Ano Novo

















Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento


Fernando Pessoa

Deixa que o olhar...

























Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes, se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Desse amor, que minh`alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo.

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


Alphonsus de Guimaraens

A Dança das Horas

























Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz…
São as horas, que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.
Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e, embora irmãs,
não se vêm, não se dão, não se parecem
as doze tecelãs!
E, de mãos dadas, confundidas quase,
no invisível sabá,
elas são silenciosas como a gaze,
ou farfalhante como o tafetá.
Frágeis: têm a estrutura inconsistente
de teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.
E, entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia,
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa, que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.
Sessenta rosas, vivas como brasas,
traz cada uma; e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer…
À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos poucos, se desfaz.
E quando as doze dançarinas, feitas
de plumas, vão recuar,
levam as frontes, claras e perfeitas,
circundadas de espinhos, a sangrar…
Assim, depois que a estranha sarabanda
na sombra se dilui,
penso, vendo o outro bando que ciranda
em torno do que fui,
que há uma alma em cada gesto e em cada passo
das horas que se vão:
pois fica a sombra de seu véu no espaço,
fica o silêncio de seus pés no chão!…

Guilherme de Almeida, 1919.

Kohelet

















Quando deixei de ser eu mesmo
E as lágrimas foram o único conforto
Naveguei pelo impreciso extremo
Sem expectativas sem porto

Não pude mais querer coisas
A juventude passou
E as páginas ficaram amarelas
A beleza são mariposas
O encanto voou
Logo a curta vida em uma procela

A tristeza tem mais alma e verdade
Do que a disfarçante alegria
Que esconde nos escombros
Rachaduras e queimaduras
Diante da sua claridade.

A tristeza tem cheiro de antiguidade
É dura, sem noites ou dias,
Não carrega nada em seus ombros
Não se embriaga em frases de ternuras
Nem em discursos de humanidade.

Me pergunto, porque o amor
Tem o hábito de revelar-se
Apenas com a perda, com a dor
Partidas em dias sem cor
Com sombrias traduções
Em melodias de labor.

Quando os sonhos acabarem
E o cansaço for mais forte do que eu
Que minhas luzes se apaguem
Como um dia se acenderam

Que seja ao me despedir
Como uma mãe que deixa seus filhos
Não porque quer
Mas por causa do inevitável partir
De que em seus olhos escureceu o brilho.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Nua






















NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
 
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pelo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
 
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
 
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.


Pablo Neruda

Amigo



















Vamos conversar
Como dois velhos que se encontraram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.

Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens.

É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.

Mas… ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo. O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.

Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois… depois…
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.



Cora Coralina

Natal





















Jesus nasceu! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde onde nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.

Sobre a palha, risonho e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino Jesus, que está cercado
Dos animais de pobre estrebaria.

Não nasceu entre pompas reluzentes:
Na humildade e na paz desse luar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.

No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vêm cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.

Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!

Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da Pobreza,
Nascido numa pobre estrebaria.


Olavo Bilac

Versos de Natal





















Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.


Manuel Bandeira - Lira dos Cinquenta anos, 1940.

Anjos (Pra quem tem Fé)

























Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim
Não tem fim
É

Se você não aceita o conselho, te respeito
Resolveu seguir, ir atrás, cara e coragem
Só que você sai em desvantagem se você não tem fé
Se você não tem fé

Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar
É

Volte a brilhar, volte a brilhar
Um vinho, um pão e uma reza
Uma lua e um sol, sua vida, portas abertas

Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim
Não tem fim

Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim

Mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo
Pra te provar e mostrar que a vida é linda
Dura, sofrida, carente em qualquer continente
Mas boa de se viver em qualquer lugar

Podem até gritar, gritar
Podem até barulho, então, fazer
Ninguém vai te escutar se não tem fé
Ninguém mais vai te ver

Inclinar seu olhar sobre nós e cuidar
Inclinar seu olhar sobre nós e cuidar
Inclinar seu olhar sobre nós e cuidar
Inclinar seu olhar sobre nós e cuidar

Pra você pode ser

Em algum lugar, pra relaxar
Eu vou pedir pros anjos cantarem por mim
Pra quem tem fé
A vida nunca tem fim

Pra você pode ser
Pode ser
Pra você pode ser

Nunca tem fim
Nunca tem fim
Nunca tem fim


Marcelo Falcão e Tom Saboia - O Rappa

Meu destino
















Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida…
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida…


Cora Coralina

No Entardecer dos Dias de Verão
















No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterônimo de Fernando Pessoa

Ingratidão

























Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...


Raul de Leoni

Viagem


















É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…


Miguel Torga

A Estrada




















Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei, ei, ei, ei
Ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei

A vida ensina e o tempo traz o tom
Pra nascer uma canção
Com a fé do dia a dia encontro a solução
Encontro a solução

Quando bate a saudade eu vou pro mar
Fecho os meus olhos e sinto você chegar
Você chegar

Quero acordar de manhã do teu lado
E aturar qualquer babado
Vou ficar apaixonado
No teu seio aconchegado
Ver você dormindo e sorrindo
É tudo que eu quero pra mim
Tudo que eu quero pra mim

Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui
Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei
Os mais belos montes escalei
Nas noites escuras de frio chorei, ei, ei, ei
Ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei


Da Gama e Toni Garrido - Cidade Negra

Pacto











Caminhada dura
Que gastara meus sapatos
As amargas juras
De um primeiro impacto

E na chegada escura
De impossível trato
Para nossa loucura
Construiu-se um pacto

Se hoje me escapa lágrimas
Não há disfarces nem tristezas
Elas arejam meu coração
Para emoções que ainda virão

E quando nos meus espelhos
Posso contemplar tantas luzes acesas
Desafiantes mais singelas
Os aprendizados e conselhos
Não ficaram apenas sobre a mesa
É coisa viva, é coisa séria

Novos afluentes estão nascendo
Para caminhos diferentes
E que sejamos honestamente gente
Que até nas partidas florescendo

Com a ousadia de quem não é usado
Como quem dança nas fortes chuvas
 E persegue nas noites turvas
O preciso diamante que precisa ser conquistado.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


Meu povo, meu poema





















Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta




Ferreira Gullar

Soneto I


















O pequenino livro em que me atrevo 
a mudar numa trêmula cantiga 
todo o nosso romance, ó minha amiga 
será, mais tarde, nosso eterno enlevo. 


Tudo o que fui, tudo o que foste 
eu devo dizer-te: e tu consentirás que o diga, 
que te relembre nossa vida antiga, 
nos dolorosos versos que te escrevo. 


Quando, velhos e tristes, na memória 
rebuscarmos a triste e velha história 
dos nossos pobres corações defuntos, 


que estes versos, nas horas de saudade, 
prolonguem numa doce eternidade 
os poucos meses que vivemos juntos. 


Guilherme de Almeida - da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 21. 

Há tanto para entristecer
Que vou deixar para amanhã
No dia em que eu der vazão
Ao peito
Será o suspiro de um rio
E trarei água para os pulmões

Lembro-me, longínquo
De estar sentada na soleira da porta
Olhando o movimento da rua:
Eu não tinha a metade destas cicatrizes
E os olhos já marejavam

Jamais eu poderia prever
Que a ternura se perdia
Ainda que as frases de efeito
Continuassem
Repetidas à exaustão

Mas agora conheço o cheiro da eternidade
Agora experimento o castigo de Deus
Nem mesmo a morte nos livrará
De ter vivido

Tenho imaginado o que as pedras sofrem
Você já reparou o que acontece
Com o olhar dos velhos?
.

Adriane Garcia

Névoa














O que escondes no brilho do teu olhar ?
Esse teu olhar sincero, transparente.
Que, por eu não o perceber claramente,
Dentro de meu mundo, me quis questionar.

Que esconde essa tua personagem ?
Revela-me esse teu grande segredo...
Sem qualquer receio e sem qualquer medo,
Serás tu um sonho ou uma miragem ?

Escrever sobre ti, não sei e não posso,
E parar, estranhamente não consigo,
Na minha alma ficou grande tormento.

Questionaste toda a minha existência,
Explicaste-me a palavra convivência.
Porque ficou preso o meu pensamento ?



Vasco de Sousa - 1992

Soneto VII
















Vê, no Oriente quando a graciosa luz
Ergue a cabeça incandescida, todos os olhos
Baixam-se ante a nova visão,
Louvando com os olhares a sua sagrada majestade;

E tendo alçado o íngreme e celestial monte,
Parecendo forte e jovem na meia-idade,
Embora os mortais ainda adorem a sua beleza,
A seguir a dourada peregrinação;

Porém, quando do alto, taciturno,
Velho e enfraquecido, ele do dia se retira,
Os olhos, antes fiéis, agora se desviam
De seu poente, e miram em outra direção;

Então, tu, que também abandonas o teu auge,
Morres inassistido, a menos que deixes um filho.


Sonnets VII

My glass shall not persuade me I am old,
So long as youth and thou are of one date,
But when in thee time's furrows I behold,
Then look I death my days should expiate.

For all that beauty that doth cover thee,
Is but the seemly raiment of my heart,
Which in thy breast doth live, as thine in me,
How can I then be elder than thou art?

O therefore love be of thyself so wary,
As I not for my self, but for thee will,
Bearing thy heart which I will keep so chary
As tender nurse her babe from faring ill.

Presume not on thy heart when mine is slain,
Thou gav'st me thine not to give back again.


William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

A Minha Dor



















Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.

E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.


Noémia de Sousa

Alma























Acho que os sentimentos têm células,
pois as sinto remexer,
intensas libélulas
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos,
sempre crescem.
A cada instante que vivo,
mais então se expandem,
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações
e quando me perco pelas emoções,
ele se avoluma e me maltrata.
Chega a ser tão grande seu efeito,
que rompe o peito,sangra
e se dilata.

Ah minhas células emotivas!
Quero-as em mim
coladas e cativas
fazendo-me viver intensamente.
Eu as batizo com o nome de "alma"
e as responsabilizo a viver eternamente
ainda quando o coração se acalma
e põe-se a dormir
irreversivelmente.


Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

Pudor



















Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,


Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!


Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver


E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer...


Raul de Leoni

Preciso me Encontrar




















Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar


Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver


Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar


Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar


Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver


Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar


Candeia - Interpretes: Cartola e Marisa Monte

Um instante


















Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.


Ferreira Gullar

Extravio



























Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.


Ferreira Gullar

Poética

Alguma palavra, este cavalo que me vestia como um cetro, algum vômito tardio modela o verso. Certa forma ...