Pressupostos






















Que tudo propõem! Escola!
Que tudo expõem! Esmola!
Das sobras que me restaram agora
Se inocência partiu! Embora!


As palavras duras! Que sola!
Que absorvem impuras! Empola!


Que tudo impõem! Esfola!
Que tudo excluem! Sacola!
As dores como música, afloram!
O cuidado sustenta ou escora?


A canção de ternura. Que cola
Corpos e sonhos são molas
Para os guardados a tira-cola
O sabor do refrigerante de cola.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Mi Manchi

















Hoje enxuguei lágrimas
De lembranças
De memórias


Hoje tua falta
Foi mais forte do que dias anteriores
Hoje meu coração
Amanheceu nublado
Acho que vai chover


O sorriso gravado
O riso pintado
Na dor marcada
Por datas vazias


A piada sem graça
Teu trato paterno
Deixaram um Saara
No peito de todos que te tinham por perto
Te esquecer!  Não tem como
Prefiro ficar com este
Sentimento arrebatador



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
Para Ozias Moura in memorian

Sobrevivo
















Sobrevivo
na bagunça dos sentimentos
na displicência das datas
entre uma canção e outra
não somente em pensamento

Sobrevivo
na cerimônia e no seu vestido
na súbita falta de equilíbrio
na estrutura do futuro
nas estampas e nas entrelinhas

Sobrevivo na intensidade
na paixão que arde e nas tatuagens
na estrela cadente e na coragem
a cada compasso do espetáculo

No próximo verso, no caderno
Nos bocejos, nos presságios
Na intuição e nas insônias
Nas fantasias e nos devaneios

Mesmo em coma, na esperança
No presente, nas ausências
Nos livros, nos lábios
Nos lares do peito
onde sei que ainda moro
Sobrevivo


Alan Salgueiro






















A realidade vive passando a esmo de mim
nela reside um cotidiano insólito
despido de minhas vontades

as portas que atravesso
sem escolha
são os acasos que se vão cumprindo e cessando nesse meu devir

o que me acontece
sem que eu consinta
são janelas que se abrem na arquitetura do tempo...

o mesmo tempo que flui nesse meu rio
onde tudo se revela e se escreve
_______________ Impermanente!



Wanda Monteiro

Os meus versos





























Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.
Tu disseste para ti: "Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!"
- Pois foi o teu olhar; a noite escura,
- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d'alma a soluçar!
..........................................................
Aí não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca

Desconstrução















Olha aqui seu moço
Não sou rascunho ou esboço
Que espera assinatura de endosso
De alguém


Se cheguei à pele e osso
Não demandei algum esforço
Me jogaram nesse fosso
Sem ninguém


As paredes sem arcabouço
O estômago sem almoço
Sem nenhum dinheiro no bolso
Sem nenhum vintém


A alegria que foi sem reembolso
A sequidão de um único poço
Não tem causado mais alvoroço
Para este refém


Mas enquanto puder falar grosso
Áspero e cru como seu emboço
Se levaram o sulco, ficou o caroço
Neste vaivém.




Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Tardes Proustianas
















Se belo, tardio e triste chega o crepúsculo
Para esquecer a maquiagem do raiar da aurora
A fragilidade da soberba testorogênica dos músculos
Que no tempo se une as rugas e rusgas que agora


Toma o caminho silencioso para a morte
Que encolhe a estrada de quem escolhe
Se aparências desmoronam dos mais fortes
O que se reprova acolhe ou se recolhe


Da história muda e então calada
Dos amores que secaram no sol escaldante
O gosto de ansiedade obcecada
O cansado partir do retirante


Ficou o instante límpido fotográfico
A proposta congelante do passado
Os caracteres do alfabeto indo-arábico
Para grafitar o que foi codificado.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
Agosto 2015


Ao Crepúsculo


O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,
Fitando no horizonte a linha da montanha.

A montanha é tranqüila e forte, e grande e boa.
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.

Embalada na voz do grande solitário,
Tu mortificarás teu casto coração
Na dor de revocar o noivado precário.
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?
Por que me desvendaste a tua sedução?)

Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga.
A lembrança é no amor a cadeia mais pura.
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:
O mar segredará tudo o quanto eu te diga,
E a montanha, dir-me-á tua imensa ternura.


Manuel Bandeira, em "A cinza das horas", 1917.

O homem que vinha ao entardecer


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.
Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava

que doía.



José Eduardo Agualusa, em "O coração dos bosques". 1991.

Infâncias


gosto de mãos rupestres
- de infâncias,
de me dobrar e tombar
em risos e estigas que a minha rua já não tem.
chorar – escrevendo um livro depois apagado.
rir – lendo memórias apagadas.

a sujidade de infância tem um cheiro
de barro
e trepadeiras poerentas.
quando me sujo de infâncias
espirro
um sardão enorme
- e um gato dançado
pelo tiro da minha pressão de ar.

não quero apenas carícias
nas cores desse sardão ensolarado
sujo de infância
quero pôr pedido-desculpa
na vida do gato vesgo...


Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009 p. 35.

Resposta

















Sabe o poeta
que ela não queria
fazer-se verso
morrer-se verso?

O que diria o poeta
se ela lhe saltasse do papel
materializasse em vida
em carne, com sorrisos
e olhos de insuportável verdade
e uma fome que lhe devorasse
o papel
a caneta
as palavras
e mastigasse a poesia

Sabe o poeta
que desnuda
e desvela a alma
dessa pobre mulher
que jamais jamais
desejou fazer-se verso?

Gosta mesmo o poeta é da fantasia


Geise Gomes

Bem no fundo






















No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


Paulo Leminski

Distrações






















Se o vento como um amigo traiçoeiro
Que nos acaricia depois constrange
Assopra tuas coxas levantando tuas pétalas
Esvaziando-te de adereços e complicações.


Já meus olhos como um agoureiro
Fixam como encantados pelo que ver
Nos instantes casuais da perfeição
Quase refeito do ocasional das situações


Disfarço o receio frente o embaraço
Da falta de recheio do teu abraço
Disfarço o anseio triste dos percalços
Da sobriedade fria neste cadafalso


Que me permitas a insegurança
Da solidariedade amarrada de tuas tranças
Dos beijos molhados de veneno
Adocicados, mordazes e extremos.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio 30/03/2015.


Sou Negro














Porque nasci negro?
Porque me olham como diferente?
Sempre com potencial carente
Ou preferencial delinquente


Se estudo tenho cara de repetente
Sou tratado como descendente
Estrela sem brilho decadente
Minha fé é sem categoria e descrente


Sou da cor da noite
Mas de noite sou o que preocupa
Nunca foi mocinho, sou o vilão!


O mal é negro
O negativo é preto
Sou falta de luz, escuridão.


Sou vergonha na história
De uma pátria sem memória
Sou motorista dos outros, sou garçom.
Não sou servido, não sou maçom.


Sou cidadão da cor
Da cor da exclusão
Sou cota afirmativa
O futuro sem canção.



Henrique Rodrigues Soares – Hora de Silêncio















Enquanto..
Em algum tempo, uns gritam
em algum lugar, outros tantos silenciam

poucos plantam flores
outros tantos atiram pedras

sonhos morrem empoeirados
realidades se dissipam

tudo isso acontece sem que eu consinta e pesa sobre minha pena

Eu sigo
colhendo ilusões
na sanha de mais humanidade.


Wanda Monteiro















A manhã cinza tece o silêncio
árvores cortejam o pensamento
enquanto lentamente caminhamos

entre as estátuas frias
molhadas de ausências

e o tudo que deveríamos ter dito
lateja e se transforma num afago
vagaroso e doloroso

caído como uma folha no rosto do homem
que tine um sol no riso na paz de cada flor


Carlos Orfeu

Sacerdócio


















De tantas ciências e tantas problemáticas
Só mudaste de posição na ordem da sala
O que aprendemos cada dia com cada aluno
Um universo aberto no escuro
Do que ensinamos com uma doce apatia
Recebemos respostas por toda uma vida


Onde tua voz alcançou estabeleceste uma ponte
Água límpida que transborda da fonte
As bocas sedentas para saciar
Nossas estrelas na órbita de espera
Esperam o fulgor do seu brilho
Do pó mágico da sapiência preceptora
Canetas que escrevem caminhos
A construção sólida de trilhos
E até mapas de voos


Corrigindo corações no lugar de exercícios
Alimentando almas com presença de espírito
Preparando planos de aulas
Preocupando-se com vidas


O corpo cansado da longa rotina
Do espaço escolar até sua morada
Leva aborrecimentos, sorrisos e alegrias
Leva agradecimentos, estórias e a magia de uma profissão.



Henrique Rodrigues Soares - Canibais Urbanos

Perdi os Meus Fantásticos Castelos

























Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" 

Meu Deus, me dê a Coragem























Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


Clarice Lispector

Maioridade Penal



















Dormir como menino,
Acordar como moço
Repreensão com mimos
Agora o duro falar grosso


A inocência arrancada ao nascer do broto
A consciência adulta cobrada no garoto


Trabalho infantil
Escolaridade boçal
Sanidade senil
Brutalidade penal


Pais sem pais
Crianças sem infância
Ruas sem paz
Pais na infância


Se me deram algo?
Foi o calabouço
O escuro no palco
O vilão sem esforço


Prisão para quem nunca foi livre
Solução ou um mais belo drible
Para quem a escolha do crime
Foi sua? Ou cores de um time
Que foi livre imposto
Para quem não tem voz
E também não tem rosto.


Hoje dezoito, amanhã dezesseis
Para frente o que será de vocês


Dura matemática com seu frio numerário
Daqui a pouco algemados nos berçários.




Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Solidão Urbana

















E todo esse cansaço
Que quase sempre disfarço
E nesse dia de mormaço
Com cara de fracasso


Alimenta teu amor sozinho
Desentoado e sem carinho
Assustado e sem caminho
Como pássaro sem ninho


Busca fugir da solidão sem jeito
Uma dor que anda pelo peito
Suave como o rio em seu leito
Descansa no devido seu direito


A cura sobe e desce andares
Entre o mórbido e artificial luminares
Um ímpar entre números pares
O som musical que bebe nos bares


As paredes do quarto são teu abrigo
De louco a lúcido, está o perigo
Entre livros e comprimidos... seus amigos
Choram no limiar do teu umbigo.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio














O anjo barroco no cume da paródia
onde o divino sino enferruja

olha a centopeia da cidade
a infernal comédia e seus besouros mecânicos

olha a multidão se desmontar
como Legos uns nos outros
e se confundirem nos pedaços

É sempre o mesmo cenário
que nos engana e nos consome


Carlos Orfeu

TEU DEVER ESTÁ CUMPRIDO





















Mesmo diante das ausências
Mesmo com toda distância
Mesmo sem saber das datas
Dá-se um jeito

Porque é utopia
a família perfeita
E também se entende
se a prioridade é outra

Em vez de brinquedo, o estudo
Em vez de luxo, comida no prato
Às vezes tudo isso que parece pouco
requer um imenso sacrifício

Também tem afeto num abraço tosco
e amor incontido num singelo afago
Carinho tímido é um ato de coragem
diante de tanta dureza no mundo

Pai pra outra batalha
vai à caça
e se houver tempo volta
pro almoço de domingo
Eu não ligo pro atraso
Teu dever está cumprido


Alan Salgueiro

História da América I






















Colombo
Navegando por mares imprecisos
Acreditando no incompreensível
Que olhos civilizados pudessem ver
Buscando ancorar no afã desconhecido


Se no mar que absorve os indecisos
A loucura como um inimigo invisível
Sobre a tripulação a perecer
Que se alimenta de sonhos apodrecidos


Liderar com braço estendido
Aventureiro, louco ou decidido
Em que sustentar? O que explicar?
Os caminhos que só sabe o mar


No mar, necessitando terra avistar
Dias longos de mar... sonhar como louco
Vendo terra, pisar terra por pouco
Purificado em terra pelo sal de mar.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.






















Rebelião é Fênix da consciência
Lutam poetas de peles e lanças
Queimam grilhões e açoites
Submetem jugos de aços
Nas emboladas aos antepassados
Abrem celas
Furam cercos como flechas
Melam de sangue a melanina desses crimes
E o que resiste na tortura muda tua e minha
São cicatrizes de cores
Luta, brado e poesia.


Paula Beatriz Albuquerque













Não!
Não quero mais viver o cotidiano de horas descoloridas
Nem passar por ruas sonolentas, em que o vento - indolente - estaciona nas esquinas, deixando as arvores doentes de tédio e calor
Tão pouco, quero sentar em bancos cansados, de praças desbotadas de alegrias - sem o farfalhar de risos de crianças
Juro!
Não quero mais a sombra de coretos enfadonhos e ausentes de histórias de amor
Não!
Não quero uma cidade sem céu - vestida de prédios, carros e barulho - cheirando a cimento e coberta de poeira

Eu quero a música das cores
Eu quero mil feixes de luz e cor
Eu quero um-sol-de-um-céu que não seja varado por arranha-céus
Eu quero um sol que chegue em mim - livre e certeiro - movendo vidas e girando girassóis..


Wanda Monteiro

A Rosa destruída













Quem deveria te proteger
Você mais temia
A bela rosa do jardim
Suas pétalas caia.


Quem te jurou amor
Com agressões te maltratara
Só espinhos restaram no corpo
Da rosa destruída


Cadê a liberdade prometida?
Tiraste do jardim para colocar
Num pequeno vaso.
Regada por suas próprias lágrimas
A rosa perdeu a alma.


Sobrevivência
Numa casa que é sua prisão
Num amor que era sua dor
Pesadas mãos que aterrorizam
Olhos que te consumiam.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...