Domus
















Com seus olhos estáticos na cumeeira
a casa olha o homem.
A intervalos
lhe estremecem os ouvidos,
de paredes sensíveis,
discernentes:
agora é amor,
agora é injúria,
punhos contra a parede,
pânico.
Comove Deus
a casa que o homem faz para morar,
Deus
que também tem os olhos
na cumeeira do mundo.
Pede piedade a casa por seu dono
e suas fantasias de felicidade.
Sofre a que parece impassível.
É viva a casa e fala.


Adélia Prado, em "Oráculos de maio", 2007, p.21.

113























O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
Não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei
Aos seus idólatras o joelho do sim. -
Meu rosto não abriu risos ao rei
Nem repetiu ecos; a turba, eu sei,
Não me inclui entre os seus. Vivi ao lado
Deles, porém sem ser da sua grei;
E à mortalha da sua mente atado
Estaria se não me houvesse precatado.



113

I have not loved the world, nor the world me;
I have not flatter'd its rank breath, nor bowed
To its idolatries a patient knee, --
Nor coined my cheek to smiles, nor cried aloud
In worship of an echo; in the crowd
They could not deem me one of such; I stood
Amongst them, but not of them; in a shroud
Of thoughts which were not their thoughts, and still could,
Had I not filed my mind, which thus itself subdued.



George Byron. "Childe Harold: From Canto III / Do canto III". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Byron e Keats: Entreversos. Campinas: Unicamp, 2009.

Convite à viagem























Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
De teu olho infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
- Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.




L’invitation au voyage

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.


Charles Baudelaire. As flores do mal. (Edição bilíngue).. [tradução de Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Plenitude













Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,

Entra-me como um vinho acre pelas narinas...
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto.

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro de minhas entranhas.

Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude...
Canta em minhalma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude
— Belo como Davi, forte como Golias...

E neste curto instante em que me exalto
De tudo o que não sou, gozo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

E tudo isso me vem em vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida...
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida.


Manuel Bandeira, em "A cinza das horas", 1917.

O Passo
















Teu passo, inato ao meu silêncio,
beira sagradamente, a fio,
meu leito insone e, com imenso
vagar, vem vindo mudo e frio.

Sombra divina, forma pura:
Deus!... tudo o que de bom supus
– passo contido, que doçura! –
já se aproxima com pés nus.

Se, lábios entreabertos, frente
a mim, reservas ao desejo
faminto que me ocupa a mente
este alimento que é teu beijo,

mantém o enlevo ainda à parte
(no doce impasse existo e passo),
pois, ao viver só de esperar-te,
meu coração pôs-se em teu passo.



Les Pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.

Personne pure, ombre divine,
Qu’ils sont doux, tes pas retenus!
Dieu! – tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus!

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l’apaiser,
A l’habitant de mês pensées
La nourriture d’un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d’être et de n’être pas,
Car j’ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n’était que vos pas.


Paul Valéry

Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização] Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 208-209.

Ewigkeit


















Torne-me à boca o verso castelhano,
A dizer o que sempre está dizendo
Desde o latim de Sêneca: o horrendo
Ditame de que o verme é soberano.

Torne a cantar a palidez da cinza,
Os fastígios da morte e a vitória
Da rainha retórica que pisa
Os estandartes ocos da vanglória.

Não assim. O meu barro agradecido
Eu não o vou negar como um covarde.
Sei que não há uma coisa: é o olvido.

Sei que na eternidade dura e arde
O muito e o melhor por mim perdido:
Esta frágua, esta lua e esta tarde.




Ewigkeit

Torne en mi boca el verso castellano
A decir lo que siempre está diciendo
Desde el latín de Séneca: el horrendo
Dictamen de que todo es del gusano.

Torne a cantar la pálida ceniza,
Los fastos de la muerte y la victoria
De esa reina retórica que pisa
Los estandartes de la vanagloria.

No así. Lo que mi barro ha bendecido
No lo voy a negar como un cobarde.
Sé que una cosa no hay. Es el olvido;

Sé que en la eternidad perdura y arde
Lo mucho y lo precioso que he perdido:
Esa fragua, esa luna y esa tarde.



Jorge Luis Borges. "Ewigkeit". In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 poemas e uma entrevista. São Paulo: Terracota, 2012.

Antes que o sol se ponha















Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;

antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra

às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça

as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.



Ivan Junqueira,

"A sagração dos ossos". em:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Imensidade
















Ao olhar o mar imenso
Que numa devoção permanece
Do seu lugar que não arrefece
Por algum novo sentimento.



Por me afligir ao intenso
Com ansiedades que desvanece
Com dúvidas que entristece
Mas acabam com o passar do tempo.



O meu coração febril e intenso
Que nada enche que abastece
Que esfria e que aquece
Ao se perder nos contratempos



O Deus! Que tu és imenso
O dono de tudo que acontece
Ao teu querer pobre ou enriquece
Alma de alegria ou lamento.




Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Quihica
















Aquilo que esperamos desde que nascemos
Aquilo que vislumbramos na tenra idade
Ao perder inocência nos embrutecemos
Com o medo assombroso da fatalidade



Os que vencem os anos com sacrifício
Deixando mais lágrimas do que sorrisos
Os que partiram jovens pelo oficio
De serem livres e sem compromissos



A sociedade precisa de seus heróis
A sociedade constrói os seus vilões
Quem tem olhos como faróis
Cada passageiro diferente missões.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Romance LX ou do caminho da forca


























Os militares, o clero,
os meirinhos, os fidalgos
que o conheciam das ruas,
das igrejas e do teatro,
das lojas dos mercadores
e até da sala do Paço;
e as donas mais as donzelas
que nunca o tinham mirado,
os meninos e os ciganos,
as mulatas e os escravos,
os cirurgiões e algebristas,
leprosos e encarangados,
e aqueles que foram doentes
e que ele havia curado
- agora estão vendo ao longe,

de longe escutando o passo
do Alferes que vai à forca,
levando ao peito o baraço,
levando no pensamento
caras, palavras e fatos:
as promessas, as mentiras,
línguas vis, amigos falsos,
coronéis, contrabandistas,
ermitões e potentados,
estalagens, vozes, sombras,
adeuses, rios, cavalos...

Ao longo dos campos verdes,
tropeiros tocando o gado..
O vento e as nuvens correndo
por cima dos montes claros.
Onde estão os poderosos?
Eram todos eles fracos?
Onde estão os protetores?
Seriam todos ingratos?
Mesquinhas almas, mesquinhas,
dos chamados leais vassalos!

Tudo leva nos seus olhos,
nos seus olhos espantados,
o Alferes que vai passando
para o imenso cadafalso,
onde morrerá, sozinho
por todos os condenados.

Ah, solidão do destino!
Ah, solidão do Calvário...
Tocam sinos: Santo Antônio?
Nossa Senhora do Parto?
Nossa Senhora da Ajuda?
Nossa Senhora do Carmo?
Frades e monjas rezando.
Todos os santos calados.

(Caminha a Bandeira
da Misericórdia.
Caminha, piedosa.
Caísse o réu vivo;
rebentasse a corda,
que o protegeria
a santa Bandeira
da Misericórdia!)

Dona Maria Primeira,
aqueles que foram salvos
não vos livram do remorso
deste que não foi perdoado..
(Pobre Rainha colhida
pelas intrigas do Paço,
pobre Rainha demente,
com os olhos em sobressalto,
a gemer: “Inferno... Inferno...“
com seus lábios sem pecado.)

Tudo leva na memória
o Alferes, que sabe o amargo
fim do seu precário corpo
diante do povo assombrado.

(Aguas, montanhas, florestas,
negros nas minas exaustos...
- Bem podíeis ser, caminhos,
de diamante ladrilhados...)

Tudo leva na memória:
em campos longos e vagos,
tristes mulheres que ocultam
seus filhos desamparados.
Longe, longe, longe, longe,
no mais profundo passado...
- pois agora é quase um morto,
que caminha sem cansaço,
que por seu pé sobe à forca,
diante daquele aparato...

Pois agora é quase um morto,
partindo em quatro pedaços,
e - para que Deus o aviste -
levantado em postes altos.

(Caminha a Bandeira
da Misericórdia.
Caminha, piedosa,
nos ares erguida,
mais alta que a tropa.
Da forca se avista
a Santa Bandeira
da Misericórdia.)



Cecília Meireles - Romanceiro da Inconfidência

O último poema


















Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Manuel Bandeira, no livro "Libertinagem e Estrela da Manhã". 14ª ed., Editora Nova Fronteira, 2000, pág. 70.






















Nado no Rio do Esquecimento
Desvaneço a crueza solitária
Do turbilhão das minhas horas
Confusas e sensíveis
Para torná-las plácidas.
Trago o dinheiro da passagem
Mas prefiro beber das águas
Que tornam os minutos calmos
Porque já não há mais tempo.
Não foi desejo
de dar calote no barqueiro.
Até acho muito romântico
um remador me levar pro inferno
Não! Deixe que eu vou sozinha.
Vou nadando e bebendo das águas
Da conversão.
Batismo às avessas
No fundo do poço
Buscando uma luz
No lodo da lua.


Paula Beatriz Albuquerque.

Presságio

















O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…


Obra Poetica, Fernando Pessoa, Volume único, Organização, Introdução e Notas, de Maria Aliete Galhoz, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2003. pág. 513

SOUL NEGRO























Sou negro de herança de sangue
de preto no branco
das sombras dos quilombos
obscuros de Baixada

Sou negro
que atravessa a Dutra
e com o meu batuque
dou a cara à tapa

Sou negro de alma e resistência
de quebrar correntes
de romper com os dentes
os grilhões da fala

Sou negro claro
e também escravo
de outros Apartheids

Sou Madiba
dos dias de luta
desde os soluços
abolicionistas
Áfricas diárias
Senhores, senzalas
Eu sou a porrada
de Muhammad Ali

Sou os lábios gotejando
por um sonho
Martin Luther King
Gritos dos Palmares
Cicatriz da pele na chibata
Oásis de liberdade
Sou voz da mistura em seu cortejo
Soul Negro


Alan Salgueiro

As fontes














Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser


Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Poesia I", 1944.

A gaita

O menino e a gaita - Cândido Portinari


























A gaita hoje está louca de amargura:
geme e chora como um coração partido
nas mãos morenas do gaiteiro.

Dói uma dor profunda em seu gemido.

Quando a gaita se abre toda,
o homem parece crucificado,
implorativo, doloroso...
Depois se encurva corcoveia ondula,
vai-vem!
Lembra o mar!
Lembra tudo o que é cruciante na tortura de gritar!

Cordeona trêmula,
turva de raiva contida,
cheia de humana amarugem,
há um gemido de trova em teu soluço,
há um soluço de amor em teu gemido...


Augusto Meyer, em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo, 1926.

Respirando artificialmente

















O desmoronamento do que acredito
Sem alicerces estrutura nenhuma resiste
O espaço entre o que foi e não foi dito
Mentiras ou verdades nada persiste



As palavras e suas transitoriedades
Me permitem confundir e ser confundido
Mergulhado no silêncio da ociosidade
Do perigo que sou não ficarei escondido



Procuro o que todos procuram.  Expectativas
Consciente quão difícil esta busca
A lucidez de uma mente criativa
Seu brilho nem a morte ofusca.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Errante












Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

Arte Poética

Claude Monet


















Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.





Arte Poetica

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.


Jorge Luiz Borges

As mãos de meu pai


As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Mario Quintana, in: Esconderijos do tempo,1980.















Então me amanheço.
devagarinho,
pouso meus raios
na tua face molhada
que aquece o meu banhar
e o teu mergulho.
espreguiço em ti,
não a calma deste dia
mas a fúria do idílio.
cabe um poema quente
entre as linhas, silêncio:
teus dedos entrelaçam
os meus.
olhares, risos e conversa rasa
pão na chapa e café
na padaria da praça.


Paula Beatriz Albuquerque

DEPOIS DA TERCEIRA SIRENE










O argumento da trama
ás vezes é mera desculpa
pr'aquela cantada fajuta
da peça se que encaixa no quebra-cabeça

Roteiro de histórias secretas
que aos poucos me revela
quando minha voz resvala na tua boca
quando uma hora é conversa pouca

Hoje a esquete perde fácil pro teu perfume
e a trilha sonora como um "Claire de Lune"
preenche os vazios e as falhas do texto

Depois da terceira sirene
logo na entrada do palco
quis beijo de cine em pleno teatro

Quis me introduzir naquele pouco espaço
Quis perder a hora e os Gols do Fantástico
Quis o breve encaixe entre os teus dedos
e deixar a conta pra bem mais adiante

Quis cada detalhe das histórias longas
e saber do enredo direto da fonte
e extrair as cores dos teus lábios
pra redesenhar cenários
e ganhar o teu aplauso
antes do último ato


Alan Salgueiro




POR ÁGUA A BAIXO













Tem gosto de lama
uma cor estranha
parece que o barro
veio dar um berro
e ecoou no copo
deu cano no povo
que foi ao fundo do poço
a água foi por água a baixo

Se elitizam os litros
vai ficar vazio
o balde da lavadeira
o equilíbrio na cabeça
vai perder sentido
abrir a torneira

É a língua sedenta
que espera o pingo
mas a lágrima caindo
é que realmente jorra
Sonho é feito corredeira
de inundar a terra d'água


Alan Salgueiro

















Ser
o cinza do simples
o simples colorido
complexo e fora do eixo.
Ter
as mãos da noite
Mãos
que acariciam meus cabelos
Que tecem um fio de solitário silêncio
na sinfonia sutil
dos desencontros dos mundos
Pulsos pulam para além das palavras,
os (des)entendimentos
abrigados nos meus eus
e comunicam o caos
aos poucos corações
que podem me ouvir.
Quero ser simples
Asa, fogo e vento
Sempre indo
Ó noite,
Me deixe ser um passarinho
Rodopiar fluxos
mergulhar em rios aéreos
E finalmente
ser livre... de mim!


Paula Beatriz Albuquerque

Soneto























Desmoronam promessas e misérias,
pedaços da palavra e da memória,
e o sol da força bruta da matéria
escorre para o ralo como escória.

Os ratos já devoram toda história,
e avançam contra os cacos do presente,
seus dentes decompondo em pó a glória
de um futuro podado na semente.

Do muito que sonhamos talvez sobre
o sopro de uma aurora que nos leva
além de nossa dor, mas não descobre

a flor que pulsa e arde em meio à treva.
Depois, virando cinza o que é graveto,
não sobrará nem mesmo este soneto.



Antônio Carlos Secchin

O Bom Pastor






















Meu pastor pelas vigílias anda
Com sua voz terna e branda
Posso ouvir seus passos na madrugada
Onde minha alma é alimentada


Do vale sombrio da morte
Resgata-me para caminhos tranqüilos
Restaura a minha frágil sorte
De ovelha cuidou-me como filho


Meu pastor nunca dorme
Bordão e cajado não descansa
Meu pastor tem raízes nobres
Apascenta-me com abastança


Ferido e sozinho nunca fico
Quanto sou seu rebanho
Pois sempre está comigo
Com seu amor sem tamanho.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

GOTINHAS DE COMPANHEIRISMO

















Foi só um acidente de percurso
Ela soube deixar bem a sua marca
Na cadeira vazia a ausência assusta
A minha alegria claudicou caduca
Nem teve despedida na batida brusca
Eu tenho esperança que a paz renasça

E me deixou gotinhas de companheirismo
A borra sobre a mesa que ela achou horrível
nem era visível, terminou em abraço
No aroma que inspira a manhã de trabalho
Café e afeto forte pra minha jornada
Eu tenho esperança que ela renasça



Alan Salgueiro

Milagre


















Andar sobre as águas
Continuar calmo frente à tempestade
Esquecer da memória as mágoas
Perdoar nossa própria humanidade


Crucificar o incontido eu
Cego, enxergar o caminho.
Repartir deste todo meu
Aceitar o nascimento do espinho


Não precisa ser Deus
É preciso ter fé
Para sonhar com os céus
Para permanecer de pé.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?


Fé Insistente














Quando os dissabores são uma constante
E já respiras nos ares comprimidos da demência
Despido está, de tudo que fora aparência.
Afastado está, de tudo que julgas importante.


Já não choras...  Lágrimas distantes
O coração baldio de eloqüência
Dividido em pedaços da divergência
Esmiuçado pelo existir recalcitrante


Em que se apegar numa fé insistente
Limiar entre o se expor ou ficar no conforto
Entre lutar ou aceitar está morto


Esperanças no teu olhar resistente
Que na bravura que encardia
Acredita em melhores dias.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Poeta













Para isso terás de me trazer
Os anos do meu próprio devir,
Quando uma fonte de canções a nascer
Brotava em mim sem se extinguir,
Quando névoas me escondiam o mundo
E inda o botão milagres prometia,
Quando eu as mil flores colhia
Que enchiam o vale até ao fundo.
Não tendo nada, bastante tinha então:
A sede de verdade e o gosto da ilusão.
Dá-me de novo as paixões sem temor,
A funda e dolorosa felicidade,
Do ódio a força, o poder do amor:
Traz-me de volta a minha mocidade!



Dichter

So gib mir auch die Zeiten wieder,
Da ich noch selbst im Werden war,
Da sich ein Quell gedrängter Lieder
Ununterbrochen neu gebar,
Da Nebel mir die Welt verhüllten,
Die Knospe Wunder noch versprach,
Da ich die tausend Blumen brach,
Die alle Täler reichlich füllten.
Ich hatte nichts und doch genug:
Den Drang nach Wahrheit und die Lust am Trug.
Gib ungebändigt jene Triebe,
Das tiefe, schmerzenvolle Glück,
Des Hasses Kraft, die Macht der Liebe,
Gib meine Jugend mir zurück!



Johann Wolfgang von Goethe, em "Fausto". [tradução João Barrento]. Lisboa: Relógio d'Água, 1999, p. 35.

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...