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Mostrando postagens de Maio, 2016

O Cemitério Marinho

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Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma con…

Dragão

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Mora no céu de minha boca um Grito
Em brasa e luz
Um sol de Mim 
Que se guarda no verbo silenciado pela noite de uma dor 

Uma noite
Uma dor
Um verbo

Mora no céu de minha boca esse sol com olhos de dragão

No claustro de meu sol
Mora um dragão contido pela dor
Na noite de um verbo silenciado 

Um Claustro 
Um céu
Um sol

No céu de minha boca
Mora um dragão preso nos olhos de um sol que grita
Grita!
Em brasa
Em luz
E silêncio.

Wanda Monteiro

Pau a pique

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Em dias de silêncio Vozes falam, vozes gritam Dentro da minha casa Sou mínimo dentro do imenso De palavras, choros e risos.

Caminho sem pressa de chegar Vou mastigando cada dia Doce, amargo, salgado e azedo Dúvidas, certezas, segredos e medos Circulam por todo o meu corpo.

Sou taipa de barro amarrado Por tantas coisas Entre cipós e bambus Trançados a mãos.

Henrique Rodrigues Soares - Canibais Urbanos

Razão de ser

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Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski

Educação é tudo

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Quando eu nasci, não foi em berço de ouro
Meu pai, minha mãe, não tinham tesouro  A casa era simples, sem luxo, em exagero O chão não tinha piso, no banheiro, nem chuveiro! 
Meus irmãos usavam os mesmos calçados Pés no chão, muita pipa, muita emoção Mas dinheiro, que é bom, tinha não! 
Tinha angu no prato, balanço Descanso no colo da mãe chinelada na hora certa conselho do pai, também tinha mas carne, queijo, não havia No prato, as vezes, só farinha! 
Mas tinha livro, tinha conversa  Tinha lápis, tinha caderno, não tinha pressa E a esperança de dias melhores a gente encontrava na escola, na professora na lousa, que hoje chamam de quadro
Cresci entendendo que o futuro estava ali Não tinha outra saída, estudar era preciso estudar era o que havia E no livro estava o mundo No livro estava a liberdade, a certeza de melhores dias
E quando me vi adulta Me vi na estrada, restou o que minha mãe dizia: estude menina,  seja feliz um dia
A voz de minha mãe, não tenho mais os conselhos do meu pai, também não Mas o que aprendi…

Vincent

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Vincent
mastiga tanto o
poente da me-
lancolia que da
flama -laranja- brotam
atemporais girassóis

Carlos Orfeu

Os Sapos

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Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”


Manuel Bandeira

Num Leque

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Escrevo o teu nome neste leque, Isabel,
e vejo-te correndo pela faixa de pano
que se abre e se fecha e se abre, correndo
sobre a areia do verso, atrás de borboletas
e balões coloridos. Pelo parque, de velas


a fingirem de saia, sais, fugindo do leve
respirar do momento, para o que não se apressa
e se opõe ao que é onda, sendo concha, e ao vento,
e pára as seriemas na paisagem do leque
com que abano a paisagem em que corres, alegre. 

Só espero o que tenho: o teu olhar menino,
duplicando ao contrário a cor da lua cheia,
na mocinha a cobrir com os balões do abanico,
que te ponho nas mãos, a surpresa do riso
e a cantar de amarelo e de azul o vermelho. 

Como flores no chão, no chão da ventarola,
entre as moitas miúdas onde escondo coelhos,
espalho aquelas letras em que vai meu secreto
legado de sonho e carne, esplendor e mistério
— um a com mel, um m, um o sonhado e um r —

nesta caligrafia em que escrevo Isabel.


Alberto da Costa e Silva

No fulgor do aconchego

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De tudo canto ao profundo,
que nele e sempre a voz se crispa.
Nas pernas dela eu moribundo,
e sem arestas não há mais prisma.


De tudo falo e não deleito,
de tuas pernas cândido aos versos.
Se estou preso é por teus seios,
de beijos pálidos nos quais eternos.


No teu gracejo eu inocente,
e pura pálpebra de cintilante.
Nas entrelinhas amor demente,
e tão ardente quanto exultante.


Daniel Muzitano
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Minha cabeça é um cais em delírio aceso no olho do sol e no olho da lua ancoradouro de vozes, cantos e voos é  apenas  o centro de um corpo líquido cujo horizonte não é fio mas contorno e tudo é margem á espera de chegadas e partidas
o mundo move-se dentro dela ilha de espantos onde tudo acorda e dorme num relógio sem horas pássaros caem em queda livre para nadar peixes roubam suas asas para voar e uma pedra desabrocha na flor da água...
é quando o poema rompe a fina película de uma atônita realidade para voar sobre edifícios e pessoas
jogando sobre eles suas plumas de sonhos.

Wanda Monteiro

Tocata e fuga

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É tudo aquilo que só existe no ar,
O que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar...
É um não sair do chão por mais que se ande...


Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,
Triste naquele universal sentido
Que a música interpreta e se compreende
Sem que em palavras seja traduzido.


Dante Milano, in “Poesia e prosa"

Essa que eu hei de amar...

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Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosas, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer a luz e calor a esta alma escura e fria.


E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... — Tudo isso eu me dizia,


quando alguém me chamou. Olhei: um velho louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...


E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ia tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”



Guilherme de Almeida
(De Messidor, 1935)

Meridiano de Mim

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Desfez-Se de Mim
Esse Eu
Que passou a esmo da história
Desfigurado
Despido

Nesse ponto cardeal
Finco os pés que já nem são meus
Findo-Me aqui
Fronteiriça
Apátrida


No meridiano de Mim

Wanda Monteiro

ACIMA DAS SERRAS

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Acima das serras
minhas guerras internas se dissipam
As nuvens convertem a incerteza insípida
em tranquilidade e calmaria
Perto do céu nós estamos mais vivos
Do alto das colinas se respira o alívio
A avenida se ilumina com os astros
Nossos passos viram fogos de artifício
Desliza de pantufa sem perder a pose
Desmancha ao céu da boca um biscoito doce
As vitrines se enfeitam de estrelas
Entre o altar e os vitrais a gente faz a prece
Tanta gente que aparece em meio a nossa foto
Tem pingente na feirinha de artesanato
Nossos laços se renovam de frente ao palácio
Querer se acocar por lá é coisa lúcida
Pipoca na praça amanteiga o passeio
Aperta mais o passo pra partida às oito
O desejo que fica é de uma breve volta
Desce da brisa fresca que amanhã tem praia
E mesmo que o sono te esconda as montanhas
teu amor tem grandeza tamanha
que me faria proclamar algum decreto
se eu fosse rei e isso não fosse algo secreto
De confrontar teus olhos sempre com o inédito
E fazer do teu coração o meu império

anti-real

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escrevo mordendo-me
como o cão morde
o próprio rabo

no sexo vascular 
dos verbos na
pele-página

a linguagem
é meu abismo
onde construo

meu retrato anti-
real e aconteço


Carlos Orfeu

Insanidade

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Sem grades e muros Estão minhas prisões Entre bulas e escuros Sobrevivem minhas construções

Substancial e puro As minhas depreciações A realidade em apuros Com suas obrigações

Este caminho áspero e duro Sem forças e provisões Disseca o obscuro Nas entrelinhas das objeções

Os olhos impuros Desencontram as emoções Em mentir como seguro Crio minhas soluções.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Invisível

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Quando você desaparece
Na minha frente
A dor que eu sinto
É como
Se você fosse sumir
Para sempre

Como é que você
Consegue sumir assim
Se eu estou te vendo?

Quando você desaparece
Mandrake
— Pare com esses truques
Eu te digo
É meu pequeno inferno.


Adriane Garcia

Cartas de Meu Avô

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A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.


Manuel Bandeira

reconstituir

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mutilado
no útero do céu rumo
cortando o ar reconstituir
o voo

Carlos Orfeu

Andróides

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Nunca disse que sou perfeito Já vim com original defeito Vou funcionar assim mesmo, sem conserto, Por mais que se dêem uns apertos.

Não me conjugue que não aceito Num pretérito mais que perfeito Sonoridade monumental de um concerto E a profusão desigual dos desacertos.

E procurando no rio o leito E afofando para deitar o leito Com o que nos pode deixar coberto Para com o peito está aberto


Para absorver novos conceitos E desnudar-me dos preconceitos Entendendo como sou descoberto Pelo distante e pelo que está por perto.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos