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Definição
























O corpo é onde
é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.

Affonso Romano de Sant'Anna   -Publicado no livro Canto e palavra (1965).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198

A Coisa Pública e a Privada




















Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.


Affonso Romano de Sant'Anna. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Poema integrante da série Aprendizagem de História

Gaia Ciência



















Gosto de me iludir
pensando
que hoje amo
melhor que ontem amei.

Assim desculpo o jovem afoito
que, em mim, me antecedeu
e, generoso, encho de esperanças
o velho sábio
que amará melhor que eu.



Affonso Romano de Sant'Anna

Corpo: anatomia do mito














Ferro e cálcio
amor e calma,
iodo e ódio,
chumbo e dor.

Da cartilagem
ao osso,
do menino
ao moço
foi-se fazendo
a anatomia
desse corpo
— difícil e vária —
pois resume
a anatomia
do mito
e da animália.

O corpo
é meu mito
predileto,
a palavra
que mais uso
e o objeto
mais completo.

Por isto,
domar o corpo,
é seus mitos dominar,
é circunscrever os mitos
onde os mitos
devem estar,
que no corpo é que se instalam
e se fazem alimentar.

Por isto,
que outros corpos
há que sempre conquistar,
pois que um mito
a outro mito
sempre ajuda
a decifrar.



Affonso Romano de Sant'Anna

Cai a tarde sobre meus ombros


Cai a tarde
sobre meus ombros
não apenas
sobre os Dois Irmãos.

Desaba mais um dia.
Para muitos — de esperança.
Para outros — de humilhação.

Sobre mim
desaba a história.
Em algum lugar
disseram que há luz
mas o que vejo
— é a escuridão.



Affonso Romano de Sant'Anna

A implosão da mentira



Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.


Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
—diária/mente.


Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.


Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.


Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode

implosiva.




Affonso Romano de Sant'Anna

Este poema, que foi enviado ao site http://www.releituras.com/index.asp Releituras pelo autor, de onde tive o prazer de conhecê-lo.

PERDAS POÉTICAS



Perco, em média, três poemas por semana
por desatenção e desmazelo.
Ainda há pouco um solicitou-me a atenção
e perdulário fingi não vê-lo.

Ah, o que perco por soberba
o que perco talvez por não aceitar
o que eu mesmo me ofereço.

Os que me vêem passar
me pensam rico, no entanto,
o que perdi não tinha preço.

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Affonso Romano de Sant'Anna

Poesia Reunida, vol 3 L&PM. p 61

Coisa Básicas


Vinte e poucas letras de alfabeto
e os inumeráveis textos e civilizações
sete notas musicais
e a profusão de harmonias e canções

quatro cores básicas
e essa infindável reverberação

dois digitos
e o conhecimento cósmico em expansão

um só Principio Ordenador
contendo em si o seu contrário
e, no entanto,
que incalculaváveis consequências!

------------------


Affonso Romano de Sant'Anna (Poesia reunida vol 2 L&PM, p 307)

A primeira vez


























A primeira vez que entendi do mundo alguma coisa,
foi quando na infância cortei o rabo de uma lagartixa
e ela continuou se mexendo.


De lá pra cá fui percebendo
que as coisas permanecem vivas e tortas,
que o amor não acaba assim,
que é difícil extirpar o mal pela raiz.


A segunda vez que entendi do mundo alguma coisa,
foi quando na adolescência me arrancaram do lado esquerdo
três certezas e eu tive que seguir em frente.


De lá pra cá aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens,
seja nas nuvens ou no grafite de qualquer muro.


Affonso Romano de Sant'Anna


























Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.


Affonso Romano de Sant'Anna

O Amor e o Outro













Não amo
............... melhor
nem pior
do que ninguém.


Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
...............até com nojo.


Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.


Affonso Romano de Sant'Anna

Catando os cacos dos caos




















Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
............ - como se fosse flor.


Catar os restos e ossos
da utopia
............ como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.


Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
............ - do dia cão.


Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.


Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.


Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.


Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
............ - como era antes.


Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.


É um quebra-cabeça? ............ Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção


......Cacos de mim
.....Cacos do não
......Cacos do sim
......Cacos do antes
......Cacos do fim


Não é dentro
............ nem fora
embora seja dentro e fora
..... no nunca e a toda hora
que violento
.....o sentido nos deflora.


Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora


Affonso Romano de Sant'Anna

Assombros

























Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.


Fora, não se dão conta os desatentos.


Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.


Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.


Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna

SOU UM DOS 999.999 POETAS DO PAÍS

























Fragmento 1

INTRODUÇÃO SÓCIO-INDIVIDUAL DO TEMA

Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.

(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)

Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela - a força de áries na azáfama da casa
......a decisão do imigrante que veio se plantar
ele - capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
......lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
......domingueira.

(- Estes são sinais particulares
......que não quero remarcar, embora
......tenha aprendido em manuais
......que o que distingüe a escrita do homem
......são seus traços pessoais que ninguém pode
......imitar.)

Fragmento 2

DESENVOLVIMENTO HÁBIL E CONTÁBIL DO (P)R(O)BL(EMA)

Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.

Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.

Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
....... de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.

Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão.

Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.

Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.

Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
...... letra & sangue se misturem
.....espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
- muitos os chamados, poucos os escolhidos.

Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia
estupefactos
descobrem que só poderiam/deveriam
sobreviver com a própria
..... que escondem e renegam
por pudor
........... recalque
................... e medo.

Sou um dos 999 poetas do país
que
sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
...dois versos pena & espada
(o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada
senão de tinta e de endereço.
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
... o nada se cria
... e o nada se transforma.


Affonso Romano de Sant'Anna

Os Limites do Autor

















Às vezes, ocorre
um autor estar
aquém
— do próprio texto.
De o texto ter-se feito,
além dos dedos,
como gavinha que inventou
a direção de seu verde,
e fonte que minou
o inconsciente segredo.
Um texto ou coisa
que ultrapassa a régua,
a etiqueta e o medo,
copo que se derrama,
corpo que no amor
transborda a cama
e se alucina de gozo
onde havia obrigação.
Enfim, um texto operário
que abandonou o patrão.


Às vezes ocorre
um autor estar aquém
da criação.
O texto-sábio
criando asas
e o autor pastando
grudado ao chão.


— Como pode um peixe vivo
estar aquém do próprio rio?
— Que coisa é esse bicho
que rompe as grades do circo
e se lança na floresta
no descontrole de fera?
— Que coisa é essa
que se enrola?
É fumaça? ou texto?
que se alça do carvão?


Lá vai o poema ou trem
que larga o maquinista
na estação
e se interna no sertão.
Ali o poema
olhado de binóculo
— só de longe tocado —
e o autor, falso piloto
largado na pista ou salas
do aeroporto, atrás do vidro,
enquanto o texto
levanta seu vôo cego
com o radar da emoção.


Enfim,
um poema que vira pássaro
onde termina a mão
ou avião desgovernado
que ilude o autor e a pista
e explode na escuridão.


Affonso Romano de Sant'Anna

Confluência



















Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.


Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.


Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
Intumescente encontro de reentrâncias.


Ter-te amado
fez-me sentir:


No corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.


Affonso Romano de Sant'Anna

Arte-final















Não basta um grande amor
para fazer poemas.


E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.


O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.


Uma coisa é a letra,
e outra o ato,


quem toma uma por outra
confunde e mente.


Affonso Romano de Sant'Anna

Poema para a Amiga

















Contemplo agora
o leito que vazio
se contempla.


Contemplo agora
o leito que vazio
em mim se estende
e se me aproximo
existe qualquer coisa
trescalando aroma em mim.


Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho
que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila
ainda ontem descobrias?


Agora eu te diria
o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas,
e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti
o que de ti me vais doando.


Eu muito te agradeço este teu corpo
quando nos leitos o estendias e o me davas,
às vezes, temerosa,
e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo
em mim me conturbei
– (o percebeste) me aguardaste
e nos olhos te guardei.


Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava
quanto mais o via,
pequeno e manso enigma
que eu decifrei como podia.


Agora eu te diria
o que não soubeste
e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara
e nunca o doaria.


Nele eu fui pousar
quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar
quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia
e foi por ele que eu senti
a solidão, e o amor
que em mim havia.


Teu corpo quando amava
me excedia,
e me excedendo
com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente
de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho
não sei como permaneço nesta ausência
em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor
e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.


Affonso Romano de Sant'Anna

Fascinio














Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço.
Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.


Affonso Romano de Sant'Anna

Estão se adiantando

















Eles estão se adiantando, os meus amigos.
Sei que é útil a morte alheia
para quem constrói seu fim.
Mas eles estão indo, apressados,
deixando filhos, obras, amores inacabados
e revoluções por terminar.
Não era isto o combinado.


Alguns se despedem heróicos,
outros serenos.Alguns se rebelam.
O bom seria partir pleno.


O que faço?Ainda agora
um apressou seu desenlaçe.
Sigo sem pressa. A morte
exige trabalho, trabalho lento
como quem nasce.


Affonso Romano de Sant'Anna

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.