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Jesus














Senhor, ao teu desejo elevo a taça
Transbordante de fel do meu tormento!
Tua vontade sobre mim se faça
E seja o teu amor meu pensamento!

Que a minha fé, Jesus, não se desfaça,
Das perversões ante o deslumbramento!
Por mim passe a maldade como passa
O grão de poeira no fragor do vento!

Mártir da Cruz, ó símbolo da Mágoa!
Dá-me a cumprir sereno a minha pena
— Chagado o corpo e os olhos rasos d’água.

E faze que esta boca humilde e boa
Nunca maldiga ao que disser — Condena!
Mas beije os pés ao que disser — Perdoa!


Junquilho Lourival

Um pedido




















Preciso ouvir teu silêncio
nas cores dos sonhos,
no orvalho que molha
o mistério de uma flor


Deixe teus olhos eu decifrar,
no som dos ventos
do meu poetar,
o que dizem ao contemplar
os resquícios da esperança


Quero o cheiro da tua lembrança
inerte na brisa das manhãs
que paralisa o inverno
e em mim vem descansar


Semeie a esperança
no vazio do meu ser,
na fuga dos caminhos perdidos,
no tempo que brinca comigo,
ou na luz que devora
minha suavidade matinal


Conceição Bentes

Alvorecer















Diante do céu
o cais de Deus,
a terra se espelha
na luz do alvorecer
e o vento de cristais anunciam
o desmaio de estrelas
ao nascer do dia


O infinito clama à vida
que recomeça numa haste suspensa
onde o equilíbrio das nuvens
se deita numa esteira


Conceição Bentes

Cenário





















Quis-te inerte
a galopar na brisa
do inverno que me paralisa


Dei-te amor,
acima das fadigas,
tormentas e sortilégios,
incansável como o sol das manhãs
silenciando o cenário da tua ausência


Tive teu olhar
na pureza do azul e branco
limitando a resistência da alma
fazendo do meu mundo
esta grande magia


Tuas palavras chegaram
como tempestades,
instigando sons inteiriços
fustigando o destino que falece


Conceição Bentes

Entre o Ter e o Ser


















O universo repõe-se
em engrenagens ocultas,
sensitivas, sobre um mar indecifrável
que se arrasta em destinos


Hoje sou apenas brisa
que abriga a noite,
absorta na transparência
que toca o ar
de um crepúsculo irrevogável


Sou o elo entre a liberdade
e lembranças do que fomos,
utopizando as faces do tempo,
eternizado na fronteira do infinito


Conceição Bentes

Rotas Perdidas





















Perdemos nossos caminhos
invadidos pelo silêncio
impenetrável da vida


Corremos pelas veredas
esquecidos das fronteiras
que delimitam rotas
tornado-nos reféns
de amores impossíveis


Fico com a correnteza do mundo
que deságua transparente
dentro do meu céu escarlate,
eternizando desejos
em trilhar novos caminhos
mesmo que incertos,
mas nunca inacabados.


Conceição Bentes

Somos Solidão





















Nasceste no deserto das mãos,
no instante em que só estive
renascendo no mar de sonhos
com o sabor do sol,
vazio como pouso das gaivotas


Na curva dos dias,
cantei a melodia silenciosa
da luz que declina
sobre a lente da mente


Fomos o ritmo
da respiração suspensa,
a insônia da palavra lavrada,
a luz do medo,
a simulação da vida,
traços no chão
sonolentos e apagados


Conceição Bentes

Tempestades





















Minhas tempestades
calam sons da noite,
adormecidas nos braços
dos meus devaneios


Com a alma,
escrevo caminhos
evidenciando o tempo
que possuo,
recolhidos em meus ocasos


Quero mais um verão,
para erguer as fragilidades
do mar profundo dos teus olhos,
ritmados na música aquecida
dos teus passos que me cercam


Conceição Bentes

Resposta à Vida





















Minha resposta à vida
surgiu do instante
que renasci na poesia
como sinônimo
da real liberdade


Não aspiro o rigor dos gestos,
vem do vento o pensar lento
resguardando todo acalento
dissipando dores e desencantos


Basta o brilho dos sonhos,
incertos ao meu coração
temendo que me anoiteçam
meus eus dos quais eu fujo
exilados numa canção


Conceição Bentes

Limpeza da Alma





















Cinjo de vestes douradas
a alma que me concede
versejar em pleno ardor
no seio de muitos amores


Cada rima ganha vida
quando feliz anoiteço
na canção peregrina
das vozes que não calam


Alimento-me deste olhar denso
na música que apetece
o derradeiro tom da aurora
respirando momentos
de um amor passado


Conceição Bentes

Retirada













Retiro-me da tua vontade
que é exílio sobre mágoas acesas,
dentro das insônias
que seguem seu percurso de abandono


Serei a tua calma
traçando cantos não avistados
saciando tua gula de dor


Seguirei por caminhos
marcados por impasses
de incontroláveis senões,
desafiando palavras
encarnadas em minha idéia de ser


Conceição Bentes

Quando















Quando tudo escureceu, e os ventos fortes
sopraram,
quando a chuva despencou e os pingos
grossos rolaram,
quando eu acendi a vela e vi a paz iluminada,
compreendi que nada seria igual
depois de ti,
pois enfeitaste a vida
como uma alvorada,
como um raio de sol numa manhã sem nuvens,
anunciando a alegria tão sonhada.


Conceição Bentes

Entrega





















Desintegro-me desarvorada
entre escapes dos teus versos
extraídos de odes,
surgidos do amor


Ungida sou
com o bálsamo da tentação
que me desfolha,
desatando ao ocaso
meu destino inconfessado


Assim prescrevo poemas,
enfeito saudades incandescidas
com inconstâncias e entraves,
dimensões de minhas fantasias,
anéis de imaginações


Ouço tuas vontades
expostas na língua dos anjos
feito constelações de murmúrios
num resto de palavras distorcidas


Conceição Bentes

Tempos de Reencontros

















Chego a ti
em córregos de silêncio,
escuto tuas vontades
praiadas nos meus olhos


Entre o ser e o tempo,
nas margens do desamparo,
conheço teus acenos,
abrigo tua alma
reduzo meus riscos
para te proteger


Guardo tua dor em mim
acima de todas fadigas
num manancial de sons
onde o amor abrigas


Conceição Bentes

Salve Mulher!


















Salve Mulher,
canção eterna de cada estrela
braços que acolhem tantas almas
e que embala muitas lágrimas


Salve toda manifestação
da nossa emancipação,
na melodia colorida
de cada suor derramado
onde proclamas a paz e harmonia


Lutas pelo amor à vida
redimindo a dor compadecida
na crença que abrange
o sol de cada um


Transformas perdas
em alimento aos deserdados,
com maestria acolhes filhos
que não geraste
e vestes teus vazios com renúncias
das tuas mãos abençoadas


Conceição Bentes

Balada dos Sonhos















Canto o amor dos sonhos
perdidos nos recantos
das rimas musicadas,
com sabor do impreciso
onde cada verso se desfaz


Do abandono absoluto,
fica o silêncio completo
do meu sorriso incompleto
na tua ausência que escuto


E a música entoa
claves de saudades,
sonhadas sem efeitos
sob o derradeiro azul da aurora
em esboços perfeitos
nas letras do sol


Conceição Bentes

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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