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Mostrando postagens de Dezembro, 2015

Gênesis

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Então fomos criados E de mal-criados somos Obedientes a nossa desobediência Já atentos e cultivando a maledicência

E assim por uma infeliz sorte Escolhemos a morte O livre arbítrio do corte De quem nunca soube escolher

Acreditando naquilo dito por terceiros A cobiça e ambição, nosso próprio vespeiro Que flui no teu sangue corrente O veneno mortal da serpente

Em frente ao desastre repentino Sem ter esperanças do que nos vestir Voltamos ao nosso destino De cegos esperando o divino nos redimir

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos Outubro 2015

Versos Urbanos

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Estou correndo pelas vielas Estou escondido nas encostas Depois do acontecido sou as seqüelas Sou a real fratura exposta

As ruas são margens da civilidade As calçadas, os cracudos, o abandono Os mortos vivos nas cidades Estou suave, estou sem sono

No verão árduo da vingança Qualquer sombra que faça diferença Na falta de uma mísera esperança Qualquer exemplo torna-se uma referência

Lágrimas para compor meu oceano Espinhos para construir meu jardim de cactos O que ganho ou perco todos os anos A dureza que me torna intacto

A faca que tua capa corta Intervindo com dor para tua cura A faca que abre tuas portas Te fragiliza te depura


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos

Solidão

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Aproximo-me da noite 
o silêncio abre os seus panos escuros 
e as coisas escorrem 
por óleo frio e espesso 

Esta deveria ser a hora 
em que me recolheria 
como um poente 
no bater do teu peito 
mas a solidão 
entra pelos meus vidros 
e nas suas enlutadas mãos 
solto o meu delírio 

É então que surges 
com teus passos de menina 
os teus sonhos arrumados 
como duas tranças nas tuas costas 
guiando-me por corredores infinitos 
e regressando aos espelhos 
onde a vida te encarou 

Mas os ruídos da noite 
trazem a sua esponja silenciosa 
e sem luz e sem tinta 
o meu sonho resigna 

Longe 
os homens afundam-se 
com o caju que fermenta 
e a onda da madrugada 
demora-se de encontro 
às rochas do tempo 


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Humildade

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Senhor, fazei com que eu aceite 
minha pobreza tal como sempre foi. 

Que não sinta o que não tenho. 
Não lamente o que podia ter 
e se perdeu por caminhos errados 
e nunca mais voltou. 

Dai, Senhor, que minha humildade 
seja como a chuva desejada 
caindo mansa, 
longa noite escura 
numa terra sedenta 
e num telhado velho. 

Que eu possa agradecer a Vós, 
minha cama estreita, 
minhas coisinhas pobres, 
minha casa de chão, 
pedras e tábuas remontadas. 
E ter sempre um feixe de lenha 
debaixo do meu fogão de taipa, 
e acender, eu mesma, 
o fogo alegre da minha casa 
na manhã de um novo dia que começa.


Cora Coralina

O Cântico da Terra

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Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.

Tudo é Paixão

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Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

JÁ É NATAL NA LÍDER

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Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines Pré-Natal que era de grávida
virou data Black Friday
Partos de Cesária por I-Cloud
Marca de vacina é código de barra
Já é Natal na Lista de Schindler
das necessidades criadas
nas filas dos shoppings
do SPC e Serasa Já é Natal pras elites
e pra quem é deixado de lado
pra quem brinca de amigo oculto
e pras crianças do orfanato Já é Natal de tender
Já é Natal de chester
Já é Natal pra gente
que a gente finge
que não enxerga
Natal pra prometer outra dieta É Natal por antecedência
pra dividir em mais parcelas
as vidas que cheiram a plástico
envoltas num papel dourado
produto com prazo contado
pra ser o novo obsoleto Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines
Alan Salgueiro

Poesia de Natal

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Enfeite a árvore de sua vida
com guirlandas de gratidão!
Coloque no coração laços de cetim rosa,
amarelo, azul, carmim,
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante Em sua lista de presentes
em cada caixinha embrulhe
um pedacinho de amor,
carinho,
ternura,
reconciliação,
perdão! Tem presente de montão
no estoque do nosso coração
e não custa um tostão!
A hora é agora!
Enfeite seu interior!
Sejas diferente!
Sejas reluzente! Cora Coralina

Um Segredo

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Meu pai tinha sandálias de vento 
só agora o sei. 
Tinha sandálias de vento 
e isto nem sequer é uma maneira de dizer 
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures 
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios. 

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando 
mas toda a sua ausência era 
o malogro de o ser 
só agora o sei. 
Andava por longe ou sentíamo-lo longe 
vem dar no mesmo 
e no entanto víamo-lo sempre 
ali plantado de imobilidade absorta 
no cepo de carvalho raiado de negro 
a que o caruncho comera o miolo 
como as lagartas esvaziam as maçãs 
estranhamente quieto murcho resignado 
no seu estranho vadiar 
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói 
como um apelo perdido uma coragem abortada. 
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida 
ausência era 
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste 
tristeza sim tristeza solene e irremediada 
só agora o sei. 

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares 
sulco azul 
que nada distingue…

VOU SAIR PRA VER O MAR

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Deixa eu viver de forma plena
nem arma de fogo
nem rota de fuga
nem fita que isola
nem o muro que separa
vão me proibir de ver o mundo Deixa eu sair pra ver a rua
que o luto e o nó na garganta
não me intimidem tanto
pois se pro caos não há hora marcada
é tão latente essa ameaça
que até trava o meu passo à frente Mas se eu pisar na areia
haverá quem creia
que vai ser mais forte a resiliência
Com essa coragem que me arremessa
vou subir nas pedras
para que o vento então me acalante E entardecendo no colo da moça
resistir aos trancos com a sua força
destravar bloqueios
que antes me prendiam num canto do quarto
Que o medo não meça os passos de me libertar
Hoje avanço, vou sair pra ver o mar
Alan Salgueiro

Suspensão

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Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo…
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa…
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.
Vinicius de Moraes, no livro “O caminho para a distância”. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Retalhos

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O sol se derrama no asfalto
a tarde de domingo invade as salas do bairro Janelas abertas em rostos
a carne assada nas bocas
o cheiro da cevada exala dos copos Lá fora tudo acontece
e se agasalha na superfície do domingo Aqui dentro
costuro retalhos que eu mesmo recortei.
Carlos Orfeu/Wanda Monteiro

Os Aprendizes

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Aos que serão, que sejam Aos que terão, que tenham Aos que vão, que voem Aos que virão, que venham

Que teus caminhos sejam como seus sonhos Que cada noite recebida seja como ganho Que teus sorrisos sejam como o sol Que precisa nascer todas as manhãs

Tudo que temos, tudo que somos Uma sacola de vontade e sonhos Tudo que queremos, tudo que seremos Vai até onde nós nos propomos

Os segredos guardados Que sejam libertados Os aprendizes fardados Que se tornem mestres

O carinho do abraço doado Como a palavra dita não volta atrás O conhecimento apropriado Não se perderá jamais

Que cresçam como as flores Que voem como condores Não bebam o vinho dos impostores Não desistam como desertores

Que teus dias possam ser duradouros Os ensinos absorvidos um ancoradouro Para mapear os rostos desconhecidos Para abrir as portas trancadas

Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos
18/11/2015

Usura do Amor

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Por cada hora em que agora me poupares 
          Eu dar-te-ei, 
Usurário deus do Amor, vinte para ti 
Quando meus cabelos castanhos os grisalhos igualarem. 
Até então, Amor, deixa meu corpo reinar e permite 
Que viaje, me hospede, arrebate, intrigue, possua, esqueça, 
Retome a conquista do ano passado, e pense que até agora 
          Nunca nos tínhamos encontrado.    

Deixa-me tomar por minha qualquer carta de um rival, 
          E nove horas mais tarde, 
Cumprir a promessa da meia-noite; pelo caminho, enganar 
A criada, e contar à senhora da demora. 
Deixa que não ame nenhuma — não —, só o jogo do amor. 
Junto da erva do campo, dos doces da corte 
Ou «coisinhas» da cidade, torna públicas 
          As disposições da minha mente. 

Fazes um bom negócio. Se já velho vier a ser 
          Inflamado por ti 
E se, a tua própria honra, minha vergonha ou dor 
Cobiças, muito mais ganharás nessa idade. 
Faz então a tua vontade, porque sujeito e mandatário 
E fruto do amor, Amor, a ti me submeto. 
Poupa-me até en…

As seis cordas

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A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que boiam no seu negro
abismo de madeira.


Federico Garcia Lorca

Ode a alegria

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Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria! Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo, Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Teus encantos unem novamente
O que o rigor da moda separou.
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu vôo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, também aquele que apenas uma alma, possa chamar de sua sobre a Terra.
Mas quem nunca o tenha podido
Livre de seu pranto esta Aliança!
Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza: todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos dá beijos e as vinhas
Um amigo provado até a morte;
A volúpia foi concedida ao verme
E o Querubim está diante de Deus! Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóboda celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória. Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóboda estrelada
Deve morar o…