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Mostrando postagens de Outubro, 2015

Pressupostos

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Que tudo propõem! Escola! Que tudo expõem! Esmola! Das sobras que me restaram agora Se inocência partiu! Embora!

As palavras duras! Que sola! Que absorvem impuras! Empola!

Que tudo impõem! Esfola! Que tudo excluem! Sacola! As dores como música, afloram! O cuidado sustenta ou escora?

A canção de ternura. Que cola Corpos e sonhos são molas Para os guardados a tira-cola O sabor do refrigerante de cola.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Mi Manchi

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Hoje enxuguei lágrimas De lembranças De memórias

Hoje tua falta Foi mais forte do que dias anteriores Hoje meu coração Amanheceu nublado Acho que vai chover

O sorriso gravado O riso pintado Na dor marcada Por datas vazias

A piada sem graça Teu trato paterno Deixaram um Saara No peito de todos que te tinham por perto Te esquecer!  Não tem como Prefiro ficar com este Sentimento arrebatador


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos Para Ozias Moura in memorian

Sobrevivo

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Sobrevivo
na bagunça dos sentimentos
na displicência das datas
entre uma canção e outra
não somente em pensamento Sobrevivo
na cerimônia e no seu vestido
na súbita falta de equilíbrio
na estrutura do futuro
nas estampas e nas entrelinhas Sobrevivo na intensidade
na paixão que arde e nas tatuagens
na estrela cadente e na coragem
a cada compasso do espetáculo No próximo verso, no caderno
Nos bocejos, nos presságios
Na intuição e nas insônias
Nas fantasias e nos devaneios Mesmo em coma, na esperança
No presente, nas ausências
Nos livros, nos lábios
Nos lares do peito
onde sei que ainda moro
Sobrevivo Alan Salgueiro
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A realidade vive passando a esmo de mim
nela reside um cotidiano insólito
despido de minhas vontades as portas que atravesso
sem escolha
são os acasos que se vão cumprindo e cessando nesse meu devir o que me acontece
sem que eu consinta
são janelas que se abrem na arquitetura do tempo... o mesmo tempo que flui nesse meu rio
onde tudo se revela e se escreve
_______________ Impermanente!
Wanda Monteiro

Os meus versos

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Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo.
Tu disseste para ti: "Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!"
- Pois foi o teu olhar; a noite escura,
- (Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d'alma a soluçar!
..........................................................
Aí não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca

Desconstrução

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Olha aqui seu moço Não sou rascunho ou esboço Que espera assinatura de endosso De alguém

Se cheguei à pele e osso Não demandei algum esforço Me jogaram nesse fosso Sem ninguém

As paredes sem arcabouço O estômago sem almoço Sem nenhum dinheiro no bolso Sem nenhum vintém

A alegria que foi sem reembolso A sequidão de um único poço Não tem causado mais alvoroço Para este refém

Mas enquanto puder falar grosso Áspero e cru como seu emboço Se levaram o sulco, ficou o caroço Neste vaivém.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Tardes Proustianas

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Se belo, tardio e triste chega o crepúsculo Para esquecer a maquiagem do raiar da aurora A fragilidade da soberba testorogênica dos músculos Que no tempo se une as rugas e rusgas que agora

Toma o caminho silencioso para a morte Que encolhe a estrada de quem escolhe Se aparências desmoronam dos mais fortes O que se reprova acolhe ou se recolhe

Da história muda e então calada Dos amores que secaram no sol escaldante O gosto de ansiedade obcecada O cansado partir do retirante

Ficou o instante límpido fotográfico A proposta congelante do passado Os caracteres do alfabeto indo-arábico Para grafitar o que foi codificado.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio Agosto 2015

Ao Crepúsculo

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O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo 
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,
Fitando no horizonte a linha da montanha.
A montanha é tranqüila e forte, e grande e boa.
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.
Embalada na voz do grande solitário,
Tu mortificarás teu casto coração
Na dor de revocar o noivado precário.
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?
Por que me desvendaste a tua sedução?)
Se nos aparta o espaço, o tempo — esse nos liga.
A lembrança é no amor a cadeia mais pura.
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:
O mar segredará tudo o quanto eu te diga,
E a montanha, dir-me-á tua imensa ternura.
Manuel Bandeira, em "A cinza das horas", 1917.

O homem que vinha ao entardecer

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Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.
Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.
Cumpria rigorosamente os rituais.
Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.

José Eduardo Agualusa, em "O coração dos bosques". 1991.

Infâncias

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gosto de mãos rupestres
- de infâncias,
de me dobrar e tombar
em risos e estigas que a minha rua já não tem.
chorar – escrevendo um livro depois apagado.
rir – lendo memórias apagadas.
a sujidade de infância tem um cheiro
de barro
e trepadeiras poerentas.
quando me sujo de infâncias
espirro
um sardão enorme
- e um gato dançado
pelo tiro da minha pressão de ar.
não quero apenas carícias
nas cores desse sardão ensolarado
sujo de infância
quero pôr pedido-desculpa
na vida do gato vesgo...
Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009 p. 35.

Resposta

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Sabe o poeta
que ela não queria
fazer-se verso
morrer-se verso?
O que diria o poeta
se ela lhe saltasse do papel
materializasse em vida
em carne, com sorrisos
e olhos de insuportavel verdade
e uma fome que lhe devorasse
o papel
a caneta
as palavras
e mastigasse a poesia
Sabe o poeta
que desnuda
e desvela a alma
dessa pobre mulher
que jamais jamais
desejou fazer-se verso?
Gosta mesmo o poeta é da fantasia
Geise Gomes

Bem no fundo

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No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria 
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Paulo Leminski

Distrações

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Se o vento como um amigo traiçoeiro Que nos acaricia depois constrange Assopra tuas coxas levantando tuas pétalas Esvaziando-te de adereços e complicações.

Já meus olhos como um agoureiro Fixam como encantados pelo que ver Nos instantes casuais da perfeição Quase refeito do ocasional das situações

Disfarço o receio frente o embaraço Da falta de recheio do teu abraço Disfarço o anseio triste dos percalços Da sobriedade fria neste cadafalso

Que me permitas a insegurança Da solidariedade amarrada de tuas tranças Dos beijos molhados de veneno Adocicados, mordazes e extremos.

Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio 30/03/2015.

Sou Negro

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Porque nasci negro? Porque me olham como diferente? Sempre com potencial carente Ou preferencial delinquente

Se estudo tenho cara de repetente Sou tratado como descendente Estrela sem brilho decadente Minha fé é sem categoria e descrente

Sou da cor da noite Mas de noite sou o que preocupa Nunca foi mocinho, sou o vilão!

O mal é negro O negativo é preto Sou falta de luz, escuridão.

Sou vergonha na história De uma pátria sem memória Sou motorista dos outros, sou garçom. Não sou servido, não sou maçom.

Sou cidadão da cor Da cor da exclusão Sou cota afirmativa O futuro sem canção.


Henrique Rodrigues Soares – Hora de Silêncio
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Enquanto..
Em algum tempo, uns gritam
em algum lugar, outros tantos silenciam poucos plantam flores 
outros tantos atiram pedras sonhos morrem empoeirados
realidades se dissipam tudo isso acontece sem que eu consinta e pesa sobre minha pena Eu sigo
colhendo ilusões
na sanha de mais humanidade.
Wanda Monteiro
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A manhã cinza tece o silêncio
árvores cortejam o pensamento
enquanto lentamente caminhamos
entre as estátuas frias 
molhadas de ausências
e o tudo que deveríamos ter dito
lateja e se transforma num afago
vagaroso e doloroso
caído como uma folha no rosto do homem
que tine um sol no riso na paz de cada flor
Carlos Orfeu

Sacerdócio

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De tantas ciências e tantas problemáticas
Só mudaste de posição na ordem da sala
O que aprendemos cada dia com cada aluno
Um universo aberto no escuro
Do que ensinamos com uma doce apatia
Recebemos respostas por toda uma vida


Onde tua voz alcançou estabeleceste uma ponte
Água límpida que transborda da fonte
As bocas sedentas para saciar
Nossas estrelas na órbita de espera
Esperam o fulgor do seu brilho
Do pó mágico da sapiência preceptora
Canetas que escrevem caminhos
A construção sólida de trilhos
E até mapas de voos


Corrigindo corações no lugar de exercícios
Alimentando almas com presença de espírito
Preparando planos de aulas
Preocupando-se com vidas


O corpo cansado da longa rotina
Do espaço escolar até sua morada
Leva aborrecimentos, sorrisos e alegrias
Leva agradecimentos, estórias e a magia de uma profissão.



Henrique Rodrigues Soares - Canibais Urbanos

Perdi os Meus Fantásticos Castelos

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Perdi meus fantásticos castelos 
Como névoa distante que se esfuma... 
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

Perdi minhas galeras entre os gelos 
Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

Perdi a minha taça, o meu anel, 
A minha cota de aço, o meu corcel, 
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
Sobre o meu coração pesam montanhas... 
Olho assombrada as minhas mãos vazias... 


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas" 

Meu Deus, me dê a Coragem

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Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


Clarice Lispector

Maioridade Penal

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Dormir como menino, Acordar como moço Repreensão com mimos Agora o duro falar grosso

A inocência arrancada ao nascer do broto A consciência adulta cobrada no garoto

Trabalho infantil Escolaridade boçal Sanidade senil Brutalidade penal

Pais sem pais Crianças sem infância Ruas sem paz Pais na infância

Se me deram algo? Foi o calabouço O escuro no palco O vilão sem esforço

Prisão para quem nunca foi livre Solução ou um mais belo drible Para quem a escolha do crime Foi sua? Ou cores de um time Que foi livre imposto Para quem não tem voz E também não tem rosto.

Hoje dezoito, amanhã dezesseis Para frente o que será de vocês

Dura matemática com seu frio numerário Daqui a pouco algemados nos berçários.



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Solidão Urbana

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E todo esse cansaço Que quase sempre disfarço E nesse dia de mormaço Com cara de fracasso

Alimenta teu amor sozinho Desentoado e sem carinho Assustado e sem caminho Como pássaro sem ninho

Busca fugir da solidão sem jeito Uma dor que anda pelo peito Suave como o rio em seu leito Descansa no devido seu direito

A cura sobe e desce andares Entre o mórbido e artificial luminares Um ímpar entre números pares O som musical que bebe nos bares

As paredes do quarto são teu abrigo De louco a lúcido, está o perigo Entre livros e comprimidos... seus amigos Choram no limiar do teu umbigo.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio