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Bodas Urbanas
















Não troco meu ninho
Pelo voo livre sem destino
Não troco meus dias rotineiros
Pelas aventuras de desfiladeiros


Não vou namorar seus pudores
Não vou me associar a seus rancores
Prefiro o amar despretensioso no ócio
Quero o ponto do teu negócio


Não me cercas com teu ódio
O que te enciumas pelo pódio
Prefiro os muros culturais da cidade
Do que uma falsa e perigosa liberdade


Não me quero num amor livre
Sem regras do que me prive
Quero o de sempre que conheço
Quero um nome e endereço.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
Julho/Agosto 2015


Éden




















Depois que me cobri
Descobri o pecado
Ao compreender tudo
Fui enganado
De minha carne
E ossos aprisionados
Pelo desejo dos olhos
Que foram encantados


Perdi o jardim
E abreviei a vida
Entre tudo livre
Preferi a proibida
Troquei o divino
E minha eternidade
Pelo calor do sangue
E a vulnerabilidade


Se deus queria ser
Quebrei o servo
Em que fui torneado
Naufraguei no saber
Como um condenado.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


O Amigo














Palavras homeopáticas nutritivas como trigo
Aceitação simpática construtiva do abraço
O olhar meigo telepático que desarma embaraços
O ouvir aconchegante protetor como um abrigo

Compreensão aditiva sem exigências
Suaviza mas identifica nossas carências
Prefere ficar calado nas incongruências
Do que ser depreciativo na demência


Cativas na tua dor o irmão escolhido
Entende tuas lágrimas e teu olhar perdido
Faz dos seus os teus inimigos
Se faz tão presente perante os perigos.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


Silêncio

















Que não fique para sempre
Que seus instantes não me perturbem
Se caibo no que me concedeste
Não me tome pela candura
Que me abraças como quem deixa livre
Mas me contornas com seus muros


Que a lucidez venha na hora certa
O encoberto faça despir na procura
A insensatez das portas abertas
Não seja observado pelos nossos inimigos


Que fique o grito escrito no papel
Da dor letrada do escritor
Que o sangue do pincel do artista
Transmita vida que sua mente contemplou


Que no casulo da loucura
O perder-se dos sentidos
Na caixa do nada
Venha me acordar de novo
Da obscuridade do desgosto
Para a validade dos sons.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
Agosto 2015


Pressupostos






















Que tudo propõem! Escola!
Que tudo expõem! Esmola!
Das sobras que me restaram agora
Se inocência partiu! Embora!


As palavras duras! Que sola!
Que absorvem impuras! Empola!


Que tudo impõem! Esfola!
Que tudo excluem! Sacola!
As dores como música, afloram!
O cuidado sustenta ou escora?


A canção de ternura. Que cola
Corpos e sonhos são molas
Para os guardados a tira-cola
O sabor do refrigerante de cola.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Desconstrução















Olha aqui seu moço
Não sou rascunho ou esboço
Que espera assinatura de endosso
De alguém


Se cheguei à pele e osso
Não demandei algum esforço
Me jogaram nesse fosso
Sem ninguém


As paredes sem arcabouço
O estômago sem almoço
Sem nenhum dinheiro no bolso
Sem nenhum vintém


A alegria que foi sem reembolso
A sequidão de um único poço
Não tem causado mais alvoroço
Para este refém


Mas enquanto puder falar grosso
Áspero e cru como seu emboço
Se levaram o sulco, ficou o caroço
Neste vaivém.




Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Tardes Proustianas
















Se belo, tardio e triste chega o crepúsculo
Para esquecer a maquiagem do raiar da aurora
A fragilidade da soberba testorogênica dos músculos
Que no tempo se une as rugas e rusgas que agora


Toma o caminho silencioso para a morte
Que encolhe a estrada de quem escolhe
Se aparências desmoronam dos mais fortes
O que se reprova acolhe ou se recolhe


Da história muda e então calada
Dos amores que secaram no sol escaldante
O gosto de ansiedade obcecada
O cansado partir do retirante


Ficou o instante límpido fotográfico
A proposta congelante do passado
Os caracteres do alfabeto indo-arábico
Para grafitar o que foi codificado.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio
Agosto 2015


Distrações






















Se o vento como um amigo traiçoeiro
Que nos acaricia depois constrange
Assopra tuas coxas levantando tuas pétalas
Esvaziando-te de adereços e complicações.


Já meus olhos como um agoureiro
Fixam como encantados pelo que ver
Nos instantes casuais da perfeição
Quase refeito do ocasional das situações


Disfarço o receio frente o embaraço
Da falta de recheio do teu abraço
Disfarço o anseio triste dos percalços
Da sobriedade fria neste cadafalso


Que me permitas a insegurança
Da solidariedade amarrada de tuas tranças
Dos beijos molhados de veneno
Adocicados, mordazes e extremos.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio 30/03/2015.


Sou Negro














Porque nasci negro?
Porque me olham como diferente?
Sempre com potencial carente
Ou preferencial delinquente


Se estudo tenho cara de repetente
Sou tratado como descendente
Estrela sem brilho decadente
Minha fé é sem categoria e descrente


Sou da cor da noite
Mas de noite sou o que preocupa
Nunca foi mocinho, sou o vilão!


O mal é negro
O negativo é preto
Sou falta de luz, escuridão.


Sou vergonha na história
De uma pátria sem memória
Sou motorista dos outros, sou garçom.
Não sou servido, não sou maçom.


Sou cidadão da cor
Da cor da exclusão
Sou cota afirmativa
O futuro sem canção.



Henrique Rodrigues Soares – Hora de Silêncio

Solidão Urbana

















E todo esse cansaço
Que quase sempre disfarço
E nesse dia de mormaço
Com cara de fracasso


Alimenta teu amor sozinho
Desentoado e sem carinho
Assustado e sem caminho
Como pássaro sem ninho


Busca fugir da solidão sem jeito
Uma dor que anda pelo peito
Suave como o rio em seu leito
Descansa no devido seu direito


A cura sobe e desce andares
Entre o mórbido e artificial luminares
Um ímpar entre números pares
O som musical que bebe nos bares


As paredes do quarto são teu abrigo
De louco a lúcido, está o perigo
Entre livros e comprimidos... seus amigos
Choram no limiar do teu umbigo.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

História da América I






















Colombo
Navegando por mares imprecisos
Acreditando no incompreensível
Que olhos civilizados pudessem ver
Buscando ancorar no afã desconhecido


Se no mar que absorve os indecisos
A loucura como um inimigo invisível
Sobre a tripulação a perecer
Que se alimenta de sonhos apodrecidos


Liderar com braço estendido
Aventureiro, louco ou decidido
Em que sustentar? O que explicar?
Os caminhos que só sabe o mar


No mar, necessitando terra avistar
Dias longos de mar... sonhar como louco
Vendo terra, pisar terra por pouco
Purificado em terra pelo sal de mar.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.


A Rosa destruída













Quem deveria te proteger
Você mais temia
A bela rosa do jardim
Suas pétalas caia.


Quem te jurou amor
Com agressões te maltratara
Só espinhos restaram no corpo
Da rosa destruída


Cadê a liberdade prometida?
Tiraste do jardim para colocar
Num pequeno vaso.
Regada por suas próprias lágrimas
A rosa perdeu a alma.


Sobrevivência
Numa casa que é sua prisão
Num amor que era sua dor
Pesadas mãos que aterrorizam
Olhos que te consumiam.


Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio


Reminiscências

















Aquele que trouxe nos braços
Aquele que pagou por ter levado
Foram anos de tardes
Em que me vestir era algo
Simplesmente fantástico


E se hoje estático
Perdi para o amigo
O encanto e o abraço
Não adianta discutir fracasso
Foram anos de tardes
Que jamais voltam
Ficaram nos retratos


Único elo do tempo e o espaço
De anos e tardes
Que valeram... mas foram...
Estórias, estórias que não se apagam
Por mais que queiram
E esqueçam seu passado.



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio

Janeiro 2015.

Ocaso

















A suavidade do tempo
que como a chuva fina
que chega sem ter chegado.
Demonstra em cada terra,
em cada pedaço,
suas marcas e seu enrugado.


O seu passo miúdo
de quem não tem mais pressa
para ser o primeiro colocado.
O estar é mais que ser e ter.
E como um beijo que se toca distante.
Qualquer sentir até o sofrer...
vale mais que diamantes.




Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.

Outubro










Quando o obscuro é mais claro
Que a matiz das cores
Quando o mau cheiro é mais faro
Do que o perfume das flores


Quando os amores são raros
Colecionamos os labores
Quando os sabores são caros
Degustamos as dores


Andamos sem achar o morto
Para chorarmos e enterrar
Navegamos sem encontrar o porto
Para nas tristezas ancorar


As ruas estão descalças
E nossos olhos sem esperanças
A brisa fria nos embaraça
E nos esvazia de lembranças


Para quem a saudade
É como o cachorro vadio
Que morde com o passar da idade
E a sobriedade do enfastio


Não temo mais as frases
Econômicas e seus calafrios
Temo, temo sim os gases
Eletrônicas de um estomago vazio


As lágrimas tem sido constantes
Molhando palavras desconexas
Nada soa como importante
Para uma mente perplexa


Calar, e ficar com os instantes
Esquecer de correr, o depressa
Estagnou,  não vai adiante
Como aquele que regressa


Com os olhos dispersos e distantes
Por um sentimento permanente
Que no silêncio gritante
Ecoa nas paredes da mente.


Henrique Rodrigues Soares

Outubro 2013 

Andando















De espírito alegre e inquieto
Entre ser inteligente ou ser esperto
São caminhos, são escolhas.
Para se andar, para serem descobertos.


Dias de sorrisos
Dias de compromissos
Dias que são floridos
Dias frios e omissos


A caminhada é longa
O olhar decisivo
Perder faz parte do jogo
Mas não viver como vencido


Para voar preciso de asas
Quero sentir meu peito livre
O meu coração é minha casa
Minha disciplina meu equilíbrio.



Henrique Rodrigues Soares – Horas do Silêncio.
28/10/2014.


Estádio de Futebol














Lá, onde todos são iguais
Não há pequenos ou maiorais
Sem plebeus ou fariseus
Não tem eus ou meus


Entre os cantos e o silêncio ensurdecedor
Num instante o olhar rápido assustado
O olhar século fotográfico de torcedor
As bandeiras de vários significados


Na esperança que nascem aos domingos
Com os embates de camisas e chuteiras
Entre as odiosas botinadas do inimigo
Como ordens patrícias de uma semana inteira


O toque humano divino, o drible torto de deus
De quem se liberta de uma marcação diabólica
Os súditos contemplam o Olimpo de Zeus
Com suas verdades simbólicas



A tensão superintensiva dos rostos
A incompreensão da rivalidade, dos opostos
O abraço amigo extensivo do desconhecido
Com um sorriso desarmado, aberto e despido


Dos preconceitos e cada realidade
Não há doutores, não há idades
Vivendo a força da uniformidade
Com as cores da cumplicidade


E na frieza cortante da defesa
Em que olhos são como mãos
Num piscar para certeza
Acentuam as batidas dos corações


Na trégua dos nobres no intervalo
Para os ajustes e o descanso
Que no apito a justa tem seu embalo
De uma batalha sem remanso


Perto dos instantes finais
Da reza as lembranças ancestrais
Uma cabeçada ou um chute imortal
Qualquer coisa perto do igual


Um lado vibra outro morre
Com o gol que muda o escore
Mas a cor como a dor e alegria forte
Somos todos iguais no futebol e na morte



Henrique Rodrigues Soares – Horas de Silêncio.
Janeiro 2015.


Resistência
















Calou-se a voz da luta
Adormeceu a perseverança
As dores da labuta
São inimigas da esperança


Que venha a brisa, consorte.
Como um beijo de criança
Ambígua frente à morte
Não dando coisa alguma importância


Que venha a sorte inconstante
Como sonhos de infância
E no febril desejo do instante
Ao vazio da insignificância.



Henrique Rodrigues Soares – Horas do Silêncio

27/10/2014.

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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