Pilares de sustentação





















Emoções não resistem aos atos.
Visões se diluem diante dos fatos.
Nada posso sentir
neste instante de gelo quebrado.


Minha mente ouve a ética
em que a alma sustenta suas estruturas.
Uma nova fonética
ganha voz na minha loucura.


Os sons, os tons
que testificam brandura.
As dádivas, os dons
brotam na ternura.


Senti me sufocado
por fantasmas que quebram pilares
de um tempo trancado
em segundos seculares.


Henrique Rodrigues Soares - O que é a Verdade?

Ubiquidade




















Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.


Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.


Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo).


Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra e, os tempos cumpridos.
No céu, no céu estarás.


Manuel Bandeira

Alegoria




















Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,


e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.


Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.


Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.


Abgar Renault

Renascer – a Décima Rosa




















Eu me despi do fogo incandescente,
onde a paixão expande seu fulgor.
E me adornei, contrita, reverente,
com gotas orvalhadas pelo amor.


O amor... Singelo, de cantar silente...
O amor... Profundo e intenso em esplendor...
Transforma o coração duro e inclemente,
no suave despertar da rosa-flor!


Em meu caminho rumo à eternidade,
liberta dos floreios da vaidade,
no infindo roseiral terei morada.


E quando eu reflorir, por santo alento,
não mais trarei a cor do sofrimento...
Somente a paz dos tons que há na alvorada!


Patrícia Neme

Última Rosa de Sarom




















Além dos muros do meu coração aberto
os cantares das rosas que plantei no pó
são sensações das primaveras no deserto
aquém dos muros dos Jardins de Jericó.


Eu sou a Rosa de Sarom em teu desperto
coração tão infenso ao estar morto e só
em que se cumprirá o antigo manifesto
das rosas castas dos Jardins de Jericó.


Bendito quem deixou as trevas pela Luz
por ter plantado rosas no lugar da cruz
entre os canteiros dos Jardins de Jericó


de onde a última Rosa de Sarom voltou
para ascender ao Pai a rosa que restou
além dos muros dos Jardins de Jericó.


Afonso Estebanez

À Nona Rosa de Sarom




















Toda a razão, solene, à fé se rende
e de joelhos louva ao Criador,
por contemplar a Graça que resplende
no despertar de pétalas em flor.


Somente Deus, em quem tudo transcende,
sabe tecer a vida em forma e cor.
E transformá-la em rosa que se acende
ante o sacrário de um imenso amor.


Os sinos dobram... O silêncio é tanto...
A prece, a entrega... Alma em acalanto...
Misericórdia, plena, me conduz.


Porque sou rosa, abro-me em ternura,
acolho em mim tua dor e desventura
e em meu Sarom, hei-de entregar-te à Luz!


Patrícia Neme

Nona Rosa de Sarom




















Eu vivo como quem nas pétalas das rosas
transcreve um êxodus de roseirais em flor
onde as fugas de amor por vias dolorosas
conduzem rosas para um canaã de amor.


O encanto da paixão por vias espinhosas
entre as rosas não é mais símbolo de dor
onde os lírios da fé são flores milagrosas
da Rosa de Sarom em todo o resplendor.


Faço de rosas o óleo santo das candeias
que faz fluir a lume o sangue pelas veias
a estes jardins em festa no meu coração.


Todo o que crê nas rosas nunca morrerá
que a primavera é o jeito do que nascerá
de crer na rosa muito mais que na razão!


Afonso Estebanez

Oitava Rosa de Sarom




















É preciso enxergar com a visão da aurora
os canteiros de luz nos olhos da alvorada
e crer que as rosas estão lá antes da hora
como servas das antecâmaras da amada.


É preciso convir que não existe o outrora
que rosas sempre têm a brisa perfumada
no topo do futuro que foi sempre o agora
como o êxtase da primavera despertada.


Rosas são infinitas como é a minha fome
do amor eterno que me vive tão profundo
que já nem pode me deixar sem padecer.


Eu vivo pela dor que meu amor consome
na luz de minhas rosas únicas no mundo
que me resgatarão da morte se morrer...


Afonso Estebanez

Resposta à Sétima Rosa de Sarom
















Eis que te bato à porta, amado meu,
para entregar-me, em alma e coração;
para dizer-te: a fé jamais morreu,
nos versos que me deste por canção.


Em mim, sequer um dia feneceu,
a espera, o amor e o canto da paixão;
o credo em quem teceu o que sou eu...
E nos uniu por graça e compaixão.


Porque somente Deus, pai generoso,
pode nos conceder chão tão ditoso,
que acolha o renascer de nossas rosas.


E juntos, na justiça da equidade,
semearemos paz, fraternidade,
em pétalas de luzes caridosas!


Patricia Neme

Sétima Rosa de Sarom




















Minha sétima rosa é a última que a vida
fez a memória do deserto deslembrada
que neste mundo toda flor é concebida
para lembrar de uma verdade revelada.


A verdade da rosa é a aurora resumida
em primavera do deserto sem ter nada
eis que do nada cada rosa é presumida
como uma dádiva profana consagrada.


E Deus é pompa pela tua circunstância
de ser amada por candura e tolerância
por esse meu amor oculto de aprendiz.


Mas a sétima rosa induz-me o coração
a reduzir todo esse amor numa paixão
que faz de mim o teu amado mais feliz.


Afonso Estebanez

Resposta à Sexta Rosa de Sarom

















Não há segredo... É somente o recato,
prudência... De quem mal conhece a vida.
No abrir-me lentamente, em tom sensato,
resguardo-me de ser, em vão, ferida.


Anseio conhecer todo o vibrato
das emoções, da vinda e da partida.
Do amor... E todo o seu desiderato...
Da essência, que me anima e consolida.


Embora a perfeição eu não alcance,
almejo, mesmo breve, ter a chance,
de ter centrado em mim todo o poder


de acalentar quem perde-se em tristeza,
de perfumar-lhe os dias co'a leveza,
que as rosas trazem n'alma: bem querer!


Patricia Neme

Sexta Rosa de Sarom















O enigma da rosa é o mero instinto
que simples faz supor ao jardineiro
ser um dom penetrar-lhe o labirinto
dos instintos das flores do canteiro.


Minha rosa, porém, eu a pressinto,
pois ela é luz da paz do candeeiro:
chama infinita pelo amor que sinto
como o aroma num doce cativeiro.


As Rosas de Sarom são as feridas
curadas pelo amor de muitas vidas
que as lágrimas transiram pela dor.


Mas hoje renascidas dos martírios,
são rosas recatadas como os lírios
dos jardins replantados pelo amor.


Afonso Estebanez

A Quinta Rosa

















Senhor da minha vida e minha morte,
estrêla dos segredos da manhã...
Por onde a rosa que me alumbra a sorte?
Por onde a rosa amiga, amante, irmã?


Nos campos de Saron... Ao sul? Ao norte?
No altar que abriga o culto à fé cristã?
Talvez, onde o pajé seu canto aporte...
Ou há de estar nos céus de Aldebarán?


Na quinta rosa, onde tenho ascendência,
e sou mestra perfeita em plena essência...
A vida exulta em mim todo o fulgor.


A quinta rosa... É tudo o que eu anseio,
não mais falsa esperança ou devaneio...
Enfim, ser conquistada pelo amor.


Patricia Neme

Quinta Rosa de Sarom
















Não procurem a rosa pelo céu noturno
onde a luz das estrelas mais brilhantes
é mera imagem no horizonte taciturno
da miragem mais ilusória dos amantes.


As rosas são onipresentes no diuturno
exercício de amar no fio dos instantes.
As rosas nunca têm o espírito soturno
desses invernos já remotos e distantes.


No coração deserto as rosas não estão
e nem dos cânticos das filhas de Sião,
até o santuário edênico do Hermom...


E nem nas tendas amorosas da ilusão.
Mas é nas fendas do sagrado coração
que todo amor é uma Rosa de Sarom!

Afonso Estebanez

O Silêncio da Quarta Rosa



















Silêncio, eternidade, eis que desperta,
a rosa de Sarom do meu poeta;
se, um dia, por espinhos encoberta...
Agora ela acalenta esta alma inquieta.


Porque, na rosa-amor, a descoberta,
que nêle minha vida está completa.
Eu sou sua ventura, justa e certa,
ele é minha vontade mais secreta.


E hoje, quando ele se perde em mim,
e em nós a paz é cântico sem fim...
Nosso caminho é senda de prazer.


De sonhos, de loucuras, de harmonia,
qual sol que entrega o fogo à luz do dia...
E à noite em nossos corpos vem morrer!


Patricia Neme

Quarta Rosa de Sarom














Porque eu exalto o amor de minhas rosas
o amor por minha amada exulta em mim.
Porque malgrado as flores mais formosas
só a minha rosa é eterna em meu jardim.


Pois que o louvor do gamo às venturosas
servas chega em meus vales num clarim,
trago assim das vertentes mais rochosas
minhas rosas com ungüentos de alecrim.


Hoje eu sei me encontrar sem me perder
morrendo em teus caminhos sem morrer
porquanto és minha amada e pertencida.


Que eu te pertenço como um sonho vivo
pertence aos sonhos que me dão motivo
para que eu morra em mim por tua vida.


Afonso Estebanez

O Poeta e o Poema

















Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.


Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e seqüelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.


(...)


Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.


Alphonsus de Guimaraens Filho

Espera
















Não existe maior solidão
Nem distância,
Nem espera tão longa
Como a de um poema que não vem.
A caneta como um gato
À espreita
Para avançar no papel.
Somente um silêncio.
Prolongado e interminável silêncio
Sem paz.
O filho nasce quando quer.


Bianca Ramoneda

"Estou ali..."

















Estou ali, quem sabe eu seja apenas
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.

Ou talvez seja eu o seu espelho,
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira,
o barulho das águas no telhado.

No retrato outra imagem se condensa:
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil

contra o escuro da noite que nos trai.
Das mãos dele eu recolho o que me resta.
Chamo-lhe de menino. Mas ele é meu pai.


Antonio Carlos Secchin

Voz Íntima





















Fecha-te, sofredor, na alva túnica ondeante
Dos sonhos! E caminha, e prossegue, embebido,
Muito embora, na dor de um fiei celebrante
De um estranho ritual desdenhado e esquecido!


Deixa ressoar em torno o bárbaro alarido,
Deixa que voe o pó da terra em torno... Adiante!
Vai tu só, calmo e bom, calmo e triste, envolvido
Nessa túnica ideal de sonhos, alvejante.


Sê, nesta escuridão do mundo, o paradigma
De um desolado espectro, uma sombra, um enigma,
Perpassando sem ruído a caminho do Além.


E só deixes na terra uma reminiscência:
A de alguém que assistiu à luta da existência,
Triste e só, sem fazer nenhum mal a ninguém.


Amadeu Amaral

Desejo
















Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.


Carlos Drummond de Andrade

Visita

O poeta esteve aqui Disse-me que viu sorrir Meus olhos em suas mãos... Como mente este poeta Com sua...