Poema Simples


















Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do órfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.

Adalgisa Nery

Minha Pátria












Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


Lêdo Ivo

Soneto XXI
















Não sou como aquela Musa,
Movida ao seu verso pelo adorno,
Que o próprio céu usa como ornamento,
E o belo com seu alento se insinua,

Par a par, comparando-se, orgulhoso,
Ao sol e à lua, às ricas joias da terra e do mar,
Com as primeiras flores de abril, e tudo o que é raro
Que os céus abarcam sob a abóbada imensa.

Ah, deixa-me ser fiel ao amor e à escrita,
E então, creia, meu amor é tão puro
Como de uma criança, embora menos luzidio
Que as fixas flamas douradas no manto celestial.

Deixa que digam mais do que tão bem ouvem;
Não louvarei senão o que eu puder defender.



Sonnets

So is it not with me as with that muse,
Stirred by a painted beauty to his verse,
Who heaven it self for ornament doth use,
And every fair with his fair doth rehearse,

Making a couplement of proud compare
With sun and moon, with earth and sea's rich gems:
With April's first-born flowers and all things rare,
That heaven's air in this huge rondure hems.

O let me true in love but truly write,
And then believe me, my love is as fair,
As any mother's child, though not so bright
As those gold candles fixed in heaven's air:

Let them say more that like of hearsay well,
I will not praise that purpose not to sell.



William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

A Esperança















Injeta sangue no meu coração, 
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado 
terrestre ,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor. Eu 
era gigante de porte, mas para que 
este tamanho?
Para tal trabalho basta uma 
polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava 
papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado 
dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de 
graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar, servir-vos de 
porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem não é 
senão para vos morder ou dilacerar. 
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me! Um sujeito engraçado 
pode ser útil. Eu vos proporei 
charadas, hipérboles e alegorias, 
malabares dar-vos-ei em versos. Eu 
amei... mas é melhor não mexer 
nisso. Te sentes mal?


Vladimir Mayakovsky


Como posso continuar? - How Can I Go On?


















Como posso continuar?
Como posso continuar nesse caminho

Quando todo o sal é tirado do mar
Eu fico destronado
Estou nu e sangrando
Mas quando você aponta seu dedo tão selvagemente
Existe alguém para acreditar em mim?
Para ouvir meu apelo e cuidar de mim?

Como posso continuar
Dia após dia
Quem pode me fortalecer em todos os sentidos
Onde posso estar seguro?
A onde pertenço?
Nesse enorme mundo de tristeza
Como posso esquecer
Aqueles lindos sonhos que compartilhamos
Eles estão perdidos e não consigo acha-los
Como posso continuar?

Às vezes eu tremo no escuro
Não consigo ver
Quando as pessoas me assustam
Tento me esconder longe da multidão
Tem alguém aí pra me confortar
Precioso Senhor... Escute meu apelo e cuide de mim

Como posso continuar
Dia após dia
Quem pode me fortalecer em todos os sentidos
Onde posso estar seguro?
A onde pertenço?
Nesse enorme mundo de tristeza
Como posso esquecer
Aqueles lindos sonhos que compartilhamos
Eles estão perdidos e não consigo acha-los

Como posso continuar?





How can I go on?
How can I go on this way

When all the salt is taken from the sea
I stand dethroned
I'm naked and I bleed
But when your finger points so savagely
Is anybody there to believe in me?
To hear my plea and take care of me?

How can I go on
From day to day
Who can make me strong in every way
Where can I be safe
Where can I belong
In this great big world of sadness
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared
They're lost and they're no where to be found
How can I go on?

Sometimes I start to tremble in the dark
I cannot see
When people frighten me
I try to hide myself so far from the crowd
Is anybody there to comfort me
Precious Lord... Hear my plea and take care of me

How can I go on
From day to day
Who can make me strong in every way
Where can I be safe
Where can I belong
In this great big world of sadness
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared
They're lost and no where to be found

How can I go on?


Freddie Mercury E Monserat Caballé

Onda


















Quem falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

Pus o meu lábio indeciso
na concha verde e espumosa
modelada ao vento liso:

tinha frescuras de rosa,
aroma de viagem clara
e um som de prata gloriosa.

Mas desfez-se em coisa rara:
pérolas de sal tão finas
- nem a areia as igualara!

Tenho no meu lábio as ruínas
de arquiteturas de espuma
com paredes cristalinas...

Voltei aos campos de bruma,
onde as árvores perdidas
não prometem sombra alguma.

As coisas acontecidas,
mesmo longe, ficam perto
para sempre e em muitas vidas:

mas quem falou de deserto
sem nunca ver os meus olhos...
- falou, mas não estava certo.

Cecília Meireles

Consolo na praia



















Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.


Carlos Drummond de Andrade

Receita de Olhar
















nas primeiras horas da
manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol

faça do seu olhar imensa
caravela


Roseana Murray

Soneto XX

















Tens a face de mulher pintada pelas mãos da Natureza,
Senhor e dona de minha paixão;
O coração gentil de mulher, mas avesso
Às rápidas mudanças, como a falsa moda que passa;

Um olhar mais brilhante, e mais autêntico,
A imantar tudo que contempla;
Uma tez masculina, a guardar todos os seus tons,
Rouba a atenção dos homens, e causa espanto às mulheres.

Se como mulher tivesses sido primeiro criado;
Até a Natureza, ao te conceber, caiu-lhe o queixo,
E eu, também, caído a teus pés,
Nada mais acrescento ao meu propósito.

Mas, ao te escolher para o prazer mais puro,
Teu é o meu amor e, teu uso dele, o seu tesouro.



Sonnets

A woman's face with nature's own hand painted,
Hast thou the master mistress of my passion,
A woman's gentle heart but not acquainted
With shifting change as is false women's fashion,

An eye more bright than theirs, less false in rolling:
Gilding the object whereupon it gazeth,
A man in hue all hues in his controlling,
Which steals men's eyes and women's souls amazeth.

And for a woman wert thou first created,
Till nature as she wrought thee fell a-doting,
And by addition me of thee defeated,
By adding one thing to my purpose nothing.

But since she pricked thee out for women's pleasure,
Mine be thy love and thy love's use their treasure.


William Shakespeare - 
Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Divina Comédia










Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triumfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inestinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

Antero de Quental

Sonho

















Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.

Fernando Pessoa

Quando o Sol encoberto vai mostrando


















Quando o Sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa
Ao longo de úa praia deleitosa,
Vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi os cabelos concertando;
Ali, co a mão na face, tão fermosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.

Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura;

Aqui se entristeceu, ali se riu...
Enfim, nestes cansados pensamentos,
Passo esta vida vã, que sempre dura.

Luís Vaz de Camões

Soneto XIX
























Tempo voraz, corta as garras do leão,
E faze a terra devorar sua doce prole;
Arranca os dentes afiados da feroz mandíbula do tigre,
E queima a eterna fênix em seu sangue;

Alegra e entristece as estações enquanto corres,
E ao vasto mundo e todos os seus gozos passageiros,
Faze aquilo que quiseres, Tempo fugaz;
Mas proíbo-te um crime ainda mais hediondo:

Ah, não marques com tuas horas a bela fronte do meu amor,
Nem traces ali as linhas com tua arcaica pena;
Permite que ele siga teu curso, imaculado,
Levado pela beleza que a todos sustém.

Embora sejas mau, velho Tempo, e apesar de teus erros,
Meu amor permanecerá jovem em meus versos.



Sonnets

Devouring Time blunt thou the lion's paws,
And make the earth devour her own sweet brood,
Pluck the keen teeth from the fierce tiger's jaws,
And burn the long-lived phoenix, in her blood,

Make glad and sorry seasons as thou fleet'st,
And do whate'er thou wilt swift-footed
TimeTo the wide world and all her fading sweets:
But I forbid thee one most heinous crime,

O carve not with thy hours my love's fair brow,
Nor draw no lines there with thine antique pen,
Him in thy course untainted do allow,
For beauty's pattern to succeeding men.

Yet do thy worst old Time: despite thy wrong,
My love shall in my verse ever live young.

William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas























Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.



@-;–

All truths wait in all things,
They neither hasten their own delivery nor resist it,
They do not need the obstetric forceps of the surgeon,
The insignificant is as big to me as any,
(What is less or more than a touch?)
Logic and sermons never convince,

The damp of the night drives deeper into my soul.
(Only what proves itself to every man and woman is so,
Only what nobody denies is so.)

A minute and a drop of me settle my brain,
I believe the soggy clods shall become lovers and lamps,
And a compend of compends is the meat of a man or woman,
And a summit and flower there is the feeling they have for each other,
And they are to branch boundlessly out of that lesson until it
becomes omnific,
And until one and all shall delight us, and we them.

Walt Whitman

Marinha














Teu corpo é mar
com frêmitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.

Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.

Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.

E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.

Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...


Tasso da Silveira

Idade























Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.


Mia Couto - No livro “Vagas e lumes”

Glória morta
























Tanto rumor de falsa glória,
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio de si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.

De tão lúcido, sinto-me irreal.


Dante Milano, in “Poesia e prosa”

















escrevo em seus olhos
pai

o gesto contínuo que nos acende
sob o tempo e potência

pai em seu dorso
aprendi o princípio do voo

o ato de abrir os braços
desatados do medo

e abraçar com latência
o deslimite

Carlos Orfeu

Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo
























Esses seus cabelos brancos, bonitos
Esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas num grito
Me ensinando tanto do mundo

E esses passos lentos de agora
Caminhando sempre comigo
Já correram tanto na vida
Meu querido, meu velho, meu amigo

Sua vida cheia de histórias
E essas rugas marcadas pelo tempo
Lembranças de antigas vitórias
Ou lágrimas choradas ao vento

Sua voz macia me acalma
E me diz muito mais do que eu digo
Me calando fundo na alma
Meu querido, meu velho, meu amigo

Seu passado vive presente
Nas experiências contidas
Nesse coração consciente
Da beleza das coisas da vida

Seu sorriso franco me anima
Seu conselho certo me ensina
Beijo suas mãos e lhe digo
Meu querido, meu velho, meu amigo

Eu já lhe falei de tudo
Mas tudo isso é pouco
Diante do que sinto
Olhando seus cabelos tão bonitos

Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo

Meu querido, meu velho, meu amigo
Olhando seus cabelos tão bonitos
Beijo suas mãos e digo
Meu querido, meu velho, meu amigo

Erasmo Carlos / Roberto Carlos

O Filho de Patmore















Meu filho, ralhei contigo, 

eu, que sou tão teu amigo! 
Mas, se sou tão teu amigo, 
por que é que ralho contigo?! 

Quando me desobedeces 
já com o homem te pareces... 
Vais ser o homem que pareces: 
vejo que não obedeces! 

Foste chorar para a cama, 
ofendido com quem te ama! 
E teu pai, que tanto te ama, 
salta, tão triste, da cama 

e vai dar-te a sua bênção. 
Ah, vocês filhos não pensam, 
ah, vocês filhos nem pensam 
que um pai é um deus, dando a bênção!


Attílio Milano

Vestida de Flores























Que alegria em todas estas Flores!
Viva! Venha bailar com plenitude
Nesta colorida festa de odores
Que trazem o perfume de juventude.

As Flores sempre vêem anunciar
Da Natureza, a ressurreição.
Sorrindo com o astro Sol a raiar,
Elas cantam do Amor bela canção.

Cantam horas e embelezam os dias...
Depois escondem sua frágil beleza,
Para que outras desabrochem em poesias...
E assim, obedecem a lei da Natureza.

Pra que nunca seja quebrada
Esta dança de cores vestida,
A Natureza fez uma bela grinalda
Com as flores que enfeitam a Vida!


Efigênia Coutinho

Canção Lapidar

















Era um caminho. Mudei-o
De lugar e ele morreu.
Nenhuma pedra me conta
Onde foi que ele nasceu.

Era uma pedra. Deixei-a
No lugar em que nasceu.
Nem ela ficou sabendo
De que caminho morreu.

Era o silêncio. Falei-o
Mas ele pronto esqueceu
Em que pedra, em que caminho
Nada mais me aconteceu...

Homero Frei

Constatação














Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.
Não digas nada.
Longe não deslindas um som que te frequentava.
Não aguces os ouvidos.
Na gruta passam por ti como se te não vissem.
Não esfregues os olhos.
Caminhas pela campina e teu pés nada sentem.
Não troques de passo.
A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.
Não fales nada.

No universo transverso desse tempo
Na contramão de versos claudicantes
Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.



Aníbal Beça

Lisboa














Ó Cidade da Luz! Perpétua fonte
De tão nítida e virgem claridade,
Que parece ilusão, sendo verdade,
Que o sol aqui feneça e não desponte...

Embandeira-se em chamas o horizonte:
Um fulgor áureo e róseo tudo invade:
São mil os panoramas da Cidade,
Surge um novo mirante em cada monte.

Ó Luz ocidental, mais que a do Oriente
Leve, esmaltada, pura e transparente,
Claro azulejo, madrugada infinda!

E és, ao sol que te exalta e te coroa,
— Loira, morena, multicor Lisboa! —
Tão pagã, tão cristã, tão moira ainda...



Alberto de Oliveira, in "Poemas de Itália e Outros Poemas"

XIV
















Quem deixa o trato pastoril, amado,
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado.

Que bem é ver nos campos, trasladado
No gênio do Pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado!

Ali respira Amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Ali não há fortuna que soçobre;
Aqui quanto se observa é variedade:
Oh! ventura do rico! oh! bem do pobre! 


Cláudio Manoel da Costa

Risos















Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!
A vida é triste - quem nega?
- Nem vale a pena dize-lo .
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!
Como o dia, a nossa vida
Na aurora é - toda venturas,
De tarde - doce tristeza.

Casimiro de Abreu

Sentimento do mundo




















Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.


Carlos Drummond de Andrade

Soneto XXII






















Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.


em italiano

S’ amor non è, che dunque è quel ch’ io sento?
Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond’ è si dolce ogni tormento?

S’a mia voglia arado, ond’ è ‘I pianto e ‘I lamento?
S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s’io nol consento?

E s’io ‘I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trivo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d’error sí carca,
Ch’ i i’ medesmo non so quel ch’ io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno.

Francesco Petrarca
in “Poemas de amor de Petrarca” - “Il Canzonieri”

Noite sonora
















Anoiteceu. Pelas montanhas veio
Lentamente o crepúsculo caindo ...
O céu, redondo e claro como um seio,
Ficou, de lindo que era, inda mais lindo.

O vale abriu-se em pirilampos cheio,
Luzindo aqui, e ali tremeluzindo ...
No regaço da treva, úmido e feio,
A natureza adormeceu sorrindo ...

As cigarras, na sombra, se calaram:
As árvores no bosque farfalharam
Na esperança de ouvi-Ias e de vê-las.

Caiu de todo a noite quieta ... Agora,
O céu parece uma árvore sonora
De cigarras cantando nas estrelas ...


Olegário Mariano

Origami
























Dobra que dobra,
redobra
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.


Flora Figueiredo

Soneto XVIII
















Como hei de comparar-te a um dia de verão?
És muito mais amável e mais amena:
Os ventos sopram os doces botões de maio,
E o verão finda antes que possamos começá-lo:


Por vezes, o sol lança seus cálidos raios,
Ou esconde o rosto dourado sob a névoa;
E tudo que é belo um dia acaba,
Seja pelo acaso ou por sua natureza;

Mas teu eterno verão jamais se extingue,
Nem perde o frescor que só tu possuis;
Nem a Morte virá arrastar-te sob a sombra,
Quando os versos te elevarem à eternidade:

Enquanto a humanidade puder respirar e ver,
Viverá meu canto, e ele te fará viver.



Sonnets XVIII

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:

Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:

But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wand'rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,

So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

A Hora

A porta do tempo é opaca, mas menino a viu entreaberta. Foi espiar. “- Mãe, cada minuto é feito de sessenta borb...