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Mostrando postagens de Junho, 2015

O aplauso dos homens

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Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?
Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.
Só creem no divino
Os que o trazem em si.
Menschenbeifall
Ist nicht heilig mein Herz, schöneren Lebens voll,
Seit ich liebe? Warum achtet ihr mich mehr,
Da ich stolzer und wilder,
Wortereicher und leerer war?
Ach! der Menge gefällt, was auf den Marktplatz taugt,
Und es ehret der Knecht nur den Gewaltsamen;
An das Göttliche glauben
Die allein, die es selber sind.
Friedrich Hölderlin. "O aplauso dos homens". [tradução Manuel Bandeira]. em: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. Friedrich Hölderlin. "Gedichte". In:_____. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser, 1970.

Três metades

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Meio dia, 
um dia e meio,
meio dia, meio noite,
metade deste poema
não sai na fotografia,
metade, metade foi-se.
Mas eis que a terça metade,
aquela que é menos dose
de matemática verdade
do que soco, tiro, ou coice,
vai e vem como coisa
de ou, de nem, ou de quase.
Como se a gente tivesse
metades que não combinam,
três partes, destempestades,
três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.

Paulo Leminski, do livro "Distraído Venceremos", 1987.

O Viandante

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Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

Carlos de Oliveira. Mãe pobre. Coimbra: Coimbra Editora, 1945.

Ao meu Primogênito

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Ao te pegar nos braços Um sorriso rico aconteceu Ao ver em ti meus traços Que o Divino me concedeu
Lágrimas deslizaram em meu rosto Palavras não cabiam, vozes calaram. Um novo aroma, um novo gosto, Por toda vida me dominaram.
Se dizem que parece comigo Não sei? Não me preocupo! Minha lei, que me ocupo. Ver nos teus espelhos o Amigo Que para ti sempre serei.

Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio Para Fernando Henrique Moura Soares 27/06/2015.

Canção do Exílio

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Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Murilo Mendes, em "Poesias, 1925/1955". Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. [Nota: Paródia da "Canção do Exílio", do livro 'Primeiros Cantos' (1846), de Gonçalves Dias].

A Ilha

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Tanta palavra para chegar a ti, 
tanta palavra,
sem nenhuma alcançar
entre as ruínas
do delírio a ilha,
sempre mudando
de forma, de lugar, estremecida
chama, preguiçosa
vaga fugidia
do mar de Ulisses cor de vinho.
Eugénio de Andrade, em "O ofício de paciência". 1994.

Fragmentos urbanos

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Vendo teu corpo humana escultura Que absorve minha atenção Ouvindo o trash do sepultura Que acelera meu coração

Tudo neste mundo é meio louco Não há sentido nas palavras proferidas Tudo que para alguns é muito Para outros é tão pouco

As balas perdidas que dizem perdidas Como os sonhos do alvejado Números frios das estatísticas Para ações de frios advogados.
Henrique Rodrigues Soares

DIZER CATORZE VERSOS

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Dizer catorze versos ao acaso,
falar de ti, de mim, falar de nós.
De nós, que nos cantamos num abraço
e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo
e isso é ter-te em mim, como se eu fosse
cada um dos momentos em que chamo
por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora
quando nada me chega para o canto
que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.
Não sei que mais dizer-te nesta hora
pois dizer que te amo é muito pouco.


Joaquim Pessoa

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje...

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Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.
E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.
De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Cecília Meireles, do livro "Cecília de bolso" [org. Fabrício Carpinejar], Porto Alegre/RS: L&PM, 2010.

Inverno

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O trem passou e fiquei na estação Confuso entre meus velhos empecilhos O silêncio absurdo no coração É o fruto das distâncias entre trilhos

O tempo passou e fiquei na lentidão De um rosto assustado e sem brilho Levado por uma solida tradição De gravidez que não produz filho

O vento passou e fiquei ferido Por minhas próprias mãos Com marcas tão profundas

Este inverno tão temido Com tardes sem previsões A noite comovente e absurda.

Henrique Rodrigues Soares
27/07/2011.

Vaso grego

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Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Alberto de Oliveira, em "Sonetos e poemas", 1886.

Poetas Velhos

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Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.
Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.

Paulo Leminski, do livro "Caprichos e relaxos", 1983.

José foi ao vale dos ossos.

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Parece que lhe tiraram o chão Te colocaram dentro do poço Parece que lhe cegaram a visão Te aprisionaram num calabouço

Parece que já não sonhas E também já não dormes Parece que angustia te acompanha E a ansiedade te consome

Mortos, não mais que mortos. Um vale de sequíssimos ossos Solidão ingrata sem portos Ruína, e confusão em destroços.

Em que sustenta tua confiança? Cercado de vergonha e dores A alma ingênua procura esperança Secou a vida com suas cores

II O vento divino da mudança Levantam-se ossos, reconstrói tendões. Nascem carne e epiderme de criança Novos rumos para novas canções

No lugar de chão agora tem asas O poço, água para matar tua sede. Resplandece o que estava sem luz Olhas tudo agora pela graça

Os sonhos são realidade Para aquele que tem dormido Renovas tua identidade Com espírito rejuvenescido.

Henrique Rodrigues Soares
20/07/2011.

Poemas Antigos

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Já viste a alma presa
no cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
no cômputo total
ela não vai além de uma gota,
um suspiro de orvalho
sacrificado ao ar. 
Ao universo nada importa,
tudo traz o selo da perfeição.
Não choro -
mas como queria de vós, 
Natureza, uma tal isenção.


Fernando Campanella 1986.

1.22

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A nós , nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.
É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.
Jovem, não há virtude
na velocidade
e no voo aonde for.
Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.
1.22
Wir sind die Treibenden.
Aber den Schritt der Zeit,
nehmt ihn als Kleinigkeit
im immer Bleibenden.
Alles das Eilende
wird schon vorüber sein;
denn das Verweilende
erst weiht uns ein.
Knaben, o werft den Mut
nicht in die Schnelligkeit,
nicht in den Flugversuch.
Alles ist ausgeruht:
Dunkel und Helligkeit,
Blume und Buch.
Rainer Maria Rilke. "Sonette an Orpheus / Sonetos a Orfeu". [tradução Augusto de Campos]. In: CAMPOS, Augusto. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013.

Coração da Liberdade

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Estive, estou e estarei
no coração da realidade,
perto da mulher que dorme,
junto do homem que morre,
próximo à criança que chora.
Para que eu cante, os dias são momentâneos
e o céu é o anúncio de um pássaro.
Não me afastarei daqui,
da vida que é minha pátria,
e passa como as águias no sul
e permanece como os vulcões extintos
que um dia vomitam sono e primavera.
Minha canção é como a veia aberta
ou uma raiz central dentro da terra.
Não me afastarei daqui, não trairei jamais
o centro maduro de todos os meus dias.
Somente aqui os minutos mudam como praias
e o dia é um lugar de encontro, como as praças,
e o cristal pesa como a beleza
no chão que cheira à criação do mundo.
Adeus, hermetismo, país de mortes fingidas.
Bebo a hora que é água; refugio-me na estância
quando a aurora é mistura de orvalho e de esterco,
e estou livre, sinto-me final, definitivo
como o tempo dentro do tempo, e a luz dentro da luz
e todas as coisas que são o centro, o coração
da realidade que escorre como lágrimas.

Lê…

Palavras de Amor

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´











Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.
Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que a palavra ou discurso poderia
Dizer amor na língua da semente?

José Saramago, em "Provavelmente alegria". Lisboa: Editorial Caminho, 1985.

Como se te perdesse, assim te quero

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Como se te perdesse, assim te quero
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst, in "Do Amor".

Namorados

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Com sorrisos desarmados As janelas são abertas Pequeninos olhos encantados O brilho do sol nos desperta


Mãos intimas apaixonadas E segredos divididos Almas aceleradas Com passos decididos


Beijos açucarados Sonhos conhecidos Destinos entrelaçados Por caminhos comprometidos


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Estação

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As pontes de ferro desativadas
evocam refugos e traças,
são naves caducas, ex-órbitas,
são marias que viraram fumaça. 


A velha ordem se rompe,
parabólicas acolhem a pax americana.
A estação da memória resiste
mas já é Minas fossilizando. 



O sol é grande, caem co’a calma as aves

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O sol é grande, caem co’a calma as aves
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!
Francisco Sá de Miranda. "O sol é grande, caem co'a calma as aves". In:_____. Obras completas. Lisboa: Sá da Costa, 1976. Vol. I.

O momento de

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Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
António Ramos Rosa. A nuvem sobre a página. Lisboa: Dom Quixote, 1978.

Casa à entrada do lago

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Esta luz por sobre a velha casa
transpôs o dia, desmancha a tarde.
Como aves de longo alcance
meus olhos requerem distância
e percorrem a longa, aérea 
trilha deixada. 
Não me lembrem agora que caminhos 
apenas conduzem a caminhos 


que labirintos