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Mostrando postagens de Outubro, 2016

Disciplina

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Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão,
ponto exato.


Maria Helena Latini

FLORESCER

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Quando te conheci
O sentimento era apenas um botão
O tempo fez florir um intenso amor
Que passou a enfeitar meu coração Do botão o amor se fez flor
Que floriu enfeitando nosso caminho
Que imaginamos juntos por onde for
Cuidando de nós com carinho Chegamos longe
Onde só o amor nos poderia levar
Estamos juntos em qualquer lugar Florimos nós,
Com novas flores que brotou
Assim selamos o nosso eterno amor.
Jorge Luiz Vargas

A Alegria do Povo

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Uma grande jogada
pela ponta direita,
o balão de couro
como que preso no pé.
Um drible impossível…
Garrincha sai por uma lado,
e o adversário se estatela no chão.
Gargalhada geral,
o Maracanã estremece…
Lá vai o ponta seguindo,
os holofotes varrendo de luz o gramado,
o balão branco rolando,
seguro nos pés do endiabrado atacante.

Voa Garrincha,
invade a área contrária,
indo até à linha de fundo
para cruzar…
E as redes balançam,
no delírio do gol.

Garrincha! Garrincha!
A alegria do povo,
no balé estonteante
do futebol brasileiro.


Carlos Marighella

ESTÁTUA

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Ai
Estátua
Hirta
Rígida
Fria
A despeito
Da certeza
De que nunca
Tiveste vida
Persiste-me
A impressão
De que tu morreste
Um dia
Zélia Guardiano

Árias e Canções

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II
A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensangüentara, 
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.


Alphonsus de Guimaraens

SE EU QUISER FALAR COM GIL (PRIMAVERAS)

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Se eu quiser fazer uma canção
Tem que ser em forma de oração
Que seus versos sejam Salmos
Da mais serena inspiração
Que sua rimas sejam primas
Primavera preparando o verão
E o verão agradecidamente
Reflorindo para sempre o coração
Se eu quiser cantar esta canção
Terá que ser com voz de uma criança
Que Drummond sonhou adormecer
Na Canção que Milton musicou
Reflorindo para sempre o coração
Outono seja dono do fim de toda fome
Inverno ilumine a cabeça de quem come
E a poesia amanheça em cada estação

Pedro Ramúcio

CANÇÃO

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chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei


chegarei com as espadas
areia verde dó planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei


chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei


chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei


Luís Carlos Patraquim

Isto explica

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Não fui a menina dos undergrounds
Das agitações noturnas
Das leituras insólitas
Dos dionisíacos saraus
Meu campus era o campo
Onde eu cavoucava batatas
E ficava feliz, se raro, era doce
Vivi na terra vermelha
Sem xampu, mamãe tentava
Alisar-me os cabelos
Ver se ficava branca
Eu parecia
Mas havia um banzo
Negra acima de tudo
A alma
Por sorte aprendi a ler
E consegui decifrar as placas
No navio
Cheguei atrasada
Uns mil anos
Para a aula
Sobre Rimbaud. .
Adriane Garcia, em O nome do Mundo, editora Armazém da Cultura, 2014.

Rosas

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Você pode me ver do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço par te contrariar
De tantas mil maneiras que eu posso ser
Estou certa que uma delas vai te agradar

Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés
E não faço outra coisa do que me doar
Se causei alguma dor não foi por querer
Nunca tive a intenção de te machucar

Porque eu gosto é de rosas e rosas e rosas
Acompanhadas de um bilhete me deixam nervosa
Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas

Se o teu santo por acaso não bater com o meu
Eu retomo o meu caminho e nada a declarar
Meia culpa cada um que vá cuidar do seu
Se for só um arranhão não vou nem soprar

Porque eu sou feita pro amor da cabeça aos pés
E não faço outra coisa do que me doar
Se causei alguma dor não foi por querer
Nunca tive a intenção de te machucar

Porque eu gosto é de rosas e rosas e rosas
Acompanhadas de um bilhete me deixam nervosa
Toda mulher gosta de rosas e rosas e rosas
Muitas vezes são vermelhas mas sempre são rosas

Totonho Vill…
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No espelho
uma janela
dentro da janela
o tempo
preso
como presa é a imagem
que no áspero silêncio
me olha
e desconserta
pétrea imagem
que não me reconhece.

Wanda Monteiro

Capoeira

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Capoeira quem te mandou,
capoeira, foi teu padrinho.

O berimbau retinindo
na corda retesa,
cadência marcada
da ginga do jogo.

Zum, zum, zum,
capoeira mata um.

A perna direita
lançada pra frente,
o peso do corpo equilibrado na esquerda,
os braços jogando
de um lado pro outro…

Capoeira quem te ensinou?

De repente uma queda,
o capoeira na terra,
o aú,
de cabeça pra baixo,
as pernas no ar,
a rasteira varrendo
como foice no chão,
o corta-capim, o rabo-de-arraia,
e o inimigo caindo
de supetão,
ao puxavante
da baianada.

Luta africana
que o mestiço encampou,
que os guerreiros da mata,
quilombos, palmares,
souberam jogar.
Que o angolano nos trouxe,
que o mestre Pastinha nos soube ensinar.

Coreografia. Jongo do povo.

Zum, zum, zum
capoeira mata um.


Carlos Marighella

Dilema

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Há uma idade imprecisa
em que temos de escolher
entre o regozijo da maturidade
e a amargura face
aos sinais do ocaso.

A escolha não é fácil,
mas é simples.

Como se diz nos filmes de enredo,
vamos sincronizar os relógios.



Em español:

Hay una edad imprecisa
en que tienes que elegir
entre regocijarte en tu madurez
o beber amargura
por las señales del ocaso.

La elección no es fácil
pero si sencilla.

Como se dice en las películas de intriga:
sincronicemos nuestros relojes.


Mariano Crespo - tradução de Albino M.

DELÍRIOS

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Você me faz delirar
Nas noites que não sei aonde estou
Procuro me achar no meu amor
Mas me perco viajando no seu calor Calor da saudade de tudo o que ficou
Nos momentos tão meus que delirei
Nos seus braços muitas vezes morri
Nos seus beijos outras tantas nasci Você é o meu amor impossível,
Que nos sonhos parece tão real
Pois amor assim nunca vi igual Mas enquanto ele for assim
Vou delirando em você
Sonhando você delirando em mim
Jorge Luiz Vargas

Coringa

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Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seus pulsos, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, com a confiança tão longe, de que servirá?


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


O sol põe-se tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa? Lá ninguém vai querer casar com a
sua irmã. Amigo do mártir, um amigo…

O pão nosso de cada dia

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Fim do expediente
Os sapatos de todos
Apertam os pés
(O asfalto vai do chão ao céu)
Uma multidão
Sem sentir
Faz fila
E coleia na avenida
Levo uma carta ao correio
Ponho perfume
Descobri meu grande amor
(Em hora imprópria lembro-me do
Crítico
Ele execra
Poesia do cotidiano)
Mas numa esquina
Um homem
Tenta vender
Aos berros
O mapa da Ucrânia.

Adriane Garcia

Um Conto de Amor

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Uma vez numa terra muito distante Vivia uma princesa de sorriso brilhante Num reino tão nobre das tradições tricolores Esperando o seu verdadeiro amor.

Nas fileiras tricolores não pode encontrar O seu príncipe encantado Mas os seus olhos no que longe avistou Ele! Ele! Ela ficou com seu coração aprisionado.

Lá vinha ele, com sua armadura rubra E seu cavalo negro como a noite Sem muito a esperar, sobre meras desconfianças Caminhava ele por estas perdidas andanças

Ele então teve o coração flechado Pela meiga princesa tricolor O cavaleiro rubro negro nunca mais foi o mesmo Sua vida não queria novas estâncias Seus caminhos não poderiam ir mais longe
Nunca mais se separariam Quando a distancia ou obrigações os separavam Suas mentes mantinham seus juramentos Seus sorrisos e sonhos agora tão culpados Trocavam confidencias entre corpos e sentimentos.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Aos meus Queridos Hernani Lopes “Cavaleiro Rubronegro” e Mayara Risso “Princesa Tricolor”. 15/10/2016.

Vá de Bike

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Quando te sentires preso
Quando lhe faltar a prosa
Quando lhe enxergar a rosa
Leve a liberdade na garupa
Vá onde achares longe
Onde houver uma ponte
que avance com o vento
em qualquer ponto do mundo
Quando faltar palco e público
pra ouvir o teu discurso
pra seguir no teu circuito
Faz da ciclovia tua própria carta
E escreva a cada curva
Faz do teu caderno o asfalto
Pinta a avenida turva
Se liberta e vá de bike
Alan Salgueiro

Soneto IV

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Doçura pródiga, por que gastas
Contigo mesma o legado de tua beleza?
A herança da natureza nada dá, porém cede,
E, sendo franca, empresta a quem for livre;
Depois, bela e tola, por que abusas
Da abundância que te é dada a ofertar?
Usurária sem proveito, por que usas
Um valor tão grande e, mesmo assim, não vives?
Lidando apenas contigo mesma,
Tu, a ti mesma, teu doce ser enganas;
Então, como, quando a natureza te chama para que vás,
Que espólios aceitáveis deixarás? Tua beleza intocada contigo deve ser enterrada,
Pois, ao ser usada, tornar-te-á sua executada.


Sonnets IV


Unthrifty loveliness why dost thou spend,
Upon thy self thy beauty's legacy?
Nature's bequest gives nothing but doth lend,
And being frank she lends to those are free:

Then beauteous niggard why dost thou abuse,
The bounteous largess given thee to give?
Profitless usurer why dost thou use
So great a sum of sums yet canst not live?

For having traffic with thy self alone,
Thou of thy self thy sweet self dost deceive,
Then how when nature…
Imagem
chove no imenso
cinza
-espelhos-
na colisão com o chão
des- pedaçam-se cortam
o
sol
do
sol
o
e enjaulam
o céu

Carlos Orfeu

Menino

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No colo da mãe 
a criança vai e vem 
vem e vai 
balança. 
Nos olhos do pai 
nos olhos da mãe 
vem e vai 
vai e vem 
a esperança. 

Ao sonhado 
futuro 
sorri a mãe 
sorri o pai. 
Maravilhado 
o rosto puro 
da criança 
vai e vem 
vem e vai 
balança. 

De seio a seio 
a criança 
em seu vogar 
ao meio 
do colo-berço 
balança. 

Balança 
como o rimar 
de um verso 
de esperança. 

Depois quando 
com o tempo 
a criança 
vem crescendo 
vai a esperança 
minguando. 
E ao acabar-se de vez 
fica a exacta medida 
da vida 
de um português. 

Criança 
portuguesa 
da esperança 
na vida 
faz certeza 

Soneto da Enseada

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Sou sempre o que está além de mim 
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?


Lêdo Ivo

Lugar

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É aqui onde me estripam. Lugar
Obsessivo sussurro de chegar. 
Aqui. À hemorragia fremendo
das palmeiras com as vísceras
a leve matéria verde da linguagem.
Às insondáveis monções, extáticas,
sobre a nervura dos barcos.
Hoje, nenhuma massala te diz
os seios no poema. A terra
Porque é aqui onde me estripam
e tarde se confunde a manhã
nas gengivas da noite. O lugar.


Luís Carlos Patraquim

Mea Culpa

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O cuidado com o costume Apodrecido que cheira mal como estrume O cuidado com mortal tédio Para o qual não existem mais remédios

Enterrei lágrimas vivas No rosto congelado pela brisa Toquei-me nas minhas trevas Com peso e sem reservas

E expus o meu pecado Com a humanidade de seus significados E construí suaves desculpas Para calar-me as culpas.

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

O país de uma nota só

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Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.

Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...

E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...


Carlos Marighella

Genealogia

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O tempo se embrenhou
em raízes
na terra úmida
húmus e gens
desconhecida escuridão
numa dança
de rodopios lentos
de tramas, tranças,
caracteres, traços, gestos,
jeitos, rostos, gostos,
elos e ecos
avôs — vós — vós
avós - vós — vós — vós
vozes e vozes
no burburinho inaudível
de estranhas entranhas.
Passado longínquo.


Maria Helena Latini