Postagens

Mostrando postagens de Agosto, 2015

Nossos Jovens

Imagem
Os nascidos vivos e certidões de nascimento          Os recipientes vazios sem preenchimento          A zombaria e o mal como divertimento          A estética biônica de anabolizantes de enchimentos

         A invalidez precoce do conhecimento          A lucidez sombria de entendimentos          A violência instintiva como entretenimento          A alegria impermeável dos aborrecimentos

         Nada ficou puro em seus pensamentos          Das exclusões formam seus ciclos de pertencimentos          Por quantos dos nossos enxugaremos lamentos          Em notas frias do convívio social em falecimentos.


         Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
         Abril 2015
Imagem
canoas, barcos, embarcações
é o que somos
seguindo no fio líquido e corrente da vida
carregando pessoas
sonhos
cargas de alegrias
de tristezas
e cartas grafadas na lírica da existência seguimos...
ora - olhando o sumidouro do horizonte na tentativa de ver a corrente futura
ora - olhando tempo às avessas na corrente passada procuramos - no sempre do tudo - o manso das águas
o plácido remanso das praias e das enseadas aceitamos o desafio da fúria de marés para beber o medo e o espanto no corpo vivo de temporais provamos do doce das águas correntes
e provamos do sal na vítrea dança das águas onduladas.. no mar da história vivemos de partidas e chegadas
ancorando em afetos
em saudades
distantes cais até que..
na corrente de um repente
nos sentimos emborcados sobre a areia
derramando o lastro de soçobros e
ais ancorados no avesso de nós
Wanda Monteiro

EU TO FALANDO DE AMIZADE

Imagem
Irmandade é questão de escolha
pra quem a gente oferece
uma espécie de medalha
que prova que família
não se restringe
à relação sanguínea É a gente quem decide quem fica
no lugar mais alto do pódio
e aqui o único vício
é a suspeita do crime perfeito
que nos define
essa poesia de dizer com os olhos E o entendimento mútuo
de cada detalhe
sem a necessidade
de proferir qualquer palavra Combustível pra alcançar o impossível
Meu pronto socorro antes da sirene de qualquer alarde
A melhor viagem é a gente em turma falando merda
Te guardo no peito e conto nos dedos para além dos anelares Nosso enlace advém da alma
e para além dos lares, creia
eu tô falando de amizade Alan Salgueiro Rascunhos de Revolução
Imagem
seu cheiro insiste nas minhas narinas ainda escorre mudo nas paredes
instiga e delira meus membros
articulados no ar do vazio 
entrecruzado nos lábios de fumaça
penso nas palavras que deveria ter escrito
nos multiplicados lábios de seu corpo
quantos restos de ontem
unidos nesse cheiro
fecunda o espinho de sentir
a falta que em mim cresce como um tumor
Carlos Orfeu

Homens e ratos

Imagem
Os prédios velhos e novos estão mortos todos dormem na lenta escuridão Na garagem dormem os seus carros e embaixo do viaduto um ser humano quebra o silêncio com suas dores com seus temores num gesto calado de miséria

Revirando o lixo que vem dos prédios ele alimenta sonhos ele alimenta estomago ele abastece a esperança dos sonhos dos outros do desperdício dos que podem dormir e sonhar.

Henrique Rodrigues Soares
2012

Pornografia

Imagem
colocando na cueca os hospitais e as escolas colocando nas contas correntes pessoais...  rios que transbordam

sem memória as urnas elegem os mesmos jogadores escolas com professores calados e tristes

os nobres com suas leis de reis, os pobres com seus deveres e impostos de plebeus

os doentes sangram filas do SUS ao cemitério trocam-se legendas por ministérios e faz se leis como cheques

lá em Brasília, nossa Disneylândia nossos filhos reviram lixo e brincam de Mickey mouse para os maiores a cracolândia

os ricos comem os pobres fomem os ricos consomem os pobres somem

os que rezam agora purgam os que dormiram agora esmurram os que prometeram agora cobram os custos das obras dobram

e se há harmonia nos defeitos o Brasil é um paraíso perfeito a orgia partidária em sua geografia para todos os gostos de pornografia.

Henrique Rodrigues Soares
25/04/2012
Imagem
Tentei conter a pressão do papel
Sua potencialidade enigmática
Que jorra tantos berros não-ditos
E sentidos plenos de incertezas.
Tentei conter o fluxo ditirâmbico
Dessa escandalosa pausa
entre o verbo e o sussurro.
Tentei mas fui capturada pelo furacão
Que mora nesse vazio grávido
Então sou letras transitando
Em versos despidos de um fugaz idílio.
Não há sonho. Há sono, ressaca e dor.
Torpor talvez. Ou nada disso.
É uma folha em branco
A guardar as lacunas do meu por enquanto.
Paula Beatriz Albuquerque

Notas Dissonantes

Imagem
Entre monarquistas e republicanos Entre petistas e tucanos Entre absolutistas e democratas Entre a revelia e os burocratas

Mata mata ou búlica O que é privado ou coisa pública Entre o preso e a liberdade Os disfarces e a realidade

Entre as virgulas e o ponto Viva a poesia e o conto Entre atenienses e espartanos Entre russos e norte-americanos

Entre os personagens e atores Entre substitutos e impostores Entre tudo que cabe no verso O incompreensivel do universo


Se são escolhas ou apostas Mais perguntas do que respostas Notas dissonantes que derramei Se “Só sei que nada sei”



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Marcas do Tempo

Imagem
Certas horas é muito forte o silêncio calando tudo o que vem de dentro Um silêncio que dói até a alma com cicatrizes que falam sem palavras.

Acordo todos os dias me perdendo um pouco Num caminho sem volta E vou chorando manhãs e meus ocasos e o tempo passa sem deixar desculpas.

Henrique Rodrigues Soares
12/04/2012
Imagem
No instante na sala
no ordinário jarro
a flor de plástico
num ludíbrio inventa vida em sua inutilidade 
nas paredes em infiltração de gritos
séculos atravessam o sonho
e a fronteira da sala
fechada nas linhas das mãos que seguram
os retratos mofados
trancados em poeira
um mausoléu de memória
No lado esquerdo da cena
o espelho num passe de mágica
come a sala e a flor
os gritos e o sonho
Nas janelas abertas no relógio
tudo gira novamente
Carlos Orfeu

Metafísica da Moda Feminina

Imagem
Tudo o que te rodeia e te serve
Aumenta a fascinação e o enigma.
Teu véu se interpõe entre ti e meu corpo,
É a grade do meu cárcere.
Tuas luas macias ao tato
Fazem crescer a nostalgia das mãos
Que não receberam meu anel no altar.
Tua maquilagem
É uma desforra sobre a natureza.
Tuas jóias e teus perfumes
São necessários a ti e à origem do mundo
Como o pão ao faminto.
Eu me enrolo nas tuas peles nos teus boás
Rasgo teu peitilho de seda
Para beijar teus seios brancos
Que alimentam os poemas
Entreabro a túnica fosforescente
Para me abrigar no teu ventre glorioso
Que ampliou o mundo ao lhe dar um homem a mais.
Teus vestidos obedecem a um plano inspirado
Correspondem-se com o céu com o mar as estrelas
Com teus pensamentos teus desejos tuas sensações.
A natureza inteira
É retalhada para ornar teu corpo
Os homens derrubam florestas
Descem até o fundo das minas e dos mares
Movem máquinas teares
Soltam aviões pelos ares
Lutam pela posse da terra matam e roubam pelo teu corpo.
O mundo sai de ti, vem desembocar em t…

Pedra filosofal

Imagem
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
em perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Sombras

Imagem
Me escondo nas sombras Escondo meus pecados com desejos que não tenho com um discurso que discordo

Ao esconder-me todo dia praticando a covardia para não sofrer os danos de quem é a si mesmo

O sol quando chega retira tudo da obscuridade. Os meus olhos tem medo da claridade. Prefiro as sombras, prefiro os muros que me protegem da minha realidade.

Henrique Rodrigues Soares
28/03/2012

Música mirabilis

Imagem
Talvez a ternura 
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo
– e desperte o lume.

Eugênio de Andrade, em "Mar de setembro". 1961.
Imagem
nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e. e. cummings Tradução: A…

Lembranças

Imagem
Porque me dói tanto. Tu submerges...  com tanta força e com lágrimas desato este nó na garganta.

A febre com sua cor pálida Meus olhos quentes feitos brasa

Doce ou amargo profundo ou raso Te sinto como carinho suave Te sinto como espinho na carne

Mas preciso de ti... Não vivo sem ti...

Henrique Rodrigues Soares
08/03/2012
Imagem
o fim mero ponto zero
acaso que não se vê
estrada que se sucede
dessa parte única 
busco o começo
da sensação de buscar
sentir tudo anterior
a partida e voltar ao mesmo
ponto que não se vê
o zero é reinicio
se inventa no regresso
de outra vez nascer
constrói o desejo
dentro de outra coisa que morre
Carlos Orfeu
Imagem
Ouço a música do tempo
Se repartir em cantigas antigas.
As notas se prendem como imãs
Formando um manto alegórico
Que nos alça para fora de nós e acima.
O tempo volta com saudade
Abre os abraços sinfônicos
A nos girar as mesmas crianças
Pelas vias de nossas rugas.
Envelheço calmamente.
Abraço minha sabedoria.
Orquestro minhas obras
Enquanto executo as árias
Das muitas Auroras paridas.
Paula Beatriz Albuquerque

Praia

Imagem
Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios
As ondas desenrolam os seus braços
E brancos tombam de bruços
A praia é lisa e longa sobre o vento
Saturada de espaços e maresia
E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A ÍNDOLE OU A PELE?

Imagem
A índole ou a pele
o que mais lhe vale?
Será possível arrepiar-se
com o caráter? E se um atributo um tanto turvo
for uma tormenta,
Compensa, se no toque
o coração saltar aos pulos? A boa cartilha ou o desatino?
A polidez ou o alto alarde?
A tranquilidade ou a eterna
pulga atrás da orelha? Um certo flerte
com a loucura e o desajuste...
A ficha limpa ou a suspeita
de um crime sem culpa? A índole ou a pele
o que mais lhe vale? Qual feitio mais lhe enfeitiça
e lhe atiça e desperta a cobiça
pra uma mente cálida? Garantia de sair ilesa
ou a surpresa pálida
qual será a dose certa? Se não houver dolo
nem equilíbrio, nem habeas corpus
O que mais lhe vale,
a índole ou a pele? Alan Salgueiro Rascunhos de Revolução

NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE

Imagem
Vestígios da vigília da noite passada nos meus bocejos Espasmo involuntário do teu corpo
Tua pouca roupa denuncia a apneia Eu te rapto
numa atividade ininterrupta
e quando ainda é madrugada
já atrasado, levanto cedo Ao me desvencilhar olho teus seios
A seda dos lençóis cobre teu dorso
das pernas se desfaz o entrelace
A mente quase lúcida ali parte O meu "bom dia" tem a energia
de algumas horas antes
Alerto que tua fuga
me parece inútil Tua cabeça confusa
na hora da pane
só repete o mantra
"A gente ainda vai..." Ignorar o expediente
porque o corpo quando pega fogo
é o mais faminto pedinte
O sono só aparece quando não deve
Na manhã do dia seguinte Alan Salgueiro Rascunhos de Revolução