Para Ti


























Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre


Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida



Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Imagem da Internet.

Eusébio por Manuel Alegre





















Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava

E então não era golo – era poema.


Manuel Alegre
Imagem da Internet.

Homenagem ao Pantera Negra, como era conhecido o craque Eusébio.
Eusébio da Silva Ferreira, nasceu em Lourenço Marques - Moçambique, ainda Portugal nesta época, no dia 25-01-1942, e faleceu 05-01-2014 em Lisboa - Portugal.
Maior Jogador da Seleção Portuguesa de Futebol com destaque para Copa do Mundo de 1966, com o terceiro lugar.  Também vestiu por anos conquistando vários títulos com a camisa encarnada do Benfica de Lisboa, sendo 1961 e 1962  Campeão dos Campeões da Europa.

Repetição







































No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noite.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.



Adalgisa Nery
In Erosão (1973)
Imagem da Internet.



INTACTO



















Vai ficar intacto
o sentimento
as fotos
a decoração do quarto
como se você ainda
estivesse dentro


Vai ficar intacto
teu prato
e o peito atingido
sangrando
como se não causasse
nenhum impacto


Vai ficar intacto
o guarda-roupa
e a bagunça
time que não muda
como se estivesse
há tempos invicto


Vai ficar intacto
e estou convicto
até que você sane
suas suspeitas e certezas
até que se feche o inquérito
e você me dê o veredicto


Até que analise o convívio
mesmo não havendo o contato
é só com você que eu me conecto
mesmo que eu não pareça digno


Até que você ache o sentido
mesmo que não pareça verídico
mesmo que eu não esteja apto
repito: pra mim vai ficar intacto



Alan Salgueiro
Tela Christina Nguyen  - Site Open ArtGroup

Diante de todos os segredos

















diante de todos os segredos
a poesia permanece
inclusive no silêncio
e isso é o que nos salva


o movimento da vida
a dança do repente de um futuro
presente em cada pedaço de vida
em cada ínfimo
e é isso que nos salva
apesar de tudo


o que passa, passou feito pássaro,
como dizia o poeta
que venha o futuro num repente
num abraço do que há de vir
na entrega do presente


saiba disso
e eu sei que você sabe
mas é importante lembrar
que a vida tem dessas coisas
de nos fazer esquecer de viver


Luiza Maciel Nogueira


Aqui está-se sossegado















Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.


Tinha os gestos inocentes,
Seus olhos riam no fundo.
Mas invisíveis serpentes
Faziam-a ser do mundo.
Tinha os gestos inocentes.


Aqui tudo é paz e mar.
Que longe a vista se perde
Na solidão a tornar
Em sombra o azul que é verde!
Aqui tudo é paz e mar.


Sim, poderia ter sido...
Mas vontade nem razão
O mundo têm conduzido
A prazer ou conclusão.
Sim, poderia ter sido...


Agora não esqueço e sonho.
Fecho os olhos, oiço o mar
E de ouvi-lo bem, suponho
Que veio azul a esverdear.
Agora não esqueço e sonho.


Não foi propósito, não.
Os seus gestos inocentes
Tocavam no coração
Como invisíveis serpentes.
Não foi propósito, não.


Durmo, desperto e sozinho.
Que tem sido a minha vida?
Velas de inútil moinho —
Um movimento sem lida...
Durmo, desperto e sozinho.


Nada explica nem consola.
Tudo está certo depois.
Mas a dor que nos desola,
A mágoa de um não ser dois
Nada explica nem consola.


Fernando Pessoa
Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/fpesso.html
Imagem: tela de Bernard Louedin - site Open ArtGroup

Receita para Ano Novo























"Se você pensa que sabe; que o ano novo mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático, mas leva meia hora para concluir o seu pensamento; que o ano novo ensine que explica melhor o seu problema, ou conta melhor o seu caso..., aquele que começa pelo fim.

Se são sempre os outros que são isso e aquilo; que o ano novo ensine a olhar mais para você mesmo.

Que o ano novo ensine que não existe ano novo para a natureza. É tudo um fluxo só.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que o ano novo ensine a aceitar o conflito como condição lúcida da existência.

Felicidade é disponibilidade com paz; que o ano novo ensine a aproveitar os raros momentos em que ela surge.

Que o ano novo nos ensine, a todos, a dizer as verdades nunca na hora da raiva. Que desta aproveitemos a forma direta e simples pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois, quando os bloqueios voltam e é mais cômodo "deixar pra lá".

Que a lucidez da raiva guardada para depois, quando ganhar a dimensão da calma mas perder a energia agressiva, sirva para expressar nossas franquezas com carinho e cordialidade.

Que o ano novo ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma. Que aquele cara que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre, passe. Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem, jovie. Que a moça, moce. Que a luz, luza. Que a paz, paze. Que o som, soe. Que o sol, sole. Que o ninho, aninhe. Que a cor, core. Que o abraço, abrace. Que o perdão, perdoe. Que a letra, letre. Que o negro, negre. Que a flor, flora. Que o coração, coraçõe. Que a reza, reze. Que a criança, criance.

Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança.

E se ano novo não existe, exceto na imaginação da gente e se nesta tudo é possível, então que ele sirva para transformar tudo em Verbo. Como no princípio. Pois do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo."



ARTUR DA TÁVOLA

Idade

Mente o tempo: a idade que tenho só se mede por infinitos. Pois eu não vivo por extenso. Apenas...