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Viagem para dentro de casa
















Aroma de café espalhado na cozinha,
poema que reclama o calor da mão febril
a tatear o verso entre flores
de amores e de mortes
no porta-retratos de moldura prateada,
escondido atrás do bibelô com seu verniz de infância,
porcelana delicada – dama que passeia com dois cachorrinhos, postos a guardar os livros prediletos,
gestos de veludo, o riso dos irmãos à mesa do almoço,
retendo por um instante – e sempre – o que jamais me deixa,
brilho de pedra preciosa aninhada no coração.


Lenita Estrela de Sá - livro “Antídoto”, poemas, Editora 7Letras, 2017.

intenção














amanhecer floral ou querer
encolho-me e levito
espero o teu pouso
das coisas, o olhar intacto
não mudam como eu
mas tenho pincéis e adornos
vou enfeitando, de olhos fechados
tudo fica como quero
o instante não me possui
reina tranquilo
mas chega perto
e eu fantasio
tu vens envolto nele
e nos estribilhos
não tocas nas coisas
és livre
e eu quero ser.


Márcia Maranhão De Conti

O açúcar
















O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

Ferreira Gullar

Aos que caminham






















essa dança que faço é comigo,
o espelho colocado ao in
verso no solo
solto e suspenso
com esses arames bambos por onde despenco

o ofício do corpo:
essa dança no quarto,
passagem

o ofício das horas: escorrer
pelo olho através da rachadura
atraído
de ilhar

se é vão de certeza
no ofício de existir ao
contrário de tantos em
resposta: vou espuma

desarmei os gatilhos
mas restou-me tuas vestes
que hei de pendurar como bandeira
no ofício da morte:
saber de todos os meus caídos

mergulhada na terra
cavando da sorte
- vestida de amor e lutas
no ofício do sonho

Patricia Porto

Geleira













nem todos os dias são de cólera
alguns são de esfumaçada coragem
contra o frio da cólera

o enforcado pode durar
bem mais que supúnhamos
eu, você, toda gente

há notícias que numa vasta manhã
o gelo começou a derreter
num ponto azul da terra
e era um gelo conhecido das guerras

quando terminamos uma dolorosa travessia
ninguém nos abraça ou nos oferece festejo
nossa testemunha solitária
escreve um bilhete, um poema na geleira
e uma onda de alegria
se revela miúda, silenciosa

ainda assim quebra a vidraça, as emergências
atravessa os tímpanos
contrai a carne de dentro até o susto
de permanecer viva

Patricia Porto

Leite de cabra














mamãe me deu leite de cabra,
não quis dar do peito pro bico continuar durinho

leite de cabra era doce
distante dos meus amargos

mamãe bebia, fumava, dançava até ficar doida
me prendia de castigo num quarto sem janelas
castigo por eu ter aquela cara de marmota
- enjoada que nem devia ter nascido - ela dizia

um dia me chamou de manso: parecia carinho
- pega lá, menina, aquela tesoura
peguei, achei que era gesto pra ficar bonita que nem ela
esse cabelo aqui você gosta? O bafo da bebida me aquecia o rosto
gosto sim, mãezinha. Então passou a tesoura, tão rente do casco
que estremi, cortou a franja, não deixou notícia de menina na cabeça
assim fica melhor, disse entre a fumaça do cigarro
não vai pegar piolho
parece menino, que era o que devia ser

leite de cabra veio quente na boca,
tão doce que aguei


Patrícia Porto - Cabeça de Antígona (Reformatório,2017)

Olhos verdes















São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Gonçalves Dias, no livro “Últimos cantos”. Série ‘Poesias diversas’. 1851.

Psique e Eros

Escultura de Antonio Canova























transfusão e falta de qualquer sentido
na palavra sangue faz sinal de fim
O dia de dizer das horas todas
esmagando o frágil da flor para trás
o anjo da efêmera vontade futura
entre um corte de carne e outro
Nada de bússola
Origamis amassados, cacos nas mãos,
catafalco amar o incansável finito
do dito não
Voo rompido
Queda na boca que não bebo memória

Da dor de abismo o mapa que não nasceu
dos condenados, não brotou vida
de nós entre os outros ainda mais cansado
A lágrima única guarda
ponteiros que te dediquei – são estilhaços
Morta de fome cai a salga mediterrânea
Morta de vida me mata na clandestinidade

Sofro de tardios e
efêmeros
Morre em mim o sim e o outro também
O espelho que nasceu quebrado de azar
entre meus punhos vão enterrados na terra
sete mais sete mais sete palmas

Sofro de extremistas
e eles me abatem no céu
em pleno voo
sem nenhuma misericórdia, amor


Patricia Porto

TÃO ÍNTIMO
















Minha porta: olho no olho.
Ela tão crespa, uma onda, um veludo verde.
Era montanha, uma terra firme, uma noite e o cisco.
Outro dia de caos e os cães ali ladrando,
a cidade fria de novos açoites, o frio da alma esquina
O olhar vazio dela
era meu vestido de renda chinesa.
A cidade crua de gente era uma nudez de passagem.
O fio trágico, o fino pano, o meio frio dentro de nossos pés,
os pés nus das estátuas de gesso.
O copo dele vazio de farsas
no meu sorriso de avisos, reclames, faz desamores bestiais.
A cidade anoitecendo, a terra ficando mais firme
era a semente, dor de respirar fundo... um raio x
O cheio dela é que esvazia
e vai de espantos me encher (ar, preciso de ar...):
é uma sede num dialeto, espiral
de uma língua da mais fina trama.
Tudo tão istmo... que me esperanto.



Patrícia Porto - Cabeça de Antígona

Casa Velha



















esse poema é uma casa com vista para os fundos
nele há notícias velhas de escombros
uma parede infiltrada
arranhões e fraturas

parece um poema antigo desabitado
mas é só um poema em demolição

casa pequena posta abaixo
para a construção insalubre
de um arranha céu
na garganta
feito nó
apertado
- uma cinta


Patrícia Porto - Cabeça de Antígona

Ideia de Deus















À voz de Jeová infindos mundos 
Se formaram do nada; 
Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia, 
E a noite foi criada, 

Luziu no espaço a lua! 
Sobre a terra 
Rouqueja o mar raivoso, 
E as esferas nos céus ergueram hinos
Ao Deus prodigioso 

Hino de amar a criação, que soa 
Eternal, incessante, 
Da noite no remanso, no ruído 
Do dia cintilante! 

A morte, as aflições, o espaço, o tempo, 
O que é para o Senhor? 
Eterno, imenso, que lh’importa a sanha 
Do tempo roedor? 

Como um raio de luz, percorre o espaço, 
E tudo nota e vê – 
O argueiro, os mundos, o universo, o justo; 
E o homem que não crê. 

E Ele que pode aniquilar os mundos, 
Tão forte como Ele é, 
E vê e passa, e não castiga o crime, 
Nem o ímpio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro 
O Nome seu maldiz, 
Quando só vive de vingança e roubos, 
Julgando-se feliz; 

Quando o ímpio comanda, quando o justo 
Sofre as penas do mal, 
E as virgens sem pudor, e as mães sem honra. 
E a justiça venal; 

Ai da perversa, da nação maldita, 
Cheia de ingratidão, 
Que há de ela mesma sujeitar seu colo 
A justa punição. 

Ou já terrível peste expande as asas, 
Bem lenta a esvoaçar; 
Vai de uns a outros, dos festins conviva, 
Hóspede em todo o lar! 

Ou já torvo rugir da guerra acesa 
Espalha a confusão; 
E a esposa, e a filha, de tenor opresso, 
Não sente o coração. 

E o pai, e o esposo, no morrer cruento, 
Vomita o fel raivoso; - 
Milhões de insetos vis que um pé gigante 
Enterra em chão lodoso. 

E do povo corrupto um povo nasce 
Esperançoso e crente. 
Como do podre e carunchoso tronco 
Hástea forte e virente. 


II 
Oh! Como é grande o Senhor Deus, que os mundos 
Equilibra nos ares; 
Que vai do abismo aos céus, que susta as iras 
Do pélago fremente, 
A cujo sopro a máquina estrelada 
Vacila nos seus eixos, 
A cujo aceno os querubins se movem 
Humildes, respeitosos, 
Cujo poder, que é sem igual, excede 
A hipérbole arrojada! 
Oh! Como é grande o Senhor Deus dos mundos, 
O Senhor dos prodígios. 


III 
Ele mandou que o sol fosse princípio, 
E razão de existência, 
Que fosse a luz dos homens – olho eterno 
Da sua providência. 

Mandou que a chuva refrescasse os membros, 
Refizesse o vigor 
Da terra hiante, do animal cansado 
Em praino abrasador. 

Mandou que a brisa sussurrasse amiga, 
Roubando aroma à flor; 
Que os rochedos tivessem longa vida, 
E os homens grato amor! 

Oh! Como é grande e bom o Deus que manda 
Um sonho ao desgraçado, 
Que vive agro viver entre misérias, 
De ferros rodeado; 

O Deus que manda ao infeliz que espere 
Na sua providência; 
Que o justo durma, descansado e forte 
Na sua consciência! 

Que o assassino de contínuo vele, 
Que trema de morrer; 
Enquanto lá nos céus, o que foi morto, 
Desfruta outro viver! 

Oh! Como é grande o Senhor Deus, que rege 
A máquina estrelada, 
Que ao triste dá prazer; descanso e vida 
À mente atribulada!


Gonçalves Dias

A Morte de Cristo















Pregado estava o Cristo à cruz que nos salvou; 
Aproximou-se a Morte e, no auge do suplício, 
Parecia hesitar e o braço retirou, 
Temendo praticar o seu nefando ofício. 

Mas Jesus, a cabeça inclinando, acenou 
À executora atroz para que, sem flagício 
Contra o filho de Deus, que Deus nos enviou, 
Pudesse consumar o negro sacrifício. 

Dando um tremendo golpe a Morte obedeceu, 
Abalou-se a natura e o sol empaleceu, 
Qual se próximo fosse o termo deste mundo. 

Tudo, tudo gemeu na terra e na amplidão; 
Somente o homem mostrou ter do peito no fundo 
Uma pedra, e na pedra arfava um coração!


Artur de Azevedo

Boato

Espalharam por aí que o poema
é uma máquina
                      ou um diadema
que o poema
repele tudo que nos fale à pele
e mesmo a pele
de Hiroxima
que o poema só aceita
a palavra perfeita
ou rarefeita
ou quando muito aceita a palavra neutra
pois quem faz o poema é um poeta
e quem lê o poema, um hermeneuta.

Mas como, gente,
se estamos em janeiro de 1967
e é de tarde
e alguns fios brancos já me surgem no pentelho?
Como ser neutro se acabou de chover e a terra cheira
e o asfalto cheira
e as árvores estão lavadas com suas folhas
e seus galhos
                    existindo?
Como ser neutro, fazer
um poema neutro
se há uma ditadura no país
e eu estou infeliz?

Ora eu sei muito bem que a poesia
não muda (logo) o mundo.
Mas é por isso mesmo que se faz poesia:
porque falta alegria.
E quando há alegria
se quer mais alegria!


Ferreira Gullar
Em: “Dentro da noite veloz” (1962-1975)

Mercado Central














Cheiro de cravo que de menina trago
meu pai me leva pela mão entre vozes e verduras
a paisagem profusa e pulsante do mercado me
encanta
brinco com as formas que vejo sob camapus
maduros: fruto e tecido,
joia imaginária que reincorporo na boca
- delicioso exercício de existir,
atávica lembrança de enfeitar-se.
Meu pai comprando maxixe, sapotis e carambolas.
Travessa, surpreendo-me na banca de temperos
onde as, mulheres se confundem com alimento.
Eu entro elas - me ouvindo.


Lenita Estrela de Sá

Sobrado da Rua do Trapiche

Meninos soltando pipas - Cândido Portinari


















Nem o musgo é capaz de trespassar
a angústia
que os cômodos vazios exalam
ou mesmo as roupas penduradas
na sacada
disputando luz com insetos
e lamúrias.
Ali o tempo se encanta
em fermentar o ócio
de tudo o que se move e ainda pulsa.
A vida só espera um pouco
nos meninos que soltam papagaios.


Lenita Estrela de Sá

Minha Medida




















Meu espaço é o dia
de braços abertos
tocando a fímbria de uma e outra noite
o dia
que gira
colado ao planeta
e que sustenta numa das mãos a aurora
e na outra
um crepúsculo de Buenos Aires

Meu espaço, cara,
é o dia terrestre
quer o conduzam os pássaros do mar
ou os comboios da Estrada de Ferro Central do Brasil
o dia
medido mais pelo pulso
do que
pelo meu relógio de pulso

Meu espaço — desmedido —
é o nosso pessoal aí, é nossa
gente,
de braços abertos tocando a fímbria
de uma e outra fome,
o povo, cara,
que numa das mãos sustenta a festa
e na outra
uma bomba de tempo.



Ferreira Gullar

Neste Leito de Ausência



















Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.

O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.

Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.

Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.


Ferreira Gullar

Meu povo, meu poema





















Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta




Ferreira Gullar

Um instante


















Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.


Ferreira Gullar

Extravio



























Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.


Ferreira Gullar

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.