a história me toma de assalto
o tempo me parte ao meio

deixa-me fronteiriça

olhos no passado
olhos no futuro

no ínfimo instante do espanto

o
presente
carregado
de
impossibilidades


Wanda Monteiro















os olhos mastigam a paisagem
pedra
ar-
ame farpado

mastigam o som
cor
caos

rasgam-se até que o espanto
seja
poema

voo de aves nos lábios


Carlos Orfeu

Boi de Carro





















Há muito tempo aquele boi padece.
Levando aquele carro tão pesado!
Seu próprio dono não se compadece
de vê-lo triste como um desgraçado!

Num mar de pranto, onde o tormento cresce,
pelas mãos dos perversos foi jogado!
Flor do heroísmo que desaparece,
nos abismos das cinzas do passado!

Enquanto geme carregando a canga,
a humildade, com certeza, manga,
por vê-lo padecer com tanta calma!

Só eu lamento o seu sofrer medonho
porque também carrego, assim, tristonho,
um carro de ilusões chorando n’alma!


Miguel Jansen Filho

O Pai
















TERRA de semeadura inculta e brava,
terra que não tem estreitos nem sendas,
minha vida sob o sol treme e alarga.

Pai, os teus olhos doces nada podem,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as fontes.

O mal de amor cegou a minha vista
e nesta fonte doce do meu sonho
refletiu-se outra água estremecida.

Depois... Pergunta a Deus por que me deram
o que me deram e por que depois
soube da solidão de terra e céu.

Olha, minha juventude foi broto
puro que ficou sem abrir, perdeu
sua doçura de sangues e de sucos.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de beijá-la... E sendo outono,
Pai, os teus olhos na podem.

Escutarei na noite tuas palavras:
... menino, meu menino...
e na noite imensa
seguirei com as minhas e as tuas chagas.



EL PADRE

TIERRA de sembradura inculta y brava,
tierra en que no hay esteros ni caminos
mi vida bajo el Sol tiembla y se alarga.

Padre, tus ojos dulces nada pueden,
como nada pudieron las estrellas
que me abrasan los ojos y las sienes.

El mal de amor me encergueció la vista
y en la fontana dulce de mi sueño
se reflejó otra fuente estremecida.

Después... Pregunta a Dios por qué me dieron
lo que me dieron y por qué después
supe una soledad de tierra y cielo.

Mira, mi juventud fué un brote puro
que se quedó sin estallar y pierde
su dulzura de sangres y de jugos.

El sol que cae y cae eternamente
se cansó de besarla... Y el otoño.
Padre, tus ojos dulces nada pueden.

Escucharé en la noche tus palabras, ... niño, mi niño...
Y en la noche inmensa
seguiré con mis llagas y tus llagas.


Pablo Neruda, em "Crepusculário". [tradução José Eduardo Degrazia]. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.

Proa mergulhada

















Com as coisas mais simples, silenciosas,
a casa com seus hábitos. A onda
que se compraz a descansar na água.
Pelo ar inefável, sobem rosas

de um jarro: te amo. A mesa tão redonda
que, na manhã, é proa mergulhada.
O café, junto ao leite quente, quente;
sua xícara suspensa na inocência.

E o pão cortado, a fala destilada
sob a luz. Era o tempo, sua ciência
de ir sem ser levado. Segurava

no bico do silêncio: amor, amada.
Falamos sabiás, folhas e nadas.
O sol por dentro, o galo da palavra.


Carlos Nejar
Christophe_Kiciak-Nimbypolis-1


















os “civilizados”
soterrados pelo ego de sua suposta superioridade
acabam transformando-se em fósseis da insanidade

sujeitos extintos

...
meros entes reduzidos ao pó pelo tempo..

o mesmo tempo
que os guardará nas entranhas da terra
reclusos em seu ventre
e sob sua majestosa grandeza

....
civilização
?
mero
equívoco semântico


Wanda Monteiro

A CAPELLA

Fotografia de Fernando Campanella























Minas de minhas almas
eu te batizo em nome da mãe

e te embalo a capella
para que em mim sonhes

e já não me pesas
e já não me dóis


Fernando Campanella

Acontecimento do Soneto


















À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.


Lêdo Ivo

O Que É, o Que É?



















Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita


Gonzaguinha

Afluentes


















Eram os executados.Os dias intumesciam
e como frutos caíam.

Eram os executados
Sem o título ou família,
sem o tempo, sem o espaço
que de viver lhes cabia.

Percebi os vários rostos,
percebi que eles baixavam
e suas penas subiam.
A voz ninguém divisava,
A senha não existia.

Eram os executados.
Quando? Como? Quem sabia?
O mundo já os viu deitados,
agora o mundo os erguia.

Executados por fardo?
No leito da amada, um dia?
Por algum golpe de estado?
Numa conversa ou litígio?
Numa batalha ou na esquina?

Eram os executados
que desde sempre partiram
e desde sempre chegavam.


Carlos Nejar

Somos todos Olímpicos















Somos todos assim
Extremamente dramáticos
Ensurdamente simpáticos
E lutamos até o fim

Nascemos numa competição
Por um prato de comida
Recebemos e vencemos números
Que nos registram por toda vida

Não nos deram ensino
Não tivemos treinamento
Não nos deram patrocínio
Não tivemos acompanhamento

Ganhar é lutar pela vida
Sem apoio ou fomento
Perder é uma batida
Que dançamos com conhecimento

Somos todos assim
Resistentes a tudo
Que tenta nos derrubar
Somos todos assim
Consistentes e ininterruptos
Diante do que nos vão tirar

Torcemos e nos contorcemos
Somos atletas de uma realidade
Todos os dias mais no falta do que temos
E acordamos na clandestinidade

Mas não vamos parar
Diante dos obstáculos e adversários
Temos recordes para quebrar
Como vencemos nossos aniversários

Como heróis do Olimpo
Escreveram-nos canções
E somos de barro batido
No ritmo do aboio e rincões



Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Prospecção























Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado

Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.


Miguel Torga

Soneto III

























Mira no espelho e descreve o rosto que vês;

Agora é o tempo em que a face deve mudar,
Cujos reparos não tenhas logo renovado,
Terás enganado o mundo, à revelia de tua mãe.

Onde está a bela, cujo ventre não semeado
Desdenha o cultivo de teus cuidados?
Ou de quem será a tumba de um ser tão cioso
De seu amor-próprio para negar a posteridade?

És o espelho de tua mãe, e tua semelhança
Recorda os adoráveis dias de sua primavera;
Então, pela tua idade, poderás ver,
Apesar das rugas, o teu tempo áureo;

Mas se vives para não seres lembrado,
Jamais te cases, e tua imagem fenecerá contigo.



Sonnets III

Look in thy glass and tell the face thou viewest,
Now is the time that face should form another,
Whose fresh repair if now thou not renewest,
Thou dost beguile the world, unbless some mother.

For where is she so fair whose uneared womb
Disdains the tillage of thy husbandry?
Or who is he so fond will be the tomb,
Of his self-love to stop posterity?

Thou art thy mother's glass and she in thee
Calls back the lovely April of her prime,
So thou through windows of thine age shalt see,
Despite of wrinkles this thy golden time.

But if thou live remembered not to be,
Die single and thine image dies with thee.

William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta

O Amor, Meu Amor






















Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.


Mia Couto


No livro “Idades cidades divindades”

PERDA















Perda dói
como qualquer outra dor
sem remédio ou alarde.
Sentimento de roupa esfregada,
torcida e batida
três vezes no tanque.


Maria Helena Latini, Roteiros de Vida, 1991 e reeditado em Múltiplo Um, com lançamento em outubro de 2016.

Soneto do Empinador de Papagaio

Cândido Portinari - Meninos soltando pipa/1952.






















A nada aceito, exceto a eternidade,
Nesta viagem ambígua que me leva
ao altar absoluto que, na treva,
espera pela minha inanidade.

O que sonhei, menino, hoje é verdade
de alva estação que em meu silêncio neva
o inverno de uma fábula primeva
que foi sol, cego à própria claridade.

Na hora do fim de tudo, separados
fiquem os dois comparsas do destino
que sabe a cinza após o último alento.

E a morte guarde em cova os injuriados
despojos do homem feito; que o menino
empina o papagaio, vive ao vento.


Lêdo Ivo
















inacabado
projeto
sou

instante
sem
lume

irremediável
sem
retas
-submerso-

retenho
fraturas



Carlos Orfeu

Abandonei-me ao vento






















Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro, livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.


Carlos Nejar

Sangrando

























Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo aquilo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção

E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar


Gonzaguinha

Ambrosia Poética













Quero palavras suaves e carinhosas
Que façam brotar orquídeas e rosas
Quero abraços quentes e ternos
Que aqueçam os corações antárticos de inverno


Que à tarde vagarosa e prosa
Com diálogos que vão a lugar nenhum
Quero esquecer a labuta dolorosa
Que não me levam a lugar algum


Quero o gosto do vago e indeciso
Sentir na boca a mentira velha repetida
Quero os beijos vadios e indecorosos


Quero o que não quero e o que não preciso
Quero pensar sem tombos ou medidas
Entre o inútil e o grandioso.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

A Revolta dos Dândis

Imagem: fashionatto.literatortura.com


















Entre um rosto e um retrato, o real e o abstrato
Entre a loucura e a lucidez
Entre o uniforme e a nudez
Entre o fim do mundo e o fim do mês
Entre a verdade e o rock inglês
Entre os outros e vocês

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre mortos e feridos, entre gritos e gemidos
(A mentira e a verdade, a solidão e a cidade)
Entre um copo e outro da mesma bebida
Entre tantos corpos com a mesma ferida

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão

Entre americanos e soviéticos, gregos e troianos
Entra ano e sai ano, sempre os mesmos planos
Entre a minha boca e a tua, há tanto tempo, há tantos planos
Mas eu nunca sei pra onde vamos

Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão


Humberto Gessinger

Vai tudo em mim

















Vai tudo em mim, enfim, se despedindo
neste pomar sem ramos ou maçãs,
sem sol, sem hera ou relva, sem manhãs
que me recordem o que foi e é findo.

Tudo se faz sombrio, e as sombras vãs
do que eu não fui agora vão cobrindo
os ermos epitáfios, indo e vindo
entre as hermas e as lápides mais chãs.

Tudo se esvai num remoinho infindo
de atávicas moléculas malsãs:
essas do avô, do pai e das irmãs
que o sangue foi à alma transmitindo.

Tudo o que eu fui em mim de mim fugindo
em meu encalço vem me perseguindo.


Ivan Junqueira, in “O outro lado”

Marinha

Teu corpo é mar com frêmitos frescos de ondas e fosforescência de espumas. Teu corpo é profundidade equórea, fil...