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Mostrando postagens de Maio, 2015

Não há silêncio bastante

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Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo o silêncio.

Hilda Hilst, in "Poesia: 1959-1979/Hilda Hilst". São Paulo: Quíron, 1980.

Destino do Poeta

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Palavras? Sim, De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.






Destino del Poeta

¿Palabras? Sí, de aire,
y en el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palabras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos,
breve aroma que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.



Octavio Paz, em “Transblanco: em Torno a Blanco de Octavio Paz”. [tradução Haroldo de Campos]. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
Octavio Paz, en “Blanco”. México: Joaquin Mortiz, 1967.

Como um rio

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Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.
Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.
Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.
Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.
Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.

Aniversário

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No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O…

Caminheiro

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Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!
1912


Пешеход
Я чувствую непобедимый страх
В присутствии таинственных высот.
Я ласточкой доволен в небесах,
И колокольни я люблю полет!
И, кажется, старинный пешеход,
Над пропастью, на гнущихся мостках,
Я слушаю, как снежный ком растет
И вечность бьет на каменных часах.
Когда бы так! Но я не путник тот,
Мелькающий на выцветших листах,
И подлинно во мне печаль поет;
Действительно, лавина есть в горах!
И вся моя душа — в колоколах,
Но музыка от бездны не спасет!
1912 Ossip Mandelstam, Gua…

QUALQUER FUTURO

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Estica a fita métrica
das projeções de vida
Situa tua melhor sentença
Elege a vingança ou a justiça A barra de ferro
ou a sala de aula
o berro do giz
ou ópio da jaula Aleija com o braço repressivo
da pressa a 'solução' mais fácil
Exalta a altivez do clamor público
Aplica o dedo em riste deste cárcere
Faz número e alimenta a amostragem
da mesma preta-pobre cor e classe Busca no útero alguma fresta
Confunde o berçário com uma cela
Claudica de miséria, azar e ócio
Sai pós-graduado no crime-negócio Lacrimeja o moleque recrutado
nas garras vorazes do tráfico
E tu condena o drama com astúcia
Da pura penitência e plena fúria
Massacra tudo com um erro crasso
então se finda ali qualquer futuro Alan Salgueiro

Eu visitei o Poeta

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Para Aleksandr Blok
Eu visitei o poeta
ao meio-dia em ponto. Domingo.
Quietude no amplo quarto
e, fora das janelas, o frio
e um sol cor de amoras silvestres,
envolto em névoa hirsuta e azulada...
Com que olhar aguçado o taciturno
anfitrião olhava para mim!
Tinha olhos daquele tipo
de que a gente nunca se esquece;
melhor seria, cuidadosa,
eu não devolver seu olhar.
Mas me lembrarei sempre da conversa,
o meio dia nevoento, domingo,
naquela casa alta e cinzenta,
junto aos portões do Nevá para o mar.
janeiro de 1914


"Я пришла к поэту в гости..."
Александру Блоку
Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.
И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня.
У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.
Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье,
В доме сером и высоком
У морских ворот Невы.
Анна Ахматова – Anna Akhmátova – Lau…

Bolero

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Por tantas noites de abandono
aguardei o teu retorno
na mesma fonte em que me disseste adeus.
Guardo comigo o som de um bolero.
Quero um novo caminho a seguir
distante da angustia
dos faróis dos carros em noites frias.
Desisti de me sentar na nossa sala vazia
e ter como companhia
a tua dedicatória em uma fotografia!


Reggina Moon

Sorriso Interior

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O ser que é ser e que jamais vacila,
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsia e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

Cruz e Sousa, in: Antologia dos Poetas Brasileiros - Poesia da fase Simbolista (Org.). Manuel Bandeira, Editora: Nova Fronteira, 1996.

O Silfo

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Entrevisto e esquivo, 
eu sou esse aroma
finado mas vivo
que no vento assoma!
Entrevisto e incerto,
acaso ou talento?
Mal se chega perto,
concluiu-se o intento!
Entrelido e oculto?
Que erros, ao arguto,
foram prometidos!
Entrevisto e alheio
lapso nu de um seio
entre dois vestidos!

Le Sylphe
Ni vu ni connu
Je suis le parfum
Vivant et défunt
Dans le vent venu!
Ni vu ni connu,
Hasard ou génie?
À peine venu
La tâche est finie!
Ni lu ni compris?
Aux meilleurs esprits
Que d'erreurs promises!
Ni vu ni connu,
Le temps d'un sein nu
Entre deux chemises!
Paul Valéry Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização] Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 206-207.

TÁ CARO

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Tá caro
Tocaram a baderna
Tiraram do meu bolso
Agora a oferta
é tudo pela metade
(do dobro) Tá cara a batata
a carga tributária
e a tarifa e a farofa
e o pouco que sobra
se esvai na conta
de energia elétrica E o combustível
E o dólar instável
E até o x-tudo
foi lá pro alto
como os juros
e as taxas inflacionárias Um susto de alto custo
o leite, a carne e a arte
o óleo, o filho, o alho
e o velho monopólio Parti do pressuposto
que o preço posto
seria justo e não o olho
(da cara) Tacaram
um ovo
na fachada
do mercado
Fechado!
Tá caro! Alan Salgueiro

Idos Sidos

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Que é que fiz, não fiz, de mim?
Que é que fiz na vida, da vida?
Quem sou eu? Esse eu que me sou.
Minhas mãos me pendem soltas.
Inúteis para fazimentos.
Só servem para escrever, acarinhar.
Não sei dançar, nunca soube.
Olho, idiota, o céu estrelado.
Não conheço estrela nenhuma.
As árvores, tantíssimas, que vi.,
Recordo inumeráveis, enormíssimas,
Não sei quem são.
Diante das flores me extasio.
Tolo, só reconheço rosas, orquídeas, cravos.
A música clássica me atordoa, cansa.
Quem sou eu, septuagenário,
Que esgoto meu tempo de me ser aqui?
Insciente, perplexo, inexplicado.
Só cheio de saudades de mim.
De tantos eus que fui. Sidos. Idos.
Somos descartáveis, sei, mas dói.

Darcy Ribeiro, em “Eros e tanatos”, Record, 1998.

A adormecida

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[à Lucien Fabre] Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?
Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga
Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,
Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

La Dormeuse
[À Lucien Fabre]. Quels secrets dans son cœur brûle ma jeune amie,
Âme par le doux masque aspirant une fleur ?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie ?
Souffles, songes, silence, invincible accalmie,
Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspi…

Flores

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De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos
verdes e os discos de cristal que enegrecem como
bronze ao sol -,vejo a digital abrir-se sobre um
tapete de filigranas de prata, de olhos e de cabe-
leiras.
Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata,
pilastras de um cetim branco e de finas varas de
rubis rodeiam a rosa d'água.
Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de
mármores a multidão das rosas fortes e jovens.

Fleurs
D'un gradin d'or, — parmi les cordons de soie, les gazes grises, les velours verts et les disques de cristal qui noircissent comme du bronze au soleil, — je vois la digitale s'ouvrir sur un tapis de filigranes d'argent, d'yeux et de chevelures.
Des pièces d'or jaune semées sur l'agate, des piliers d'acajou supportant un dôme d'émeraudes, des bouquets de satin blanc et de fines verges de rubis entourent la rose d'eau.
Tels qu'un di…

Entre o ser e as coisas

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Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.
Às almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.
N’água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.
E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.
Carlos Drummond de Andrade,  no livro “Daqui estou vendo o amor”. São Paulo: Companhia das Letras, 2013
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Inseparável do medo é a queda,
Medo é mesmo do vazio o sentimento.
Quem das alturas nos atira a pedra,
Rejeitando ela o jugo do momento?
E tu, com teus passos hirtos de monge,
Mediste em tempos a nave empedrada:
Calhaus e sonhos rudes – não está longe
A sede de morte, a grandeza ansiada!
Maldito sejas, gótico abrigo,
Quem entra é pelo tecto enganado,
Na lareira não arde o lenho amigo.
Vivendo eternamente poucos haja,
Mas, viver ao momento subjugado –
Que terrível sorte e que frágil casa!
1912


Паденье - неизменный спутник страха,
И самый страх есть чувство пустоты.
Кто камни нам бросает с высоты,
И камень отрицает иго праха?
И деревянной поступью монаха
Мощеный двор когда-то мерил ты:
Булыжники и грубые мечты -
В них жажда смерти и тоска размаха!
Так проклят будь готический приют,
Где потолком входящий обморочен
И в очаге веселых дров не жгут.
Немногие для вечности живут,
Но если ты мгновенным озабочен -
Твой жребий страшен и твой дом непрочен!
1912 Ossip Mandelstam, Guarda minha fala …

Elegia para a adolescência

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E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que há de ser de
nós que então seremos definidos.
No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos,
seremos atirados de repente,
puros e inúteis como sempre fomos.
Veremos que as vogais e as consoantes
não são mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.
E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.
Carlos Pena Filho.  Livro geral. Edição de luxo. [Organização e seleção de textos de Tania Carneiro Leão]. Olinda: Prefeitura de Olinda, s.d.

O dia inacabado

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Como todos os homens, sou inacabado. 
Jamais termino de ser.
Após a noite breve um longo amanhecer
me detém no umbral do dia.
Perco o que ganho no sonho e no desejo
quando a mim mesmo me acrescento.
Toda vez que me somo, subtraio-me,
uma porção levada pelo vento.
Incompleto no dia inacabado,
livre de ser ainda como e quando,
sigo a marcha das plantas e das estrelas.
E o que me falta e sobra é o meu contentamento.


Lêdo Ivo (Vaso Roto, Barcelona), em "Calima", 2011.

Cântico II

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Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens... 
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.


Cecília Meireles, do livro "Cânticos", 1982.

A boca da noite

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O que não fiz ficou vivo
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.

Thiago de Mello, em "Poemas Preferidos pelo autor e seus leitores", 2001.

"Se a nossa vida..."

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Se nossa vida é menos do que um dia 
na eternidade e o tempo em disparada
nos corre os dias e os reduz a nada,
pois quando nasce é coisa fugidia,
no que meditas e por que te agrada,
minh`alma, o breu desta prisão sombria
quando o teu dorso alado propicia
que ascendeu à mais lúcida morada?
Dispõe-se lá de amor e de prazer,
da paz pela qual todo o mundo anseia,
do bem quer todo espirito requer.
É lá que poderia, minh`alma, no alto
do céu, reconhecer a própria Idéia
da beleza que eu neste mundo exalto.

“Si nostre vie...”
Si notre vie est moins qu’une journée
En l’éternel, si l’an qui fait le tour
Chasse nos jours sans espoir de retour,
Si périssable est toute chose née,
Que songes-tu, mon âme emprisonnée?
Pourquoi te plaît l’obscur de notre jour,
Si pour voler en un plus clair séjour,
Tu as au dos l’aile bien empanée?
Là, est le bien que tout esprit désire,
Là, le repos où tout le monde aspire,
Là, est l’amour, là, le plaisir encore.
Là, ô mon âme au plus haut ciel guidée!
Tu y pourras rec…

Obrigado - 100 Mil Visitações

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Na quinta-feira dia 01 de maio deste ano, o Nossa Poesia de Cada Dia atingiu o número expressivo de 100 000 visitas.

Obrigado à todos que passaram por aqui, com comentários, seguem este blog, ou só curtiram o prazer de ver uma imagem e ler uma poesia.

No começo não criei esta expectativas, mas se chegamos vamos comemorar.  Ainda bem que temos muitas pessoas que curte ler e serem lidas.

Que este humilde espaço possa continuar levando os mais diversos versos do passado como de poetas do presente.

Venha navegar conosco nesta viagem, pegue seu barco, sinta-se a vontade.

Fio

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No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.


Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.


Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...


— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?


Cecília Meireles
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Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.
A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.

Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.
Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.
1922


Холодок щекочет темя,
И нельзя признаться вдруг,-
И меня срезает время,
Как скосило твой каблук.
Жизнь себя перемогает,
Понемногу тает звук,
Всё чего-то не хватает,
Что-то вспомнить недосуг.
А ведь раньше лучше было,
И, пожалуй, не сравнишь,
Как ты прежде шелестила,
Кровь, как нынче шелестишь.
Видно, даром не проходит
Шевеленье этих губ,
И вершина колобродит,
Обреченная на сруб.
1922 Óssip Mandelstam, Fogo Errante, [seleção, comentários e notas Nina Guerra e Filipe Guerra],…

POEMA CARIOCA

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Poema carioca
ocasionado pela confluência
de contrastes
maravilhas e catástrofes
A atrofia da beleza cega
A negação do sotaque

É encontro de brisa
É a ginga da gíria
Sentar à sombra
do beijo de língua
É a malícia da cantada fácil
no improviso do guardanapo

Poema carioca é a mescla
que celebra tropeços e glórias
É contemplar a lágrima
que cai em cascata
Suor do corpo exausto
É a cigarra que rege a floresta

É malandragem em doses homeopáticas
O desenrolo na beira da praia
O protagonismo da sagacidade
Dar a cara à tapa
É a leveza do passo esculpido
É o sorriso no rosto estampado

É o esculacho
no bom sentido do chiado
é poetizar a boemia
em meio à madrugada

Poema carioca
é o passe perfeito
é a bola que corre
é o gol de placa
é a metáfora
que eterniza a metrópole

Alan Salgueiro

Do profundis

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Senhor, que sabes quem sou,
Sabe lá também o resto:
Sabe lá que o meu protesto
Não é isto que tu vês…
Não é isto…
Nem a facada do teu filho Cristo…
Nem o pranto que tens visto
Correr em lava a teus pés…
Não é isto,
Nem o sonho de Babel…
Nem o bombo que fiz da minha pele…
Foram gestos que passaram
Pelo meu corpo e roubaram
Um perfume que julgaram
Que era meu…
Não é isto, nem aquilo
Que um mocho a cantar de grilo
Te mandou com um sinal
Da grande dor que me dói…
Só é sinal do meu todo
Esta elegia do lodo,
Que não foi…
Não é isto,
Nem o muito que há-de vir:
O sarro que há-de sair
Da vazante da maré…
O fundo do mar é sujo,
Mas nos olhos do marujo
Não se vê…
Não é isto, nem é nada
Que chegue à tua morada
Sem a minha assinatura,
Que sou eu…
Eu, esta ovelha ranhosa
Que remói silenciosa
A lembrança dolorosa
Do pastor que lhe bateu.

Miguel Torga, em "O Outro Livro de Job".

A festa do silêncio

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Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se de ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

António Ramos Rosa, em “Volante Verde”, 1986.

Silêncio na Ligúria

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1922 Dissolve-se ondeante o espelho d’água
Nas suas urnas o sol
Ainda escondido se banha
Um suave rubor perpassa.
E abre de súbito no recôncavo
A plena brandura dos olhos
Morre submersa a sombra das rochas.
Suave desabrochar de hilares flancos
A desperta quietude do verdadeiro amor.
E eu o gozo difuso
Pela asa alabastrina
De uma imóvel manhã.
Giuseppe Ungaretti – Geraldo Holanda Cavalcanti

Silenzio in Liguria
1922 Scade flessuosa la pianura d’acqua.
Nelle sue urne Il sole
Ancora segreto si bagna.
Una carnagione lieve trascorre.
Ed ella apre improvvisa ai seni
La grande mitezza degli occhi.
L’ombra sommersa delle rocce muore.
Dolce sbocciata dalle anche ilari,
Il vero amore è una quiete accesa,
E la godo diffusa
Dall’ala alabastrina
D’una mattina immobile.
RB Poesia Estrangeira – Revista da Academia Brasileira de Letras, nº 49, p. 10-11.

Helena

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Azul! Sou eu... Das furnas da morte eis que venho
Ouvir a onda quebrar nas escadas sonoras;
Rever, douradas, as galeras nas auroras
Sair da sombra pelos remos e seu empenho.
Minhas mãos solitárias invocam monarcas
Cuja barba de sal prazia a meus dedos puros;
Eu chorava. Cantavam triunfos obscuros
E os golfos todos sob as popas de suas barcas.
Ouço a concha abissal, ouço ainda o clarim
Marcial ritmar o voo dos remos; assim
O canto dos galés subjuga o tumulto,
E os Deuses, na proa heroica engrandecidos,
Com o sorriso antigo ante a espuma e seu insulto,
Dão-me os braços complacentes e esculpidos.


Hélène Azur! c’est moi… Je viens des grottes de la mort
Entendre l’onde se rompre aux degrés sonores,
Et je revois les galères dans les aurores
Ressusciter de l’ombre au fil des rames d’or.
Mes solitaires mains appellent les monarques
Dont la barbe de sel amusait mes doigts purs;
Je pleurais. Ils chantaient leurs triomphes obscurs
Et les golfes enfuis aux poupes de leurs barques.
J’entends les con…

O Barco Bêbado

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Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.
Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.
Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.
O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!
Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.
Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamen…