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Mostrando postagens de Janeiro, 2014

Para Ti

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Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que talhei o sabor do sempre

Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só amando de uma só vida


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas" Imagem da Internet.

Eusébio por Manuel Alegre

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Havia nele a máxima tensão Como um clássico ordenava a própria força Sabia a contenção e era explosão Não era só instinto era ciência Magia e teoria já só prática Havia nele a arte e a inteligência Do puro e sua matemática Buscava o golo mais que golo – só palavra Abstracção ponto no espaço teorema Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.

Manuel Alegre Imagem da Internet.
Homenagem ao Pantera Negra, como era conhecido o craque Eusébio. Eusébio da Silva Ferreira, nasceu em Lourenço Marques - Moçambique, ainda Portugal nesta época, no dia 25-01-1942, e faleceu 05-01-2014 em Lisboa - Portugal. Maior Jogador da Seleção Portuguesa de Futebol com destaque para Copa do Mundo de 1966, com o terceiro lugar.  Também vestiu por anos conquistando vários títulos com a camisa encarnada do Benfica de Lisboa, sendo 1961 e 1962  Campeão dos Campeões da Europa.

Repetição

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No abrir de cada dia Está presente a sombra de todas as noite. Mãos em desespero esvoaçam Tentando atingir a fímbria da vida. Lâmpadas reabastecidas Na esperança da vinda do Grande Esperado. A carne é devolvida ao pó Enquanto a memória da nossa infância Se apaga aos poucos na memória da infância dos nossos filhos Diluída na dos nossos netos. Memórias sem dono Substituídas pelos tentáculos do ventre materno Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.


Adalgisa Nery In Erosão (1973) Imagem da Internet.


INTACTO

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Vai ficar intacto o sentimento as fotos a decoração do quarto como se você ainda estivesse dentro

Vai ficar intacto teu prato e o peito atingido sangrando como se não causasse nenhum impacto

Vai ficar intacto o guarda-roupa e a bagunça time que não muda como se estivesse há tempos invicto

Vai ficar intacto e estou convicto até que você sane suas suspeitas e certezas até que se feche o inquérito e você me dê o veredicto

Até que analise o convívio mesmo não havendo o contato é só com você que eu me conecto mesmo que eu não pareça digno

Até que você ache o sentido mesmo que não pareça verídico mesmo que eu não esteja apto repito: pra mim vai ficar intacto


Alan Salgueiro Tela Christina Nguyen  - Site Open ArtGroup

Diante de todos os segredos

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diante de todos os segredos a poesia permanece inclusive no silêncio e isso é o que nos salva

o movimento da vida a dança do repente de um futuro presente em cada pedaço de vida em cada ínfimo e é isso que nos salva apesar de tudo

o que passa, passou feito pássaro, como dizia o poeta que venha o futuro num repente num abraço do que há de vir na entrega do presente

saiba disso e eu sei que você sabe mas é importante lembrar que a vida tem dessas coisas de nos fazer esquecer de viver

Luiza Maciel Nogueira

Aqui está-se sossegado

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Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.


Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.


Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!
Aqui tudo é paz e mar.


Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido...


Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que veio azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.


Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.


Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.


Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois
Nada explica nem consola.


Fernando Pessoa
Fonte: http://www.s…

Receita para Ano Novo

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"Se você pensa que sabe; que o ano novo mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático, mas leva meia hora para concluir o seu pensamento; que o ano novo ensine que explica melhor o seu problema, ou conta melhor o seu caso..., aquele que começa pelo fim.
Se são sempre os outros que são isso e aquilo; que o ano novo ensine a olhar mais para você mesmo.
Que o ano novo ensine que não existe ano novo para a natureza. É tudo um fluxo só. 
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que o ano novo ensine a aceitar o conflito como condição lúcida da existência.
Felicidade é disponibilidade com paz; que o ano novo ensine a aproveitar os raros momentos em que ela surge.
Que o ano novo nos ensine, a todos, a dizer as verdades nunca na hora da raiva. Que desta aproveitemos a forma direta e simples pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois, quando os bloqueios voltam e é mais cômodo "deixar pra lá".
Que a lucidez da rai…