Disciplina



















Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão,
ponto exato.



Maria Helena Latini

FLORESCER












Quando te conheci
O sentimento era apenas um botão
O tempo fez florir um intenso amor
Que passou a enfeitar meu coração

Do botão o amor se fez flor
Que floriu enfeitando nosso caminho
Que imaginamos juntos por onde for
Cuidando de nós com carinho

Chegamos longe
Onde só o amor nos poderia levar
Estamos juntos em qualquer lugar

Florimos nós,
Com novas flores que brotou
Assim selamos o nosso eterno amor.


Jorge Luiz Vargas

A Alegria do Povo


















Uma grande jogada
pela ponta direita,
o balão de couro
como que preso no pé.
Um drible impossível…
Garrincha sai por uma lado,
e o adversário se estatela no chão.
Gargalhada geral,
o Maracanã estremece…
Lá vai o ponta seguindo,
os holofotes varrendo de luz o gramado,
o balão branco rolando,
seguro nos pés do endiabrado atacante.

Voa Garrincha,
invade a área contrária,
indo até à linha de fundo
para cruzar…
E as redes balançam,
no delírio do gol.

Garrincha! Garrincha!
A alegria do povo,
no balé estonteante
do futebol brasileiro.


Carlos Marighella

ESTÁTUA























Ai
Estátua
Hirta
Rígida
Fria

A despeito
Da certeza
De que nunca
Tiveste vida
Persiste-me
A impressão
De que tu morreste
Um dia


Zélia Guardiano

Árias e Canções




















II
A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.


Alphonsus de Guimaraens

SE EU QUISER FALAR COM GIL (PRIMAVERAS)
















Se eu quiser fazer uma canção
Tem que ser em forma de oração
Que seus versos sejam Salmos
Da mais serena inspiração
Que sua rimas sejam primas
Primavera preparando o verão
E o verão agradecidamente
Reflorindo para sempre o coração

Se eu quiser cantar esta canção
Terá que ser com voz de uma criança
Que Drummond sonhou adormecer
Na Canção que Milton musicou
Reflorindo para sempre o coração
Outono seja dono do fim de toda fome
Inverno ilumine a cabeça de quem come
E a poesia amanheça em cada estação


Pedro Ramúcio

CANÇÃO
















chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei

chegarei com as espadas
areia verde dó planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei

chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei

chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei


Luís Carlos Patraquim

Isto explica
















Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E ficava feliz, se raro, era doce

Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo

Negra acima de tudo
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio

Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud.
.

Adriane Garcia, em O nome do Mundo, editora Armazém da Cultura, 2014.

Rosas

















Você pode me ver do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço par te contrariar
De tantas mil maneiras que eu posso ser
Estou certa que uma delas vai te agradar

Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés
E não faço outra coisa do que me doar
Se causei alguma dor não foi por querer
Nunca tive a intenção de te machucar

Porque eu gosto é de rosas e rosas e rosas
Acompanhadas de um bilhete me deixam nervosa
Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas

Se o teu santo por acaso não bater com o meu
Eu retomo o meu caminho e nada a declarar
Meia culpa cada um que vá cuidar do seu
Se for só um arranhão não vou nem soprar

Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés
E não faço outra coisa do que me doar
Se causei alguma dor não foi por querer
Nunca tive a intenção de te machucar

Porque eu gosto é de rosas e rosas e rosas
Acompanhadas de um bilhete me deixam nervosa
Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas


Totonho Villeroy - Interprete Ana Carolina

















No espelho
uma janela

dentro da janela
o tempo
preso

como presa é a imagem
que no áspero silêncio
me olha
e desconserta

pétrea imagem
que não me reconhece.


Wanda Monteiro

Capoeira



















Capoeira quem te mandou,
capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo
na corda retesa,
cadência marcada
da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,
capoeira mata um.

A perna direita
lançada pra frente,
o peso do corpo equilibrado na esquerda,
os braços jogando
de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,
o capoeira na terra,
o aú,
de cabeça pra baixo,
as pernas no ar,
a rasteira varrendo
como foice no chão,
o corta-capim, o rabo-de-arraia,
e o inimigo caindo
de supetão,
ao puxavante
da baianada.

Luta africana
que o mestiço encampou,
que os guerreiros da mata,
quilombos, palmares,
souberam jogar.
Que o angolano nos trouxe,
que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum
capoeira mata um.


Carlos Marighella

Dilema
















Há uma idade imprecisa
em que temos de escolher
entre o regozijo da maturidade
e a amargura face
aos sinais do ocaso.

A escolha não é fácil,
mas é simples.

Como se diz nos filmes de enredo,
vamos sincronizar os relógios.


Em español:

Hay una edad imprecisa
en que tienes que elegir
entre regocijarte en tu madurez
o beber amargura
por las señales del ocaso.

La elección no es fácil
pero si sencilla.

Como se dice en las películas de intriga:
sincronicemos nuestros relojes.


Mariano Crespo - tradução de Albino M.

DELÍRIOS










Você me faz delirar
Nas noites que não sei aonde estou
Procuro me achar no meu amor
Mas me perco viajando no seu calor

Calor da saudade de tudo o que ficou
Nos momentos tão meus que delirei
Nos seus braços muitas vezes morri
Nos seus beijos outras tantas nasci

Você é o meu amor impossível,
Que nos sonhos parece tão real
Pois amor assim nunca vi igual

Mas enquanto ele for assim
Vou delirando em você
Sonhando você delirando em mim


Jorge Luiz Vargas

Coringa

























Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seus pulsos, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, com a confiança tão longe, de que servirá?


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


O sol põe-se tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa? Lá ninguém vai querer casar com a
sua irmã. Amigo do mártir, um amigo da mulher que causa vergonha,
Você olha dentro da fornalha escaldante, vê um homem rico sem nome.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Bem, o Livro do Levítico e Deuteronômio,
A lei da selva e do mar são seus únicos professores.
Na fumaça do crepúsculo sobre um corcel lácteo,
Michelangelo realmente poderia ter esculpido sua feição.
Repousando nos prados, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido perto das estrelas, com um pequeno cachorro lambendo seu rosto.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Bem, o fuzileiro aproxima-se silenciosamente dos doentes e aleijados,
O pregador busca o mesmo, quem chegará lá primeiro é incerto.
Cassetetes e canhões de água, gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina,
Juízes pérfidos morrendo nas teias que eles mesmos tecem,
É só uma questão de tempo até que a noite se instale.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


É um mundo sombrio, céus são escorregadamente cinzentos,
Uma mulher acabou de dar à luz a um príncipe hoje e o vestiu de escarlate.
Ele irá pôr o padre no bolso, pôr a lâmina para aquecer,
Tirem as crianças sem mães da rua
E coloquem-nas aos pés de uma meretriz.

Oh, Curinga, você sabe o que ele quer,
Oh, Curinga, você não demonstra nenhuma reação.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.



Jokerman


Standing on the waters casting your bread
While the eyes of the idol with the iron head are glowing.
Distant ships sailing into the mist,
You were born with a snake in both of your fists while a hurricane was blowing.
Freedom just around the corner for you
But with the truth so far off, what good will it do?


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


So swiftly the sun sets in the sky,
You rise up and say goodbye to no one.
Fools rush in where angels fear to tread,
Both of their futures, so full of dread, you don't show one.
Shedding off one more layer of skin,
Keeping one step ahead of the persecutor within.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


You're a man of the mountains, you can walk on the clouds,
Manipulator of crowds, you're a dream twister.
You're going to Sodom and Gomorrah
But what do you care? Ain't nobody there would want to marry your sister.
Friend to the martyr, a friend to the woman of shame,
You look into the fiery furnace, see the rich man without any name.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


Well, the Book of Leviticus and Deuteronomy,
The law of the jungle and the sea are your only teachers.
In the smoke of the twilight on a milk-white steed,
Michelangelo indeed could've carved out your features.
Resting in the fields, far from the turbulent space,
Half asleep near the stars with a small dog licking your face.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh. oh. oh. Jokerman.


Well, the rifleman's stalking the sick and the lame,
Preacherman seeks the same, who'll get there first is uncertain.
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks,
Molotov cocktails and rocks behind every curtain,
False-hearted judges dying in the webs that they spin,
Only a matter of time 'til night comes steppin' in.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


It's a shadowy world, skies are slippery gray,
A woman just gave birth to a prince today and dressed him in scarlet.
He'll put the priest in his pocket, put the blade to the heat,
Take the motherless children off the street
And place them at the feet of a harlot.

Oh, Jokerman, you know what he wants,
Oh, Jokerman, you don't show any response.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


Bob Dylan 

O pão nosso de cada dia












Fim do expediente
Os sapatos de todos
Apertam os pés
(O asfalto vai do chão ao céu)

Uma multidão
Sem sentir
Faz fila
E coleia na avenida

Levo uma carta ao correio
Ponho perfume
Descobri meu grande amor

(Em hora imprópria lembro-me do
Crítico
Ele execra
Poesia do cotidiano)

Mas numa esquina
Um homem
Tenta vender
Aos berros
O mapa da Ucrânia.

Adriane Garcia

Um Conto de Amor


















Uma vez numa terra muito distante
Vivia uma princesa de sorriso brilhante
Num reino tão nobre das tradições tricolores
Esperando o seu verdadeiro amor.


Nas fileiras tricolores não pode encontrar
O seu príncipe encantado
Mas os seus olhos no que longe avistou
Ele! Ele!
Ela ficou com seu coração aprisionado.


Lá vinha ele, com sua armadura rubra
E seu cavalo negro como a noite
Sem muito a esperar, sobre meras desconfianças
Caminhava ele por estas perdidas andanças


Ele então teve o coração flechado
Pela meiga princesa tricolor
O cavaleiro rubro negro nunca mais foi o mesmo
Sua vida não queria novas estâncias
Seus caminhos não poderiam ir mais longe

Nunca mais se separariam
Quando a distancia ou obrigações os separavam
Suas mentes mantinham seus juramentos
Seus sorrisos e sonhos agora tão culpados
Trocavam confidencias entre corpos e sentimentos.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Aos meus Queridos Hernani Lopes “Cavaleiro Rubronegro” e Mayara Risso “Princesa Tricolor”. 15/10/2016.

Vá de Bike
























Quando te sentires preso
Quando lhe faltar a prosa
Quando lhe enxergar a rosa
Leve a liberdade na garupa

Vá onde achares longe
Onde houver uma ponte
que avance com o vento
em qualquer ponto do mundo

Quando faltar palco e público
pra ouvir o teu discurso
pra seguir no teu circuito
Faz da ciclovia tua própria carta

E escreva a cada curva
Faz do teu caderno o asfalto
Pinta a avenida turva
Se liberta e vá de bike


Alan Salgueiro

Soneto IV

























Doçura pródiga, por que gastas
Contigo mesma o legado de tua beleza?
A herança da natureza nada dá, porém cede,
E, sendo franca, empresta a quem for livre;

Depois, bela e tola, por que abusas
Da abundância que te é dada a ofertar?
Usurária sem proveito, por que usas
Um valor tão grande e, mesmo assim, não vives?

Lidando apenas contigo mesma,
Tu, a ti mesma, teu doce ser enganas;
Então, como, quando a natureza te chama para que vás,
Que espólios aceitáveis deixarás?

Tua beleza intocada contigo deve ser enterrada,
Pois, ao ser usada, tornar-te-á sua executada.


Sonnets IV

Unthrifty loveliness why dost thou spend,
Upon thy self thy beauty's legacy?
Nature's bequest gives nothing but doth lend,
And being frank she lends to those are free:

Then beauteous niggard why dost thou abuse,
The bounteous largess given thee to give?
Profitless usurer why dost thou use
So great a sum of sums yet canst not live?

For having traffic with thy self alone,
Thou of thy self thy sweet self dost deceive,
Then how when nature calls thee to be gone,

What acceptable audit canst thou leave?
Thy unused beauty must be tombed with thee,
Which used lives th' executor to be.



William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta









chove no imenso
cinza
-espelhos-

na colisão com o chão
des-
pedaçam-se
cortam

o
sol
do
sol
o

e enjaulam
o céu

Carlos Orfeu

Menino























No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

Soneto da Enseada














Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?


Lêdo Ivo

Lugar




















É aqui onde me estripam. Lugar
Obsessivo sussurro de chegar. 
Aqui. À hemorragia fremendo
das palmeiras com as vísceras
a leve matéria verde da linguagem.
Às insondáveis monções, extáticas,
sobre a nervura dos barcos.
Hoje, nenhuma massala te diz
os seios no poema. A terra
Porque é aqui onde me estripam
e tarde se confunde a manhã
nas gengivas da noite. O lugar.


Luís Carlos Patraquim

Mea Culpa














O cuidado com o costume
Apodrecido que cheira mal como estrume
O cuidado com mortal tédio
Para o qual não existem mais remédios


Enterrei lágrimas vivas
No rosto congelado pela brisa
Toquei-me nas minhas trevas
Com peso e sem reservas


E expus o meu pecado
Com a humanidade de seus significados
E construí suaves desculpas
Para calar-me as culpas.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


O país de uma nota só















Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.

Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...

E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...


Carlos Marighella

Genealogia



















O tempo se embrenhou
em raízes
na terra úmida
húmus e gens
desconhecida escuridão
numa dança
de rodopios lentos
de tramas, tranças,
caracteres, traços, gestos,
jeitos, rostos, gostos,
elos e ecos
avôs — vós — vós
avós - vós — vós — vós
vozes e vozes
no burburinho inaudível
de estranhas entranhas.
Passado longínquo.


Maria Helena Latini

Canto Grande
















Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo

Alagados



















Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo, quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal


Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê



Herbert Vianna - Paralamas do Sucesso

Liberdade


















Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.


Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.


Carlos Marighella - São Paulo, Presídio Especial, 1939.

Lisura























Entras na morte,
como se entra em casa,
desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.

Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.

Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.

Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte.


Carlos Nejar

Noturno























Somos metáforas
Tão blindadas
quanto as palavras
nos escondendo
sob poemas

Fora, habitamos os gritos
constantes
de guerra ou dor

Quase seríamos nada
não fosse alguma erupção
o deslizar das horas
acendendo a pele
Um beijo na boca -

como se o arcanjo
sobre o telhado
nos garantisse
para sempre
esta noite


Alberto Bresciani

A casa























Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.


Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

Poética

Alguma palavra, este cavalo que me vestia como um cetro, algum vômito tardio modela o verso. Certa forma ...