Nossos Jovens

         

       













         Os nascidos vivos e certidões de nascimento
         Os recipientes vazios sem preenchimento
         A zombaria e o mal como divertimento
         A estética biônica de anabolizantes de enchimentos


         A invalidez precoce do conhecimento
         A lucidez sombria de entendimentos
         A violência instintiva como entretenimento
         A alegria impermeável dos aborrecimentos


         Nada ficou puro em seus pensamentos
         Das exclusões formam seus ciclos de pertencimentos
         Por quantos dos nossos enxugaremos lamentos
         Em notas frias do convívio social em falecimentos.



         Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

         Abril 2015











canoas, barcos, embarcações
é o que somos
seguindo no fio líquido e corrente da vida
carregando pessoas
sonhos
cargas de alegrias
de tristezas
e cartas grafadas na lírica da existência

seguimos...
ora - olhando o sumidouro do horizonte na tentativa de ver a corrente futura
ora - olhando tempo às avessas na corrente passada

procuramos - no sempre do tudo - o manso das águas
o plácido remanso das praias e das enseadas
aceitamos o desafio da fúria de marés para beber o medo e o espanto no corpo vivo de temporais

provamos do doce das águas correntes
e provamos do sal na vítrea dança das águas onduladas..

no mar da história
vivemos de partidas e chegadas
ancorando em afetos
em saudades
distantes cais

até que..
na corrente de um repente
nos sentimos emborcados sobre a areia
derramando o lastro de soçobros e
ais

ancorados no avesso de nós


Wanda Monteiro

EU TO FALANDO DE AMIZADE


Irmandade é questão de escolha
pra quem a gente oferece
uma espécie de medalha
que prova que família
não se restringe
à relação sanguínea

É a gente quem decide quem fica
no lugar mais alto do pódio
e aqui o único vício
é a suspeita do crime perfeito
que nos define
essa poesia de dizer com os olhos

E o entendimento mútuo
de cada detalhe
sem a necessidade
de proferir qualquer palavra

Combustível pra alcançar o impossível
Meu pronto socorro antes da sirene de qualquer alarde
A melhor viagem é a gente em turma falando merda
Te guardo no peito e conto nos dedos para além dos anelares

Nosso enlace advém da alma
e para além dos lares, creia
eu tô falando de amizade


Alan Salgueiro

seu cheiro insiste nas minhas narinas
ainda escorre mudo nas paredes

instiga e delira meus membros
articulados no ar do vazio
entrecruzado nos lábios de fumaça

penso nas palavras que deveria ter escrito
nos multiplicados lábios de seu corpo

quantos restos de ontem
unidos nesse cheiro
fecunda o espinho de sentir
a falta que em mim cresce como um tumor


Carlos Orfeu

Homens e ratos

















Os prédios velhos e novos
estão mortos
todos dormem na lenta escuridão
Na garagem dormem os seus carros
e embaixo do viaduto
um ser humano quebra o silêncio
com suas dores
com seus temores
num gesto calado de miséria


Revirando o lixo que vem dos prédios
ele alimenta sonhos
ele alimenta estomago
ele abastece a esperança
dos sonhos dos outros
do desperdício dos que podem dormir
e sonhar.


Henrique Rodrigues Soares

2012

Pornografia


















colocando na cueca
os hospitais e as escolas
colocando nas contas
correntes pessoais...  rios que transbordam


sem memória as urnas
elegem os mesmos jogadores
escolas com professores
calados e tristes


os nobres com suas leis
de reis, os pobres
com seus deveres
e impostos de plebeus


os doentes sangram filas
do SUS ao cemitério
trocam-se legendas por ministérios
e faz se leis como cheques


lá em Brasília, nossa Disneylândia
nossos filhos reviram lixo
e brincam de Mickey mouse
para os maiores a cracolândia


os ricos comem
os pobres fomem
os ricos consomem
os pobres somem


os que rezam agora purgam
os que dormiram agora esmurram
os que prometeram agora cobram
os custos das obras dobram


e se há harmonia nos defeitos
o Brasil é um paraíso perfeito
a orgia partidária em sua geografia
para todos os gostos de pornografia.


Henrique Rodrigues Soares

25/04/2012

Tentei conter a pressão do papel
Sua potencialidade enigmática
Que jorra tantos berros não-ditos
E sentidos plenos de incertezas.
Tentei conter o fluxo ditirâmbico
Dessa escandalosa pausa
entre o verbo e o sussurro.
Tentei mas fui capturada pelo furacão
Que mora nesse vazio grávido
Então sou letras transitando
Em versos despidos de um fugaz idílio.
Não há sonho. Há sono, ressaca e dor.
Torpor talvez. Ou nada disso.
É uma folha em branco
A guardar as lacunas do meu por enquanto.


Paula Beatriz Albuquerque

Notas Dissonantes















Entre monarquistas e republicanos
Entre petistas e tucanos
Entre absolutistas e democratas
Entre a revelia e os burocratas


Mata mata ou búlica
O que é privado ou coisa pública
Entre o preso e a liberdade
Os disfarces e a realidade


Entre as virgulas e o ponto
Viva a poesia e o conto
Entre atenienses e espartanos
Entre russos e norte-americanos


Entre os personagens e atores
Entre substitutos e impostores
Entre tudo que cabe no verso
O incompreensivel do universo



Se são escolhas ou apostas
Mais perguntas do que respostas
Notas dissonantes que derramei
Se “Só sei que nada sei”




Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Marcas do Tempo














Certas horas é muito forte o silêncio
calando tudo o que vem de dentro
Um silêncio que dói até a alma
com cicatrizes que falam sem palavras.


Acordo todos os dias me perdendo um pouco
Num caminho sem volta
E vou chorando manhãs e meus ocasos
e o tempo passa sem deixar desculpas.


Henrique Rodrigues Soares

12/04/2012

No instante na sala
no ordinário jarro
a flor de plástico

num ludíbrio inventa vida em sua inutilidade
nas paredes em infiltração de gritos
séculos atravessam o sonho
e a fronteira da sala

fechada nas linhas das mãos que seguram
os retratos mofados
trancados em poeira
um mausoléu de memória

No lado esquerdo da cena
o espelho num passe de mágica
come a sala e a flor
os gritos e o sonho

Nas janelas abertas no relógio
tudo gira novamente


Carlos Orfeu

Metafísica da Moda Feminina


Tudo o que te rodeia e te serve
Aumenta a fascinação e o enigma.
Teu véu se interpõe entre ti e meu corpo,
É a grade do meu cárcere.
Tuas luas macias ao tato
Fazem crescer a nostalgia das mãos
Que não receberam meu anel no altar.
Tua maquilagem
É uma desforra sobre a natureza.
Tuas jóias e teus perfumes
São necessários a ti e à origem do mundo
Como o pão ao faminto.
Eu me enrolo nas tuas peles nos teus boás
Rasgo teu peitilho de seda
Para beijar teus seios brancos
Que alimentam os poemas
Entreabro a túnica fosforescente
Para me abrigar no teu ventre glorioso
Que ampliou o mundo ao lhe dar um homem a mais.
Teus vestidos obedecem a um plano inspirado
Correspondem-se com o céu com o mar as estrelas
Com teus pensamentos teus desejos tuas sensações.

A natureza inteira
É retalhada para ornar teu corpo
Os homens derrubam florestas
Descem até o fundo das minas e dos mares
Movem máquinas teares
Soltam aviões pelos ares
Lutam pela posse da terra matam e roubam pelo teu corpo.
O mundo sai de ti, vem desembocar em ti
E te contempla espantado e apaixonado,
Arco-íris terrestre,
Fonte da nossa angústia e da nossa alegria.

Tudo o que faz parte de ti — desde teus sapatos —
Está unido ao pecado e ao prazer,
À teologia, ao sobrenatural.


Murilo Mendes

Antologia Poética: Murilo Mendes. Organização, estabelecimento de textos e posfácios: Júlio Castañon Guimarães, e Murilo Marcondes de Moura, São Paulo: Cosac Naify, 2014. A Poesia em Pânico, p. 73-74.

Pedra filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
em perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão, em "Movimento Perpétuo". 1956.

Sombras

















Me escondo nas sombras
Escondo meus pecados
com desejos que não tenho
com um discurso que discordo


Ao esconder-me todo dia
praticando a covardia
para não sofrer os danos
de quem é a si mesmo


O sol quando chega
retira tudo da obscuridade.
Os meus olhos tem medo da claridade.
Prefiro as sombras, prefiro os muros
que me protegem da minha realidade.


Henrique Rodrigues Soares

28/03/2012

Música mirabilis


Talvez a ternura
crepite no pulso,
talvez o vento
súbito se levante,
talvez a palavra
atinja o seu cume,
talvez um segredo
chegue ainda a tempo

– e desperte o lume.



Eugênio de Andrade, em "Mar de setembro". 1961.

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além
de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas


e. e. cummings - Tradução: Augusto de Campos

Lembranças























Porque me dói tanto.
Tu submerges...  com tanta força
e com lágrimas
desato este nó na garganta.


A febre com sua cor pálida
Meus olhos quentes feitos brasa


Doce ou amargo
profundo ou raso
Te sinto como carinho suave
Te sinto como espinho na carne


Mas preciso de ti...
Não vivo sem ti...


Henrique Rodrigues Soares

08/03/2012

o fim mero ponto zero
acaso que não se vê
estrada que se sucede

dessa parte única
busco o começo
da sensação de buscar

sentir tudo anterior
a partida e voltar ao mesmo
ponto que não se vê

o zero é reinicio
se inventa no regresso
de outra vez nascer

constrói o desejo
dentro de outra coisa que morre


Carlos Orfeu

Ouço a música do tempo
Se repartir em cantigas antigas.
As notas se prendem como imãs
Formando um manto alegórico
Que nos alça para fora de nós e acima.
O tempo volta com saudade
Abre os abraços sinfônicos
A nos girar as mesmas crianças
Pelas vias de nossas rugas.
Envelheço calmamente.
Abraço minha sabedoria.
Orquestro minhas obras
Enquanto executo as árias
Das muitas Auroras paridas.


Paula Beatriz Albuquerque

Praia















Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios
As ondas desenrolam os seus braços
E brancos tombam de bruços
A praia é lisa e longa sobre o vento
Saturada de espaços e maresia
E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.


Sophia de Mello Breyner Andresen

A ÍNDOLE OU A PELE?


A índole ou a pele
o que mais lhe vale?
Será possível arrepiar-se
com o caráter?

E se um atributo um tanto turvo
for uma tormenta,
Compensa, se no toque
o coração saltar aos pulos?

A boa cartilha ou o desatino?
A polidez ou o alto alarde?
A tranquilidade ou a eterna
pulga atrás da orelha?

Um certo flerte
com a loucura e o desajuste...
A ficha limpa ou a suspeita
de um crime sem culpa?

A índole ou a pele
o que mais lhe vale?

Qual feitio mais lhe enfeitiça
e lhe atiça e desperta a cobiça
pra uma mente cálida?

Garantia de sair ilesa
ou a surpresa pálida
qual será a dose certa?

Se não houver dolo
nem equilíbrio, nem habeas corpus
O que mais lhe vale,
a índole ou a pele?


Alan Salgueiro

NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE












Vestígios da vigília
da noite passada nos meus bocejos
Espasmo involuntário do teu corpo
Tua pouca roupa denuncia a apneia
Eu te rapto
numa atividade ininterrupta
e quando ainda é madrugada
já atrasado, levanto cedo
Ao me desvencilhar olho teus seios
A seda dos lençóis cobre teu dorso
das pernas se desfaz o entrelace
A mente quase lúcida ali parte
O meu "bom dia" tem a energia
de algumas horas antes
Alerto que tua fuga
me parece inútil
Tua cabeça confusa
na hora da pane
só repete o mantra
"A gente ainda vai..."
Ignorar o expediente
porque o corpo quando pega fogo
é o mais faminto pedinte
O sono só aparece quando não deve
Na manhã do dia seguinte

Tempestade
















Ouço sons de trovejos
que anunciam que virão lágrimas
dos céus cinzentos de tristeza


Faz muito tempo que não te vejo
Saudade conduzindo lágrimas
do meu rosto, que certezas


não tem mais, só o envelhecimento
que não tarda, mas vai chover
com toda intensidade e lavando


todos os pecados, todos os sentimentos
que alargam sem poder conter
os porquês, os não sei, quando?


Henrique Rodrigues Soares

26/03/2012

Paternidade























Ser pai!
Não é ser perfeito
Não controla causas e efeitos

Ser pai!
E esquecer os predicados
Trabalhando no sujeito

É amor preocupado
Por quem está sendo feito
Se dedicando ao parto
E amamentar sem o peito

Amar sem restrições
Abraçar sem jeito
Amar contas e obrigações
Olhar suave os defeitos

Amei um, amarei dois
Ontem, hoje e depois
Me dividindo e multiplicando
Um caminha, a outra gestando.


Henrique Rodrigues Soares - Horas de Silêncio
Julho 2013

















Continuam a comover-me os poetas
com a sua tristeza de flor amedrontada,
coroando as palavras como quem elege
o sonho dos deuses no sono dos mortais.
Leio-os e estou ao lado deles, sou um deles,
como o pintor no labirinto das tintas,
fingindo morrer pelas mesmas causas,
simulando assombros onde só há sorrisos,
fingindo revelações onde já não há mistério.
Cumpro as horas e os meses
num inquieto calendário de ondas
que marca o tempo decrescente
de um homem entre a luz e crepúsculo.
Os poetas sabem do que falo.
Indomado, sento-me no seu círculo
de derrotadas e inclementes sílabas,
mas o meu livro é outro:
é o esplêndido vazio da perdição da alma.



José Jorge Letria

Iniciação


Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
....................................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiran-te os Anjos a capa :
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada :
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

....................................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não 'stás morto, entre ciprestes.

....................................................

Neófito, não há morte.



Fernando Pessoa

Escreve-me...


Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


Florbela Espanca

Devoro a vida
cravo os dentes no Tempo
o relógio escorre as horas mordidas

A vida me devora
cada instante é outro
sangra o que é breve

Outra é a fome de viver
que nasce da perene certeza de morrer


Carlos Orfeu

A Urca

















Tens o cheiro de paz
Mulher que o tempo não envelhece
As horas não passam
Só um bondinho que sobe e desce
Calmaria rodeada de barquinhos
E pescadores,
Atores de uma pintura a óleo


As idades se cruzam
Em caminhos tão descansados
Nada em ti parece ter pressa
Céu coberto de açúcar.


Henrique Rodrigues Soares
15/02/2012.

A Poesia

















Negra, loura, morena...
Conforme o meu desejo
Assim te conheci.
Com todos os predicados e atrativos.
Coberta de nuances e adjetivos.


Em meu coração achei o ritmo.
No vocabulário meu istmo.
Com o roçar da língua
Tornei me intimo.
Ao bailar noite e dia
Em suas estruturas
Dominei o que doce tinhas
E as agruras.
Amei teu corpo com ternura
Classificações, sons e textura.
E não quero mais acordar.


Na alegria te declamo com o riso.
Nas dores te declamo com choro
De chuva fina
E me deixo molhar até ficar ensopado.


Oh!  Minha linda companheira.
Nunca me abandone
Quero-te pela vida inteira.


As letras ou palavras que faltaram
Não importam.
Fica a solidão percebida.
Fica a saudade sentida
De uma rima mágica para o quebra cabeça.


Henrique Rodrigues Soares

Cosme Velho, 24/02/2012.

Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa






















Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.
Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.
E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.


Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Jardim

















Quero ser orquídea, não ser capim.
A preciosidade do seu jardim
O seu preferido Benjamim


Qual o sabor do teu vinho?
Aonde vai este caminho?
Aonde vai este carinho?


Levando o pouco que há de mim
Com a virada de um motim
Que se repete sem um fim


Para todo este desalinho
Tão próximo e tão sozinho
Ao teu amor, flor e espinho.


Henrique Rodrigues Soares
25/03/2012.

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente

Era o dia em que o sol escurecia Os raios por piedade ao seu Fator, Quando eu me vi submisso ao vivo ardor De teu...