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Favelização















O aço escorou, num perfil bem soldado,
as tramas do cesto de palha da cata
dos milhos que brilham nas juntas do junco
que cobre as cabeças das mulheres da roça
que seca até o solo sob o sol das dez.
E arriou sobre uma terra urbana:
é a vista do morro à noite.

O concreto armado firmou com seu traço,
entre as tranças e nós de uma rede de pesca,
pequenos cacos de escamas de peixes
que sobram nas mãos dos homens do mar
e brilham na luz da lua das três.
E estendeu sobre uma montanha urbana:
é a vista do morro à noite.

(O armado soldado traçou com seu aço
a rede de pesca, de tranças, de nós
que nasce nas mãos de homens de palha
que secam o mar de mulheres concretas
que escoram seus peixes já mortos na trama.
E lançou sobre uma terra humana:
é a vista do morro à noite.)

As firmes cabeças que enchem o solo
trazem na luz da lua das três
milhares de cestos com os sóis das dez
que surgem do brilho das juntas das mãos
que plantam pra cata de frutos concretos.
E espalham sobre uma terra urbana:
é a vista do dia do morro.


Ellen Rose

achei as palavras
as manipulei
mas quando cresci
só desiludi
achei que era alguém
até que entendi:
o poema se faz
enquanto se faz.


Ellen Rose

















Debaixo do sol que seca o chão
E sob o luar mais belo que há
Se fazendo da terra, do calo na mão
E do calor da alma, que não pode esfriar
Assim vive um povo mais que bonito
Que de nada carece pra ser rico
De força maior que os cabras dos mitos
É o sertanejo que nunca parou de cantar.

Tô certa que não há, oxente, ó não
Um povo como esse que eu vi por lá
Nem um luar como esse do sertão
Nem terra mais seca que se possa pisar
Mas o matuto tá vendo água caindo
Arando, plantando, colhendo e sorrindo
Não é conto, senhores, tô garantindo
Tô vendo o sertão virar mar.

Vem pra fora, menino!
Vem ver a boa notícia chegar.
Olha todo esse verde, menino,
A chuva tá fazendo tudo brotar
Vem do jeito que está, menino...
Vem ver o sertão virar mar!


Ellen Rose

Poeminha em círculo

Wassily Kandinsky

... A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão...


Ellen Rose



Antes depois do que nunca.
Antes eles do que nós.
Do que quem dispersa, antes quem junta.
Do que à água funda,
antes aos faróis.

Antes muito do que pouco.
Antes pouco do que nada.
Do que preso, antes solto.
Do que são, antes louco.
Antes caneta do que espada.

Antes rico do que pobre.
Antes pobre do que infeliz.
Do que indigno, antes nobre.
Antes amigo do que esnobe.
Do que "farei", antes "eu fiz".

Antes à mostra do que escondido.
Antes nossos do que meus.
Antes sarado do que ferido.
Antes ferido do que superprotegido.
Do que a nós, antes ao nosso Deus.

Antes amar do que ferir.
Antes amar do que julgar.
Antes amar do que diminuir.
Antes amar do que fingir.
Antes amar, antes amar.

Antes "de nada" do que "desculpa".
Antes "desculpa" do que calar.
Do que a rendição, antes a luta.
Antes sábia do que culta.
Antes ouvir do que falar.

Antes uma jabuticaba no chão,
do que duas jacas brotando.
Antes Sol do que verão.
Antes uma sobriedade na mão
do que duas ilusões voando.


Ellen Rose







O Poema Perfeito

Claude Monet

Se é artista
pintor, poeta,
violonista
solta o pulso
(aquele dos dedos)
e ouve o pulso
(aquele do peito)
e não se preocupe...
afinal, o que é
um trabalho perfeito?



Ellen Rose

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.