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Fica a paz…
















Fica a paz de um canto triste
dos riachos que vão embora,
vem a tarde e o canto insiste
nos meus ouvidos de aurora.


Resta uma chama encostada
numa sombra sem memória,
fica a noite e um quase nada
do que fora a minha história.


Não sou mais aquela infância
debruçada em teus terraços.
Vais!... E deixas a Esperança
desmaiada nos meus braços.


O homem nasce e vira glória
quando é pedra e vira a flor:
Deus então mais comemora
quando é barro e vira amor.


Afonso Estebanez

Confissão de Pai para Filho





















Filho, abro a janela para o amanhã
e não há nisso um vestígio de esperança.


Aceito a imposição de um novo dia
enquanto aguardo a hora do pão fresco.


Vivo intensamente o nada de em seguida
como um centauro ultrapassando o mito.


O que faço não marca o acontecimento,
senão o fechamento nulíparolunar
das portas dos dias das horas do tempo.


Sento-me à mesa e repito com a fome
o golpe traiçoeiro da abastança.


Filho, abro o jornal e devoro uma notícia
que custou um sangue anônimo qualquer.


Eu não quero ser cúmplice do mundo.
Vou ao trabalho ou não vou,
ponho a gravata ou não ponho.


Afinal eu sou o que não muda o curso
de nada segundo a minha preferência.


Qualquer alternativa é uma imposição
do agora ilhado no tempo.


O passado foi e o futuro é na cozinha
onde a carne está sendo retalhada...


Enquanto isso, $uborno com produtos
importados a viciada alfândega do coração,
malgrado os impostos escorchantes
devidos à amável consciência...


Afonso Estebanez

Romaria de Esperança
















Sonhos são pássaros que emigram
entre mitos de esperas e liberdade
numa romaria infinita ao encontro
marcado da memória despertada...
... para o cumprimento do instinto
de não necessitar nunca de nada...


Eles dormem acordados como faroleiros
que sabem pela velha cartilha das estrelas
a hora de desancorar do céu seu novo dia
já despertado na restinga da alvorada.


Sonhos às vezes são notícias postadas pela brisa
que desperta com as mãos aquecidas de ternura.
Às vezes são regatos chorando sem sofrimento,
pois não há dor quando a espera sempre alcança.


Mas há sensações de eternidade onde nenhuma
pétala desfolha de sua flor sem que o consinta
o vento passageiro dos arrulhos da esperança.


Não há presságios nem maus pressentimentos
onde os sonhos são pássaros
que emigram na lembrança...


Afonso Estebanez

Canção pra você voltar


















Como águia nas vertentes do infinito
você não pode mais perder-se assim
como o corpo da alma sem o espírito
como flor que se ausenta do jardim...


Você não deve nunca mais perder-se
de mim enquanto não for hora ainda...
Enquanto for tão cedo e o amanhecer
é sonho que desperta, mas não finda.


Talvez deva supor que sua ausência
seja a parte acordada de meu sono...
E a minha ensolarada inconsciência
seja a linda manhã do ainda outono...


Por isso não se ausente mais de mim
que sempre fiz você dormir de amor!
Como as crinas douradas do alecrim
que ao pôr-do-sol hospeda a sua flor...


Você não pode mais deixar-se alada
ao tempo como o vento sobre o mar...
Você tem que voltar tão despertada
como um sonho cansado de sonhar...


Como águia que regressa do infinito...
Enfim! É justo amar o amar-se assim...
Como alma que retoma seu espírito...
Como flor que retorna ao seu jardim...


Afonso Estebanez

Soneto de Saudade















Em minh’alma chove tanto
que não há como esconder
entre os olhos tanto pranto
que meu pranto faz chover...


Por encanto ou desencanto
em minh’alma é anoitecer
com saudade do teu canto
no encanto do amanhecer...


Num jardim sem claridade
mora em mim tua saudade
com o meu modo de viver...


E a saudade não consegue
esquecer que me persegue
para eu nunca te esquecer...


Afonso Estebanez

Cantiga Inocente





















Construo estradas na alma
onde os sonhos vão passar
e na espera passa a calma
para o amor poder sonhar.


De alguns fios de alvorada
as cordas de um bandolim
vêm tocando pela estrada
do amor cantado por mim.


Por aqui passa a saudade
da saudade que não sinto
do meu sonho de verdade
que vivo quando consinto.


Consinto que tu me vejas
chorando porque me vais
sem sair das profundezas
de meus encantos banais.


Encantos de ser um louco
ou o eterno entre mortais.
É tão pouco! se do pouco
teu amor não tenho mais!


Afonso Estebanez

De Alma no Vento...
















Ainda que seja só em pensamento
não me procurem onde não estou.
Eu não fiquei no cântico do vento,
pois a canção do tempo me levou.


Talvez meu coração tão desatento
não tenha percebido o que passou.
Ainda que seja só em pensamento
não me procurem onde não estou.


Eu não estou num doce desalento
por amor tão sonhado que passou.
E nem estou num agridoce alento
de sonhar o que o sonho recusou.


Não me procurem onde não estou
ainda que seja só em pensamento.
Morre o corpo num resto que ficou
de minha alma levada pelo vento.


Afonso Estebanez

A Canção da Espera






















Quando deixares meu desavisado coração
não esqueças de deixar a luz da lua acesa.
Deixa a chave da esperança sobre a mesa
do quarto onde dormiu teu último verão.


Não te esqueças das romãs do teu outono
só porque as sombras do inverno te virão
como lembranças de um amor de ocasião
que não conciliava mais o próprio sono.


Talvez eu me adormeça aqui para sonhar
com o outro lado temporão da primavera
onde eu sonhar me seja estar à tua espera
doendo de um retorno de qualquer lugar.


Estarei dividindo com as águas do riacho
uma breve canção de prazer e sofrimento
sobre a vida refeita de pena sem lamento
o coração envolto no seu próprio abraço.


Afonso Estebanez

Rendição





















Como quem frustra uma dor
é que eu te entrego uma flor
que em mim havias deixado.


Não quero que me devolvas
a tua flor entre outras coisas
que me arrancas do passado.


Seja quando ou onde eu for
lá já esteve um fausto amor
não que o tivesses plantado.


Não quero que me devolvas
teu amor entre outras coisas
que bem pouco tens amado.


Mesmo tão incompreendido
se tens dor do amor perdido
eu te dou um já encontrado.


Afonso Estebanez

De Alma Feminina





















Deixa a alma espalhar-se pelo vento
deixa o tempo perder-te onde quiser
deixa a brisa seguir teu pensamento
e a menina encontrar-se na mulher.


Aos látegos do mar o sonho acalma
aos espinhos do só o bem-me-quer
se tu ficas no campo e pões a alma
naquela rosa em que te vês mulher.


Perder-me em ti o teu amor ensina
e tanto vou perder-me onde puder
o quanto houver tua alma feminina
de ser deusa com alma de mulher.


Afonso Estebanez

Pelas Mulheres Anônimas





















Rogo hoje a Deus pelas mulheres esquecidas
que sempre foram ‘caso’ e nunca foram tema:
mulheres sem o amor das musas pertencidas
sem o nome lembrado ao menos num poema.


E penso nas mulheres nunca compreendidas
as que sofrem sozinhas porque sentem pena
das mulheres que choram porque suas vidas
são extremos entre o prazer e a dor suprema.


E Deus se apraza das mulheres sem história
que desistem do sonho sem deixar memória
ou vivem de ilusões dos sonhos já passados.


Rogo de Deus o amor de dias complacentes
eis porque todas as mulheres são nascentes
dos milagres de amor que foram realizados!


Afonso Estebanez - Pelo Dia Internacional da Mulher

Última Rosa de Sarom




















Além dos muros do meu coração aberto
os cantares das rosas que plantei no pó
são sensações das primaveras no deserto
aquém dos muros dos Jardins de Jericó.


Eu sou a Rosa de Sarom em teu desperto
coração tão infenso ao estar morto e só
em que se cumprirá o antigo manifesto
das rosas castas dos Jardins de Jericó.


Bendito quem deixou as trevas pela Luz
por ter plantado rosas no lugar da cruz
entre os canteiros dos Jardins de Jericó


de onde a última Rosa de Sarom voltou
para ascender ao Pai a rosa que restou
além dos muros dos Jardins de Jericó.


Afonso Estebanez

Nona Rosa de Sarom




















Eu vivo como quem nas pétalas das rosas
transcreve um êxodus de roseirais em flor
onde as fugas de amor por vias dolorosas
conduzem rosas para um canaã de amor.


O encanto da paixão por vias espinhosas
entre as rosas não é mais símbolo de dor
onde os lírios da fé são flores milagrosas
da Rosa de Sarom em todo o resplendor.


Faço de rosas o óleo santo das candeias
que faz fluir a lume o sangue pelas veias
a estes jardins em festa no meu coração.


Todo o que crê nas rosas nunca morrerá
que a primavera é o jeito do que nascerá
de crer na rosa muito mais que na razão!


Afonso Estebanez

Oitava Rosa de Sarom




















É preciso enxergar com a visão da aurora
os canteiros de luz nos olhos da alvorada
e crer que as rosas estão lá antes da hora
como servas das antecâmaras da amada.


É preciso convir que não existe o outrora
que rosas sempre têm a brisa perfumada
no topo do futuro que foi sempre o agora
como o êxtase da primavera despertada.


Rosas são infinitas como é a minha fome
do amor eterno que me vive tão profundo
que já nem pode me deixar sem padecer.


Eu vivo pela dor que meu amor consome
na luz de minhas rosas únicas no mundo
que me resgatarão da morte se morrer...


Afonso Estebanez

Sétima Rosa de Sarom




















Minha sétima rosa é a última que a vida
fez a memória do deserto deslembrada
que neste mundo toda flor é concebida
para lembrar de uma verdade revelada.


A verdade da rosa é a aurora resumida
em primavera do deserto sem ter nada
eis que do nada cada rosa é presumida
como uma dádiva profana consagrada.


E Deus é pompa pela tua circunstância
de ser amada por candura e tolerância
por esse meu amor oculto de aprendiz.


Mas a sétima rosa induz-me o coração
a reduzir todo esse amor numa paixão
que faz de mim o teu amado mais feliz.


Afonso Estebanez

Sexta Rosa de Sarom















O enigma da rosa é o mero instinto
que simples faz supor ao jardineiro
ser um dom penetrar-lhe o labirinto
dos instintos das flores do canteiro.


Minha rosa, porém, eu a pressinto,
pois ela é luz da paz do candeeiro:
chama infinita pelo amor que sinto
como o aroma num doce cativeiro.


As Rosas de Sarom são as feridas
curadas pelo amor de muitas vidas
que as lágrimas transiram pela dor.


Mas hoje renascidas dos martírios,
são rosas recatadas como os lírios
dos jardins replantados pelo amor.


Afonso Estebanez

Quinta Rosa de Sarom
















Não procurem a rosa pelo céu noturno
onde a luz das estrelas mais brilhantes
é mera imagem no horizonte taciturno
da miragem mais ilusória dos amantes.


As rosas são onipresentes no diuturno
exercício de amar no fio dos instantes.
As rosas nunca têm o espírito soturno
desses invernos já remotos e distantes.


No coração deserto as rosas não estão
e nem dos cânticos das filhas de Sião,
até o santuário edênico do Hermom...


E nem nas tendas amorosas da ilusão.
Mas é nas fendas do sagrado coração
que todo amor é uma Rosa de Sarom!

Afonso Estebanez

Quarta Rosa de Sarom














Porque eu exalto o amor de minhas rosas
o amor por minha amada exulta em mim.
Porque malgrado as flores mais formosas
só a minha rosa é eterna em meu jardim.


Pois que o louvor do gamo às venturosas
servas chega em meus vales num clarim,
trago assim das vertentes mais rochosas
minhas rosas com ungüentos de alecrim.


Hoje eu sei me encontrar sem me perder
morrendo em teus caminhos sem morrer
porquanto és minha amada e pertencida.


Que eu te pertenço como um sonho vivo
pertence aos sonhos que me dão motivo
para que eu morra em mim por tua vida.


Afonso Estebanez

Campo de Meditação





















As estradas que sempre iam,
continuam indo, a despeito de mim
que por hora estou voltando...


Mas quando não houver
mais estradas para quem vai,
suave será a carona dos riachos
que são estradas feitas de lágrimas
de saudade dos amores viajados.


Continuarão, como os dias e as noites,
na direção do reino do nunca mais...
E como as rosas num leito de orvalho,
é possível que eu me reencontre comigo
em qualquer curva do crepúsculo
para o vasto espanto das manhãs
que terei deixado para trás...


E não posso evitar que seja assim:
as estradas levando a memória
do quanto eu ando de rosas
nas veredas do meu jardim...


Afonso Estebanez

Terceira Rosa do Oriente





















Ô, insensatez humana convencer as rosas
de que das rosas todo o tema se esgotou!
Quantos mistérios há nas faces luminosas
das rosas da manhã que ainda não raiou...


As rosas são dotadas de almas poderosas
que o escultor das primaveras reinventou
num paradoxo de impressões prodigiosas
tal retocar a flor que Deus não terminou.


Eu canto as rosas que replanto no jardim
as desfolhadas pelas frias mãos do vento
que feneceram de ser uma flor qualquer.


Eu canto a rosa do último poeta em mim
a que folheia o livro do meu pensamento
e sangra por amor no ventre da mulher!


Afonso Estebanez

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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