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Meus Cantos




















Aos pés de Deus, humilde, por momentos
Fiz um canto de mística oração.
Juntando a voz das águas e dos ventos
Fiz desse coro um hino, uma canção.

Divulgando com ardor meus pensamentos
Cantei das aves doce entonação;
Do mar ouvindo lúgubres lamentos
Cantei das ondas a acre solidão.

E cantei mais: o hálito das flores...
Da noite escura tétricos negrores
E a transparente alvura do luar.

Mas quando quis cantar meus desencantos
Ao em vez de cantar eu chorei tanto
Que mais nada jamais pude cantar.

Bernadina Vilar
De "Meus Versos" 1986

Razões


Desde o princípio em que foi feito o mundo
Uma sentença existe, e que não muda:
Persiste o arraigado mais profundo
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

Passam-se os tempos e evolui a vida.
Há inovações e toda lei se estuda;
Ninguém remove a instigação antiga
Que o amor é cego e que a saudade é muda.

...Talvez se ame a quem não deva amarmos...
E neste item com rigor me apego,
Vendo a razão por que o amor é cego.

E se sofrermos por silenciarmos
Do abandono a dor sobeja e aguda,
Eis a razão por que a saudade é muda.



Bernardina Vilar. - Do Livro: Meus Versos

Caminhando Juntos


Caminhemos juntos, meu amigo
Marchemos de encontro ao sol,
Nem o fogo nos queimará
A luz da tua amizade me aquecerá

Caminhemos juntos, meu amigo
Atravessemos mil oceanos
Nenhuma onda nos submergirá
A força da tua amizade me conduzirá

Caminhemos juntos, meu amigo
Escalemos altas montanhas
Nenhum penhasco nos impedirá
A grandeza de tua amizade me elevará

Caminhemos juntos, meu amigo
Elevemos piedosas orações
Nenhuma noite nos assustará
A profundidade de tua amizade me encontrará

Caminhemos juntos, meu amigo
Abracemos nobres multidões
Nenhum barulho nos perturbará
A beleza de tua amizade permanecerá.


Anthony Marddonn Marques Moreira

O Tempo
















Indomável, invencível, arrogante
Como um rio a correr vertiginoso
Não te condoes nem mesmo por instante
Aos clamores dc um coração choroso.


Passageiro do mundo, incessante,
Num desafio bruto, desdenhoso,
Vais rasgando num gesto delirante
As entranhas da vida, impetuoso.


Conduzindo aos abismos do passado
Tudo quanto te surge no caminho,
Ó Tempo, não conheces a piedade!


Nada te faz parar. No triste fado
De não retroceder, seguir sozinho,
Só quem te faz deter é a Saudade.


Bernardina Vilar

Saudade



























É o longo espaço do momento
Em que murcharam nossas esperanças
É o sonho que restou no pensamento
Como uma apoteose de nuanças.


Saudade é conservar bem vivo, atento
O amor passado, cálida lembrança!
É contemplar sozinho ao desalento
A extrema solidão que em nós descansa.


Saudade é um coração pulsante forte,
Palpitante, ansioso, inconsolável
Por ver o aproximar de uma partida.


E ser logo atingido pela morte
De seu amor tão grande, inigualável,
Consumindo num adeus de despedida.


Bernardina Vilar

A Voz da Saudade




















Se cai a noite plácida, serena,
Tão branca de luar — doce magia...
A carícia da brisa torna a cena,
Num requinte envolvente de poesia.


O azul do céu de uma beleza extrema
Povoado de estrelas irradia,
E qual o encantamento de um poema
Faz palpitar sutil melancolia.


No Coração da mata um mocho pia
Rompendo a solidão num tom dolente,
Como um canto de amarga soledade.


E o coração da gente silencia
Porque mais alto que sua voz ardente
Fala a voz merencória da saudade.


Bernardina Vilar

Ayrton


























"Os Heróis nascem!
Os homens morrem.
a Filípides, 490 a.C.,
o semi-deus de Maratona."

Campeei o touro bravio,
o bisonte, o cavalo selvagen,
às pradarias d‘Espanha
e a minha crônica foi escrita,
em pedra,
nas galerias de Altamira...

Depois eu sentei praça
a serviço de Rainhas e Faraós;
os crocodilos e os leões
foram dominados à minha lança...
e a minha crônica foi escrita
ao gentil hieroglifo,
eterno,
Templos & Palácios,
em terras d‘Egito...

Em seguida fui a Roma:
——— Ave, Cæsar,
morituri te salutant !

E ao gládio e à malha
vi o polegar de César:
abaixado,
a lâmina do herói
me trespassava as entranhas...

Noutras, o polegar alevantado,
o contendor, valente,
dominado;
sempre ganhei,
só uma vez perdi
e a minha crônica se inscreveu
nos séculos:
Spartacus,
Quo Vadis ?
Ben Hur !!!
E quando o fio da morte
corria pela minha mão...
e via nos escombros,
nos olhos baços,
nos lábios retorcidos:
——— Ave, César,
os que vão morrer te saúdam!
Eu,
clemente,
procurava nos olhos do Imperador
o socorrido habet
para o outro, caído:
levanta-te,
amigo !
E bebíamos até cair,
nas tavernas de Roma...
Tem sido assim:
o uivo da morte
meu prêmio,
minha glória...
Anos depois,
sentei praça numa plaza de toros
a serviço das pontas,
à femoral
e coloquei a penhor mi sangre...
o Miúra me passa
quente,
rápido,
rente,
e faço que não vejo...

Um leve meneio,
uma rápida polegada,
o perigo dissipado...
mas eu não seria un cabellero,
un torero,
el matador!
E não me mexo:
rente,
rente à femoral,
o chão estremece,
rufam os tambores:

Olé!
e os corações ...................................... Olé!
Banderillas!
Banderillas!
Às vezes me perco
no labirinto da morte,
às curvas
e às pontas finas,
carícias da morte
en mi corazón...

O arrepio:
faz parte, sempre fez,
mas os esmorecidos disseram que vão serrar
os chifres da Fera,
fazer pistas retas,
couraças de malha,
protetor perfeito à femoral...
o Miúra,
mero garrote
de circo,
chifres de algodão...
risco:
de zero!?

Estão dizendo que querem pista reta,
carro seguro,
piloto prudente,
competidores gentis,
juízes honestos,
tempo de sol...
limites, limites — dizem —
obedecidos.

Estão loucos!
Limites?
——— Se nunca tive limites!?

Mandem-me limar os chifres deste Miúra,
injetem mais sangue nos olhos dele,
enlargueçam-lhe as patas para o coice,
dêem-lhe mais peso e agilidade...

E eu,
David,
pequeno e audaz,
a serviço das femorais,
a serviço das fêmeas,
a serviço dos teus olhos, amor,
saberei banderillearlo:
o chapéu,
a capa,
y mi corazón
aos teus pés,
à tua flor!
Onde tem uma reta,
me fechem uma curva,
onde tem sol, me botem chuva,
pista de cotovelos
e labirintos
laberintos de su corazón...

E a minha crônica está escrita
no coração das fêmeas,
trespassado às banderillas,
tardes de Toledo
y Sevilla...
Banderillas!
Banderillas!
Olé .............!!!

Um dia,
um só,
único dia,
toda la sangre de las hembras
às suas coxas derramado
derramei à minha coxa:
fêmur,
frêmito,
femoral...

E a minha crônica se conclui
em todas as praças de touros,
del país de España:
Olé!
Olé!
Olé ................................!

Finalmente sentei praça
com os cavalos de prata...


1. e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
2. e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
e ganhei
3. e ganhei

Senna...............
...............Senna
Senna...............



——— Onde estás ?

Acabei de sentar praça
numa nova scuderie:
pole position,
primeiro piloto...
de Elias...

Aquele...
das Carruagens!
de Fogo...

Fire
Fire
Fire
ao Ritual Fire Dance, the poem!



Soares Feitosa
Salvador, BA., noite alta, 01.05.94, Ayrton Senna, última corrida.

Strip-tease


























Jamais eu ficaria quieto
sob o teu olhar;


que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos.


Porque sobre mim,
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.


Soares Feitosa

O Tempo seca o Amor

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