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Mostrando postagens de Janeiro, 2017

Canção para uma valsa lenta

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Minha vida não foi um romance... Nunca tive até hoje um segredo. Se me amas, não digas, que morro de surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance, Minha vida passou por passar, se não amas, não finjas, que vivo Esperando um amor para amar...
minha vida não foi um romance... pobre vida...passou sem enredo... Glória a ti que me enches a vida de surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance... Ai de mim...já se ia acabar! Pobre vida que toda depende De um sorriso...de um gesto... um olhar.


Mário Quintana

Ainda bem

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Ainda bem
Que agora encontrei você
Eu realmente não sei
O que eu fiz pra merecer
Você Porque ninguém
Dava nada por mim
Quem dava, eu não 'tava a fim
Até desacreditei
De mim O meu coração
Já estava acostumado
Com a solidão Quem diria que ao meu lado
Você iria ficar
Você veio pra ficar
Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora você chegou Você que me faz feliz
Você que me faz cantar
Assim
Arnaldo Antunes/ Marisa Monte

Tenho tanto sentimento

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Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

O UNÍSSONO INCESSANTE

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Alguns sonhos sobrepõem-se ás nuvens
e não se intimidam com o apito
com os limites, com os finitos
Alguns sonhos não se subjulgam
e se articulam com a força da luta
mesmo diante de acidentes de percurso

Vislumbra o continente com afinco
em dois tempos de quarenta e cinco
sem nem suspeitar que tudo finda
e em apenas um segundo se eterniza

E se de outros planos decolar um sonho
Daqui da arquibancada a gente não se cala
Mesmo que pareça que não há mais graça
Não vai ser em qualquer pouso que a gente pausa

Daqui em diante os anjos vestem verde
E cobrem de esperança o campo celeste
e o herói que cede o peito em seu extremo oeste
ressurge na lembrança de uma paz extrema
e ecoa em cada voz presente em tua arena
o uníssono incessante da Chapecoense


Alan Salgueiro

Vai Passar

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Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)

Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear

Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar


Chico Buarque

Minha Medida

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Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil
o dia
medido mais pelo pulso
do que
pelo meu relógio de pulso

Meu espaço — desmedido —
é o nosso pessoal aí, é nossa
gente,
de braços abertos tocando a fímbria
de uma e outra fome,
o povo, cara,
que numa das mãos sustenta a festa
e na outra
uma bomba de tempo.


Ferreira Gullar

Ás Vezes

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Às vezes, quando algum pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?


Hermann Hesse - In Andares

Eu vi

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Quando eu cheguei na boca
Da baía banguela
E vi o cheiro
Dos peixes mortos
Eu anunciei o fim da vida
Enquanto um enorme
Gafanhoto
Parado no ar procurava
O autor da bala perdida
Encontrada no corpo do
Pequenino
Vendedor de biscoito de
Polvilho
Tudo isso eu vi
E cheirei
E uma placa dizia
Linha Vermelha em letras
Pretas
Uma multidão se ajuntava
Na praia
Onde fungos descontrolados
Comiam células
Sob a bola de fogo
Chorei
Porque poetas não ficam em riste
Feito os profetas
E tombam ante o fim do mundo
E choram. . Adriane Garcia

Sintonia

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Desejo de estar presente,
na vibração deste agora,
de inquietação e procura,
coragem e afirmação.
Bem dentro do coração,
que supera o sofrimento,

Estar no exato momento,
em que o pensar se libera,
de suas grades e muros.
Contagiar-se de espera.
Lavrar os dias futuros.



Helena Kolody

Longos Passos

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Sente-se na vidraça da alma
uma tênue luz e sombra
de velhos fantasmas
habitantes de nossas horas.

Sente-se a solitária solidão
a verter lágrimas
quando a hora tornou-se escrava
dos pensamentos.

Sente-se a voz fugidia e quente
das noites abandonadas
a falarem com ventos quebrados
quando o relógio apressou-se demais.

Sente-se a vida galopando
e a imitar andorinhas
que escondem seus olhos
porque fingem que não sentem
a vida passando . . .


Alvina Nunes Tzovenos - Palavras ao Tempo

NOX

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Noite, vão para ti meus pensamentos, quando olho e vejo, à luz cruel do dia, tanto estéril lutar, tanta agonia, e inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos, que se exalam da trágica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria, em ti descansa e esquece alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses por uma vez, e eterna, inalterável, caindo sobre o Mundo, te esquecesses,
e ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, dormisse no teu seio inviolável, noite sem termo, noite do Não-ser!


Antero de Quental

O Que Será (À Flor da Terra)

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O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza

Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será, que será?
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos

Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos …

Linguagem

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O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e e acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
- uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já e bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes parecia,
é claro e simples na poesia:

Abandono

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A vida ficou de repente apática e desinteressada, como se pretendesse descer na próxima parada. Abafou os sons que costumava ouvir, com medo de sentir saudade. Baixou os toldos sobre a claridade, para que o brilho do dia não arranhasse a solidão. Preferia permanecer quieta e sombria. Guardou o açúcar como se quisesse impedir o doce de mesclar o fel que, porventura, houvesse. Sensações e sentimentos devidamente amordaçados, rabiscou no papel seu breve recado: "Saí para almoço. Pretendo voltar, não sei se posso. Seja, por favor, condescendente. Quando o amor não está, é costume da vida suspender o expediente."


Flora Figueiredo

FATAL

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O amor te faz nascer
E morrer
Dez vezes por dia se ele quiser O amor é senhor
E você sabe
Só é possível servir a um O amor te acorda de noite
Te deixa sem sono
Te põe pra dormir, te deixa Em coma, letárgico
O amor te dá sonhos
E tira O amor se ri dos sonetos
De amor e gargalha e se finge
De terno, o amor Se apresenta sério
O amor faz mistério
E entrega o jogo, se quer O amor vai te deixar louco
Vai te fazer rouco
De gritar o amor E aí, vai fingir estar surdo
Vai te tornar mudo
E perguntar: O quê? O amor vai matar o seu deus
Te fazendo tão pleno
De só haver o amor E vai sair muitas vezes
Deixando vazio o quarto
E o altar O amor vai querer te matar
E te fazer querer morrer
E nascer
E morrer
De amor. . Adriane Garcia

Pra Você Guardei o Amor

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Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
Explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo os meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer

Realização da Vida

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Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida

- nisto que se buscara
pelas estrelas
com febre e lágrimas,
e que era a vida.


Cecília Meireles

Sacode as nuvens

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Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Grande Pai

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Nunca foram super-heróis, por mais que tentam todos os dias a superação da autonegação de si por causa de filhos. Nos dias atuais há vários tipos de pais: pais ausentes por necessidade, e os que são por escolha; pais suficientes que cobram como se fossem, e os que são porque não enxergam seus filhos; pais fracassados pelos seus próprios pecados, e os que não conseguem atender a todos desejos de seus filhos; existem muitos outros tipos de pais.
O meu Pai foi daqueles que trabalhavam sem parar, e que só parou quando a saúde colocou nele uma pontuação. Meu Pai é daqueles que não reclama, não chora pelo tempo doado a quem nunca vai lhe poder pagar ou devolver seu tempo, seu máximo dedicado.
Meu Pai sempre nos amou por mais educados ou não que fossemos, por mais lúcidos ou tresloucados que nos comportamos. Nos amou assim, porque Pai não reproduz e abandona. Pai é aquele que abraça causas que não são suas. Pai não adota, é simplesmente como uma árvore acolhe a todos como se fossem seus fruto…

Soneto

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Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor


Ana Cristina Cesar

ALGO QUE NUM VERSO CAIBA

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Hoje o congestionamento embargou os olhos
e fez da lágrima parte do trânsito
Inerte testemunha à sinfonia de buzinas
Alerta ao holofote incessante intermitente

Receia o caos diário da hora do rush
em meio ao céu cinzento relâmpago e a PEC
O fôlego que falha à moléstia do corte
Com a mão que dilacera, a seara do golpe
Como se fosse pleno pesadelo
pousa o dia inteiro
sobre o travesseiro
esse pulsar tenso de dor de cabeça

E a clausura que nos nega até as ruas
por trás dos vidros escuros
faz as faces se esconderem
dos pingos de chuva

Mas vai ter uma prece de agradecimento
no meu compêndio sobre resistência
Mas vai ter uma tese que explique o sofrimento
E a luta do momento existe em resistência

Algo que promova o alívio
mas que não seja comprimido
combatido ou confiscado
algo que num verso caiba

Alan Salgueiro

De Janeiro a Janeiro

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Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar
Me deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr pra não me entregar
Às loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A consequência do destino é o amor
Pra sempre vou te amar

Mas talvez, você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor, não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar


Roberta Campos - Interprete: Nando Reis

Soneto VIII

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Doce música, por que a ouves tão triste?
Doçuras não se atacam; a alegria se rejubila;
Por que amas aquilo que não recebes efusivo,
Ou com prazer aceitas teu incômodo?

Se a harmonia de afinados sons
Bem ajustados ofendem o teu ouvido,
Docemente te repreendem, tu que confundes
As partes do que deverias suportar.

Vê como uma corda à outra unida,
São tangidas, de cada vez, mutuamente;
Assemelhando-se a pai e filho, e à feliz mãe,
Que, em uníssono, entoam um doce som;

Cujo canto inaudível, sendo muitos, soa como um,
Assim cantando para ti: “De nada valerá a tua solidão”.



Sonnets VIII

Music to hear, why hear'st thou music sadly?
Sweets with sweets war not, joy delights in joy:
Why lov'st thou that which thou receiv'st not gladly,
Or else receiv'st with pleasure thine annoy?

If the true concord of well-tuned sounds,
By unions married do offend thine ear,
They do but sweetly chide thee, who confounds
In singleness the parts that thou shouldst bear:

Mark how one string sweet husband to another,
Strik…

Fisionomia

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não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói


Ana Cristina Cesar

Neste Leito de Ausência

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Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.

Ferreira Gullar