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Em Paz
















Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança falida
nem injusto trabalho ou pena imerecida;

porque, chegando ao fim de minha rude estrada,
vejo que arquitetei minha própria jornada;
que se os méis ou o fel eu extraí das cousas
foi que nelas pus mel ou biles amargosas:
se roseiras plantei, não colhi senão rosas.

Às minhas florações vem já render o inverno;
mas não te ouvi dizer que maio fosse eterno!
Longas noites velei em meio a acerbas penas;
mas quem me prometeu noites boas apenas?
E algumas tive, enfim, santamente serenas...

Sorriu-me o sol, amei e fui amado assaz.
Nada me deves, pois: Vida, estamos em paz!



EN PAZ

Muy cerca de mi ocaso, yo te bendigo, Vida,
porque nunca me diste ni esperanza fallida
ni trabajos injustos, ni pena inmerecida.

Porque veo al final de mi rudo camino
que yo fuí el arquiteto de mi propio destino;
que si extraje las mieles o la hiel de las cosas
fué porque en ellas puse hiel o mieles sabrosas:
cuando planté rosales, coseché siempre rosas.

Cierto, a mis lozanías va a seguir el invierno;
¡mas tu no me dijiste que Mayo fuese eterno!
...Hallé sin duda largas las noches de mis penas;
mas no me prometiste tú solo noches buenas;
y en cambio tuve algunas santamente serenas...

Amé, fuí amado, el sol acarició mi faz.
¡Vida, nada me debes! ¡Vida, estamos em paz!

Amado Nervo - Poemas selectos de Amado Nervo. Selección Enrique González Martínez. Ciudad de México: Frente de Afirmación Hispanista, 2015. 175 p. 14x21 cm. Portada: Amado Nervo, grabado publicado en 1920. Ex. bibl. Antonio Miranda
Tradução: Anderson Braga Horta

Despertares
























Ó despertares de manhãs provincianas
com chamadas para a missa,
em que os sinos vão
lentos ou violentos
conforme a pressa
do sacristão!

Madrugadas em que estão
com sol, unicamente,
a torre paroquial e o campanário;
mas ao meio-dia
as ruas, os subúrbios, como a via,
se atapetam de um ouro coronário.

Compaginadas à janela órfã
à qual a alma não assomará,
porque aquele já não veio,
porque aquele voltou a meio do caminho
e aquele já não virá;
compaginadas vão
as silenciosas sestas
em que o vento não corre.
Tão caladas que se ouve até o arrulho
das pombas lá na torre.

Casamenteiras visões
de amplas casas solteironas:
geleias, e goiabadas
que sabem a mel de abelhas;
suaves doces em calda
guardados na despensa a sete chaves.

O caseiro lindante com o triste:
as histórias caladas,
as janelas fechadas,
o pátio onde a umidade inda persiste,
os corredores amplos e achatados,
gatos intrometidos e mimados,
e canários mais louros do que o alpiste.




Despertares

Despertares de mañanas provincianas
con sus llamadas a misa;
porque las campanas van
lentas o violentas,
según la prisa
del sacristán.

Madrugadas en que están
con el sol, únicamente,
la torre parroquial y el campanario;
pero al medio día,
las calles, los suburbios y la vía
se alfombran con un oro coronario.

Compaginadas a la huérfana ventana
a la que el alma no se asomará;
porque aquello ya no vino,
porque aquello se ha devuelto del camino
y aquello ya no vendrá;
compaginadas van
las silenciosas siestas
en que el viento no corre.
Tan calladas que se oye hasta el arrullo
de las palomas, allá en la torre.

Casamenteras visiones
de casonas solteronas:
las jaleas, los guayabates
que saben a miel de abejas:
almíbares suaves
que el arcón guarda bajo siete llaves.

Lo hogareño lindante con lo triste:
las historias calladas,
las ventanas cerradas,
el patio donde lo húmedo persiste,
los corredores amplios y achatados,
gatos refectoleros y mimados,
y canarios más rubios que el alpiste.


Francisco González León 

Referências: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira - (Seleta e Tradução). Grandes vozes líricas hispanoamericanas. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. p. 97-99.

Camden, 1982.














O cheiro do jornal e dos periódicos.
O domingo e seus tédios. A manhã
E na entrevista página essa vã
Publicação de versos alegóricos

De um colega feliz. O homem velho
Está prostrado e branco na decente
Habitação de pobre. Ociosamente
Olha seu rosto no cansado espelho.

Pensa, já sem assombro, que esse cara
É ele. Incerta, a mão acaso toca
A barba turva e a saqueada boca.

Não está longe o fim. Sua voz declara:
Quase não sou, mas os meus versos ritmam
A vida e sua glória. Sou Walt Whitman.

.

CAMDEN, 1982

El olor del café y de los periódicos.
El domingo y su tedio. La mañana
Y en la entrevista página esa vana
Publicación de versos alegóricos

De un colega feliz. El hombre viejo
Está postrado y blanco en su decente
Habitación de pobre. Ociosamente
Mira su cara en el cansado espejo.

Piensa, ya sin asombro, que esa cara
Es él. La distraída mano toca
La turbia barba y saqueada boca.

No está lejos el fin. Su voz declara:
Casi no soy, pero mis versos ritman
La vida y su esplendor. Yo fui Walt Whitman.

Jorge Luis Borges, 
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. [traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Terracota, 2013.

Menino velho
















Eu sou esse menino de cara redonda e suja
que em cada esquina os incomoda com seu
“can you spend another quarter”

Eu sou esse menino de cara suja
-sem dúvida inoportuno-
que de longe contempla as carruagens
de onde outros meninos emitem risos e saltos consideráveis

Eu sou esse menino desagradável
-sem dúvida inoportuno-
de cara redonda e suja que ante os grandes faróis
ou sob as grandes damas também iluminadas
ou ante as meninas que parecem levitar
projeta o insulto de sua cara redonda e suja.

Eu sou esse menino tosco, melhor dizendo cinza,
que envolto em lamentáveis combinações
põe uma nota escura sobre a neve
ou sobre o gramado tão cuidadosamente cortado
que ninguém senão eu, porque não pago multas, se atreve a pisotear.

Eu sou esse distraído e sozinho menino de sempre
que os lança o insulto do menino sozinho de sempre
e os adverte: se hipocritamente me acariciares a cabeça
aproveitarei a ocasião para afanar-lhes a carteira.

Eu sou esse menino de sempre
ante o panorama do iminente espanto.
Esse menino, esse menino,
esse menino que corrompe o poema com sua nota naturalista.
Esse menino, esse menino,
esse menino que impõe árduos e chatos ensaios,
e até romances, ainda mais chatos, sobre “os bairros malfalados”.
Esse menino, esse menino,
esse menino de cara distraída e suja que impõe árduas
e sinistras revoluções
para logo continuar com sua cara ainda mais distraída e suja
Esse menino, esse menino,
esse menino ante o panorama sempre iminente
(só iminente)
do iminente espanto, da iminente lepra, do iminente
piolho,
do delito ou do crime iminentes.
Eu sou esse menino repulsivo que improvisa uma cama
com papelões velhos e espera, seguro, que você venha a
lhe fazer companhia.

Niño viejo

Yo soy ese niño de cara redonda y sucia
que en cada esquina os molesta con su
“can you spend one quarter”

Yo soy ese niño de cara sucia
–sin duda inoportuno–
que de lejos contempla los carruajes
donde otros niños emiten risas y saltos considerables.

Yo soy ese niño desagradable
–sin duda inoportuno–
de cara redonda y sucia que ante los grandes faroles
o bajo las grandes damas también iluminadas
o ante las niñas que parecen levitar
proyecta el insulto de su cara redonda y sucia

Yo soy ese niño hosco, más bien gris,
que envuelto en lamentables combinaciones
pone una nota oscura sobre la nieve
o sobre el césped tan cuidadosamente recortado
que nadie sino yo, porque no pago multas se atreve a pisotear.

Yo soy ese airado y solo niño de siempre
que os lanza el insulto del solo niño de siempre
y os advierte: si hipócritamente me acariciáis la cabeza
aprovecharé la ocasión para levantarles la cartera.

Yo soy ese niño de siempre
ante el panorama del inminente espanto.
Ese niño, ese niño,
ese niño que corrompe el poema con su nota naturalista.
Ese niño, ese niño,
ese niño que impone arduos y aburridos ensayos
y hasta novelas, aún más aburridas, sobre “los bajos fondos”.
Ese niño, ese niño,
ese niño de cara airada y sucia que impone arduas
y siniestras revoluciones
para luego seguir con su cara aún más airada y sucia.
Ese niño, ese niño
ese niño ante el panorama siempre inminente
(sólo inminente)
del inminente espanto, de la inminente lepra, del inminente
piojo,
del delito o del crimen inminentes.
Yo soy ese niño repulsivo que improvisa una cama
con cartones viejos y espera, seguro, que venga usted a
hacerle compañía.

Reinaldo Arenas

Dever do Poeta
















Àquele que não escuta o mar nesta manhã
de sexta-feira, e encarcerado está dentro de algo,
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua ou mina ou árido calabouço...
a esse acorro eu e sem falar nem ver
chego e abro a porta da clausura
e ao abri-la um vago borborinho ouve-se dentro,
um longo trovão desfeito encorpora-se
ao peso do planeta e da espuma,
surgem os rios rumorosos do oceano,
vibra veloz no seu rosal a estrela
e o mar palpita, fenece e continua.

Assim pelo destino conduzido
devo sem descanso ouvir e conservar
o lamento marinho na minha consciência,
devo sentir a pancada violenta da água
e recolhê-la numa taça eterna
para que aonde esteja o encarcerado,
aonde sofra o castigo do Outono
esteja eu presente com uma onda errante,
circule eu através das janelas
e ao ouvir-me o olhar levante
dizendo: como chegarei eu junto do oceano?
Então sem dizer nada transmitirei
os ecos rutilantes da onda,
uma derrocada de espuma e areais,
um sussurro de sal que se afasta,
o grito cinzento da ave do litoral.

E assim, a liberdade e o mar responderão
por mim ao sombrio coração.


Deber del Poeta

A quien no escucha el mar en este viernes
por Ia manana, a quien adentro de algo,
casa, oficina, fábrica o mujer,
o calle o mina o seco calabozo:
a este yo acudo y sin hablar ni ver
llego y abro Ia puerta del encierro
y un sin fin se oye vago en Ia insistência,
un largo trueno roto se encadena
al peso del planeta y de Ia espuma,
surgen los rios roncos del oceano,
vibra veloz en su rosal Ia estrella
y el mar palpita, muere y continua.

Así por el destino conducido
debo sin trégua oír y conservar
el lamento marino en mi conciencia,
debo sentir el golpe de agua dura
y recogerlo en una taza eterna
para que donde esté el encarcelado,
donde sufra el castigo del otoño
yo esté presente con una ola errante,
yo circule a través de Ias ventanas
y al oírme levante Ia mirada
diciendo: como me acercaré al oceano?
Y yo transmitiré sin decir nada
los ecos estrellados de Ia ola,
un quebranto de espuma y arenales,
un susurro de sal que se retira,
el grito gris del ave de Ia costa.

Y así, por mí, Ia libertad y el mar
responderán al corazón oscuro.

Pablo Neruda. 

Deber del poeta / Dever do poeta. Tradução de Luís Pignatelli. In: __________. Plenos poderes. Tradução de Luís Pignatelli. Edição bilíngue. 2. ed. Lisboa, PT: Publicações Dom Quixote, 1977. Em espanhol: p. 14 e 16; em português: p. 15 e 17. (“Poesia Século XX”; n. 8)




E se depois de tantas palavras...


















E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo e acabemos!

Ter nascido para viver da nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua
sombra as suas trevas!
Mais valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!...

E se depois de tanta história, sucumbimos,
não já de eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrimos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena...
Então... Claro!... Então... nem uma só palavra!

¡‎Y si después de tantas palabras...

¡Y si después de tantas palabras,
no sobrevive la palabra!
¡Si después de las alas de los pájaros,
no sobrevive el pájaro parado!
¡Más valdría, en verdad,
que se lo coman todo y acabemos!

¡Haber nacido para vivir de nuestra muerte!
¡Levantarse del cielo hacia la tierra
por sus propios desastres
y espiar el momento de apagar con su sombra
su tiniebla!
¡Más valdría, francamente,
que se lo coman todo y qué más da...!

¡Y si después de tanta historia, sucumbimos,
no ya de eternidad,
sino de esas cosas sencillas, como estar
en la casa o ponerse a cavilar!
¡Y si luego encontramos,
de buenas a primeras, que vivimos,
a juzgar por la altura de los astros,
por el peine y las manchas del pañuelo!
¡Más valdría, en verdad,
que se lo coman todo, desde luego!

Se dirá que tenemos
en uno de los ojos mucha pena
y también en el otro, mucha pena
y en los dos, cuando miran, mucha pena...
Entonces... ¡Claro!... Entonces... ¡ni palabra!

César Vallejo. 

E se depois de tantas palavras... Tradução de José Bento. In: __________. César Vallejo: antologia. Seção “Poemas Humanos”. Selecção, tradução e prólogo de José Bento. 1. ed. Porto, PT: Editora Limiar, nov. 1981. p. 68. (Colecção ‘Os Olhos e a Memória’; n. 16)

O Mar
























Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, o sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que corrói os pilares
da Terra e é um mar e muitos outros
e abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o olha o vê pela primeira
vez, sempre. Com o assombro que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo, uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Só saberei
no dia seguinte da agonia.

Em: “O outro, o mesmo” (1964)

El Mar

Antes que el sueño (o el terror) tejiera
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.
¿Quién es el mar? ¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonia.

En: “El otro, el mismo” (1964)

Jorge Luis Borges. 

El mar / O mar. Tardução de Heloisa Jahn. In: __________. Nova antologia pessoal. 1 ed. Traduções de Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn e Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. Em espanhol: p. 290; em português: p. 26.

COMPOSIÇÃO ESCRITA EM SEU EXEMPLAR DA GESTA DE BEOWULF























Às vezes me pergunto que razões
Me movem a estudar sem esperança
De precisão, enquanto a noite avança,
O idioma dos ásperos saxões.

No desgaste dos anos a memória
Deixa cair em vão a repetida
Palavra e é assim que a minha vida
Tece e destece a sua exausta história.

Porventura de algum modo, contudo,
Secreto e suficiente a alma sabe
Que é imortal e que seu vasto e grave

Círculo abarca tudo e pode tudo.
Mas além deste afã e deste verso
Me aguarda inesgotável o universo.

.

COMPOSICIÓN ESCRITA EN UN EJEMPLAR DE LA GESTA DE BEOWULF


A veces me pregunto qué razones
Me mueven a estudiar sin esperanza
De precisión, mientras mi noche avanza
La lengua de los ásperos sajones.

Gastada por los años la memoria
Deja caer la en vano repetida
Palabra y es así como mi vida
Teje y desteje su cansada historia.

Será (me digo entonces) que de un modo
Secreto y suficiente el alma sabe
Que es inmortal y que su vasto y grave

Círculo abarca todo y puede todo.
Más allá de este afán y de este verso
Me aguarda inagotable el universo.

Jorge Luis Borges, em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. [traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Terracota, 2013.

Manifesto













Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
— Nossa primeira e última palavra —:
Os poetas baixaram do Olimpo.

Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferentemente dos mais velhos
— E digo isso com todo respeito —
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.

Todos esses senhores
— E digo isso com muito respeito —
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.

Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas —
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias!

A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.

É isso, companheiros
Nós condenamos
— E isto, sim, digo com respeito —
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
— Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos —
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas baixaram do Olimpo.



Manifiesto

Señoras y señores
Ésta es nuestra última palabra
— Nuestra primera y última palabra —:
Los poetas bajaron del Olimpo.

Para nuestros mayores
La poesía fue un objeto de lujo
Pero para nosotros
Es un artículo de primera necesidad:
No podemos vivir sin poesía.

A diferencia de nuestros mayores
— Y esto lo digo con todo respeto —
Nosotros sostenemos
Que el poeta no es un alquimista
El poeta es un hombre como todos
Un albañil que construye su muro:
Un constructor de puertas y ventanas.
Nosotros conversamos
En el lenguaje de todos los días
No creemos en signos cabalísticos.

Además una cosa:
El poeta está ahí
Para que el árbol no crezca torcido.

Este es nuestro mensaje.
Nosotros denunciamos al poeta demiurgo
Al poeta Barata
Al poeta Ratón de Biblioteca.

Todos estos señores
— Y esto lo digo con mucho respeto —
Deben ser procesados y juzgados
Por construir castillos en el aire
Por malgastar el espacio y el tiempo
Redactando sonetos a la luna
Por agrupar palabras al azar
A la última moda de París.
Para nosotros no:
El pensamiento no nace en la boca
Nace en el corazón del corazón.

Nosotros repudiamos
La poesía de gafas obscuras
La poesía de capa y espada
La poesía de sombrero alón.
Propiciamos en cambio
La poesía a ojo desnudo
La poesía a pecho descubierto
La poesía a cabeza desnuda.

No creemos en ninfas ni tritones.
La poesía tiene que ser esto:
Una muchacha rodeada de espigas
O no ser absolutamente nada.

Ahora bien, en el plano político
Ellos, nuestros abuelos inmediatos
¡Nuestros buenos abuelos inmediatos!
Se refractaron y se dispersaron
Al pasar por el prisma de cristal.
Unos pocos se hicieron comunistas.
Yo no sé si lo fueron realmente.
Supongamos que fueron comunistas
Lo que sé es una cosa:
Que no fueron poetas populares
Fueron unos reverendos poetas burgueses.

Hay que decir las cosas como son:
Solo uno que otro
Supo llegar al corazón del pueblo.
Cada vez que pudieron
Se declararon de palabra y de hecho
Contra la poesía dirigida
Contra la poesía del presente
Contra la poesía proletaria.

Aceptemos que fueron comunistas
Pero la poesía fue un desastre
Surrealismo de segunda mano
Decadentismo de tercera mano
Tablas viejas devueltas por el mar.
Poesía adjetiva
Poesía nasal y gutural
Poesía arbitraria
Poesía copiada de los libros
Poesía basada
En la revolución de la palabra
En circunstancias de que debe fundarse
En la revolución de las ideas.
Poesía de círculo vicioso
Para media docena de elegidos:
“Libertad absoluta de expresión”.

Hoy nos hacemos cruces preguntando
Para qué escribirían esas cosas
¿Para asustar al pequeño burgués?
¡Tiempo perdido miserablemente!
El pequeño burgués no reacciona
Sino cuando se trata del estómago.

¡Qué lo van a asustar con poesías!

La situación es ésta:
Mientras ellos estaban
Por una poesía del crepúsculo
Por una poesía de la noche
Nosotros propugnamos
La poesía del amanecer.
Este es nuestro mensaje
Los resplandores de la poesía
Deben llegar a todos por igual
La poesía alcanza para todos.

Nada más, compañeros
Nosotros condenamos
— Y esto sí que lo digo con respeto —
La poesía de pequeño dios
La poesía de vaca sagrada
La poesía de toro furioso.

Contra la poesía de las nubes
Nosotros oponemos
La poesía de la tierra firme
— Cabeza fría, corazón caliente
Somos tierrafirmistas decididos —
Contra la poesía de café
La poesía de la naturaleza
Contra la poesía de salón
La poesía de la plaza pública
La poesía de protesta social.

Los poetas bajaron del Olimpo.

Nicanor Parra - traduzidos por Joana Barossi e Cide Piquet, pela Editora 34.

A Ponte















Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país



EL PUENTE

Para cruzalo o para no cruzarlo
ahí está el puente

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país

traigo conmigo ofrendas desusadas
entre ellas un paraguas de ombligo de madera
un libro con los pánicos en blanco
y una guitarra que no sé abrazar

vengo con las mejillas del insomnio
los pañuelos del mar y de las paces
Ias tímidas pancartas del dolor
las liturgias del beso y de la sombra

nunca he traído tantas cosas
nunca he venido con tan poco

ahí esta el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yolIo voy a cruzar
sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país


Mario Benedetti - Tradução Antonio Miranda (De Preguntas al azar – 1984-1985)


Haicais
















e se no crepúsculo
o sol era memória
já não me lembro

as religiões
não salvam / são apenas
um contratempo

o pior do eco
é quando diz as mesmas
barbaridades

tem poucas coisas
tão ensurdecedoras
como o silêncio

durante o sono
os amantes são fiéis
como animais

passam as nuvens
e o céu fica limpo
de toda culpa

as plantas ouvem
se a gente elogia
se tingem de verde

em todo idílio
uma boca é beijada
a outra beija



si en el crepúsculo
el sol era memoria
ya no me acuerdo

las religiones
no salvan / son apenas
un contratiempo

lo peor del eco
es que dice las mismas
barbaridades

hay pocas cosas
tan ensordecedoras
como el silencio

durante el sueño
los amantes son fieles
como animales

pasan las nubes
y el cielo queda limpio
de toda culpa
las plantas oyen
si uno las lisonjea
se hinchan de verde

en todo idilio
una boca hay que besa
y otra es besada


Mario Benedetti - Tradução de Antonio Miranda

Negócios














tens que entender isso
tua mulher não é tua
o documento que certifica isso
é tão sinistro como o cinturão
de castidade ou a limpeza de sangue
do pasado
abra esse cabeção à luz
do entendimento
deixa de ronronar minha gravata
minha calça minha brilhantina
meu relógio de pulso minha mulher meu
gato meus libros meu pullover
deixa já de solfejar nessa nota
só: meu meu meu meu meu
nada é teu, nada te pertence
tudo é um empréstimo ambora não haja
devolução.
tua não é a unha de um mindinho (nem "teu"mindinho)
é um empréstimo. Respondes com ela.
Apressa-te no supermercado.
Ali cantam sereias de liquidações.
Liquidações. Sim, as nossas.
Compraste esse eletro-doméstico
que serve para nada.
Mas ouviste na televisão
que teu vizinho vai mugir de raiva
se tu primeiro o possuis.
Já ves, tem sua erótica, a coisa.
Temos que melhorar a tenda
que nos cederam para passar as
férias. Anunciam chuvas e tormentas.
Depois tens que voltar a esse colégio,
estudar o infiltrado. Inferno.



NEGOCIOS

esto tienes que entenderlo
tu mujer no es tuya
el documento que acredita eso
es tan siniestro como el cinturón
de castidad o la limpieza de sangre
del pasado
abre esa cabezota a la luz
del entendimiento
déjate de ronronear mi corbata
mi pantalón mi brillantina
mi reloj pulsera mi mujer mi
gato mis libros mi pullover
déjate ya de solfear en esa sola
nota: mi mi mi mi mi
nada es tuyo. nada le pertenece
todo es un préstamo aunque no haya
devolución
tuya no es la uña de tu meñique (ni "tu" meñique)
es un préstamo. La vida es un
crédito. Responde con ella.
Apúrate en el supermercado.
Allí cantan sirenas de liquidaciones.
Liquidaciones. Si, las nuestras.
Te compraste ese eletrodoméstico
que no te sirve para nada.
Pero oíste en la televisión
que tu vecino mugirá de rabia
si tú primero lo posees.
Ya ves, tiene su erótica, la cosa.
Tenemos que mejorar la tienda
que nos cedieron para pasar las
vacaciones. Anuncian lluvias y ventiscas.
Después hay que volver a ese colegio,
estudiar al topo. Inferno.


Washington Benavides - Tradução de Antonio Miranda

Consagração























Surgiu tua branca majestade no raso,
toda sonho e fulgor, na espessura;
e era em vez de minha mão — atenta ao caso
minha alma que oprimia tua cintura...

De procazes sulfatos, uma impura
fragrância conspirava ao nosso passo,
enquanto que propicio a tua aventura
encheu-se de amapolas o ocaso.

Pálida de inquietude e casto assombro,
tua frente declinou sobre meu ombro...
Unindo-me ao teu ser, com suave impulso,

ao final de meu especioso simulacro,
de um longo beijo te apurei convulso,
até as fezes, como um vinho sacro!


CONSAGRACIÓN

Surgió tu blanca majestad de raso,
toda sueño y fulgor, en la espesura;
y era en vez de mi mano — atenta al caso
mi alma quien oprimía tu cintura...

De procaces sulfatos, una impura
fragancia conspiraba a nuestro paso,
en tanto que propicio a tu aventura
llenóse de amapolas el ocaso.

Pálida de inquietud y casto asombro,
tu frente declinó sobre mi hombro...
Uniéndome a tu ser, con suave impulso,

al fin de mi especioso simulacro,
de un largo beso te apuré convulso,
¡hasta las heces, como un vino sacro!


Julio Herrera y Reissig - Tradução: Antonio Miranda

Amanhã
















Há um único lugar
onde ontem e hoje
se encontram
e se reconhecem
e se abraçam.

Esse lugar é amanhã.


Mañana

Hay un único lugar
donde ayer y hoy
se encuentranye 
se reconocen
y se abrazam.

Esse lugar es mañana.


Eduardo Galeano -  (Uruguai, 1940) - Tradução de Jeff Vasques

A Origem do Mundo















                      (El origen del mundo. Gustave Courbet)

Um sexo de mulher descoberto
(solitário olho de Deus que contempla-o por inteiro)
sem imutar-se)

perfeito em sua redondez
completo em sua esfericidade
impenetrável na mesmice de seu orifício
impossuível na espessura de sua púbis
intocável na turgência mórbida de seus seios
incomparável em sua faculdade de procriar

submetido desde sempre
(por impossuível, por inacessível)
a todas as metáforas
a todos os desejos
a todos os tormentoss

gera partenogeneticamente o mundo
que apenas necessita seu tremor



EL ORIGEN DEL MUNDO

                       (El origen del mundo. Gustave Courbet)

Un sexo de mujer descubierto
(solitário ojo de Dios que todo lo contempla
sin inmutarse)

perfecto en su redondez
completo en su esfericidad
impenetrable en la mismidad de su orifício
imposible en la espessura de su púbis
intocable en la turgéncia mórbida de sus senos
incomparable en su facultad de procriar

sometido desde siempre
(por imposeíble, por inaccesible)
a todas las metáforas
a todos los deseos
a todos los tormentos

genera partenogenéticamente al mundo
que sólo necessita su temblor.


(De Las musas inquietantes, 1999)


Cristina Peri Rossi - Tradução Antonio Miranda





Poema Aviônico do Término de Raid













Aterrizo com extrema força,
Os hangares em prontidão.
Cheiro de gasolina de carícia queimada.
E, em seguida, silenciador de beijos.

Ah, a áspera dinâmica
de querer-te em mecânica!

Loura maquinaria,
com tantos quilômetros de ação
dentro do território da ternura.

Viajo só.
“Águia solitária.”
sobre o mar de teus sentimentos.
Desejos de aquatizar…
mas estas rodas!

A imantação de teus desejos
torce os lemes de profundidade.

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.


POEMA AVIóNICO DEL TÉRMINO DE RAID

Aterrizo con demasiada fuerza.
Hay premura en los hangares.
Olor a nafta de caricia quemada.
Y, en seguida, silenciador de besos.

¡Ah, la dinámica áspera
de quererte en mecánica!

Maquinita rubia,
con tantos kilómetros de acción
dentro del territorio de la ternura.

Viajo solo.
«Águila solitaria»
sobre el mar de tus sentimientos.
Deseos de acuatizar…
¡pero estas ruedas!

La imantación de tus deseos
vuelca los timones de profundida,

Vuelo tan bajo
que necesito más las ruedas
que las alas.

Alfredo Mario Ferreiro - Traduções de Antonio Miranda

Ode ao Dia Feliz


















DESTA vez deixa-me
ser feliz,
nada aconteceu a ninguém,
não estou em parte alguma,
acontece somente
que sou feliz
pelos quatro lados
do coração, andando,
dormindo ou escrevendo.
O que vou fazer, sou
feliz.
Sou mais inumerável
que o pasto
nas pradarias,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água abaixo,
os pássaros acima,
o mar como um anel
em minha cintura,
feita de pão e pedra, a terra
o ar canta como um violão.

Tu ao meu lado na areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje tua boca,
deixa-me
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e seu frescor.

Hoje deixa-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com o pasto
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra,
ser feliz,
contigo, com tua boca,
ser feliz.




ODA AL DÍA FELIZ

ESTA vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.
Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.

Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.

Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.



Pablo Neruda, escrito em Isla Negra. Publicado em “Odas elementales”, em 1954. Tradução livre de Fabio Rocha.

Nua






















NUA és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
 
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pelo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
 
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
 
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.


Pablo Neruda

O Pai
















TERRA de semeadura inculta e brava,
terra que não tem estreitos nem sendas,
minha vida sob o sol treme e alarga.

Pai, os teus olhos doces nada podem,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as fontes.

O mal de amor cegou a minha vista
e nesta fonte doce do meu sonho
refletiu-se outra água estremecida.

Depois... Pergunta a Deus por que me deram
o que me deram e por que depois
soube da solidão de terra e céu.

Olha, minha juventude foi broto
puro que ficou sem abrir, perdeu
sua doçura de sangues e de sucos.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de beijá-la... E sendo outono,
Pai, os teus olhos na podem.

Escutarei na noite tuas palavras:
... menino, meu menino...
e na noite imensa
seguirei com as minhas e as tuas chagas.



EL PADRE

TIERRA de sembradura inculta y brava,
tierra en que no hay esteros ni caminos
mi vida bajo el Sol tiembla y se alarga.

Padre, tus ojos dulces nada pueden,
como nada pudieron las estrellas
que me abrasan los ojos y las sienes.

El mal de amor me encergueció la vista
y en la fontana dulce de mi sueño
se reflejó otra fuente estremecida.

Después... Pregunta a Dios por qué me dieron
lo que me dieron y por qué después
supe una soledad de tierra y cielo.

Mira, mi juventud fué un brote puro
que se quedó sin estallar y pierde
su dulzura de sangres y de jugos.

El sol que cae y cae eternamente
se cansó de besarla... Y el otoño.
Padre, tus ojos dulces nada pueden.

Escucharé en la noche tus palabras, ... niño, mi niño...
Y en la noche inmensa
seguiré con mis llagas y tus llagas.


Pablo Neruda, em "Crepusculário". [tradução José Eduardo Degrazia]. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011.

ALGÚN VESTIGIO DE TU PASO




















La dulzura de recordar el sol en la espiral del sueño
y el vano poder de haber ido tan lejos.


Es tan extraño perdurar, oír aún
la grave letanía de los huesos y el hechizo del mundo.


Déjame ver, déjame ver:
alguien me condujo hasta aquí y se oculta,


cubierto de grandes praderas, de climas,
refugios baldíos, luces que brillan


en el faro donde la tierra termina.
Salido de lugares inciertos, de trópicos y lluvias,


voraz como fuego, intruso,
la huella de sus dientes y sus besos en la manzana.


¿De quién es ese rostro desconocido entrevisto
donde se pierde? Es incierto y ansioso


extraviado en la fábula oscura de mi vida.
Adiós, sombra mía.





Em português:



A doçura de lembrar o sol na espiral do sonho
e o poder vão de ter ido tão longe.

É tão estranho perdurar, ouvir ainda
a grave ladainha dos ossos e o feitiço do mundo.

Deixe-me ver, deixe-me ver:
alguém me conduziu até aqui e se esconde,

Coberto de grandes prados, de climas,
refúgios baldios, luzes que brilham

no farol onde a terra termina.

Saído de lugares incertos, de trópicos e chuvas,

voraz como o fogo, intruso,
o vestígio de seus dentes e seus beijos na maçã.

De quem é esse rosto desconhecido pressentido
onde se perde? É incerto e ansioso

extraviado na fábula escura de mina vida.
Adeus, sombra minha.


Enrique Molina - Tradução de Antonio Miranda

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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