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Soneto VIII















Lês um romance. Eu te contemplo. Ondeia, 
lá fora, um vento muito leve e brando; 
cheira a jasmins o varandim, brilhando 
ao doentio clarão da lua cheia. 

Vais lendo. E, enquanto tua mão folheia 
o livro, eu vejo que, de quando em quando, 
estremecendo, sacudindo, arfando, 
teu corpo todo num delírio anseia. 

Lês. São cenas de amor: — o encontro, o ciúme, 
idílios, beijos ao luar… Perfume 
que sobe da alma, e gira, e se desfaz… 

Vais lendo. E tu não sabes que, sozinho, 
eu te sigo, eu te sinto, eu te adivinho, 
lendo em teus olhos o que lendo estás. 


Guilherme de Almeida
Da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 28.

Soneto VII

















Morre o dia. Do quadro da vidraça, 
nós contemplamos silenciosamente 
o adeus do sol à terra, à luz escassa, 
à meia-luz da tarde confidente. 

São como um par de noivos que se abraça; 
— esse roxo dorido do sol poente 
tem a tristeza voluptuosa e ardente 
de um longo abraço que se desenlaça. 

Uma ânsia de viver me abala os músculos; 
dão-me os teus olhos a impressão furtiva 
de dois grandes, tristíssimos crepúsculos. 

E, como a orquestração de um mau desejo, 
quebra o sono da tarde pensativa 
o gorjeio frenético de um beijo. 


Guilherme de Almeida 
Da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 27.

Soneto VI

















Espero-te, pensando: “ela não tarda… 
Prometeu-me: há de vir”… E com que aflitas, 
longas horas de angústia tu me agitas 
o coração que, tímido, te aguarda! 

E espero, tristes horas infinitas, 
um momento de vida que retarda. 
Súbito irrompes, trêmula e galharda, 
numa nuvem de rendas e de fitas. 

Vens a mim. Corro, tomo-te em meus braços, 
e te estreito, estreitando mais os laços 
do teu, do meu, do nosso grande amor. 

E o teu beijo, e o meu beijo, e os nossos beijos 
são mil rosas vermelhas de desejos, 
na primavera do teu corpo em flor. 


Guilherme de Almeida 
Da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 26.

Soneto V - Nós


















Vem, partamos, que o mundo nos espera! 
Não te assombrem as noites sem luares, 
nem estranhes as pedras que pisares, 
nem te engane a miragem da quimera. 

Muito espinho hás de ver que dilacera 
a própria flor com que brotou. Não pares: 
verás, no estio, névoa pelos ares 
e morrerem jardins, na primavera. 

Mas que importa? Sou moço, és bela e temos 
um bem que nós somente conhecemos 
e que a vida não dá porque o não tem. 

Vamos com nosso amor, vamos agora, 
de olhos fechados, pela vida afora, 
de braços dados, pelo mundo além! 


Guilherme de Almeida 
Da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 25.

Soneto X

















Vou partir, vais ficar. “Longe da vista, 
longe do coração” — diz o ditado. 
Basta, porém, que o nosso amor exista, 
para que eu parta e fiques sem cuidado. 

Dentro em mim mesmo, o coração egoísta, 
quanto mais longe, mais te quer ao lado; 
tanto mais te ama, quanto mais te avista 
e, antes de ver-te, já te havia amado. 

Vou partir. Para longe? Para perto? 
— Não sei: longe de ti tudo é deserto 
e todas as distâncias são iguais. 

Como eu quisera que, na despedida, 
quando se unissem nossas mãos, querida, 
nunca pudessem desunir-se mais!

Guilherme de Almeida

Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 24.

Soneto XVIII















Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.



Guilherme de Almeida

Soneto IX
























Nessa tua janela, solitário,
entre as grades douradas da gaiola,
teu amigo de exílio, teu canário
canta, e eu sei que esse canto te consola.

E, lá na rua, o povo tumultuário
ouvindo o canto que daqui se evola
crê que é o nosso romance extraordinário
que naquela canção se desenrola.

Mas, cedo ou tarde, encontrarás, um dia,
calado e frio, na gaiola fria,
o teu canário que cantava tanto.

E eu chorarei. Teu pobre confidente
ensinou-me a chorar tão docemente,
que todo mundo pensará que eu canto.



Guilherme de Almeida

Soneto XXI



















Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!



Guilherme de Almeida

Soneto IV




















Mas não passou sem nuvem de tristeza
esse amor que era toda a tua vida,
em que eu tinha a existência resumida
e a viva chama de minha alma, acesa.

Nem lemos sem vislumbre de incerteza
a página do amor, lida e relida,
mas pouquíssimas vezes entendida,
sempre cheia de engano e de surpresa

Não. Quantas vezes ocultei a minha
dôr num sorriso! Quanta vez sentiste
parar, medroso, o coração de gelo!

- É que nossa alma às vezes adivinha
que perder um amor não é tão triste
como pensar que havemos de perde-lo.



Guilherme de Almeida

Soneto III






















Estas e muitas outras coisas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.


Guilherme de Almeida
Da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 23.

Soneto II


Eu não sei quem tu és. Sonhei-te linda,
amei-te em sonho e vivo neste sonho.
Para encontrar-te, numa dor infinda
pus-me a caminho, pálido e tristonho.

Tu não sabes quem sou. Sonhas-me ainda
a alma triste dos versos que componho.
E, suspirando pela minha vinda,
pulsa, em teu peito, o coração risonho.

Sonhamos. Quando, um dia, eu for velhinho,
hei de encontrar-te, velha, no caminho…
E juntos, cambaleando, aos solavancos,

nós levaremos, pela tarde calma,
toda uma primavera dentro da alma,
todo um inverno de cabelos brancos…

Guilherme de Almeida - da obra original “Nós” (1914-1917).
Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial,
São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 22.

Soneto XXV





















O nosso ninho, a nossa casa, aquela
nossa despretensiosa água-furtada,
tinha sempre gerânios na sacada
e cortinas de tule na janela.

Dentro, rendas, cristais, flores... Em cada
canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça. Tagarela,
teu cenário cantava à minha entrada.

Cantava... E eu te entrevia, à luz incerta,
braços cruzados, muito branca, ao fundo,
no quadro claro da janela aberta.

Vias-me. E então, num súbito tremor,
fechavas a janela para o mundo
e me abrias os braços para o amor!



Guilherme de Almeida

A Dança das Horas

























Frêmito de asas, vibração ligeira
de pés alvos e nus,
que dançam, tontos, como dança a poeira
numa réstia de luz…
São as horas, que descem por um fio
de cabelo do sol,
e vivem num contínuo corrupio,
mais obedientes do que o girassol.
Dançando, as doze bailarinas tecem
a vida; e, embora irmãs,
não se vêm, não se dão, não se parecem
as doze tecelãs!
E, de mãos dadas, confundidas quase,
no invisível sabá,
elas são silenciosas como a gaze,
ou farfalhante como o tafetá.
Frágeis: têm a estrutura inconsistente
de teia imaterial,
que uma aranha teceu pacientemente
nos teares de um rosal.
E, entre tules volantes, noite e dia,
o alado torvelim
vertiginosamente rodopia,
numa elasticidade de Arlequim!
Vêm coroadas de rosas, num remoinho
cambiante de ouro em pó:
cada rosa, que esconde o seu espinho,
dura um minuto só.
Sessenta rosas, vivas como brasas,
traz cada uma; e, ao bater
da talagarça diáfana das asas,
põem-se as coroas a resplandecer…
À proporção que gira à minha frente
o bailado fugaz,
cada grinalda, vagarosamente,
aos poucos, se desfaz.
E quando as doze dançarinas, feitas
de plumas, vão recuar,
levam as frontes, claras e perfeitas,
circundadas de espinhos, a sangrar…
Assim, depois que a estranha sarabanda
na sombra se dilui,
penso, vendo o outro bando que ciranda
em torno do que fui,
que há uma alma em cada gesto e em cada passo
das horas que se vão:
pois fica a sombra de seu véu no espaço,
fica o silêncio de seus pés no chão!…

Guilherme de Almeida, 1919.

Soneto I


















O pequenino livro em que me atrevo 
a mudar numa trêmula cantiga 
todo o nosso romance, ó minha amiga 
será, mais tarde, nosso eterno enlevo. 


Tudo o que fui, tudo o que foste 
eu devo dizer-te: e tu consentirás que o diga, 
que te relembre nossa vida antiga, 
nos dolorosos versos que te escrevo. 


Quando, velhos e tristes, na memória 
rebuscarmos a triste e velha história 
dos nossos pobres corações defuntos, 


que estes versos, nas horas de saudade, 
prolonguem numa doce eternidade 
os poucos meses que vivemos juntos. 


Guilherme de Almeida - da obra original “Nós” (1914-1917). Extraído de Sonetos/ Guilherme de Almeida, Imprensa Oficial, São Paulo (SP) Brasil, 2ª edição, pág. 21. 

Essa que eu hei de amar...

























Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosas, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer a luz e calor a esta alma escura e fria.


E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... — Tudo isso eu me dizia,


quando alguém me chamou. Olhei: um velho louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...


E falou-me de longe: “Eu passei a teu lado,
mas ia tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!”



Guilherme de Almeida
(De Messidor, 1935)

Soneto XXXII - Barcos de Papel

















Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.


Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada...


Fiquei moço.  E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,


perfeitamente, exatamente iguais...
-Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!



Guilherme de Almeida

Indiferença

















Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado passo.


E eu, baixo os meus olhos se te avisto.


E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.


Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.


Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado


Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.


Ah! Só Deus sabe!


Só nós dois sabemos.


Volta-nos sempre a pálida lembrança.


Daqueles tempos que não voltam mais!


Guilherme de Almeida

Simplicidade





















Simplicidade... simplicidade
Ser como as rosas, o céu sem fim,


A árvore, o rio...
Por que não há de ser toda a gente assim?
Ser como as rosas: bocas vermelhas
Que não disseram nunca a ninguém que têm perfume...


Mas as abelhas e os homens
Sabem o que elas têm!


Ser como o espaço, que é azul de longe
de perto é nada... Mas quem o vê:
árvores, aves, olhos de monge...
busca-o sem mesmo saber por que.


Ser como o rio cheio de graça,
Que move o moinho, dá vida ao lar,
Fecunda as terras... E rindo,
Passa despretensioso, sempre a cantar.


Ou ser como a árvore: aos lavradores
Dá lenho e fruto, dá sombra e paz;
Dá ninho às aves; ao inseto, flores


Mas nada sabe do bem que faz.
Felicidade – sonho arredio!
Feliz é o simples que sabe ser,
Como o ar, as rosas, a árvore, o rio:
Simples, mas simples sem o saber!


Guilherme de Almeida

A espera





















Vem... Não vem... - Olho a rua: é outono. E o outono
tem um grande prestígio emocional:
vem todo cheio de alma e de abandono
e entra em meus nervos lânguidos de sono,
como a ponta excitante de um punhal!


Vem... Não vem... - Na paisagem amarela
da rua doente há um contagioso spleen.
Fica auscultando o vidro da janela:
passa um vento nervoso - e eu penso nela;
voa uma folha morta - e eu penso em mim.


Vem... Não vem... - Cada voz perdida, ou cada
figurinha ligeira de estação
toda afogada em peles, na calçada,
ou cada passo nos degraus da escada
marca o compasso do meu coração.


Vem...não vem... - E esta frase ingênua esvoaça
no ar, desfolhada como um malmequer.
Tamborilando os dedos na vidraça,
eu conto um verso - e no meu verso passa
timidamente um nome de mulher.


Vem... Não vem... Vem... Não vem... - A tarde desce
a mão cansada de dizer adeus...
E eu continuo a minha pobre prece:
- Que seria de mim, se ela não viesse?
E que será quando ela vier, meu Deus?


Guilherme de Almeida

Vontade

















Eu quis o desejo nu que corta
o branco inútil do irreconhecível.
E as areias deram lírios
e a cinza distanciou
os dedos estendidos para a forma
para os planos e para as raízes;
e a sombra não disse
o gosto longínquo dos copos emborcados.


Guilherme de Almeida

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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