que eu Que minhas luzes se apaguem Como um dia se acenderam
Que seja ao me despedir Como uma mãe que deixa seus filhos Não porque quer Mas por causa do inevitável partir De que em seus olhos escureceu o brilho.


Henrique Rodrigues Soares – Can…

Nua

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NUA és tão simples como uma de tuas mãos, lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente, tens linhas de lua, caminhos de maçã, nua és magra como o trigo nu. Nua és azul como a noite em Cuba, tens trepadeiras e estrelas no pelo, nua és enorme e amarela como o verão numa igreja de ouro. Nua és pequena como uma de tuas unhas, curva, sutil, rosada até que nasça o dia e te metes no subterrâneo do mundo como num longo túnel de trajes e trabalhos: tua claridade se apaga, se veste, se desfolha e outra vez volta a ser uma mão nua.

Amigo

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Vamos conversar
Como dois velhos que se encontraram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.

Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens.

É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.

Mas… ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo. O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.

Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois… depois…
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.


Cora Coralina

Natal

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Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde onde nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.

Sobre a palha, risonho e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino Jesus, que está cercado
Dos animais de pobre estrebaria.

Não nasceu entre pompas reluzentes:
Na humildade e na paz desse luar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.

No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.

Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!

Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estr…

Versos de Natal

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Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.



Manuel Bandeira - Lira dos Cinquenta anos, 1940.

Anjos (Pra quem tem Fé)

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Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim
Não tem fim
É

Se você não aceita o conselho, te respeito
Resolveu seguir, ir atrás, cara e coragem
Só que você sai em desvantagem se você não tem fé
Se você não tem fé

Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar
É

Volte a brilhar, volte a brilhar
Um vinho, um pão e uma reza
Uma lua e um sol, sua vida, portas abertas

Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim
Não tem fim

Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim

Mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar

Podem até gritar, gritar
Podem até barulho, então, fazer
Ninguém vai te…

Meu destino

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Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos

No Entardecer dos Dias de Verão

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No entardecer dos dias de Verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... 
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão ... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos ... 
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma cousa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, 
E deve haver muita cousa 
Para termos muito que ver e ouvir ... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterônimo de Fernando Pessoa

Ingratidão

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Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

Raul de Leoni

Viagem

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É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…


Miguel Torga

A Estrada

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Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei, ei, ei, ei
Ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei

A vida ensina e o tempo traz o tom
Pra nascer uma canção
Com a fé do dia a dia encontro a solução
Encontro a solução

Quando bate a saudade eu vou pro mar
Fecho os meus olhos e sinto você chegar
Você chegar

Quero acordar de manhã do teu lado
E aturar qualquer babado
Vou ficar apaixonado
No teu seio aconchegado
Ver você dormindo e sorrindo
É tudo que eu quero pra mim
Tudo que eu quero pra mim

Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei, ei, ei, ei
Ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei


Da Gama e Toni Garrido - Cidade Negra

Pacto

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Caminhada dura Que gastara meus sapatos As amargas juras De um primeiro impacto
E na chegada escura De impossível trato Para nossa loucura Construiu-se um pacto
Se hoje me escapa lágrimas Não há disfarces nem tristezas Elas arejam meu coração Para emoções que ainda virão
E quando nos meus espelhos Posso contemplar tantas luzes acesas Desafiantes mais singelas Os aprendizados e conselhos Não ficaram apenas sobre a mesa É coisa viva, é coisa séria
Novos afluentes estão nascendo Para caminhos diferentes E que sejamos honestamente gente Que até nas partidas florescendo
Com a ousadia de quem não é usado Como quem dança nas fortes chuvas  E persegue nas noites turvas O preciso diamante que precisa ser conquistado.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Meu povo, meu poema

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Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta




Ferreira Gullar

Soneto I

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O pequenino livro em que me atrevo 
a mudar numa trêmula cantiga  todo o nosso romance, ó minha amiga  será, mais tarde, nosso eterno enlevo. 

Tudo o que fui, tudo o que foste  eu devo dizer-te: e tu consentirás que o diga,  que te relembre nossa vida antiga,  nos dolorosos versos que te escrevo. 

Quando, velhos e tristes, na memória  rebuscarmos a triste e velha história  dos nossos pobres corações defuntos, 

que estes versos, nas horas de saudade,  prolonguem numa doce eternidade  os poucos meses que vivemos juntos. 

Guilherme de Almeida - da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 21.
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Há tanto para entristecer
Que vou deixar para amanhã
No dia em que eu der vazão
Ao peito
Será o suspiro de um rio
E trarei água para os pulmões Lembro-me, longínquo
De estar sentada na soleira da porta
Olhando o movimento da rua:
Eu não tinha a metade destas cicatrizes
E os olhos já marejavam Jamais eu poderia prever
Que a ternura se perdia
Ainda que as frases de efeito
Continuassem
Repetidas à exaustão Mas agora conheço o cheiro da eternidade
Agora experimento o castigo de Deus
Nem mesmo a morte nos livrará
De ter vivido Tenho imaginado o que as pedras sofrem
Você já reparou o que acontece
Com o olhar dos velhos? . Adriane Garcia