O Cemitério Marinho
















Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!

Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!

Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.

Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.

Sabes tu, prisioneiro das folhagens,
Golfo roedor de tão finos gradis,
Claros segredos para os olhos cegos
Que corpo a um fim ocioso me compele,
Que fronte o atrai a tal rincão de ossadas?
Um lampejo aqui pensa em meus ausentes.

Sacro, encerrando um fogo sem matéria,
Pouca de terra oferecida à luz,
Prezo este sítio, que dominam tochas,
Composto de ouro, pedras e ciprestes,
Onde mármores tremem sobre sombras.
O mar lá dorme, fiel, sobre meus túmulos.

Cadela esplêndida, afugenta o idólatra!
Quando, sorriso de pastor, sozinho
Apascento carneiros misteriosos
- Branco rebanho de tranqüilos túmulos -
Afasta dele as pombas temerosas
Os sonhos vãos, os anjos indiscretos.

Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.

Os mortos estão bem, sob esta terra
Que os aquece e resseca seu mistério.
O meio-dia no alto, o meio-dia
Quedo se pensa em si e a si convém.
Fronte completa e límpido diadema,
Eu sou em ti recôndita mudança!

Eu, somente eu, contenho os teus temores!
Meus pesares, limitações e dúvidas
São a falha de teu grande diamante...
Em sua noite grávida de mármores,
Entanto, um povo errante entre as raízes
Tomou já teu partido, lentamente.

Dissolveu-se na mais espessa ausência;
Bebeu vermelho barro a branca espécie;
Passou às flores o dom de viver.
Dos mortos, onde as frases familiares,
A arte pessoal, as almas singulares?
Tece a larva onde lágrimas nasciam.

O riso agudo de afagadas jovens,
Olhos e dentes, pálpebras molhadas,
O seio ousado desafiando o fogo,
Sangue a brilhar nos lábios que se rendem,
Últímos dons e dedos que os defendem
- Tudo se enterra e ao jogo outra vez volta.

E tu, grande alma, acaso um sonho esperas,
Despido, então, das cores de mentira
Que a estes meus olhos a onda e o ouro mostram?
Cantarás, quando fores vaporosa?
Tudo flui! Porosa é minha presença;
A sagrada impaciência também morre.

Magra imortalidade negra e de ouro,
Consoladora com horror laureada,
Que seio maternal fazes da morte
- O belo engano, a astúcia mais piedosa!
Quem não conhece e quem não repudia
Esse crânio vazio, o riso eterno?

Pais profundos, cabeças desertadas,
Que sob o peso de tantas pàzadas
Terra sois, confundindo os nossos passos!
O verdadeiro verme, irrefutável,
Não para vós existe, sob a lousa
Ele de vida vive e não me deixa.

Amor, talvez? Talvez ódio a mim mesmo?
Seu dente oculto está de mim tão próximo
Que qualquer nome, acaso, lhe convém.
Que importa!... Ele vê, quer, sonha, ele toca:
Minha carne lhe agrada, e até no leito
Vivo de pertencer a este vivente.

Zenão, cruel! Zenão, Zenão de Eléia!
Feriste-me com tua flecha alada,
Que vibra, voa e que não voa nunca.
O som engendra-me e a flecha me mata!
O sol... Ah, que sombra de tartaruga
Para a alma, Aquiles quedo e tão ligeiro!

Não, não!... De pé! No instante sucessivo!
Rompe meu corpo, a forma pensativa!
Bebe meu seio, o vento que renasce!
Esta frescura a exalar-se do mar
A alma devolve-me... Ó, poder salgado!
Corramos à onda para reviver!

Sim, grande mar dotado de delírios,
Pele mosqueada, clâmide furada
Por incontáveis ídolos do sol,
Hidra absoluta, ébria de carne azul,
Que te mordes a fulgurante cauda
Num tumulto ao silêncio parecido,

Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!


Paul Valéry - Trad. de Darcy Damasceno e Roberto AIvim Confia.

Dragão



















Mora no céu de minha boca um Grito
Em brasa e luz
Um sol de Mim
Que se guarda no verbo silenciado pela noite de uma dor

Uma noite
Uma dor
Um verbo

Mora no céu de minha boca esse sol com olhos de dragão

No claustro de meu sol
Mora um dragão contido pela dor
Na noite de um verbo silenciado

Um Claustro
Um céu
Um sol

No céu de minha boca
Mora um dragão preso nos olhos de um sol que grita
Grita!
Em brasa
Em luz
E silêncio.

Wanda Monteiro

Pau a pique















Em dias de silêncio
Vozes falam, vozes gritam
Dentro da minha casa
Sou mínimo dentro do imenso
De palavras, choros e risos.


Caminho sem pressa de chegar
Vou mastigando cada dia
Doce, amargo, salgado e azedo
Dúvidas, certezas, segredos e medos
Circulam por todo o meu corpo.


Sou taipa de barro amarrado
Por tantas coisas
Entre cipós e bambus
Trançados a mãos.


Henrique Rodrigues Soares - Canibais Urbanos


Razão de ser
















Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?


Paulo Leminski

Educação é tudo

















Quando eu nasci, não foi em berço de ouro
Meu pai, minha mãe, não tinham tesouro 
A casa era simples, sem luxo, em exagero
O chão não tinha piso, no banheiro, nem chuveiro! 

Meus irmãos usavam os mesmos calçados
Pés no chão, muita pipa, muita emoção
Mas dinheiro, que é bom, tinha não! 

Tinha angu no prato, balanço
Descanso no colo da mãe
chinelada na hora certa
conselho do pai, também tinha
mas carne, queijo, não havia
No prato, as vezes, só farinha! 

Mas tinha livro, tinha conversa 
Tinha lápis, tinha caderno, não tinha pressa
E a esperança de dias melhores
a gente encontrava na escola, na professora
na lousa, que hoje chamam de quadro

Cresci entendendo que o futuro estava ali
Não tinha outra saída, estudar era preciso
estudar era o que havia
E no livro estava o mundo
No livro estava a liberdade, a certeza de melhores dias

E quando me vi adulta
Me vi na estrada, restou o que minha mãe dizia:
estude menina, 
seja feliz um dia

A voz de minha mãe, não tenho mais
os conselhos do meu pai, também não
Mas o que aprendi com eles, tenho aqui, no coração

Hoje sei que estudar me fez diferente
Que estudar me ensinou a ver 
o mundo de maneira mais coerente
e continuo aprendendo
porque aprender é um exercício diário, um mudar-se todo dia
e assim me faço melhor 
como minha mãe queria! 


Claudia Maria


Vincent


Vincent
mastiga
tanto o
poente
da me-
lancolia
que da
flama
-laranja-
brotam

atemporais
girassóis


Carlos Orfeu

Os Sapos


























Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas…”



Manuel Bandeira

Num Leque



Escrevo o teu nome neste leque, Isabel,
e vejo-te correndo pela faixa de pano
que se abre e se fecha e se abre, correndo
sobre a areia do verso, atrás de borboletas
e balões coloridos. Pelo parque, de velas

a fingirem de saia, sais, fugindo do leve
respirar do momento, para o que não se apressa
e se opõe ao que é onda, sendo concha, e ao vento,
e pára as seriemas na paisagem do leque
com que abano a paisagem em que corres, alegre.

Só espero o que tenho: o teu olhar menino,
duplicando ao contrário a cor da lua cheia,
na mocinha a cobrir com os balões do abanico,
que te ponho nas mãos, a surpresa do riso
e a cantar de amarelo e de azul o vermelho.

Como flores no chão, no chão da ventarola,
entre as moitas miúdas onde escondo coelhos,
espalho aquelas letras em que vai meu secreto
legado de sonho e carne, esplendor e mistério
— um a com mel, um m, um o sonhado e um r —

nesta caligrafia em que escrevo Isabel.


Alberto da Costa e Silva

No fulgor do aconchego























De tudo canto ao profundo,
que nele e sempre a voz se crispa.
Nas pernas dela eu moribundo,
e sem arestas não há mais prisma.

De tudo falo e não deleito,
de tuas pernas cândido aos versos.
Se estou preso é por teus seios,
de beijos pálidos nos quais eternos.

No teu gracejo eu inocente,
e pura pálpebra de cintilante.
Nas entrelinhas amor demente,
e tão ardente quanto exultante.


Daniel Muzitano















Minha cabeça é um cais em delírio
aceso no olho do sol
e no olho da lua
ancoradouro de vozes, cantos e voos
é  apenas  o centro de um corpo líquido
cujo horizonte não é fio mas contorno
e tudo é margem á espera de chegadas
e partidas

o mundo move-se dentro dela
ilha de espantos
onde tudo acorda e dorme num relógio sem horas
pássaros caem em queda livre para nadar
peixes roubam suas asas para voar
e uma pedra desabrocha na flor da água...

é quando o poema rompe a fina película
de uma atônita realidade
para voar sobre edifícios e pessoas

jogando sobre eles suas plumas de sonhos.


Wanda Monteiro

Tocata e fuga

















É tudo aquilo que só existe no ar,
O que de nós, além de nós, se expande.
É a vertigem para o alto, igual à grande
Tocata e fuga em ré menor de Bach.
É o delírio de um bêbedo num bar...
É um não sair do chão por mais que se ande...


Tudo que em mim, somente em mim existe,
Me transporta, me absorve, me suspende,
Me faz sorrir embora eu esteja triste,
Triste naquele universal sentido
Que a música interpreta e se compreende
Sem que em palavras seja traduzido.


Dante Milano, in “Poesia e prosa"

Essa que eu hei de amar...

























Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosas, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer a luz e calor a esta alma escura e fria.


E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... — Tudo isso eu me dizia,


quando alguém me chamou. Olhei: um velho louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...


E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ia tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”



Guilherme de Almeida
(De Messidor, 1935)

Meridiano de Mim
















Desfez-Se de Mim
Esse Eu
Que passou a esmo da história
Desfigurado
Despido

Nesse ponto cardeal
Finco os pés que já nem são meus
Findo-Me aqui
Fronteiriça
Apátrida

No meridiano de Mim

Wanda Monteiro

ACIMA DAS SERRAS



Acima das serras
minhas guerras internas se dissipam
As nuvens convertem a incerteza insípida
em tranquilidade e calmaria

Perto do céu nós estamos mais vivos
Do alto das colinas se respira o alívio
A avenida se ilumina com os astros
Nossos passos viram fogos de artifício

Desliza de pantufa sem perder a pose
Desmancha ao céu da boca um biscoito doce
As vitrines se enfeitam de estrelas
Entre o altar e os vitrais a gente faz a prece

Tanta gente que aparece em meio a nossa foto
Tem pingente na feirinha de artesanato
Nossos laços se renovam de frente ao palácio
Querer se acocar por lá é coisa lúcida

Pipoca na praça amanteiga o passeio
Aperta mais o passo pra partida às oito
O desejo que fica é de uma breve volta
Desce da brisa fresca que amanhã tem praia

E mesmo que o sono te esconda as montanhas
teu amor tem grandeza tamanha
que me faria proclamar algum decreto
se eu fosse rei e isso não fosse algo secreto
De confrontar teus olhos sempre com o inédito
E fazer do teu coração o meu império


Alan Salgueiro

anti-real























escrevo mordendo-me
como o cão morde
o próprio rabo

no sexo vascular
dos verbos na
pele-página

a linguagem
é meu abismo
onde construo

meu retrato anti-
real e aconteço


Carlos Orfeu

Insanidade















Sem grades e muros
Estão minhas prisões
Entre bulas e escuros
Sobrevivem minhas construções


Substancial e puro
As minhas depreciações
A realidade em apuros
Com suas obrigações


Este caminho áspero e duro
Sem forças e provisões
Disseca o obscuro
Nas entrelinhas das objeções


Os olhos impuros
Desencontram as emoções
Em mentir como seguro
Crio minhas soluções.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Invisível


Quando você desaparece
Na minha frente
A dor que eu sinto
É como
Se você fosse sumir
Para sempre

Como é que você
Consegue sumir assim
Se eu estou te vendo?

Quando você desaparece
Mandrake
— Pare com esses truques
Eu te digo
É meu pequeno inferno.


Adriane Garcia

Cartas de Meu Avô

















A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
Chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado…
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala…

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.



Manuel Bandeira

Andróides






















Nunca disse que sou perfeito
Já vim com original defeito
Vou funcionar assim mesmo, sem conserto,
Por mais que se dêem uns apertos.


Não me conjugue que não aceito
Num pretérito mais que perfeito
Sonoridade monumental de um concerto
E a profusão desigual dos desacertos.


E procurando no rio o leito
E afofando para deitar o leito
Com o que nos pode deixar coberto
Para com o peito está aberto



Para absorver novos conceitos
E desnudar-me dos preconceitos
Entendendo como sou descoberto
Pelo distante e pelo que está por perto.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


O que quer dizer



















O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.


Paulo Leminski

Tu que habitas essa ilha de memória
terra de parto
vida
e
morte
margeando lembranças na areia da saudade
olha
procura por debaixo das coisas miúdas
os sentidos partidos ao meio pelo tempo
...
recusa a morte nesse leito de espera
do rio que já não é
para viver as manhãs
do rio que será

o agora não é chegada
é partida


Wanda Monteiro

Sempre de Manhã














Deve acreditar-se no moço
Deve valorizá-lo o esforço
Em carregar a régia esperança
De recomeço, de novas alianças.


O que adiantei quero o reembolso
Alguns pensamentos no bolso
Quero bailar como criança
Mas sentir nos pés os calos das andanças.


A garra de quem luta pelo almoço
A luz que brota no calabouço
Nas almas sem futuro ou lembranças
Encontrando o equilíbrio e a perseverança.


A alegria efervescente dos jovens em alvoroço
A vida primitiva contida no caroço
Das frutas, adoçam as semelhanças
Com um futuro garantido como herança.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


ÚTEROS VITORIOSOS

















Era um útero
aparentemente infrutífero
e relatos diários
de tristeza e luto

A frustração a cada mês
Não conseguir a gravidez
Vida que não germina é morte em dobro
São os traços imaginados inconcebíveis
Quem dera fosse a dor dor parto
Só se alastravam as cicatrizes

E os tratamentos caros
E os hormônios alterando o humor
E a dor maior
As crianças ao redor crescendo
E o casal volta pra casa
cabisbaixo, em silêncio

Mas entraríamos,
segundo o anjo
num ano fecundo
e após tantas tentativas
vem à tona o anúncio:
resultado positivo!

Cada mero passo
era uma vitória
a barriga crescente
como as fases da lua
o sorriso gestante
no seu álbum de fotos

E o pré-natal
E o ultrassom
E escutar
o coração
pela primeira vez batendo
foi grande a celebração

O primeiro sapatinho
quem deu foi a prima
cor de rosa, pra menina
e os abraços apertados
do pai na barriga
que era ainda tímida

O chute
Os enjoos
Os desejos
de milhos verde
O berço e os desenhos
pra pô-los na parede

A libertação da ansiedade
foi num dia de independência
naquele Setembro
celebrou a vida
Ana Clara
vinha ao mundo

Eu conheci o sorriso
da menina bela
anos depois
nos caminhos dos trilhos
de poesia
e bicicleta

As crianças
são como os textos:
são gestações pra nascerem
mas depois que viram seres
todos eles
filhos são

A história de Vanusa e Ana,
mãe e filha
é de exemplos frequentes
poderia ser com outros nomes
tantas outras tentantes
construindo famílias
em sagas de insistência
de muita fé, apesar da dor

Não há útero infértil
que não se fecunde
quando se faz tudo certo
no tratamento do amor


Alan Salgueiro

Rock and Roll















Ouvidos despertaram
Todo o meu corpo
Bons e velhos
Riffs de uma guitarra
Indecorosos, vitoriosos,
Quebraram o silêncio.


Uma potente voz rouca
Vocifera letras verdadeiras e loucas
Bebido ternamente num baixo sombrio
Provocando nas roupas pretas o arrepio
De uma noite adolescente juvenil


Uma bate estaca
Agressivo e solto
Entre baquetas e tambores
Um rufar emplacado
A guitarra desponta
O solo envaidecido
Solitário dos condores



Danço no livre
Sinto-me um pouco
Da parte deste som
Já fui assim algumas vezes
Sóbrio, sombrio e louco
Na busca incessante
Do meu próprio tom.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


Sobre o Ofício de Construir Estrelas e os Riscos das Verrugas


















Eis minhas mãos:
não tenho porque esconde-las,
ainda que, por teimosia,
tragam verrugas nos dedos
por apontar estrelas.
Este é o nosso ofício:
cavalgar verdades cadentes,
eternos/caducos presentes
que comem a si mesmos
mastigando seus próprios dentes.

Assim são estrelas:
tempo que tece a própria teia
que o atrela, cavalo que cavalga
a própria sela.

Distanciamento
Objeto
Estranhamento
Espera
como pintor ensandecido
que reprova a própria tela.

Este é o nosso ofício,
este é o nosso vício.
Cego enlouquecido,
visão por trevas tomada
insiste em apontar estrelas
mesmo em noites nubladas.

Ainda que seja por nada
insisto em aponta-las
mesmo sem vê-las
com a certeza que mesmo nas trevas
escondem-se estrelas.

Enganam-se os que crêem
que as estrelas nascem prontas.
São antes explosão
brilho e ardência
imprecisas e virulentas
herdeiras do caos
furacão na alma
calma na aparência.

Enganadoras aparências…

Extintas, brilham ainda:
Mortas no universo
resistem na ilusão da retina.

Velhas super novas
pontuam o antes nada
na mentira da visão repentina.

Sim
são infiéis e passageiras.
Mas poupem-me os conselhos,
não excluo os amores
por medo de perdê-los.

Os que amam as estrelas puras
tão precisamente desenhadas
fazem para si mesmos
estrelas finamente acabadas.

Tão perfeitas e irreais
que não brilham por si mesmas
nem se sustentam fora das bandeiras
e do branco firmamento dos papéis.
Assim se constroem estrelas puras
sem os riscos de verrugas.

Cavalgarei estrelas
ainda que passageiras
pois não almejo tê-las
em frio metal
ou descartável plástico.

Simplesmente delas anseio
roubar a luz e o calor
sentir o vento fértil de seu rastro
tocar, indecente,
meu sextante no seu astro
na certeza do movimento
ainda que lento, que corta a noite
desde a aurora dos tempos.

Eis aqui minhas mãos:
não tenho receio de mostra-las,
antes com verrugas que
em bolsos guardadas.

Eis minhas verrugas,
orgulho-me em tê-las,
é parte do meu ofício
de construtor de estrelas.

Gastarei as verrugas
na lixa da prática,
queimarei as verrugas
com o ácido da crítica
e aprenderei com as marcas
que as estrelas se fazem ao fazê-las
por isso são estrelas.



Mauro Iasi

Saudação


Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,

Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.


Ezra Pound - tradução de Mário Faustino

De Volta

















Eis que...
Acometo-Me de Razão
Delato-Me
Confronto-Me
Limito-Me

DeMito-Me
E declaro-Me Vago
Para que a Emoção acometa-Me

Trazendo-Me de volta


Wanda Monteiro

Fronteiras

















Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras.

Queria explodi-los
em suspiros, gozo e anátemas
para que de tantos pedaços
brotassem outras centenas.

Os corações
(assim como as pátrias)
não deviam ter fronteiras…

mas têm.




Mauro Iasi

Café da Tarde















Antes aquele brilho nos olhos que fora perdido
Brotou na luz da esperança do prometido
Como isto sustenta as forças do convalescido
Perante escolhas que nos foi permitido.


O que somos é mais do que aparências
Do absoluto para nossas carências
Do nosso idioma a nossa fluência
Da fé o aroma para a consciência.


Como é amargo beber da saudade
Falta o açúcar da longanimidade
Como petrifica nossa espiritualidade
O clamor profundo da identidade


Na busca braçal da vitória
As letras, a tinta são acessórios
Na fórmula homem, tempo e história
Por uma sólida e durável glória.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...