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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

Aprendizado

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Do mesmo modo que te abriste à alegria 
abre-te agora ao sofrimento 
que é fruto dela 
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão


que a vida só consome
o que a alimenta.




Ferreira Gullar, em "Barulhos", 1987.

faces

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Somos duas faces
no breu das fendas
buscando-se às cegas
Lâmina
Pele
Metades
rasgadas na intensidade do amor
que nos costura


Carlos Orfeu

Chuva de vento

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De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.



Mauro Mota

Pneumotórax

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Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
— Respire. — O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira

Tá Escrito

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Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta, não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer
É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!

Grupo Revelação Composição: Xande de Pilares/Gilson Bernini /Carlinhos Madureira

Quando eu morrer quero ficar

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Quando eu morrer quero ficar,  Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.


Mário de Andrade

Deus

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Confesso, que por instantes Duvidei de tua existência. Viajei por teorias distantes Fugindo de ti com insistência. O dono de si, perdido, foi constante Tentando contra ti toda minha resistência.

Preso entre os escombros De um tempo de sombras Caindo em vários tombos Coração explosivo, uma bomba.

Procurando vozes estranhas E um universo de respostas. Absorvendo química nas entranhas E o descaso de quem pouca importa.

Ao fugir desta total presença Onde dos teus olhos me esconder? Entender... que não há ausência Para teu eterno poder.

“Teu julgo é suave E teu fardo é leve” Eu preso nos encraves Das preocupações tão breves.

Quero está com espírito imerso Pelo mar de calmaria Ao te adorar em versos Orando como poesia.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Soneto Puro

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Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.


Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.


Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.


Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.



Lêdo Ivo

ME ROUBARAM UMA HORA

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Sem autorização
Alteraram meus relógios
Meus costumes biológicos
Me roubaram uma hora


Nos deram descontos na conta
mas entregaram aos consórcios
todos os direitos
de uma forma não tão 'light'
de uma forma meio ampla
por mais vinte ou trinta anos?


Na mídia se anuncia
economia de energia
e novamente um contrassenso:
A Usina de Belo Monte


Seria sustentável
um tentáculo econômico?
Disfarçado de eco
em horários de pico


E os clichês
das matérias jornalísticas:
Em meio à praia
até mais tarde
o sol bronzeia
o corpo de quem aprecia a brisa


Mas do outro lado
a grande maioria
briga contra o sono
pois precisa saltar da cama
muito antes do dia
dar o ar da graça


Não sei se é apenas impressão
ou já quase um consenso
Mas no horário de verão
Deverão é dormir menos



Alan Salgueiro

Voando com o pássaro

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Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.


Ana Cristina Cesar

Soneto de Quarta-feira de Cinzas

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Por seres quem me foste, grave e pura 
Em tão doce surpresa conquistada 
Por seres uma branca criatura 
De uma brancura de manhã raiada 


Por seres de uma rara formosura 
Malgrado a vida dura e atormentada 
Por seres mais que a simples aventura 
E menos que a constante namorada 


Porque te vi nascer de mim sozinha 
Como a noturna flor desabrochada 
A uma fala de amor, talvez perjura 


Por não te possuir, tendo-te minha 
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
Hei de lembrar-te sempre com ternura.



Vinicius de Moraes
Rio, 1941

Ápice

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O raio do sol da tarde
Que uma janela perdida  Refletiu  Num instante indiferente —  Arde,  Numa lembrança esvaída,  À minha memória de hoje  Subitamente... 

Seu efêmero arrepio  Ziguezagueia, ondula, foge,  Pela minha retentiva... —  E não poder adivinhar  Porque mistério se me evoca  Esta idéia fugitiva,  Tão débil que mal me toca!... 

— Ah, não sei porquê, mas certamente  Aquele raio cadente  Alguma coisa foi na minha sorte  Que a sua projeção atravessou... 

Tanto segredo no destino de uma vida...
É como a idéia de Norte,  Preconcebida,  Que sempre me acompanhou... 

Mário de Sá-Carneiro

Bem Vindo Fevereiro

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Agora tudo que se vê
são corações pulsando como bateria.
Vem para misturar o juízo,
para disfarçar a solidão
no bloco da eterna esperança.


Sônia Schmorantz

É na areia que está o meu carnaval...

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É na areia que está o meu carnaval, é no mar que estão as serpentinas, brancas ondas a quebrar na praia. Aqui encontro a magia da poesia, vestindo fantasia que a luz do sol irradia.
No meu carnaval não tem máscaras! Tem rostos, tem corpos bronzeados desfilando naturais alegorias na praia, que vem do mar, que vem da areia desfilando como netunos e sereias.
É a palavra que brinca na praia, no balanço das ondas faz o samba enredo, o carro abre alas é um navio pirata assaltando um coração enfeitado por poesia que na areia virou confete.


Sônia Schmorantz http://schsonia.blogspot.com.br/

Porque

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Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Soneto de Carnaval

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Distante o meu amor, se me afigura 
O amor como um patético tormento 
Pensar nele é morrer de desventura 
Não pensar é matar meu pensamento. 

Seu mais doce desejo se amargura 
Todo o instante perdido é um sofrimento 
Cada beijo lembrado é uma tortura 
Um ciúme do próprio ciumento. 

E vivemos partindo, ela de mim 
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos 
Para a grande partida que há no fim 

De toda a vida e todo o amor humanos: 
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo 
Que se um fica o outro parte a redimi-lo. 

Vinicius de Moraes, in 'Antologia Poética'

Evolução

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Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo 
tronco ou ramo na incógnita floresta... 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo... 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paúl, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 

Antero de Quental, in "Sonetos"
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Em certo lugar do país se reúne a Academia do Poeta Infeliz.
Severos juízes da lira alheia, sabem falar vazio de boca cheia.
Este não vale. A obra não fica. Faz soneto, e metrifica.
E esse aqui, o que pretende? Faz poesia, e o leitor entende!
Aquele jamais atingirá o paraíso. Seu verso contém a blasfêmia e o riso.
Mais de três linhas é grave heresia, pois há de ser breve a tal poesia.
E o poema, casto e complexo, não dev