Aprendizado

















Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Ferreira Gullar, em "Barulhos", 1987.

faces




















Somos duas faces
no breu das fendas
buscando-se às cegas
Lâmina
Pele
Metades
rasgadas na intensidade do amor
que nos costura


Carlos Orfeu

Chuva de vento


















De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.



Mauro Mota

Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire.

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Manuel Bandeira

Tá Escrito














Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora

Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora

Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta, não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer

É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!


Grupo Revelação
Composição: Xande de Pilares/Gilson Bernini /Carlinhos Madureira

Quando eu morrer quero ficar

















Quando eu morrer quero ficar, 
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.


Mário de Andrade

Deus

















Confesso, que por instantes
Duvidei de tua existência.
Viajei por teorias distantes
Fugindo de ti com insistência.
O dono de si, perdido, foi constante
Tentando contra ti toda minha resistência.


Preso entre os escombros
De um tempo de sombras
Caindo em vários tombos
Coração explosivo, uma bomba.


Procurando vozes estranhas
E um universo de respostas.
Absorvendo química nas entranhas
E o descaso de quem pouca importa.


Ao fugir desta total presença
Onde dos teus olhos me esconder?
Entender... que não há ausência
Para teu eterno poder.


“Teu julgo é suave
E teu fardo é leve”
Eu preso nos encraves
Das preocupações tão breves.


Quero está com espírito imerso
Pelo mar de calmaria
Ao te adorar em versos
Orando como poesia.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Soneto Puro




















Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.

Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.


Lêdo Ivo

ME ROUBARAM UMA HORA


Sem autorização
Alteraram meus relógios
Meus costumes biológicos
Me roubaram uma hora

Nos deram descontos na conta
mas entregaram aos consórcios
todos os direitos
de uma forma não tão 'light'
de uma forma meio ampla
por mais vinte ou trinta anos?

Na mídia se anuncia
economia de energia
e novamente um contrassenso:
A Usina de Belo Monte

Seria sustentável
um tentáculo econômico?
Disfarçado de eco
em horários de pico

E os clichês
das matérias jornalísticas:
Em meio à praia
até mais tarde
o sol bronzeia
o corpo de quem aprecia a brisa

Mas do outro lado
a grande maioria
briga contra o sono
pois precisa saltar da cama
muito antes do dia
dar o ar da graça

Não sei se é apenas impressão
ou já quase um consenso
Mas no horário de verão
Deverão é dormir menos


Alan Salgueiro

Voando com o pássaro
















Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.



Ana Cristina Cesar

Soneto de Quarta-feira de Cinzas

Mulher de Ale ArtLee






















Por seres quem me foste, grave e pura 
Em tão doce surpresa conquistada 
Por seres uma branca criatura 
De uma brancura de manhã raiada 


Por seres de uma rara formosura 
Malgrado a vida dura e atormentada 
Por seres mais que a simples aventura 
E menos que a constante namorada 


Porque te vi nascer de mim sozinha 
Como a noturna flor desabrochada 
A uma fala de amor, talvez perjura 


Por não te possuir, tendo-te minha 
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
Hei de lembrar-te sempre com ternura.



Vinicius de Moraes
Rio, 1941

Ápice



O raio do sol da tarde

Que uma janela perdida 
Refletiu 
Num instante indiferente — 
Arde, 
Numa lembrança esvaída, 
À minha memória de hoje 
Subitamente... 


Seu efêmero arrepio 
Ziguezagueia, ondula, foge, 
Pela minha retentiva... — 
E não poder adivinhar 
Porque mistério se me evoca 
Esta idéia fugitiva, 
Tão débil que mal me toca!... 


— Ah, não sei porquê, mas certamente 
Aquele raio cadente 
Alguma coisa foi na minha sorte 
Que a sua projeção atravessou... 


Tanto segredo no destino de uma vida...

É como a idéia de Norte, 
Preconcebida, 
Que sempre me acompanhou... 


Mário de Sá-Carneiro

Bem Vindo Fevereiro















Agora tudo que se vê
são corações pulsando como bateria.
Vem para misturar o juízo,
para disfarçar a solidão
no bloco da eterna esperança.


Sônia Schmorantz

É na areia que está o meu carnaval...

















É na areia que está o meu carnaval,
é no mar que estão as serpentinas,
brancas ondas a quebrar na praia.
Aqui encontro a magia da poesia,
vestindo fantasia que a luz do sol irradia.

No meu carnaval não tem máscaras!
Tem rostos, tem corpos bronzeados
desfilando naturais alegorias na praia,
que vem do mar, que vem da areia
desfilando como netunos e sereias.

É a palavra que brinca na praia,
no balanço das ondas faz o samba enredo,
o carro abre alas é um navio pirata
assaltando um coração enfeitado
por poesia que na areia virou confete.


Sônia Schmorantz

http://schsonia.blogspot.com.br/

Porque





















Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Soneto de Carnaval










Distante o meu amor, se me afigura 
O amor como um patético tormento 
Pensar nele é morrer de desventura 
Não pensar é matar meu pensamento. 

Seu mais doce desejo se amargura 
Todo o instante perdido é um sofrimento 
Cada beijo lembrado é uma tortura 
Um ciúme do próprio ciumento. 

E vivemos partindo, ela de mim 
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos 
Para a grande partida que há no fim 

De toda a vida e todo o amor humanos: 
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo 
Que se um fica o outro parte a redimi-lo. 

Vinicius de Moraes, in 'Antologia Poética' 

Evolução

















Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

Em certo lugar do país
se reúne a Academia do Poeta Infeliz.

Severos juízes da lira alheia,
sabem falar vazio de boca cheia.

Este não vale. A obra não fica.
Faz soneto, e metrifica.

E esse aqui, o que pretende?
Faz poesia, e o leitor entende!

Aquele jamais atingirá o paraíso.
Seu verso contém a blasfêmia e o riso.

Mais de três linhas é grave heresia,
pois há de ser breve a tal poesia.

E o poema, casto e complexo,
não deve exibir cenas de nexo.

Em coro a turma toda rosna
contra a mistura de poesia e prosa

Cachaça e chalaça, onde se viu?
Poesia é matéria de fino esmeril.

Poesia é coisa pura.
Com prosa ela emperra e não dura.

É como pimenta em doce de castanha.
Agride a vista e queima a entranha.

E em meio a gritos de gênio e de bis
cai no sono e do trono o Poeta Infeliz.


Antonio Carlos Secchin



A Hora da Partida























A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Memória é lâmina
infindável
gume

submerso
na fenda de um
grito

reflexo
íntimo
na nítida
gota

i
n
q
u
i
e
t
a

no
sólido
riso de
vidro

Carlos Orfeu

SER E NÃO SER


Estranho contraste
o do que somos na vida.
A natureza em resgate
descreve atraente cenário

do que não somos na vida.
E na vontade de ser
entre desígnios de um viver
eu só seria o que não sou.

. . . página colorida
a mais vivaz e bonita
de um Belo Livro,
. . . por onde a tristeza nunca passou. . .


Alvina Tzovenos



achei as palavras
as manipulei
mas quando cresci
só desiludi
achei que era alguém
até que entendi:
o poema se faz
enquanto se faz.


Ellen Rose

















Debaixo do sol que seca o chão
E sob o luar mais belo que há
Se fazendo da terra, do calo na mão
E do calor da alma, que não pode esfriar
Assim vive um povo mais que bonito
Que de nada carece pra ser rico
De força maior que os cabras dos mitos
É o sertanejo que nunca parou de cantar.

Tô certa que não há, oxente, ó não
Um povo como esse que eu vi por lá
Nem um luar como esse do sertão
Nem terra mais seca que se possa pisar
Mas o matuto tá vendo água caindo
Arando, plantando, colhendo e sorrindo
Não é conto, senhores, tô garantindo
Tô vendo o sertão virar mar.

Vem pra fora, menino!
Vem ver a boa notícia chegar.
Olha todo esse verde, menino,
A chuva tá fazendo tudo brotar
Vem do jeito que está, menino...
Vem ver o sertão virar mar!


Ellen Rose

Meus olhos desertos
Buscam alívio
Na sede do poema.
Sede que embebe
Mares grávidos de sentidos.
O mundo pariu as areias
Do semi-árido passarinho
Voo-me por dentro
E sou sempre sem ninho.


Paula Beatriz Albuquerque

O temporal regou,
Gota por gota,
As distâncias que me abrigam.
Povoou de sentido
Os rios de minhas lacunas.
Brisa densa,
acolheu os aromas de minha ausência. Então pude ser água.
Varreu o barraco do morro
Inundou a rua precária,
mar de indigência cotidiana.
Gritos de variados matizes...
Mas a chuva em mim é silêncio.



Paula Beatriz Albuquerque.
(Foto: Bruno Gonzalez/Agência O Globo )











É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dordo entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.


Antonio Carlos Secchin

SAUDADE


A faca da saudade
cresce por dentro
lâmina de doída largura

_______________afiada
______________enquanto dura
_________________corta



Carlos Orfeu

ALMOÇO DE DOMINGO


Na escama de prata do domingo
um poema escrito
temperado com alho
cheiro-verde
cebolinha
alecrim

Repartem com garfos e facas
A fome
O alívio
A barriga cheia

Bocas apimentadas de sorrisos
sorrisos arrumados no outono

No outono bordado na toalha da mesa
no outono pintado nas flores dos pratos de porcelana
sujos de feijão

Famílias em círculo
entardecem memórias dissolvidas num auto-retrato.


Carlos Orfeu

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...