Eu e o Trem




















A primeira vez que vi o trem,
Não me lembro bem quantos anos tinha
Talvez 3, talvez 6, talvez mais

Mais se da idade não me lembro
Lembro muito bem da impressão
Minha mãe me segurava pela mão
E quase perdi o fôlego quando vi

Para mim era enorme, imenso
Carregado de segredos, de possibilidades, de medos...
E quando, de repente, a porta abriu
Com tanta gente saindo e entrando
Me senti engolido, abduzido, desaparecido
Naquela massa de gente!

A paisagem ia passando depressa demais
Mal dava para ver o que tinha lá fora
E a sensação era de que nunca mais sairia dali
Estava finalmente longe de tudo
Minha mãe já parecia um borrão
Assim como cada estação que por mim passava

Estaria eu parado e as estações andando?

Quando finalmente a viagem chegou ao fim
Tudo era diferente, nada seria como antes
E o trem parecia nem se importar comigo
Saia de novo a “engolir” e “cuspir” mais gente


Claudia Maria

Adorável psicose

























Ouvindo suas doces palavras ensurdecedoras que me torturam,
Seus belos olhos me matam
Berrando silenciosamente,
Morrendo psicologicamente.
Sendo o que você quiser que seja.
Então, me machuquei de novo, não vale a pena me salvar,
um dia, essas feridas não me matar.
Seu olhar me torturando,
sua linda voz me matando.
Escondido os pecados em meu rosto,
Vivendo uma vida de desgosto.
Apenas um em um milhão,
Não há Deus para salvar meu coração.
Com o destino escrito pela escuridão,
Não há preto obscuro o suficiente pra me definir desde então.
Não se preocupe, você nunca me verá chorar,
Eu sei que estarei sozinha quando desmoronar.
Nesse mar de lágrimas mais conhecido como "amar",
Você assistirá lentamente eu me afogar.
Perdoe-me pelo poema depressivo,
É só um resumo do que eu tenho vivido.


Luana Araújo

Andando















De espírito alegre e inquieto
Entre ser inteligente ou ser esperto
São caminhos, são escolhas.
Para se andar, para serem descobertos.


Dias de sorrisos
Dias de compromissos
Dias que são floridos
Dias frios e omissos


A caminhada é longa
O olhar decisivo
Perder faz parte do jogo
Mas não viver como vencido


Para voar preciso de asas
Quero sentir meu peito livre
O meu coração é minha casa
Minha disciplina meu equilíbrio.



Henrique Rodrigues Soares – Horas do Silêncio.
28/10/2014.


Estádio de Futebol














Lá, onde todos são iguais
Não há pequenos ou maiorais
Sem plebeus ou fariseus
Não tem eus ou meus


Entre os cantos e o silêncio ensurdecedor
Num instante o olhar rápido assustado
O olhar século fotográfico de torcedor
As bandeiras de vários significados


Na esperança que nascem aos domingos
Com os embates de camisas e chuteiras
Entre as odiosas botinadas do inimigo
Como ordens patrícias de uma semana inteira


O toque humano divino, o drible torto de deus
De quem se liberta de uma marcação diabólica
Os súditos contemplam o Olimpo de Zeus
Com suas verdades simbólicas



A tensão superintensiva dos rostos
A incompreensão da rivalidade, dos opostos
O abraço amigo extensivo do desconhecido
Com um sorriso desarmado, aberto e despido


Dos preconceitos e cada realidade
Não há doutores, não há idades
Vivendo a força da uniformidade
Com as cores da cumplicidade


E na frieza cortante da defesa
Em que olhos são como mãos
Num piscar para certeza
Acentuam as batidas dos corações


Na trégua dos nobres no intervalo
Para os ajustes e o descanso
Que no apito a justa tem seu embalo
De uma batalha sem remanso


Perto dos instantes finais
Da reza as lembranças ancestrais
Uma cabeçada ou um chute imortal
Qualquer coisa perto do igual


Um lado vibra outro morre
Com o gol que muda o escore
Mas a cor como a dor e alegria forte
Somos todos iguais no futebol e na morte



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.
Janeiro 2015.


Resistência
















Calou-se a voz da luta
Adormeceu a perseverança
As dores da labuta
São inimigas da esperança


Que venha a brisa, consorte.
Como um beijo de criança
Ambígua frente à morte
Não dando coisa alguma importância


Que venha a sorte inconstante
Como sonhos de infância
E no febril desejo do instante
Ao vazio da insignificância.



Henrique Rodrigues Soares – Horas do Silêncio

27/10/2014.

Vésper
















Do seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.

De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...

Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?

Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.


Raimundo Correia, em "Aleluias" (1891)/Poesias completas. São Paulo: Cia Editora Nacional, vol 1., 1948, p. 97.

ENSAIO SOBRE A CORAGEM























Qualquer coisa que me dê coragem
Uma frase, uma palavra mágica
Só mais um suspiro para que eu fique vivo
nesse mundo tão covarde

Qualquer coisa que me dê coragem
Uma luz de fim de túnel
Uma música que me leve ao infinito
no caminho do indecifrável

Um alento contra os tropeços
E saber que é lenda esse peito de aço
Todo o dolorido, todo o meu cansaço
que não predomine sobre a minha força

Que a inspiração em mim aposte
e que me baste que haja na direção
qualquer coisa que me dê coragem
pra me lançar ao desconhecido
munido apenas da suspeita
de saber que posso

Para além do herói de filme
um resgate, um estímulo, um motivo
um sonho sem filtro
Algo além da fé
do inominável, do milagre
qualquer coisa que me dê coragem


Alan Salgueiro

Ó Capitão! Meu Capitão!
















O Captain! my Captain! our
fearful trip is done,
The ship has weather'd every
rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear,
the people all exulting,
While follow eyes the steady keel,
the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up
and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--
for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd
wreaths--for you the shores a-
crowding,
For you they call, the swaying
mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.



My Captain does not answer, his 
lips are pale and still, 
My father does not feel my arm, 
he has no pulse nor will, 
The ship is anchor'd safe and 
sound, its voyage closed and done, 
From fearful trip the victor ship 
comes in with object won; 
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies, 
Fallen cold and dead.



Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que
buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está
exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.
Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.
O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto”
Walt Whitman (Tradução de Maria de Lurdes Guimarães)

Soneto

















Não me culpeis a mim de amar-vos tanto
Mas a vós mesma, e à vossa formosura:
Que, se vos aborrece, me tortura
Ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadai-vos. Parece-vos que, enquanto
Meu amor se lastima, vos censura:
Mas sendo vós comigo áspera e dura
Que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
Eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
Ido o rigor que em vosso peito mora,

A mudança será para nós dois:
E então podereis ver, minha senhora,
Que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

Vicente de Carvalho
Poemas e Canções, Vicente de Carvalho, prefácio de Euclides da Cunha, 1º edição em 1908, 17º edição.

Verbo Amar























O verbo é viver a mais pura ficção engendrada pelo teu e meu sonho
Viver a verdade sonhada e ungida de nosso lírico delírio
Viver nosso irreal no desejo gravado em retinas e fluidos
Traduzido nas palavras de nossos gestos
No desejo de tuas mãos, que em minhas mãos, narram a nossa fala
Nosso amor transcrito no corpo de nosso verbo
Nosso verbo e nossa rendição
A redenção de todos os pecados do
simples existir
Nosso verbo traçado em silêncio no branco do tempo
O tempo em vigília de nós
O tempo que nos espreita e seu olhar insone sobre a premência do toque...
E do abrasar dos nossos corpos
Sobre nossos pulsos redivivos batendo no mesmo compasso
O beijo que grita o verbo de saber de nós em parto
Em porto
De saber da vida que veio à luz de nosso amar
Os afagos
Os braços em abraços sussurrando a voz de nosso prelúdio e comunhão
A tua e a minha carne nos re-Significando em conjunção
E no curso de nossas veias
A comunhão que nos ensinou o silêncio
Pois que agora
Tudo o que lemos em nós é o que calamos
O silêncio que nos ensinou a cumplicidade na eternidade do agora
Pois que não há o amanhã
O que há é o agora em nós
Não mais que o agora
Assim, sei de mim a tua imagem
Como sabes de ti a minha imagem
Assim, sonhamos a verdade de nosso verbo
Com ele, escrevemos essa história
A história que se faz poema
No interlúdio do tempo finito em nós

Há vida em nós no verbo amar.

Wanda Monteiro

As Cores


















O azul clarinho do meu céu
Derramou e virou mar no papel
As folhinhas das plantinhas
Do verde que molhei meu pincel


Na tardinha que belo!
Misturei no sol vermelho e amarelo
E no meu encantado jardim de flores
Dos lápis de cera usei todas as cores


De lápis preto pintei a noitinha
Parecia triste e sozinha
Então achei o branco na caixinha
Para nascer a lua e as estrelinhas.




Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Revolução

















A estes pústulas recados
Que deixam seus cardos
Legitimam o brado
Do louco exaspero


O sono embriagado
Do caminho de gado
De destino e corpo marcado
Para silencioso desespero


Teus lábios congelados
O frio cortante por todos os lados
Com os sonhos enforcados
Pelo austero exagero


Imperdoáveis e insanos pecados
Fluindo seus significados
No sêmen embarcado
Do exausto desejo


Henrique Rodrigues Soares
Julho 2013


DO QUE NÃO FIZEMOS
















Tudo vira ânsia
pra chegar a Sexta
pra chegar a festa
pra chegar as férias
e de novo se frustra
quando chega a Segunda

Toda a demanda
por algo que tire da rotina
e torne a vida um remanso
E essa tara no futuro...
Toda essa vontade pé na jaca...
Essa síndrome de mega sena

A espera do fim de semana
pra se perceber mais humano
e então se sentir um pouco imune
pois o hoje não se vive de forma plena

Tanto teorema
tanta auto-ajuda
pra no fim de tudo respirar fundo
o arrependimento do que não fizemos


Alan Salgueiro- Rascunhos de Revolução

Nossos Dias




















Ao esperar pela chuva que não veio
As agruras dos dias entram pela noite
Enchendo o que já está tão cheio
E as tristezas, a perda do sono como açoite.


Química descontrolada que controla anseios
Mudanças indesejadas...  Engasgadas
Que ao intimo alimenta receios
De tempos inoportunos.


Lágrimas deslizam sem freios
Tão claro fica o deserto
E tudo tão alheio
Que não acho oásis.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
07/04/2014.














Meus dias são raios
Que lavam o meu resguardo
Me guardo inteira por dentro
Para colar minhas partes, remendo.
Minha brisa
É fogo e ventania
Meu semblante calmaria
É minha guerra interna vietnamita.


Paula Beatriz Albuquerque

gritos em contexturas
a rua fazia parto de gente
com engatilhadas palavras

a polícia atirava descuidos
bombas de gás e pedras cegas
costuravam fumaças e caos

baleada bandeira
ferido verde e amarelo
no vazio do vento

a desordem é um circo de náuseas
para o entretenimento das massas

Carlos Orfeu

Ludmila























Tão bela nasceu...
Num calor tórrido
Em momentos sólidos
Que até a água tinha sede.


Minha flor de verão
Me trouxe a canção
E chuva de esperanças
Para reviver os sonhos ressecados.


Docinho açucarado
Do leite materno
Princesa do nosso mundo encantado
Cercado de olhares e amores
Fraterno, paterno, materno e outros sabores.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.
Dedicado a minha filha caçula Ludmila Moura Soares nascida em 14/02/2014.


Oração e Súplica

















Senhor perdoa o pecado repetido
De amarelo estou próximo ao vermelho
Sei que devo o que já foi prometido
E não esqueço dos teus conselhos


Senhor perdoa-me a falta de prudência
Caio enlaçados nos meus próprios laços
Fruto da minha curta paciência
Aos meus cadarços me embaraços


Senhor perdoa-me a absoluta inconstância
Constante nos meus passos.
Esta carne que em militância
Tem sido condutor do meu fracasso


Tenho pedido perdão
 E não tenho perdoado
Tenho clamado salvação
Mas dedicado ao meu pecado

Pela vitória que não veio
Pela tristeza que permanece
As cobranças dos meus anseios
E o sorriso desfalece


Não pedirei sinal nesta prece
Os meus joelhos chorando
Esperando pela aurora que acontece
Nas horas suas até quando?


A demora gradual desta quermesse
Que a cada dia vai molhando
Esta madeira que apodrece
Uma nova vida vai brotando.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


Espelho




























No espelho
uma janela
dentro da janela
o tempo
preso...
como presa é a imagem
que na majestade de seu silêncio
me olha e desconserta
pétrea
áspera
brutal imagem
que nesse ínfimo instante
já não me reconhece.

Wanda Monteiro

Os Amantes Submarinos














Esta noite eu te encontro nas solidões de coral
Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam às águas do paraíso.


Murilo Mendes

Antologia Poética: Murilo Mendes. Organização, estabelecimento de textos e posfácios: Júlio Castañon Guimarães, e Murilo Marcondes de Moura, São Paulo: Cosac Naify, 2014. As Metamorfoses, p. 88

A Tarde
















O silêncio da casa vazia
Composta de uma alma vazia
E outros etcs...


A lágrima salgada
Tempera a dor
Contempla os ganhos
Que as perdas me trouxeram.


Henrique Rodrigues Soares

2013

Poética

















De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.



Vinicius de Moraes

Discurso sobre a Terra
















Carrego no peito e na memória
O ocre do chão
Do barro molhado e moldado por mi pés
Uma cruzada de mãos em foice
Singrando um latifúndio ausente de piedade
Um chão cão
Uma amálgama sob um véu de chuvas
Chuvas que lavaram angústias e cores de lágrimas
Um quase tudo de crueldade
Uma terra úmida de histórias
Um algo sobre-humano de corpos ausentes de sujeitos
Faces sem nome ou sobrenome
Uma história povoada de impossibilidades.
Impossibilidades de quase gente caminhando a esmo

Senda estrada
Serpente de martírio
Que carrega mil terços de prantos
Mil terços de gemidos
Um chão de dor
A sombra da dor que não deixar o chão

II


Uma terra
Estrada nauta assombrada pelo fogo
Pelo poder da marca em brasa

Uma nau sem quilhas
Sem velas
Sem mar
Uma nau de chão

Passageiros do destino de morrer
E desmorrer a cada dia no ventre da mata
De morrer no arrancar de cada raiz
De desmorrer no plantio de cada semente

A lida de sangrar a terra e ser sangrado por ela
O massacre da estima de plantar e não colher
O partir e repartir a tristeza de não ter morada
De ser presa da ganga impura

Passageiros do destino de ser coió a força
Sob o poder empunhados por pistolas
Sob o olho da pólvora mirando toda lavra
Sob o sol
Sob a chuva

E à sombra única das nuvens

III


Um cordel de viventes isentos de toda maldade
Extirpados de liberdade e do desejo de desejar

A sorte em chagas nas mãos
As mãos vazias de futuro
As mãos que já não tem forças pra apelar

Os apelos cravados em mãos
Em pés
Em olhos de súplica

Mas apelar pra quem?
Se essas mãos
Esses pés
E esses olhos são reféns
Reféns da ilha da ilha da soberba
Cercados
E ameaçados pelo grito de quem prende e escraviza

Um tropel de dor à flor da carne de mil vidas
A sofreguidão de promessas não cumpridas
mil promessas de vida
Soterradas pelos desejos desfeitos
Mil desejos desfeitos nessa estrada turba
Cava e cova de mil virtudes
Mil virtudes caminhando sem caminhar

IV


Um caminho e um descaminho
Testemunha de um
Círio infindo
No sempre de partilha pelo pão e pelo sangue
O pão e o sangue de um deus que nunca nasceu

Um chão deflorado de paz
Deflorado de fé
Uma fé sem deus
Uma quase fé

A fé de rebanho de toda gente
Vindos do quase nada
Cobertos de toda espera
Vazios de sonho

De onde vêm?
Para onde vão?

Sempre passando

Sempre passando

V


Uma passagem

Uma passagem marcada de memórias
No rastro das botas
As folhas mortas pisadas sob o mesmo suor
Molhadas de infortúnio

Um chão de infortúnio
De muitas memórias
Poucas palavras
E Silêncio

Ainda que esse chão vingasse outro chão
Um outro chão
Chorado por tanta prece
Sonhado por tanta promessa

Um chão de promessa

Uma terra de promessa

Uma promessa..."


Wanda Monteiro

Escuto a América a Cantar



























I hear America singing, the varied carols I hear,
Those of mechanics, each one singing his as it should be blithe and strong,
The carpenter singing his as he measures his plank and beam,
The mason singing as he makes ready for work, or leaves off work,
The boatman singing what belongs to him in his boat, the deck hand singing on the steamboat deck,
The shoemaker singing as he sits on his bench, the hatter singing as he stands,
The woodcutter's song, the ploughboy's on his way in the morning, or at noon intermission or at sundown,
The delicious singing of the mother or the young wife at work or of the girl sewing and washing,
Each singing what belongs to him or her and no one else,
The day what belongs to the day - - at night the party of young fellows, robust, friendly,
Singing with open mouths their strong melodious songs.




Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto;
O cantar dos mecânicos – cada um com sua canção, como deve ser, forte e contente;
O carpinteiro cantando a sua, enquanto mede a tábua ou viga,
O pedreiro cantando a sua, enquanto se prepara para o trabalho ou termina o trabalho;
O barqueiro cantando o que pertence a ele em seu barco – o assistente cantando no deque do navio a vapor;
O sapateiro cantando sentado em seu banco – o chapeleiro cantando de pé;
O cantar do lenhador – o jovem lavrador, em seu rumo pela manhã, ou no intervalo do almoço, ou ao por-do-sol;
O delicioso cantar da mãe – ou da jovem esposa ao trabalho – ou da menina costurando ou lavando – cada uma cantando o que lhe pertence, e a ninguém mais;
O dia, ao que pertence ao dia – De noite, o grupo de jovens, robustos, amigáveis,
Cantando, de bocas abertas, suas fortes melodiosas canções.


Walt Whitman

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...