Postagens

Mostrando postagens de Setembro, 2016
Imagem
a história me toma de assalto
o tempo me parte ao meio
deixa-me fronteiriça
olhos no passado
olhos no futuro
no ínfimo instante do espanto
o
presente
carregado
de
impossibilidades

Wanda Monteiro
Imagem
os olhos mastigam a paisagem
pedra
ar-
ame farpado
mastigam o som
cor
caos
rasgam-se até que o espanto
seja
poema
voo de aves nos lábios

Carlos Orfeu

Boi de Carro

Imagem
Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

O Pai

Imagem
TERRA de semeadura inculta e brava,
terra que não tem estreitos nem sendas,
minha vida sob o sol treme e alarga.
Pai, os teus olhos doces nada podem,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as fontes.
O mal de amor cegou a minha vista
e nesta fonte doce do meu sonho
refletiu-se outra água estremecida.
Depois... Pergunta a Deus por que me deram
o que me deram e por que depois
soube da solidão de terra e céu.
Olha, minha juventude foi broto
puro que ficou sem abrir, perdeu
sua doçura de sangues e de sucos.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de beijá-la... E sendo outono,
Pai, os teus olhos na podem.
Escutarei na noite tuas palavras:
... menino, meu menino...
e na noite imensa
seguirei com as minhas e as tuas chagas.


EL PADRE
TIERRA de sembradura inculta y brava,
tierra en que no hay esteros ni caminos
mi vida bajo el Sol tiembla y se alarga.
Padre, tus ojos dulces nada pueden,
como nada pudieron las estrellas
que me abrasan los ojos y las sienes.
El mal de amor me…

Proa mergulhada

Imagem
Com as coisas mais simples, silenciosas,
a casa com seus hábitos. A onda
que se compraz a descansar na água.
Pelo ar inefável, sobem rosas


de um jarro: te amo. A mesa tão redonda
que, na manhã, é proa mergulhada.
O café, junto ao leite quente, quente;
sua xícara suspensa na inocência.


E o pão cortado, a fala destilada
sob a luz. Era o tempo, sua ciência
de ir sem ser levado. Segurava


no bico do silêncio: amor, amada.
Falamos sabiás, folhas e nadas.
O sol por dentro, o galo da palavra.


Carlos Nejar
Imagem
os “civilizados”
soterrados pelo ego de sua suposta superioridade
acabam transformando-se em fósseis da insanidade
sujeitos extintos
...
meros entes reduzidos ao pó pelo tempo..
o mesmo tempo
que os guardará nas entranhas da terra
reclusos em seu ventre
e sob sua majestosa grandeza
.... civilização
?
mero
equívoco semântico

Wanda Monteiro

A CAPELLA

Imagem
Minas de minhas almas
eu te batizo em nome da mãe
e te embalo a capella
para que em mim sonhes e já não me pesas
e já não me dóis
Fernando Campanella

Acontecimento do Soneto

Imagem
À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.


Lêdo Ivo

O Que É, o Que É?

Imagem
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo

Afluentes

Imagem
Eram os executados.
Os dias intumesciam
e como frutos caíam.


Eram os executados
Sem o título ou família,
sem o tempo, sem o espaço
que de viver lhes cabia.


Percebi os vários rostos,
percebi que eles baixavam
e suas penas subiam.
A voz ninguém divisava,
A senha não existia.


Eram os executados.
Quando? Como? Quem sabia?
O mundo já os viu deitados,
agora o mundo os erguia.


Executados por fardo?
No leito da amada, um dia?
Por algum golpe de estado?
Numa conversa ou litígio?
Numa batalha ou na esquina?


Eram os executados
que desde sempre partiram
e desde sempre chegavam.


Carlos Nejar

Somos todos Olímpicos

Imagem
Somos todos assim Extremamente dramáticos Ensurdamente simpáticos E lutamos até o fim
Nascemos numa competição Por um prato de comida Recebemos e vencemos números Que nos registram por toda vida
Não nos deram ensino Não tivemos treinamento Não nos deram patrocínio Não tivemos acompanhamento
Ganhar é lutar pela vida Sem apoio ou fomento Perder é uma batida Que dançamos com conhecimento
Somos todos assim Resistentes a tudo Que tenta nos derrubar Somos todos assim Consistentes e ininterruptos Diante do que nos vão tirar
Torcemos e nos contorcemos Somos atletas de uma realidade Todos os dias mais no falta do que temos E acordamos na clandestinidade
Mas não vamos parar Diante dos obstáculos e adversários Temos recordes para quebrar Como vencemos nossos aniversários
Como heróis do Olimpo Escreveram-nos canções E somos de barro batido No ritmo do aboio e rincões


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Prospecção

Imagem
Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado

Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.


Miguel Torga

Soneto III

Imagem
Mira no espelho e descreve o rosto que vês;
Agora é o tempo em que a face deve mudar,
Cujos reparos não tenhas logo renovado,
Terás enganado o mundo, à revelia de tua mãe.

Onde está a bela, cujo ventre não semeado
Desdenha o cultivo de teus cuidados?
Ou de quem será a tumba de um ser tão cioso
De seu amor-próprio para negar a posteridade?
És o espelho de tua mãe, e tua semelhança
Recorda os adoráveis dias de sua primavera;
Então, pela tua idade, poderás ver,
Apesar das rugas, o teu tempo áureo;
Mas se vives para não seres lembrado,
Jamais te cases, e tua imagem fenecerá contigo.



Sonnets III
Look in thy glass and tell the face thou viewest,
Now is the time that face should form another,
Whose fresh repair if now thou not renewest,
Thou dost beguile the world, unbless some mother.

For where is she so fair whose uneared womb
Disdains the tillage of thy husbandry?
Or who is he so fond will be the tomb,
Of his self-love to stop posterity?

Thou art thy mother's glass and she in thee
Calls back the lovely Apri…

O Amor, Meu Amor

Imagem
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar…

PERDA

Imagem
Perda dói
como qualquer outra dor
sem remédio ou alarde.
Sentimento de roupa esfregada,
torcida e batida
três vezes no tanque.

Maria Helena Latini, Roteiros de Vida, 1991 e reeditado em Múltiplo Um, com lançamento em outubro de 2016.

Soneto do Empinador de Papagaio

Imagem
A nada aceito, exceto a eternidade,
Nesta viagem ambígua que me leva
ao altar absoluto que, na treva,
espera pela minha inanidade.

O que sonhei, menino, hoje é verdade
de alva estação que em meu silêncio neva
o inverno de uma fábula primeva
que foi sol, cego à própria claridade.

Na hora do fim de tudo, separados
fiquem os dois comparsas do destino
que sabe a cinza após o último alento.

E a morte guarde em cova os injuriados
despojos do homem feito; que o menino
empina o papagaio, vive ao vento.
Lêdo Ivo
Imagem
inacabado
projeto
sou
instante
sem
lume
irremediável
sem
retas
-submerso-
retenho
fraturas

Carlos Orfeu