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Sinfonia do Lixo


Passei mal,
Não pelo voo irrequieto das moscas
ao redor do asco
da sinfonia do lixo,
mas pelo fato do lixo ser banquete
de pais, cachorros e crianças.

Mortos vivos de si mesmos,
esqueceram seus nomes,
esqueceram seus passaportes brasileiros.
Os desgraçados nunca viajaram
para além de uma torpe agonia de baques,
povoada de torpes embates.
Não jogam futebol e são chamados de craques.

Em cada fresta de osso
Em cada marca
Eu vejo a fome que se cala.
Aparências esquálidas
sustentam as olímpicas quimeras
dos hiatos das desigualdades
confirmadas
pela história
pela língua
pelo fogo de chumbo
das armas oficiais.

Acendi o cigarro imaginário
que me faz companhia.
Andei pelas vielas exauridas
de pão, sonho e poesia.
Só há excesso de cinza e sofrimento.

Chorei. Segui em frente.
Minha omissão é violência.
Gritei o berro da certeza
que sem luta
a vida segue muda
e o mundo não muda.

Passei mal pela miséria, decerto
porque o miserável refugo humano
A matéria deste meu triste canto
ficou fora do alfabeto.


Paula Beatriz Albuquerque - (Inspirado em O Bicho, de Manuel Bandeira)




















Rebelião é Fênix da consciência
Lutam poetas de peles e lanças
Queimam grilhões e açoites
Submetem jugos de aços
Nas emboladas aos antepassados
Abrem celas
Furam cercos como flechas
Melam de sangue a melanina desses crimes
E o que resiste na tortura muda tua e minha
São cicatrizes de cores
Luta, brado e poesia.


Paula Beatriz Albuquerque











Meus dias são raios
Que lavam o meu resguardo
Me guardo inteira por dentro
Para colar minhas partes, remendo.
Minha brisa
É fogo e ventania
Meu semblante calmaria
É minha guerra interna vietnamita.


Paula Beatriz Albuquerque

Tentei conter a pressão do papel
Sua potencialidade enigmática
Que jorra tantos berros não-ditos
E sentidos plenos de incertezas.
Tentei conter o fluxo ditirâmbico
Dessa escandalosa pausa
entre o verbo e o sussurro.
Tentei mas fui capturada pelo furacão
Que mora nesse vazio grávido
Então sou letras transitando
Em versos despidos de um fugaz idílio.
Não há sonho. Há sono, ressaca e dor.
Torpor talvez. Ou nada disso.
É uma folha em branco
A guardar as lacunas do meu por enquanto.


Paula Beatriz Albuquerque

Ouço a música do tempo
Se repartir em cantigas antigas.
As notas se prendem como imãs
Formando um manto alegórico
Que nos alça para fora de nós e acima.
O tempo volta com saudade
Abre os abraços sinfônicos
A nos girar as mesmas crianças
Pelas vias de nossas rugas.
Envelheço calmamente.
Abraço minha sabedoria.
Orquestro minhas obras
Enquanto executo as árias
Das muitas Auroras paridas.


Paula Beatriz Albuquerque






















Nado no Rio do Esquecimento
Desvaneço a crueza solitária
Do turbilhão das minhas horas
Confusas e sensíveis
Para torná-las plácidas.
Trago o dinheiro da passagem
Mas prefiro beber das águas
Que tornam os minutos calmos
Porque já não há mais tempo.
Não foi desejo
de dar calote no barqueiro.
Até acho muito romântico
um remador me levar pro inferno
Não! Deixe que eu vou sozinha.
Vou nadando e bebendo das águas
Da conversão.
Batismo às avessas
No fundo do poço
Buscando uma luz
No lodo da lua.


Paula Beatriz Albuquerque.















Então me amanheço.
devagarinho,
pouso meus raios
na tua face molhada
que aquece o meu banhar
e o teu mergulho.
espreguiço em ti,
não a calma deste dia
mas a fúria do idílio.
cabe um poema quente
entre as linhas, silêncio:
teus dedos entrelaçam
os meus.
olhares, risos e conversa rasa
pão na chapa e café
na padaria da praça.


Paula Beatriz Albuquerque

















Ser
o cinza do simples
o simples colorido
complexo e fora do eixo.
Ter
as mãos da noite
Mãos
que acariciam meus cabelos
Que tecem um fio de solitário silêncio
na sinfonia sutil
dos desencontros dos mundos
Pulsos pulam para além das palavras,
os (des)entendimentos
abrigados nos meus eus
e comunicam o caos
aos poucos corações
que podem me ouvir.
Quero ser simples
Asa, fogo e vento
Sempre indo
Ó noite,
Me deixe ser um passarinho
Rodopiar fluxos
mergulhar em rios aéreos
E finalmente
ser livre... de mim!


Paula Beatriz Albuquerque

















Mais que tua mão
tua alma me conduzia
pelo verde das relvas
era um dia
para misturar-me a ti
na pura sinergia das horas
deitei-me tão calma
buscando o sentido do teu amar
enquanto procedias
ao ritual sacro:
lavava-me com fragmentos
das águas de um riacho.
beijava-me docemente
as falhas e os erros
soprava-me que o amor
pousa na simplicidade
e que tu já estavas em mim.
meu corpo, revolução e torvelinho,
rompia o frêmito do momento
do teu toque
com lágrimas nuas,
transparentes de afeto.
abri os olhos e não te tive ao alcance
Mas tua voz embalou-me o corpo
com detalhes e arrepio
por entre as árvores
de longe
ouvi tua fome berrar o meu nome.


Paula Beatriz Albuquerque

regresso aos teus braços
tal qual fluxo marinho,
que sedento e com frio,
se deixa embeber
pela saudade da areia.
Tu me absorves as lacunas do tempo,
em busca de colo e lençol
para embalar memórias doídas.
Mas tu és o meu ninho.
com o sopro dos teus gestos,
eu, dente de leão,
me refaço ao léu,
lá onde nasce o riacho
do infinito. Me banho de ti.
lembro dos olhares
repletos de beijos.
Respiro a placidez de tuas broncas
como a dor da falta de fôlego
por amar até tuas cobranças.
suspiro uma pontada lancinante do teu som
é saudade de cada detalhe
das tuas imperfeições.
Teus retornos não têm partidas
Entendi que deixas teu coração
sempre pousado em meus ombros.
Voe com minha cor.


Paula Beatriz Albuquerque

Meus olhos desertos
Buscam alívio
Na sede do poema.
Sede que embebe
Mares grávidos de sentidos.
O mundo pariu as areias
Do semi-árido passarinho
Voo-me por dentro
E sou sempre sem ninho.


Paula Beatriz Albuquerque

O temporal regou,
Gota por gota,
As distâncias que me abrigam.
Povoou de sentido
Os rios de minhas lacunas.
Brisa densa,
acolheu os aromas de minha ausência. Então pude ser água.
Varreu o barraco do morro
Inundou a rua precária,
mar de indigência cotidiana.
Gritos de variados matizes...
Mas a chuva em mim é silêncio.



Paula Beatriz Albuquerque.
(Foto: Bruno Gonzalez/Agência O Globo )

Teus dedos piano
Navegavam em meu rosto
Simbolavam em meus cachos,
Cordas de contrabaixo

Teus lábios flauta
Me sopravam segredos
Sabor de Violoncelo.
Respirava teu orvalho sustenido
que me fazia gargalhar pela manhã.
Flutuava com vestido de idílio
para celebrar os bosques com Pã.

Chegavas de mansinho
E pousavas, passarinho, dentro dos meus olhos
como se o mundo tivesse mudado de lugar
e tua alma só tocasse esse órgão.

Voaste para junto do longe
Nas alturas de meu amparo.
Com a luz do sol embebida
e a pele dourada
Cravei minha boca na tua língua
"ouço o som de tua saliva"


Paula Beatriz Albuquerque

Vísceras vagam pelas vagas
poéticas
do palco do pensamento,
humana ficção.
Simultaneamente quero,
sinto, sofro, sonho.
E então fujo
para o miolo do mundo.
Voo para além dos muros
Silenciosos das liberdades que não escolhi.
Densa, condenso.
Planto gotas de chuvas
no árido de mim
no árido cálido
deserto entreaberto
dos retornos de mim.
Penso
Enlouqueço
Renasço
Banhada de grafite
Na pele do meu papel.


Paula Beatriz Albuquerque

Poeta guardou as asas
Entendeu aquele tempo
Que o véu do silêncio nos cala.
Não forçou sua voz
Em dicotomias
Tampouco impôs aos outros
Os vendavais de sua vaidade.
É o tempo do morro:
existir pelo não-dito dos versos, deitando vida ao papel, sangrado o pulso de sua mal-traçada
e engenhosa sintaxe
no manto da escrita,
Onde os olhos abertos,
mas cegos
não enxergam vida
até que a fúria de sua voz
Esteja enfim renascida



Paula Beatriz Albuquerque

(Sobre uma indisposição repentina de falar poesias em público)
Imagem: Poeta Mauro Mota na Praça do sebo bairro de Santo Antônio CREDITO Carlos Augusto.

Arrumei
as
malas
da
memória
e
a
mandei
embora
para
um
canto.
- Todo
dia
foi
um
ontem
povoado
de
futuro.
Memória
é
tudo.
- Disse
voltando
o
pescoço
por
um
período.
Cada
momento
é
uma
vida
inteira
uma
jornada
é
uma
vida
mesma.
O
universo
rodopia
gira
pelo
salão
da
sincronia.
O
novo
tempo
precisa
chegar,
mas
novas
velhas
lembranças
não
vão
ocupar
o
seu
lugar.
Não
se

de
todo,
Memória.
Fique
por
perto
quero
costurar
em
ti
teus
fragmentos
do
porvir.



Paula Beatriz Albuquerque

Imagem da Internet.

Coerência Assimétrica.





















Coletivo
composto
de seres
individuais.
O ser humano,
em si mesmo,
é uma Ilha.
Sujeito que a tudo conhece
e não é conhecido por ninguém.
Divindade pulsante.
Ser humano não é uno.
Luta com seus múltiplos
por uma unidade fictícia:
bem/mal
alto/baixo
gordo/magro
quente/frio
imortal/perecível.
E na própria individualidade
torna-se coletivo e caótico:
ama e odeia e gosta e rechaça
e chora e ri
Tudo num único ato.
Por ser híbrido, o caos humano é coerente.
Mantém em equilíbrio os muitos seres existentes
dentro de um só corpo.
Esse corpo confuso
Habitados por múltiplas moléculas
exteriorizam fenótipos: templo da aparência.
A aparência atrai ou repele.
Na sociedade dos néscios,
confecciona esteriótipos.
Julga-se por ela, indiscriminadamente.
Nada vão te perguntar
Mas te acolhem ou tolhem
pela espessura dos lábios,
pelo bíceps malhado,
pelo glúteo empinado
pela tonalidade da cútis
ou nada disso.
Mas, independentemente se somos feios,
bonitos, gordos, magros, malhados, morenos,
loiros ou pançudos
O fator determinante é o caráter.
Estética não determina caráter.
A beleza advinda da ética não é perceptível
aos olhos consumistas e materialistas,
pois a tudo e todos tratam como um prato de carne,
uma peça de vestuário a ser trocada
ou como um novo aparelho eletrônico a ser adquirido.
Olhos materialistas só sabem ler
o que está escrito nas formas moldadas e estabelecidas
para todo o restante; para todo o entorno e arredores
são analfabetos.
Dizem que há poetas materialistas.
Mas aqui no meu isolamento
ainda creio que poetas são amigos do sol,
conversam com vento,
bebem chuva
e enxergam além dos moldes das linhas;
alcançam entrelinhas.
Aqui no meu isolamento
poeta é aquele ser que transcende a matéria
que escuta o não dito
e fala idiomas que ainda não existem.


Paula Beatriz Albuquerque

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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