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Cantiga de lavadeira
















Libertos de trouxa tremem
as calça e os paletós.
Doem na pedra pano e carne
sem anotações no rol.

Canto azul da lavadeira
lavado na ventania.
Mistura de corpos gastos,
de sabão, espuma e anil.

O suor da blusa operária
(chora o lenço de Maria).
Transita o amor pela anágua,
geme o lençol da agonia.

O sonho dorme na fronha,
a camisa precordial,
nódoas da fome da criança
na toalha da mesa oval.

Nas água têxteis do rio,
há sabor de sangue e sal.


Mauro Mota

Declaração de bens de família
























Cadeiras e sofás, consolo e jarra,
camas e bules, redes e bacias,
a caixa de charão, o guarda-louça,
tetéias, mesa, aparador, fruteira,

a cesta de costura, o papagaio,
a cafeteira, o cromo da parede,
o jogo de gamão, as urupemas,
o álbum, o espelho, o candeeiro belga,

alguidares, baús de roupa, esteiras
de pipiri, a tábua do engomado,
pilão de milho, o tempo do relógio,

quartilhas, almanaques, tamboretes,
o santo da família, a lamparina,
o carneiro de Belém e o seu balido.

Mauro Mota - De Itinerário, 1975

O Cão
















É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão

separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.

O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora

sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.


Mauro Mota

Chuva de vento


















De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.



Mauro Mota

O Guarda-Chuva





















Meses e meses recolhida e murcha,
sai de casa, liberta-se da estufa,
a flor guardada (o guarda-chuva). Agora,
cresce na mão pluvial, cresce. Na rua,
sustento o caule de uma grande rosa
negra, que se abre sobre mim na chuva.


Mauro Mota

Humildade















Que a voz do poeta nunca se levante
para ter ressonâncias nas alturas.
Que o canto, das contidas amarguras,
somente seja a gota transbordante.


Que ele, através das solidões escuras
do ser, deslize no preciso instante.
Saia da avena do pastor errante,
sem aplausos buscar de outras criaturas.


Que o canto simples, natural, rebente,
água da fonte límpida, do fundo
da alma, de amor e de humildade cheio.


Que o canto glorificará somente
a origem, quando mais ninguém no mundo
saiba ele de quem foi ou de onde veio.


Mauro Mota

Elegia n°1


























Vejo-te morta. As brancas mãos pendentes.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas
tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes


fria diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!


Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.


Mauro Mota

Os Inquilinos














Nos quartos da casa
moram os fantasmas
dos avós
inquilinos. Mais
que a gente, têm medo
de ficar sós.


Mauro Mota

Imagem da Internet.

O Prisioneiro

















O ventre e os braços
da mãe, o berço,
a casa, a escola,
o pátio, o ônibus,
o escritório, a
mulher e o sono.


Mauro Mota

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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