Encontrei-te



















Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.



Joaquim Pessoa
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