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Mostrando postagens de 2014

Passagem do Ano

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O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
                                      [ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
                [ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
                                      [ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.


O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...


Recebe com simplicidade este presente do
                                         [ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
                                         [ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
                           …

O Tempo

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Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...
Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.

Carlos Drummond de Andrade

A Dança

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Um gesto de amor,
dois poemas e a saudade
um só coração
teu corpo controlando
as batidas do meu coração!
Toco a sua mão
sinto o teu abraço
e despertamos
do passado
na dança sem canção
eu, você e minha solidão!

Reggina Moon Recanto das Letras - Código do texto: T5063928
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Poeta guardou as asas
Entendeu aquele tempo
Que o véu do silêncio nos cala.
Não forçou sua voz
Em dicotomias
Tampouco impôs aos outros
Os vendavais de sua vaidade.
É o tempo do morro:
existir pelo não-dito dos versos, deitando vida ao papel, sangrado o pulso de sua mal-traçada
e engenhosa sintaxe
no manto da escrita,
Onde os olhos abertos,
mas cegos
não enxergam vida
até que a fúria de sua voz
Esteja enfim renascida.



Paula Beatriz Albuquerque (Sobre uma indisposição repentina de falar poesias em público) Imagem:Poeta Mauro Mota na Praça do sebo bairro de Santo Antônio CREDITO Carlos Augusto.

A Queimada

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Meu nobre perdigueiro! vem comigo.
Vamos a sós, meu corajoso amigo,
Pelos ermos vagar!
Vamos lá dos gerais, que o vento açoita,
Dos verdes capinais n'agreste moita
A perdiz levantar!...


Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...
Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos
O céu se iluminou.
Eis súbito da barra do ocidente,
Doudo, rubro, veloz, incandescente,
O incêndio que acordou!


A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
Espantado a gritar.
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,
Galopando no ar.


E a chama lavra qual jibóia informe,
Que, no espaço vibrando a cauda enorme,
Ferra os dentes no chão...
Nas rubras roscas estortega as matas...,
Que espadanam o sangue das cascatas
Do roto coração!...


O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,
A juba, a crina atira desgrenhado
Aos pampeiros dos céus!...
Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...
Queimado..., retorcendo na hecatomba
Os braços para Deus.


A queimada! A queimada é uma f…

Assentada

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Chega a esta casa
sem prazo ou contrato.
Faze de pousada
as salas e quartos.
Os nossos arreios
ninguém os desata
com ódio e receios.



O tempo não sobe
nas suas paredes;
secou como um frio
nos beirais da sede;
calou-se nos mapas,
na plácida aurora,
nos pensos retratos.



Entra nesta casa
que é tua e de todos,
há muito deixada
aberta aos assombros.



Entra nesta casa
tão vasta que é o mundo,
pequena aos enganos,
perdida, encontrada.
Os dias, os anos
são palmos de nada.



Carlos Nejar - Antologia Poética

QUEM PODERÁ ME DEFENDER?

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Meu herói preferido
quer salvar os oprimidos
mas mal sabe amarrar
os próprios cadarços
Meu herói preferido
sente medo e é nanico
Luta contra os inimigos
com uma marreta de plástico
Meu herói preferido é atrapalhado
mas se mostra tão humano em sua conduta
Movimentos friamente calculados
ninguém pode imaginar a sua astúcia
É ágil como a tartaruga
Forte com um rato
Uniforme rubro
Todo colorado
Alguns se aproveitam da sua nobreza
mas aprendi com ele que a força bruta
jamais vai superar a nossa inteligência
De antenas ligadas, polegar destemido
suspeitei desde o princípio
que os bons vão estar vivos
mesmo se o corpo perecer
E quando evocarem aquele grito
vou te ver na TV que eu sempre ligo
e todos vão estar bem protegidos
eu sei quem poderá me defender
Alan Salgueiro Rascunhos da Revolução

“Isso, isso, isso...!”

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Não me esquecerei do grande menino Poderia ser brasileiro, mas foi mexicano. Com a pobreza dos que nascem sem ninhos A fome, orfandade, o barril e o humano.

Desprovido do que tantos são Brincando com a doçura da infância Que não guarda em seu coração Ruindade de adulto e arrogâncias

Chapolin, Chespirito ou Chavito. “Tá bom, mas não se irrite”. Como bola de gude ou pirulito Não há quem te imite.

“Foi sem querer, querendo!” Roberto Bolaños, o Eterno Chaves. Sendo simples diante do que é grave. Com a poesia de dores amolecendo

O Brasil de tantos seus Madrugas Sem casas sem empregos De tantas Florindas, Clotildes e seus Barrigas. De professores Girafales, e Quicos e Chiquinhas. Porque nos identificamos tanto?! Porque apesar dos mesmos episódios?! Sempre nos encontramos.

“E agora? Quem poderá nos defender!” Sem heróis ou meninos. “Ninguém tem paciência comigo!” Mas guardaremos contigo “A menos que o coração, que o coração sustente
A juventude, que nunca morrerá!”


Henrique Rodrigues Soares.

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Há nos domingos um certo tom de blues
uma sensação crônica de Nada
uma preguiçosa e enovelada tristeza
de pensar profundidades tão fatais
que quando decidimos sair de nós
voltamos com os olhos ainda empoçados
de outros incuráveis domingos
.

Carlos Orfeu

Somos Pretos

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Somos todos pretos Sem sangue nobre Somos todos neutros Somos todos pobres.

Somos todos pretos Sem salame ou requeijão Temos apenas café preto Algumas vezes pão.

Somos todos pretos Tutu de farinha e feijão Somos prato feito Escassez e sequidão.

Somos todos pretos De planos pretos De panos pretos E de tão negros estamos pretos.

Somos todos pretos Com metas e ideais desfeitos Uniformizados pés pretos Sem sobrenome ou respeito.

Somos todos pretos Que cor cobre meu peito? Não é a melanina que nos faz preto Mas tudo isso, e o despeito.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Novembro de 2014.

Ironia

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Meus retalhos estão todos intactos,
e como antes da tempestade, inalterados.
Possuo a serenidade das piores tormentas,
que destroem vilas inteiras, ironia...
Penso em ti e sinto-me terna e branda,
livre de desejos e tão fria,
como um poderoso vulcão,
em plena erupção.
Reggina Moon

O apanhador de desperdícios

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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros.
- 19 de dezembro de 1916 / 13 de novembro de 2014 -

BICHO INDOMÁVEL

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eu
bicho indomável
entre venenos e sangue lanço-me nu e verdadeiro
na pele do papel sujo-me de tinta
miro a palavra sem endereço


Carlos Orfeu

Poema de um enigma só

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a solidão é uma faca cravada com uma rosa delírio quase impossível de se ver estrada rumo ao vazio que se preenche de ilusão que de repente como que por magia a solidão no vazio é cheia de mentiras que se querem verdades que se quer vaidade, que se quer amor ninguém sabe da mentira que o outro cria da mentira nossa de cada dia
do filme que na cabeça se fia

Luiza Maciel Nogueira

Sem que...

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Nenhum dia se vai
Sem que eu lembre teu nome
Sem que eu te pertença infinitas vezes
Sem que eu me afunde em teu amor.
Cada dia é cheio dessa espera
De que eu abra meus olhos
E te encontre perto de algum céu
Onde eu possa colorir teus lábios
Com beijos feitos de canção
Onde eu possa me prender ao teu corpo
Com laços vermelhos invisíveis de paixão
Sim, meu amor,
Nenhum dia se vai
Sem esse céu que invento,
Sem que eu perceba
Que a única forma de te tocar
É através das poesias
Que ao entardecer te escrevo...

Cáh Morandi  Imagem da Internet.

O Poema Perfeito

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Se é artista
pintor, poeta,
violonista
solta o pulso
(aquele dos dedos)
e ouve o pulso
(aquele do peito)
e não se preocupe...
afinal, o que é
um trabalho perfeito?


Ellen Rose Pintura de Claude Monet
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Arrumei
as
malas
da
memória
e
a
mandei
embora
para
um
canto.
- Todo
dia
foi
um
ontem
povoado
de
futuro.
Memória
é
tudo.
- Disse
voltando
o
pescoço
por
um
período.
Cada
momento
é
uma
vida
inteira
uma
jornada
é
uma
vida
mesma.
O
universo
rodopia
gira
pelo
salão
da
sincronia.
O
novo
tempo
precisa
chegar,
mas
novas
velhas
lembranças
não
vão
ocupar
o
seu
lugar. Não
se

de
todo,
Memória.
Fique
por
perto
quero
costurar
em
ti
teus
fragmentos
do
porvir.
Paula Beatriz Albuquerque Imagem da Internet.

BRILHO FOSCO

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Pôr nos olhos uma venda não veda minha existência A mordaça não vai te fazer desaprender as palavras
Nem os tampões pros ouvidos evitarão o ruído em sua cabeça da minha fala
Tudo que tu lutas na tua mente pra virar esquecimento são as lembranças mais fortes daquelas que deixam marcas

Não é como extirpar o tumor Remédio que cura na hora da dor Eliminar gorduras localizadas ou sinal de nascença tatuagem ou doença que se trata a raio laser e pomada que o corpo elimina que uma droga arrebata

Não há tempo que destrua o teu futuro Nem cadernos que remexam teu passado

Não há como abdicar do teu legado somos feito prédios construídos de histórias anos e andares e alicerces de estruturas anteriores

Eu nem vou pedir clamor eterno Pois não tenho pretensão perpétua Não quero virar uma estátua Nem figurar em nome de rua Nem frase de efeito escrita à lápide

Não se justifica o delito Não é entendível o delete Como se fosse fácil Disjuntor de lâmpada Ideia de gênio

Como se o escuro curasse e apagas…